O Relicário
20 Capítulo 20 - A Biblioteca do Colégio Lizeu
Notas iniciais
O COLÉGIO LIZEU era o prédio mais antigo de Nova Borgeby. No Brasil colonial o primeiro prédio variava entre um pátio de castigos chamado pelourinho ou uma caserna, um tipo de quartel. Ou seja, as cidades do Brasil Colonial já nasciam com a ameaça do governo se impondo sobre os habitantes. Mas não esta. Nova Borgeby nasceu cultuando o conhecimento de uma escola e a sabedoria dos professores.
Sendo o mais antigo prédio, ele também fora o lugar mais reformado (ou restaurado, como foi tentado, mas dificilmente realizado). As paredes externas mantinham a aparência rústica de pedra comum em Nova Borgeby, mas seu interior foi reformado para os padrões modernos com paredes lisas pintadas de azul e branco. Apesar de ter dois andares, como o Casarão Flint, o colégio é bem mais alto. As salas e corredores têm tetos altos para serem naturalmente arejados e frescos. São três grandes prédios juntos. O primeiro, e o maior, é onde ficam as salas de aula e a administração. No segundo, um pouco menor, mas não menos robusto e alto, é onde fica a grande Biblioteca. O terceiro era mais baixo e comprido: um auditório amplo onde toda a população poderia se reunir quando necessário.
Nova Borgeby não cresceu muito em população desde a fundação e o prédio principal continuou como foi construído inicialmente. Claro, o número de séries escolares muda pela política de cada época, mas os construtores tiveram a sabedoria de planejar um prédio maior do que precisavam naquele momento. Hoje, por coincidência, o número de séries e salas é igual. O auditório do colégio é maior que aquele da Câmara Municipal, então quando muitos nova-borguianos irão comparecer há uma reunião, o presidente da Câmara pede o auditório do colégio emprestado.
Naquele começo de Agosto, o primeiro dia de retomada das aulas foi animado como sempre. Centenas de crianças barulhentas com mochilas com motivos de filmes da Disney e lancheiras de super-heróis. Outras centenas de adolescentes falando muito alto, discutindo as férias de cada um, as últimas fofocas da cidade e imaginando se aulas estariam menos chatas.
Dentre o tropel de alunos que enchiam os corredores antes do primeiro sinal, havia alguns que se destacavam.
Hans e Gretel sempre brigavam por qualquer coisa. Hoje era sobre Clio. Gretel parece que não gostou quando o irmão levou Clio para a casa deles no dia anterior. O problema não era a própria ruiva, pois Clio e Gretel eram amigas. A irmã gêmea de Hans não confiava nele para namorar sua amiga.
Kirsten estava calada, encostada na parede, ao lado de duas amigas. Ambas se pareciam com ela. Não eram parentes, mas dividiam o mesmo ideal de beleza. As três eram bem magras, se vestiam como se fossem modelos, usavam maquiagem discreta e tinha um olhar de superioridade com todos ao redor.
A Helena que todos se lembravam de antes das férias já teria separado os gêmeos e conversando com Kirsten teria feito a garota diminuir o olhar arrogante e rir normalmente. Por Helena, Nícolas também estaria entre eles. O grupo girava em torno de Helena, mas agora os gêmeos continuaram brigando, Kirsten continuou altiva e Nícolas continuou separado.
Quando Helena passou pelo corredor em direção à sala de aula, de repente caiu um silêncio que pareceu que a escola estava vazia. Era a primeira vez que todos viam a filha do prefeito desde a comemoração pós-jogo uma semana antes. Aos poucos, primeiro em sussurros tímidos e depois em vozes mais altas, a algazarra retornou. Ela ainda se vestia como sempre, mas não sorria como sempre e nem fez esforço algum para ser amigável. Não conversou com ninguém e ignorou as poucas pessoas que tentaram lhe chamar a atenção.
Se Helena esperava se tornar o centro das atenções nesse dia, suas expectativas foram superadas. Ela que achava que seria importunada o tempo todo, descobriu que os estudantes tinham o que fofocar além do caso Éris. Era o caso Nícolas...
Nícolas se tornara ainda mais popular na cidade depois do Jogo de Abertura. Em menos de uma semana ele namorara duas garotas, mas não só isso. Houve muita confusão nos últimos dias envolvendo os três, mas nem tudo tinha sido esclarecido. E principalmente por causa dessas informações desencontradas que aguçavam a curiosidade de todos que o rapaz estava no centro das conversas dos adolescentes e adultos. Mas o rapaz, com a mesma dignidade silenciosa de Helena, mantivera-se calado sobre o assunto.
Apenas uma vez Nícolas falara sobre o caso. Quando lhe perguntaram se era verdade que estava namorando Elisa Heinz, ele abriu um sorriso e disse:
— Sim.
Mas ficou por isso mesmo, nessa resposta monossílaba, e não disse mais nada.
Então a manhã de Helena acabou não sendo tão ruim quanto esperava. Ser Éris lhe dava a vantagem do espaço: ela não queria falar com ninguém e quase ninguém pretendia falar com ela.
Quando o sinal das onze e meia anunciou o fim das aulas, Helena não foi pra casa. Ela queria fazer pesquisas na biblioteca do colégio. Havia meia dúzia de computadores numa sala anexa à biblioteca e foi por lá que ela começou. No entanto, depois de meia hora pesquisando na internet, Helena não conseguira nada.
— Droga!
Ela persistiu mais uns minutos, tentando diferentes combinações, mas não encontrava nada sobre o assunto desejado. Ela até tentou a Wikipédia, mas também não havia informações úteis sobre a fundação da cidade.
— Precisa de ajuda, Srta. Colúber?
Helena ergueu os olhos da tela do monitor e viu o velho bibliotecário parado a observando. Era um homem sem dúvida inesquecível. Tinha os seus cinquenta anos, barba cheia e branca, uma voz grave e forte, um olho escuro e inquisitivo... sim, UM olho. O outro olho dele estava coberto com um tapa-olho de couro negro. Ninguém sabia porque ele usava esse tapa-olho, mas também ninguém perguntava.
Helena mirou o tapa-olho antes de responder:
— Preciso sim, Sr. Askjálf. Eu queria saber mais sobre a fundação de Nova Borgeby, mas não encontrei nada na internet. Tem um artigo sobre um castelo...
— A Fortaleza de Borgeby, na Suécia. Sim, dizem que lá é a origem dos nossos fundadores, mas ninguém daquele lugar sabe sobre esta cidade. Eles são famosos, nós não. Venha, vou lhe mostrar onde achará o que precisa.
Ele se virou e saiu, Helena foi atrás dele.
O bibliotecário a levou por uma porta e eles entraram na biblioteca centenária. O que dizer de todas essas prateleiras criando outros tantos corredores estreitos. O piso era de granito preto e branco, cujos blocos formavam desenhos geométricos retos com quadrados e triângulos. As prateleiras eram de uma madeira escura e avermelhada. Havia todo tipo de livro: grandes e pequenos, fileiras de capas da mesma cor, outras vezes fileiras coloridas com capas de diversas cores. Helena nunca tinha reparado como essa biblioteca era vasta.
Havia um largo espaço aberto no centro e nas laterais as estantes se alinhavam lindamente como dominós arrumados. Uma plataforma superior que seguia a toda volta das paredes era acessada por uma escada em caracol feita de metal e pintada de vermelho. E nessa plataforma, mais estantes estavam alinhadas com mais prateleiras e mais livros. Na parede oposta a porta de entrada havia uma mesa comprida com muitas cadeiras. No mesmo ponto, no piso superior, havia outra mesa igual.
Os jovens de hoje consideram que bibliotecas são dispensáveis, pois todo conhecimento que precisam pode ser encontrado na internet, acessado em qualquer lugar, seja em computadores ou smarthphones. Mas nada pode substituir o prazer simples do manuseio de um livro enquanto viramos as páginas.
Vala Askjálf subiu pela escada em caracol e a garota o seguiu, animada por conhecer aquele trecho diferente da biblioteca. O homem levou Helena para a mesa do segundo piso, que era mais discreta e reservada que a outra. Ela ficou olhando distraidamente para as estantes a sua frente enquanto esperava. O bibliotecário saiu de trás de uma estante trazendo dois livros grossos, ambos de aparência antiga.
— Esses volumes são os melhores. Um foi escrito por um de nossos antepassados, antes da viagem para o Brasil, mas está escrito em uma língua alemã arcaica. Não consegui traduzir ainda. Mas tem algumas ilustrações que podem ser úteis. O outro é mais novo, têm uns trezentos anos, e foi escrito no ano em que essa cidade completou seu centenário. Está em português antigo, tem algumas palavras que já caíram em desuso, mas com um dicionário ao lado acho que você consegue lê-lo.
Helena pegou os dois volumes com muito respeito e os depositou sobre a mesa. O bibliotecário avisou que iria buscar um dicionário e desceu a escada em caracol. A garota folheou cada livro, e realmente, não entendeu muita coisa de nenhum, mesmo aquele escrito em português. Ela espiou pela borda da plataforma e viu o bibliotecário entre duas estantes lá embaixo.
Helena levou a mão ao decote e puxou uma corrente fina e prateada. De dentro do uniforme ela tirou o mesmo medalhão estranho de Nóctua: uma serpente de prata enrolada em círculo mordendo a própria cauda.
— Como era mesmo? — sussurrou, e mordeu o lábio tentando se lembrar. Ela tirou um papelzinho do bolso da calça jeans e leu — “Lingua sermone scripto babelis”.
As esmeraldas dos olhos da serpente do medalhão brilharam por um instante e a garota pegou o volume alemão de novo e abriu em uma página aleatória:
“13 de Dezembro de 1600.
Hoje terminamos de desmontar o acampamento próximo de Navarra. Amanhã continuaremos nossa jornada rumo ao litoral. É necessário. Depois do que aconteceu este ano, não podíamos mais continuar do mesmo jeito.”
Helena sabia que isso aconteceria, mas mesmo assim ficou assombrada. Realmente funcionara. Durante a noite e aquela manhã, ela se perguntara se toda aquela historia de bruxa não seria piada ou pesadelo. Mas era verdade, ela fizera mágica e agora podia ler qualquer língua.
O bibliotecário apareceu segundos depois com o dicionário e deixou-o sobre a mesa. Nesse instante ele olhou para o medalhão curioso, e a garota distraída não percebeu. Ele desceu novamente sem falar nada.
Helena não precisou do dicionário, e pôde continuar lendo e lendo, fascinada com as palavras escritas há mais de quatrocentos anos. Ela recomeçou a ler:
“13 de Dezembro de 1600.
Hoje terminamos de desmontar o acampamento próximo de Navarra. Amanhã continuaremos nossa jornada rumo ao litoral. É necessário. Depois do que aconteceu este ano, não podíamos mais continuar do mesmo jeito. Nossa mestra acredita que a nossa única saída é recorrer ao Brasil. Eu não gosto da ideia de morar num lugar que nem mesmo é um país: não passa de uma terra sem lei perdida no meio do mar. A Sra. Colúber, no entanto...”.
Helena parou de ler e passou o dedo sobre essa palavra de novo:
— Colúber!... — sussurrou pra si.
“A Sra. Colúber, no entanto, já repetiu inúmeras vezes o tamanho daquela terra. Tão grande quanto a Europa inteira. Eu não sei se acredito, mas se for verdade, então o Brasil é o melhor lugar para levarmos... (borrão)... e assim no Brasil estará segura”.
— Droga! Levarmos o que?
Helena bufou de raiva e frustração. A página tinha outras manchas de tinta e o restante do texto tinha outros borrões. As manchas eram escuras, talvez tenha sido um acidente infeliz há muito tempo. Ela folheou várias das páginas amarelas até encontrar uma folha completamente sem borrões.
“03 de Março de 1601.
Após meses de viagem, finalmente estamos perto de Lisboa. Nossa caravana tem centenas de pessoas e a Sra. Colúber acha que viajar em zigue-zague é menos perigoso do que se fossemos diretamente. Afinal, nós não queremos que ninguém pense que somos mais que simples nômades, precisamos disfarçar o nosso destino. Amanhã a Sra. Colúber vai até a cidade negociar a nossa travessia pelo Atlântico. Além de um navio, precisamos da permissão de Lisboa para nos estabelecermos no Brasil.
‘Nós temos sorte’, foram as palavras da Sra. Colúber hoje diante da fogueira do acampamento, ‘Há vinte anos Portugal era um reino soberano. Mas hoje este país é controlado pela Espanha. Com prata e ouro se compram navios e pessoas. O universo conspira a nosso favor. Nós iremos para o Brasil em breve’.
Eu não me esqueço do que aconteceu ano passado. Minha Evelyn me disse para não me preocupar, pois ‘eles’ já não viajam mais conosco, então estamos seguros. Eles foram para o norte e nós logo iremos para o sul. Mas eu não tenho essa certeza. Só ficarei tranquilo quando um oceano inteiro nos separar da Inglaterra”.
— Inglaterra... — Helena repetiu para si mesma.
Agora Helena achava que estava começando a entender. Ainda havia muitos pontos tão obscuros quanto as manchas de tinta no livro, mas pelo menos ela sabia que estava no caminho certo.
Vala Askjálf subiu a escada em caracol fazendo o metal ressonar novamente e Helena ergueu a cabeça, os pensamentos de volta ao mundo normal. Era estranho como ler um livro podia te fazer mergulhar profundamente em um mundo diferente. Ela guardou o medalhão novamente sobre a blusa.
O bibliotecário parecia ocupado carregando uma pilha de livros para serem guardados e desapareceu atrás de uma estante.
Vala observou Helena discretamente por entre os livros da prateleira. Ele a viu pegar o outro volume e começar a folheá-lo.
“Curioso, curioso, curiosíssimo!”, pensava o bibliotecário. “As coisas estão indo por um caminho interessante. Agora nem sei mais como essa história terminará. Com a ajuda de Helena, Elisa poderia ter derrotado Ophidia Heid de algum jeito, mas agora... com Helena como inimiga... como será que tudo isso vai acabar? Hummmmm! Será que eu devo avisar Helena sobre as mentiras que lhe contaram? Não! Não mesmo. O problema não é meu, a vida não é minha. Se Helena for como Natrix, pode haver uma chance... senão, este mundo está condenado!"
Vala riu consigo, abriu um sorriso meio escondido pela barba e pensou:
“Pelo menos essa reviravolta tem um lado bom: depois de oitocentos anos tediosos, está finalmente ficando divertido” — e voltou a arrumar a estante.
Helena percebeu que apesar de ser cem anos mais novo, esse livro parecia mais surrado que o outro e logo descobriu o porque. O marido de Evelyn escrevia pouco, havendo longos períodos entre as anotações. Já este outro volume havia datas muito próximas. Ás vezes eram dias consecutivos, outros havia um espaço de um ou dois dias, mas nada que ultrapasse uma semana. Helena concluiu que esse livro não eram apenas anotações, mas um diário particular, escrito quase diariamente.
Na primeira página havia um nome escrito em arabescos: “Luana Colúber”. Ela pensou muito antes de ler. Não foi medo, mas uma estranha emoção. Nessas páginas envelhecidas havia letras traçadas pela mão de uma ancestral sua. Era sua parenta como uma avó. Na verdade era a avó da avó da avó da avó... será que faltou uma avó? Enfim... sangue do seu sangue. Era misteriosamente emocionante encontrar algo tão antigo escrito por uma pessoa que compartilhava o mesmo sobrenome e ostentava o mesmo orgulho que seu pai sempre se referia.
“1 de Maio de 1701.
A festa do centenário foi muito boa. O Sr. Geremaro distribuiu vinho português de ótima qualidade. Papai acha que foi exagerado, mas acho que é pura inveja porque ele não pensou nisso primeiro. O Sr. Geremaro contou que não precisou pagar pelo vinho, pois recebeu este como pagamento de uma dívida. Aquela família de comerciantes é rica demais. Papai acha que o dinheiro seguro só vem da terra e da produção dos queijos, que o comércio é instável. Mas eu não sei se entendi. De qualquer forma, acho que eles têm dinheiro suficiente para que nem os netos dos seus netos precisem trabalhar. Talvez só daqui uns duzentos anos para acabar com tanto dinheiro.”.
Helena soltou uma gargalhada alta. Imediatamente percebeu onde estava e cobriu a boca com mão. Olhando para o piso inferior, ela viu alguns alunos parados olhando para ela, e também o próprio bibliotecário com uma expressão séria no rosto barbudo.
— Desculpe! — Helena disse em voz baixa, quase um sussurro de desculpas, e as pessoas lentamente voltaram para suas próprias pesquisas e o Vala voltou a organizar a estante em que estava.
Por dentro, Helena ainda gargalhava. Luana estava certa. Helena não sabia com certeza, mas como o avô do Nícolas fora dono de um simples mercado, então já há algum tempo que os Geremaro não eram mais ricos.
Helena continuou a ler:
“Perguntei para a minha mãe se ela se lembrava de Coronella Colúber, que é minha bisavó, portanto a avó dela. Foi a primeira vez que eu fiz essa pergunta desde que eu era pequena, e também foi a primeira vez que eu ouvi minha mãe dizer essas coisas.
‘Eu não lembro muito bem’, contou ela. ‘Ela já passara dos quarenta anos quando teve a minha mãe. E minha mãe também não era tão jovem quando eu nasci. Então quando tive idade para me lembrar das coisas, ela já era bastante velha e morreu quando eu ainda era criança. Mas tem uma história que minha mãe contava: era sobre a construção do Colégio Lizeu. O prédio da escola foi a primeira coisa que os fundadores construíram na cidade. Mas algumas pessoas mais velhas falam que a escola não foi erguida por isso. Há uma lenda sobre um tesouro que os fundadores trouxeram da Europa, o enterraram e então para mantê-lo seguro colocaram por cima todas as pedras que puderam encontrar’.
Sinceramente, eu não sei se acredito. É um prédio enorme e levaram anos para terminá-lo, então acho normal que surgissem lendas sobre ele. Mas daí dizerem que tem um tesouro enterrado debaixo? Ah, faça-me o favor!”.
Helena se lembrou da câmara que encontraram debaixo da Biblioteca há alguns meses, onde havia vários livros antigos, algumas outras peças aparentemente sem valor e a estátua da fundadora. Verdade! O marido de Evelyn falou sobre proteger alguma coisa. E agora tinha essa lenda de um tesouro enterrado. Mas se não tinha mais nada de importante naquela câmara, será que a estátua era o tesouro? Talvez fosse alguns dos livros. Tinha essa coisa de magia também. Se ela, Helena, era uma bruxa, então Coronella também era. Quem sabe um daqueles livros fosse mágico? Ou seria um dos objetos que pareciam sem valor no começo, mas poderiam ter um poder escondido.
Ah, tinha tantas possibilidades! Onde estaria a verdade?
Helena conseguira meia dúzia de respostas, mas doze dúzias de novas perguntas.
Sem falar do misterioso acontecimento que motivara a vinda deles para o Brasil. Aconteceu alguma coisa em 1600 que foi citado várias vezes pelo marido de Evelyn. Também tinha a referência para “eles”, essas pessoas que inspiravam medo e que tinha ido para o norte com destino à Inglaterra. Bem, Elisa era da Inglaterra, mas daí pensar que os antepassados dela tem alguma coisa a haver com os fundadores de Nova Borgeby, seria coincidência demais e nem Helena passou muito tempo ponderando sobre essa possibilidade.
Não, o importante mesmo era descobrir qual foi o tal acontecimento que levou centenas de pessoas numa jornada, difícil e mortal através da Europa e pelo oceano Atlântico. Helena já lera antes sobre como era viajar antigamente. Havia muitos problemas de alimentação, saúde e higiene. Viajar longas distâncias não era algo que se fizesse sem um bom motivo. O oceano Atlântico pode ser muito traiçoeiro com ventos revoltos e tempestades repentinas. Atravessá-lo era uma prova de coragem ou questão de necessidade.
E depois, não havia nenhuma menção a religião em nenhum momento dos dois textos. Nenhuma única linha que repetisse as palavras que sempre ouvira dos professores sobre Nova Borgeby ter sido fundada por pessoas fugindo de conflitos religiosos. Mas era verdade a parte da história que dizia que eles estavam fugindo de alguma coisa. Ou melhor, fugindo COM alguma coisa. Mas o que seria?
O que poderia ser tão valioso que os fundadores tinha se dado ao trabalho de atravessar um oceano inteiro para proteger?
Fale com o autor