O Resgate de Hadassah

20 O Último Voo e as Cinzas do Orgulho



​A proposta da holding canadense Vanguard Media chegou como uma tábua de salvação em meio ao mar de gelo em que Hadassah se afogava. O e-mail, enviado diretamente pelo diretor de expansão de Toronto, oferecia a ela uma vaga sênior na área de criação publicitária, com um pacote que incluía treinamento executivo internacional e a validação de um diploma de especialização em Marketing de Alta Performance. Era a chance de ouro de ser, finalmente, a publicitária que sempre sonhara, longe das correntes dos Lioncort.

​Sentada na penumbra da casa da piscina na noite de domingo, Hadassah olhou para a tela do notebook. Seus olhos verdes refletiam a luz azul do monitor. Ela respirou fundo, um suspiro longo que pareceu carregar o peso dos últimos seis anos.

​— É a minha vida — ela sussurrou para o silêncio do quarto. — Eu preciso ir.

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​Na manhã seguinte, o andar da presidência da Lioncort Logística parecia mais silencioso do que o habitual. Hadassah entrou em sua sala, sentou-se diante do computador e, com os dedos firmes, digitou cada palavra de sua carta de demissão irrevogável. Imprimiu o documento, colocou-o em um envelope pardo e caminhou até a imensa porta de vidro opaco de Jason. Ela não bateu; apenas entrou.

​Jason estava revisando uma planilha de custos. Ao erguer os olhos e ver a expressão resoluta de Hadassah, ele largou a caneta. O estômago do CEO se contraiu instantaneamente.

​— Sr. Lioncort — ela começou, a voz linear, despida de qualquer artifício, depositando o envelope pardo exatamente no centro da mesa de vidro. — Esta é a minha carta de demissão. Estou deixando a empresa.

​Jason encarou o envelope como se fosse uma sentença de morte. Ele se levantou devagar, os olhos azuis cravados nos dela, a voz saindo rouca e trêmula:

​— O que é isso, Hadassah? Um novo jogo? Você vai se demitir porque não aguenta o fato de que eu...

​— Não é um jogo, Jason — ela o interrompeu, e pela primeira vez em meses, ela o chamou pelo nome no ambiente de trabalho. A frieza profissional derdera espaço para uma melancolia profunda. — Eu recebi uma proposta para trabalhar em uma agência no Canadá. Vou receber treinamento, um diploma e a chance de construir o meu nome do zero, sem o peso do seu patrimônio ou da sua vigilância. Eu vou embora de Nova York.

​— Não... você não vai — Jason deu a volta na mesa, o desespero quebrando sua postura implacável. Ele tentou segurar as mãos dela, mas Hadassah deu um passo atrás. — Eu rasgo essa proposta. Eu te dou a diretoria de criação da Lioncort Publicidade amanhã! Eu te dou o salário que você quiser, o status que você quiser!

​— Você ainda não entendeu, não é? — as lágrimas finalmente brotaram nos olhos de Hadassah, carregadas de uma mágoa antiga. — Você acha que tudo pode ser comprado com o seu dinheiro ou resolvido com uma promoção. Eu não quero o seu império, Jason. Eu preciso encontrar o meu próprio caminho. Ficar aqui, olhando para você todos os dias, sabendo o que fomos e o que nos tornamos... está me matando por dentro. Eu não posso mais ficar.

​Jason estancou. O rosto do homem mais poderoso do setor de marketing de Manhattan desmoronou. As palavras dela — está me matando por dentro — ecoaram como uma marretada em seu peito. Ele viu a determinação nos olhos verdes e percebeu que, desta vez, não havia dinheiro, força ou contrato que pudesse contê-la. Ele estava vencido.

​Ele engoliu o nó de choro que subia por sua garganta, desviando o olhar para a janela antes de voltar a encará-la com uma derrota absoluta.

​— Se você assinar essa carta de demissão voluntária, você sai de mãos abanando, Telles — ele disse, a voz falhando, tentando usar o último recurso de proteção que conhecia. — O compliance vai reter os seus direitos pelo tempo de casa da transição da Alfa.

​— Eu não me importo com o dinheiro, Jason. Eu só quero a minha liberdade.

​— Mas eu me importo — ele rebateu, os olhos azuis brilhando com uma dor sincera. — Eu não vou te deixar sair daqui sem nada. Se você está decidida a me deixar... eu mesmo te demito. Vou assinar a sua dispensa sem justa causa hoje à tarde. Assim, você terá todos os benefícios, o fundo de garantia e o suporte financeiro para recomeçar em Toronto de forma digna. É o mínimo que eu posso fazer por você... por tudo o que eu quebrei.

​Hadassah olhou para ele, o peito apertado por uma gratidão dolorosa.

​— Obrigada, Jason — ela sussurrou.

​Ela deu as costas e saiu da sala. O restante do dia foi um borrão. Hadassah voltou para a casa da piscina, passou a tarde arrumando suas malas, organizando suas roupas e deixando o espaço impecavelmente limpo e ajeitado. Seu voo para o Canadá estava marcado para a manhã seguinte, às seis horas.

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​Madrugada de terça-feira. A mansão Lioncort estava imersa no silêncio da tempestade que começava a se armar lá fora.

​No andar de cima da casa grande, Jason estava deitado em sua cama de casal, olhando para o teto, incapaz de fechar os olhos. O pensamento de que em poucas horas ela cruzaria o oceano o estava enlouquecendo.

​De repente, o som suave da maçaneta girando cortou o silêncio. A porta do quarto se abriu e uma silhueta ruiva entrou. Hadassah vestia apenas uma camisola curta de seda preta. Seus cabelos estavam soltos e seu rosto estava desprovido de qualquer máscara profissional ou cínica. Havia apenas uma urgência desesperada em seu olhar.

​Jason sentou-se na cama num salto. — Hadassah?...

​Ela não respondeu com palavras. Caminhou até a cama, subiu no colchão e jogou-se nos braços dele. O impacto do corpo dela contra o seu fez Jason soltar um suspiro sôfrego. Hadassah o beijou com uma intensidade que ele nunca havia sentido antes. Não era o beijo bruto da raiva ou o beijo possessivo do escritório; era um beijo desesperado, cheio de amor, luto e despedida. As línguas se encontravam em uma dança lenta, profunda, misturada com o gosto salgado das lágrimas que escorriam pelo rosto de ambos.

​— Me ama uma última vez, Jason... por favor — ela sussurrou contra os lábios dele, a voz embargada.

​Jason a deitou nos lençóis de algodão egípcio. Ele se livrou de suas roupas com pressa, o corpo musculoso e rígido tremendo pelo peso da emoção. Sua masculinidade ergueu-se instantaneamente, latejando de puro desejo e da agonia da perda iminente. Ele se posicionou entre as pernas alvas de Hadassah, que se abriram para ele sem qualquer resistência ou orgulho.

​Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, olhando no fundo dos olhos verdes. — Eu te amo, ruivinha. Eu nunca parei de te amar.

​Jason empurrou o quadril para a frente, entrando nela com uma lentidão torturante e deliciosa. A fenda dela, intensamente molhada pela dor e pela luxúria da despedida, envolveu o membro dele como uma prensa de veludo quente.

​— Ah... Jason... — Hadassah soltou um gemido longo, agudo, cravando as unhas nas costas dele, arqueando o corpo inteiro.

​O sexo que se seguiu foi uma obra-prima de sentimentos e erotismo explícito. Jason se movia em estocadas profundas, ritmadas, cada investida parecendo um pedido de perdão. Ele entrava por completo, roçando no fundo da intimidade dela, arrancando gemidos sôfregos e confessionais de Hadassah. Os corpos suados se chocavam com força, e o som do ato preenchia o quarto escuro. Ele a virou de lado, puxando uma de suas pernas para cima, penetrando-a de forma angular e cavalar, fazendo Hadassah chorar de prazer enquanto sentia a extensão grossa dele preencher cada centímetro de seu ser.

​— Jason... eu sou sua... sempre fui sua — ela confessou no ápice do transe carnal, entregando a verdade que escondera por seis anos.

​O ritmo tornou-se frenético, selvagem e desesperado. O fim estava próximo e ambos sabiam disso. Jason acelerou as estocadas, batendo com força total contra os quadris dela, até que Hadassah contraiu o corpo inteiro em um orgasmo devastador, as paredes internas de sua fenda apertando o membro dele em espasmos violentos. Ao sentir o ápice dela, Jason soltou um urro de dor e prazer, deu três estocadas brutais e descarregou uma quantidade imensa de sêmen quente no fundo dela, desabando sobre o peito da ruiva, chorando em silêncio enquanto os corações de ambos batiam em um mesmo ritmo desesperado.

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​Às cinco da manhã, os primeiros raios de sol cinzentos começaram a cortar a janela do quarto.

​Jason esticou o braço lentamente, com os olhos ainda pesados, procurando o calor do corpo de Hadassah. Seus dedos encontraram apenas o lençol frio.

​Ele abriu os olhos rapidamente, o coração dando um solavanco de pânico. O quarto estava vazio. O banheiro estava deserto. Ela já havia partido.

​No travesseiro onde a cabeça ruiva descansara, havia apenas dois objetos: um lenço de seda que exalava o perfume floral marcante dela e um envelope branco.

​Com as mãos trêmulas, Jason abriu a carta. A caligrafia de Hadassah era firme, mas havia marcas de lágrimas borrando a tinta azul:

​"Jason,

​Por mais que a noite de hoje tenha provado que o meu corpo e o meu coração sempre pertencerão a você, eu não posso ficar. Eu te amo, com uma força que me assusta e me destrói, mas eu nunca conseguiria ser sua por completo neste lugar. As mágoas do passado, as palavras que você me disse naquele carro e tudo o que quebramos nos últimos anos não me deixam seguir em frente ao seu lado. Toda vez que eu olho para você, eu lembro da dor. Eu preciso me curar, e só consigo fazer isso longe de você. Não me procure. Me deixe ir. Adeus, meu amor.

​— Hadassah."

​— Não... Não! — Jason gritou, a voz quebrando no silêncio do quarto.

​A mente do empresário estalou. Louco de desespero, vestindo apenas a calça de moletom, sem camisa e descalço, ele abriu a porta do quarto e desceu as escadas da mansão correndo como um homem insano. Ele cruzou a sala, abriu as portas de vidro e correu pelo jardim sob o início da chuva da manhã até chegar à casa da piscina.

​Ele esmurrou a porta, que cedeu por estar apenas encostada. Ao entrar, o vazio o atingiu. O espaço estava limpo, as malas não estavam lá. Ela realmente se fora.

​O poderoso Jason Lioncort desabou de joelhos no centro da sala da casa da piscina. O choro que ele prendera por seis anos explodiu de seu peito em soluços violentos e desesperados. Ele socava o chão de madeira, completamente destroçado.

​O barulho e os gritos acordaram a casa grande. Marta e Alycia correram pelo jardim de pijamas, entrando na casa da piscina em estado de choque. Ao verem o homem de gelo de joelhos, chorando como uma criança desamparada, Marta correu e o abraçou, trazendo a cabeça do filho contra o seu peito. Alycia assistia a tudo com os olhos arregalados, a mão na boca.

​— Ela foi embora, mamãe! Ela foi embora! — Jason gritava entre os soluços, a voz distorcida pela dor mais profunda de sua vida. — Eu amo a Hadassah! Eu amo aquela ruivinha mais do que a minha própria vida! Eu não posso ficar sem ela... Eu não vou aguentar sem ela!

​Marta e Alycia se olharam em absoluto choque. A revelação as pegou de surpresa de forma monumental; elas sabiam da tensão, mas nunca imaginaram que o amor de Jason pela irmã adotiva tivesse atingido aquele nível de obsessão e sofrimento. Marta apenas o apertou mais forte, chorando junto com o filho, sabendo que o carma finalmente havia cobrado o seu preço mais alto.

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​A quilômetros dali, a três mil pés de altitude, o Boeing 747 cruzava os céus cinzentos na direção norte.

​Sentada na poltrona da janela da classe executiva, Hadassah Telles olhava para trás. Pela vidraça do avião, as luzes de Nova York e o contorno dos arranha-céus de Manhattan iam diminuindo gradativamente até sumirem por completo entre as nuvens de outono.

​Ela levou a mão ao peito, sentindo o coração doer com a falta dele, mas manteve a postura ereta. Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto e ela a limpou com determinação. Hadassah olhou para a frente, fixando os olhos no horizonte desconhecido. Nova York ficava para trás com suas cinzas e mágoas, e ela partia, livre e dona de si, para o novo e definitivo destino de sua vida.