O Relicário

13 Capítulo 13 - O Jogo de Abertura


HELENA CORREU ATRÁS de Nícolas, mas o garoto foi rápido e não estava mais à vista. Ele tinha se misturado as pessoas em direção ao campo. Ela se meteu entre os torcedores, mas só conseguiu chegar a tempo de vê-lo entrar no vestiário Asgard numa das extremidades do campo.

Nícolas estava confuso com sua namorada. Se por um lado ele podia considerar que esse ataque de ciúmes era uma prova de que Helena gostava muito dele, por outro lado esse ataque foi completamente despropositado e Elisa não precisava ter sido humilhada daquele jeito. Ele queria ter tido mais tempo para pensar na situação, mas logo que entrou no vestiário seus pensamentos foram desviados para o jogo. Todos os outros jogadores estavam na sala de ginástica fazendo o aquecimento, alguns correndo em esteiras e outros se esticando em colchões de ginástica. Ele se juntou aos companheiros e começou a se aquecer, seus pensamentos focados no jogo.

Helena viu Astride e Kirsten nas arquibancadas e foi em direção a elas. Quando as amigas perguntaram onde ela estivera, Helena não respondeu. As duas usavam vermelho. Sentados aos lado de Kirsten, estavam Gretel e Hans, ele de vermelho e ela de amarelo, e como sempre, estavam discutindo. Adelfo estava no time junto com Nícolas. Todos os seus amigos de verdade estavam aqui. Nenhum deles a trairia como Elisa.

Uma adolescente loira alguns bancos a baixo do seu, agarrada em um rapaz forte, estava mais interessada em limpar seus dentes na boca do namorado do que em prestar atenção ao campo ou à multidão ao redor. Eventualmente eles respiravam, mas logo voltavam a colar seus lábios. Helena não conseguiu esconder seu incômodo e passou o tempo inteiro com uma expressão irritada.

Sozinha na Sala de Troféus, Elisa ficou um tempo em silêncio tentando entender o que acontecera. Seu rosto ardia levemente.

— Que mão pesada do caramba! — ela disse enquanto massageava o rosto.

E de repente ela começou a rir. Um riso sincero. Logo o riso se transformou numa gargalhada gostosa e Elisa se curvou, segurando a barriga e continuou rindo até seus músculos doerem.

— Eu? Justo eu? Euuu?

E continuou gargalhando muito por vários minutos, enquanto Elisa pensava em como aquela situação era ridícula.

Elisa Heinz, a garota que nunca tivera amigos na vida, que crescera sozinha tendo apenas seus livros de regras por companhia. Como essa garota poderia ser considerada capaz de roubar o namorado de alguém? Não era possível! Ninguém a julgaria uma ameaça. Não mesmo.

Quando soube que viria para Nova Borgeby sua única esperança era que pudesse fazer amigos. Isso parecia ter sido séculos atrás, mas não tinha nem um mês. É verdade ela ficara fascinada pela beleza de Nícolas desde a primeira vista, e também é verdade que desde aquele sonho maravilhoso, Elisa desejou o garoto ainda mais. Ela sofrera bastante quando percebeu que nunca teria chance. Aquele beijo no dia do seu aniversário foi muito doloroso. Mas desde então entrou em seu estado de conformidade de novo. Para enfrentar a solidão dos anos Elisa decidira aceitar seu destino e se conformar em ficar sozinha. Não era um pensamento feliz, mas quando se esforçava em seus treinos ela conseguia esquecer as dores de sua vida.

Como era possível que em apenas nove dias Elisa tinha ido da completa solidão para uma garota cheia de amigos e então ser considerada ladra de namorados? E não apenas por ter se conformado, Elisa não teria coragem de tentar qualquer coisa com o namorado de quem ela já considerava sua melhor amiga.

Depois de vários minutos Elisa achou que já era hora de juntar aos outros. Depois do jogo ela tentaria desfazer o mal-entendido com Helena. Mas quando tentou empurrar a porta, ela não abriu. Ela empurrou com mais força, mas as portas não cederam.

— Não...

Elisa forçou mais, mas as portas nem se mexiam. Elas estavam trancadas.

— Não, não, nãoooooo!

Ela se desesperou muito rapidamente. Suas mãos começaram a tremer e seus braços perderam toda força. Lágrimas escorreram pelo rosto enquanto a garota continuava sacudindo a porta. As pernas ficaram fracas e ela caiu sentada, agarrada na alça da porta, chorando. Tentou gritar, mas sua voz não saiu mais alta que um sussurro:

— Socorro! Alguém, por favor, socorro...

Então seus braços perdem as últimas forças e se soltaram da porta, e Elisa se esparramou no chão, os olhos chorosos e desfocados, duas janelas para sua mente, que deveria estar muito longe.

— A cabana... cabana... cabana...

Elisa permaneceu imóvel enquanto o barulho lá fora aumentava ainda mais. Logo ela pôde ouvir o locutor anunciando muito alto:

— A sexagésima quarta edição do Jogo de Abertura vai começar em minutos, todos ocupem seus lugares.

O jogo começaria com ou sem Elisa, mas a garota não ligava. Ela podia estar ouvindo, mas era como se sua mente estivesse desligada do corpo. Os sons não eram importantes.

Os torcedores ao redor do campo amavam esse jogo e suas vozes alegres gritavam o nome dos seus times e dos jogadores favoritos. Várias vezes ela ouvira gritarem “NÍCOLAS! NÍCOLAS!”. Mas também gritavam “ADELFO”, “FERNANDO” e “ANDRÉ”. O jogo começou e os sons se tornaram ainda mais altos e enlouquecidos.

Por horas e horas Elisa ouviu os torcedores vibrarem com a partida e a voz animada do locutor narrar todos os lances. Como Nícolas tinha previsto, os Asgards ganharam por dois gols contra um de Midgard. A cidade inteira estava em festa e foram tantos os fogos de artifício que se poderia pensar que os habitantes de Nova Borgeby tinham comprado toda pólvora do mundo. E quanto mais alto fosse o estouro, mais as pessoas berravam de felicidade.

Mas na Sala de Troféus trancada Elisa continuava impotente, os olhos agora vermelhos de chorar e seus lábios pronunciando baixinho:

— Cabana... cabana... eu vou morrer... eu vou...

Notas finais
Comentem, por favor *-*