O Relicário

6 Capítulo 6 - O Beijo


SE HAVIA ALGO QUE NÍCOLAS gostava tanto quanto de futebol era nadar. Era ao mesmo tempo uma diversão e um esporte. Depois de um dos treinos exaustivos do pai, Nícolas costumava fugir no final da tarde para nadar no rio que cortava a floresta.

Numa certa tarde quente, Nícolas caminhava pela trilha até o rio vestindo apenas um short, o peito suado brilhando, uma bola de futebol de couro segura numa das mãos e pensava no quão refrescante seria cair na água dali a pouco.

De repente ele ouviu:

— Ahhhhh! Socorro! Ahhh!

Quem quer que seja, corria um sério risco.

Nícolas correu pela trilha seguindo os gritos. Quando finalmente alcançou o rio, ele viu Elisa se debatendo dentro d’água. Sem hesitar, Nicolas jogou a bola para um lado, correu até a margem e pulou dentro do rio. O Rio da Floresta não era muito largo, mas era bastante fundo. O garoto conseguiu agarrar Elisa com um dos braços e com o outro nadou com toda força para a margem. Quando seus pés sentiram o leito inclinado, Nícolas mudou de posição e ergueu a Elisa com os braços.

Com todo cuidado, Nícolas deitou a garota na lama e aproximou sua orelha do peito dela: ele não escutou o coração. Rapidamente, ele colocou suas mãos sobre o peito dela e fez uma massagem cardíaca. Depois aproximou seus lábios dos dela e soprou ar para seus pulmões duas vezes e se afastou. A garota tossiu e cuspiu água. Nícolas respirou aliviado e caiu sentado na lama.

Depois ele teria que agradecer ao pai aquelas aulas chatas sobre a técnica de Reanimação Cárdio Pulmonar. Foi útil afinal. Ele olhou para a garota ainda deitada.

O sol brilhou nos cabelos dourados de Elisa e nos detalhes prateados do biquíni. Elisa era mesmo muito bonita, mesmo nesse estado. Nicolas prestou atenção naqueles olhos claros. Eram magníficos. Por um instante, mais rápido que uma piscadela, os olhos de Elisa lampejaram um brilho verde. Nícolas piscou os olhos várias vezes. Devia ter sido um efeito da luz, com certeza.

Nícolas olhou novamente para Elisa. Não havia nenhuma luz verde. Havia apenas a pele macia, os olhos irresistíveis e uma boca que pedia para ser beijada. Um desejo crescente começava a dominá-lo. Num movimento consciente, mas totalmente inesperado até para si mesmo, Nícolas se debruçou sobre Elisa e a beijou. Seus lábios eram quentes e inexplicavelmente doces. Suas respirações se uniam num só hálito.

O beijo não era só de parte dele. Elisa retribuiu. Eles moviam suas cabeças de um lado para o outro. O beijo parecia eterno. Os dois continuavam se beijando e beijando como se o mundo não mais existisse. Ela ergueu os braços e passou pelo pescoço dele, aproximando o rosto dele um pouco mais.

A Terra foi destruída e recriada inúmeras vezes antes dos lábios deles se descolarem. Ainda muito perto do rosto dela, Nícolas olhou dentro dos olhos de Elisa.

A garota então disse:

— Termine com Helena.

Elisa acordou assustada e suada. As portas da sacada estavam abertas e a luz da lua invadia seu quarto. Ela se sentou na cama e levou os dedos aos lábios. Elisa abriu um sorriso discreto. Ela estava ao mesmo tempo confusa e feliz. Mas esse era um sonho que nunca se realizaria.

Nícolas acordou assustado e suado. O quarto estava escuro e seu irmão ainda dormia. Nicolas se revirou na cama. Ele tentou dormir de novo, mas não conseguiu.

Helena acordou assustada e suada. A luz da lua brilhava fracamente através das cortinas. As sombras se alongavam pelo chão. Helena puxou o lençol até o pescoço e continuou a observar o quarto, completamente insone.