O Relicário

31 Capítulo 31 - A Maldição de Áquila


AQUELE SÁBADO amanheceu claro e quente, e muitas pessoas se animavam a fazer um piquenique no parque do rio. Tão alegre para uns, tão triste para outros.

Nícolas, as roupas sujas, andava mais rápido que podia carregando novamente a inconsciente Elisa nos braços, a última coisa que ele queria era que alguém os visse assim. Antes do primeiro raio de sol despontar no horizonte Nícolas tocou a sineta à porta do Casarão Flint. Nícolas achou que Glaux demoraria por causa do horário, mas quase imediatamente a tutora abriu a porta, já vestida e impecável como se estivesse acordada há horas.

— Carregada de novo? Oras! Isto já ficando ridículo!

Nícolas passou direto pela sala e levou Elisa escada acima para seu quarto, deitando-a com delicadeza em sua cama.

Glaux entrou no quarto um minuto depois trazendo um pequeno baú de madeira lustrosa nas mãos. Ela colocou o baú sobre o criado-mudo e o abriu. Primeiro ela tirou um pote de porcelana branquíssima. A tampa de madeira guardava uma pasta verde-clara que Glaux espalhou com generosidade pelos ferimentos no ombro.

Nícolas rodeou a cama e ficou olhando o ferimento lambuzado de creme verde. Não parecia a melhor maneira de se curar algo tão sério. Mas então seu queixo caiu e ele se sentou na cama, completamente estupefato. O creme começou a desprender uma fumaça fina de aroma calmante, depois foi sendo absorvido pela pele. No local do ferimento, a absorção era mais lenta, mas quanto mais o creme adentrava no corpo, mais o ferimento ficava menor. Cinco minutos depois o corte desapareceu completamente, como se nem tivesse existido. A única testemunha restante do machucado era o sangue que manchara suas roupas.

— Elisa vai ficar bem. Não parece ter perdido muito sangue, mas por precaução eu farei uma refeição especial com gotas de poção fortificante. Agora, quanto aos seus ferimentos, Nícolas...

Voltando-se para o baú, Glaux guardou o pote de porcelana e pegou um frasco de vidro marrom arrolhado cheio de pastilhas verde-escuras. Glaux pegou um desses comprimidos e o entregou ao garoto.

— O que é isso?

— Apenas coma — respondeu Glaux educadamente, mas com seu toque de frieza habitual.

Nícolas ficou olhando indeciso para o comprimido, sem saber se confiaria nesse remédio. Então os cortes arderam nos braços e no rosto, e ele se decidiu. Engoliu o comprimido com um gole de água, que desceu refrescante pela garganta. A magia foi rápida e eficiente: os cortes arderam como fogo por uns segundos e então desapareceram sem deixar vestígios, assim como os de Elisa. Como efeito secundário o garoto soltou um leve arroto de cheiro característico que Nícolas comparou com a pomada mentolada que ele usava após os treinos.

— Arruda ka’tara...

Elisa disse com voz frágil. Ela ainda inspirou profundamente antes de abrir os olhos.

Nícolas correu e ajoelhou-se ao lado da cama. Glaux não sorriu ao ver Elisa despertar, seus lábios finos mantiveram-se firmes. Mas por dois segundos inteiros ficou nítido um brilho de triunfo em seus olhos antes de se tornarem frios novamente, embora nem Nícolas nem Elisa terem notado.

— Sim. E usei o creme e os comprimidos que você mesma fez ano passado. Meus parabéns, você acertou no preparo. Ainda bem, porque eu não tinha nenhum outro fármaco para um ferimento tão profundo.

Elisa sentou na cama, olhou para Nícolas e sorriu. Não era seu sorriso alegre habitual. Nícolas estava tão feliz pela recuperação de Elisa que não percebeu esse detalhe. Glaux, no entanto, perguntou:

— O que aconteceu na floresta?

Elisa tentou sustentar o sorriso, mas não pôde e começou a chorar baixinho. A garota cobriu o rosto com as mãos enquanto lágrimas escorriam pelo rosto. Entre um soluço e outro, eles puderam entender:

— Não... con... segui... te... prote... ger...

Erguendo-se um pouco, Nícolas abraçou Elisa muito forte pela cintura ficando seus cabelos na altura do peito de Elisa. Talvez pelo susto do inesperado abraço, Elisa parou de chorar. Logo retribuiu abraçando a cabeça de Nícolas.

Como pareceu mais calma nessa posição, Glaux repetiu a pergunta e Elisa começou a falar, ainda com voz fraca:

— O lobo não deixava rastros claros. Talvez algum encanto secundário de Ophidia para que fosse mais difícil para eu achá-lo. Quando enfim o encontrei, Helena o tinha achado primeiro. Eu não sei como ou quando ela aprendeu, mas Helena conhecia magia o bastante para te seguir e prender em correntes encantadas. Ela estava pronta para te matar, sem saber da verdade. Eu evitei o ataque e me aproximei. Naquele momento eu ainda não sabia o que fazer. Dava para sentir que a maldição de Ophidia era muito poderosa e só ela poderia remover. Eu sabia que não poderia convencer Ophidia facilmente, eu teria que ser muito convincente em meu argumento. Então eu saltei na direção das garras do lobo.

Nícolas ficou pálido e tentou levantar a cabeça, mas Elisa apertou ainda mais os braços ao redor da cabeça do garoto.

— Ophidia certamente não esperava por isso. Você com certeza é uma Heinz!

O tom de Glaux era cheio de orgulho.

— O que aconteceu depois? — perguntou Nícolas.

— Ophidia falou comigo. Ela precisa de mim, do meu corpo quero dizer. A pouca liberdade que ela conseguiu após oitocentos anos depende da minha possessão e, portanto, da perfeita saúde do meu corpo. Por isso ameacei me ferir. Eu consegui convencer Ophidia que se você continuasse transformado, eu ia me jogar nas suas garras afiadas de novo. Foi então que ela aceitou um acordo.

— Um acordo... — Glaux voltara ao seu habitual tom de voz sem emoção — Que tipo de acordo?

— Um acordo do tipo Etienne e Isabel.

— Hum! — Glaux bufou.

— Eu sei, eu sei. Não é exatamente um acordo muito bom, mas eu não tinha outra escolha.

Nicolas conseguiu se desvencilhar dos braços de Elisa e se levantou. Elisa parecia bem mais calma agora, falando normalmente com Glaux daquele jeito codificado que ele não gostava.

— O que é um acordo tipo Isabel e não sei o que?

— Isabel d'Anjou foi uma maga boa da Idade Média. Ela era de família nobre entre os comuns e sua beleza era conhecida por toda região. Havia um mago poderoso na época chamado Áquila, que se apaixonou por Isabel, mas seu amor era possessivo e doentio. Com medo, ela recusou o pedido de casamento de Áquila. Insistente, ele continuou visitando a moça e pedindo-a em casamento, esperando que um dia ela aceitasse. Só que algum tempo depois Isabel se apaixonou por um dos soldados que sempre acompanhava o mago, o Capitão Etienne de Navarre. Quando descobriu dos dois, Áquila se encheu de ódio e jogou uma terrível maldição sobre os dois: Isabel se transformaria num falcão todos os dias, e Navarre se transformaria num lobo a noite. Sendo assim, os dois amantes não poderiam mais aproveitar seu amor, pois enquanto um fosse humano, o outro seria um animal.

— Isso foi cruel! — exclamou Nicolas com horror — Espera, quer dizer que...

— Nosso acordo é parecido, e menos cruel, mas ainda é ruim. Durante o dia nós seremos perfeitamente humanos e normais, assim como estamos agora. Mas a noite você voltará a forma do lobo, e eu perderei o controle do meu corpo. Eu consegui duas condições para facilitar nossas vidas: você se transformará naquele grande lobo, mas manterá sua consciência humana. E eu terei minha memória dividida, assim não me lembrarei do que Ophidia fizer a noite e ela não saberá o que eu faço durante o dia.

— Você conseguiu um bom acordo, considerando que Ophidia é conhecida por ser sádica. Acho que ela deve estar desesperada para ter aceitado — falou Glaux com sabedoria.

— Eu também acho. Mas não vou questionar. Sejam quais forem as razões dela, vou apenas aceitar nossa sorte. Só que deixa um problema. Consciente ou não, Nícolas vai se transformar num grande lobo todas as noites. Eu sinto muito...

Elisa começou a chorar de novo com as mãos no rosto, mas desta vez Nícolas não a abraçou. Ele parecia em choque pela notícia.

— Não se preocupe Nícolas, encontraremos uma solução.

Mesmo ditas sem emoção, Glaux transmitiu um pouco de conforto nessas palavras. Saindo do choque, ele percebeu que assim como Elisa ao propor o acordo, ele também só tinha uma escolha possível. A decisão era terrível para qualquer pessoa, mas fazer esse sacrifício pela sua família era a coisa certa a se fazer. Nícolas tentou parecer forte e decidido por fora, mas qualquer pessoa com um coração perceberia seu sofrimento interno.

— Tudo bem, eu já sei a solução — falou com voz calma — Só existe uma coisa a fazer. Eu tenho que sair de casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.