O Relicário
9 Capítulo 9 - O Presente de Aniversário
O CORAÇÃO DE ELISA, que batera pela primeira vez por um garoto, estava destroçado e jazia em pedaços no chão de sua alma. Elisa, tão feliz havia dias com a predição de ganhar um beijo do garoto que a fascinara desde o primeiro momento, agora chorava copiosamente ao perceber que seus sonhos jamais se realizariam. Num instante, seus sonhos murcharam e morreram.
Glaux surgiu atrás da sua protegida e percebeu que a garota estava em choque. Ela segurou Elisa pelo braço e a conduziu até a cozinha. Depois voltou ao salão e, muito eficientemente, explicou que Elisa agradecia a vinda de todos, mas como não estava se sentindo bem, ela decidira se recolher para dormir.
Todos entenderam a sutileza daquele comunicado: a festa acabara. Aos poucos as pessoas começaram a sair, alguns levando aperitivos em guardanapos, e todos contentes e animados com a ótima festa, apesar de ter sido curta. Em dez minutos todos tinha ido embora. Glaux dispensou os garçons e voltou à cozinha.
Elisa estava exatamente como fora deixada, não movera nem um centímetro para o lado. A garota tinha uma expressão indefinível. Glaux a conduziu para o quarto dela e para sua cama. Glaux era contra dormir sem tomar banho ou pelo menos por uma roupa adequada que sirva de pijama, mas nessa ocasião ela entendeu que Elisa realmente não estava bem.
A garota se encolheu imediatamente quando se deitou, uma das mãos debaixo da cabeça e a outra agarrada num segundo travesseiro. Glaux mantinha-se, apesar de tudo, inexpressiva. Ela ficou observando Elisa por uns instantes e depois saiu do quarto.
Elisa fora treinada fisicamente para ser forte. Desde os quatro anos de idade ela tem sido ensinada em todos aqueles esportes. Mas havia muitos outros treinamentos que a tradição de sua família lhe obrigara aprender e praticar por anos e anos. Elisa era forte. Mas Elisa não fora preparada para isso: convívio social.
Quem sabe se Elisa tivesse tido uma infância normal, ela não estaria sofrendo tanto agora. Ela entenderia que a vida é mais que o primeiro amor, e que o amor é muito mais complicado que a fascinação por um garoto bonito. Mas Elisa não sabia nada disso e sofria.
Glaux voltou ao quarto de Elisa trazendo algo escondido entre as mãos.
— Eu ainda não tive oportunidade de lhe dar um presente de aniversário.
A garota não se mexeu.
— Isto pertenceu ao Henry Heinz...
Elisa se assustou ao ouvir o nome do pai e ergueu a cabeça. Glaux mostrou o presente: era uma pequena caixinha de prata oval com flores de ouro em relevo.
— Eu nunca vi isso antes — disse ela.
— Esse é um presente passado de geração em geração por séculos na família Heinz e agora ele é seu.
Elisa se sentou na cama para receber o presente. Colocou a caixinha no colo e abri-a. Dentro havia um relicário de prata. Era uma joia fina e obviamente muito antiga. Era pequeno e delicado, com uma flor em relevo. Elisa o ergueu ao nível dos olhos para vê-lo melhor e a joia refletiu a luz do quarto.
— Isso era do meu pai?
— Sim. Esse relicário pertenceu a todos os primogênitos dos Heinz. E não era apenas para dias de festa. Esta é uma joia que eles usavam o tempo todo como se fosse um amuleto de sorte.
— Isto era do meu pai... do meu pai...
Elisa se levantou da cama rapidamente e antes que pudesse ser impedida, abraçou Glaux pela cintura. Depois voltou a se deitar, desta vez com um sorriso tímido nos lábios. O fato de o relicário ter pertencido a seu pai o tornava o mais precioso dos objetos. Ela tentou abri-lo, mas não conseguiu. Como isso não era importante no momento, Elisa ignorou por hora.
Ainda segurando o Relicário e com o ânimo mais muito mais calmo e relaxado do que cinco minutos antes, Elisa finalmente fechou os olhos e dormiu.
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