O Relicário

1 Capítulo 1 - Onde fica Nova Borgeby?


Nova Borgeby era uma cidade incomum por causa de vários de fatores, como ruas de paralelepípedos e casas em sua maioria construídas com pedras cinzentas, dando um aspecto geral de um povoado medieval esquecido no tempo. Também havia seu nome, de origem sueca. Ela era uma entre muitas cidades no Brasil que foram fundadas por imigrantes europeus fugindo dos eternos conflitos políticos ou religiosos, que por séculos mantiveram acesa a chama da guerra na Europa.

Os habitantes da cidade pareciam continuar a viver as suas pacatas vidas sem grandes incidentes, assim como seus pais em sua época e os pais deles antes disso. A cidade em si pouco se alterava com o tempo, e com raras exceções, permanecia quase igual ao que fora quatro séculos antes, quando fora fundada.

Foi no dia 30 de Junho 2011, em uma quente e agradável quinta-feira, que o fio a nossa história começa. E começa em grande estilo, pois aquele era um dia de festa. Reunindo-se na Praça Principal (na realidade a única praça da cidade), quase toda a população estava presente. O motivo de toda a festa era a inauguração de uma estátua, colocada bem ao centro da praça. Naquele momento, no entanto, a estátua ainda estava coberta por um pano branco. Ao redor da estátua a prefeitura colocara um cordão de isolamento, deixando um largo espaço onde o prefeito Henrique Antonino Coluber pessoalmente inauguraria a estátua.

O evento tinha suporte da grande imprensa, vinda do Rio de Janeiro e de São Paulo. Porque aquela estátua era tão importante? Porque ela era algo novo para os brasileiros, uma estátua estrangeira, esculpida a séculos ainda na Europa e trazida pela fundadora de Nova Borgeby.

O prefeito queria dar grande visibilidade ao evento, e esperava pacientemente, sob o sol quente, até a hora marcada. Ao seu lado estava uma bela jovem morena: Helena Coluber, filha única do prefeito. Com seus 16 anos, Helena tinha o ar desenvolto de alguém acostumado a chamar atenção e a ignorar os olhares fixos e as expressões que encaravam pai e filha na praça. Ela sorria modestamente.

— Ah, ela é tão bonita!

— Sim, é verdade.

Assim conversavam duas garotas da mesma idade de Helena em meio a multidão.

— Sabe se o Nícolas já se declarou?

— Não. Falei com ela ontem. Eu quero tanto que aquele gatinho se declarasse pra mim...

— Dando de uma de Éris é?

— Eu??? Claro que não! Tá louca! Nunca! — mas corou muito ao dizer isso e para mudarem de assunto, disse — Olha, o prefeito vai falar.

Henrique não perdeu a oportunidade de se gabar como sua administração tinha encontrado tais itens preciosos, como vários livros antigos e aquela estátua durante uma reforma de ampliação da biblioteca do Colégio Lizeu. Ele lembrou a todos que a estátua era um tesouro para a cidade e para ele mesmo, pois era a representação em pedra de sua ancestral, uma mulher forte e corajosa que trouxera seu povo para o Brasil, longe dos conflitos religiosos. E terminou dizendo:

— Eu lhes dou CORONELLA COLUBER.

E então a estátua é revelada: uma mulher alta e bonita, com uma expressão impassível. Seu rosto de pedra estava voltado para o céu, uma das mãos estava no meio do peito, como se segurasse uma joia e a outra mão tinha o punho fechado erguido acima da cabeça.

Houve uma tempestade de aplausos e flashs. Todos estavam radiantes com a inauguração da estátua. Todos, menos Helena. À primeira vez que olhou para a expressão altiva da mulher, Helena sentiu um arrepio correr pelo corpo, ao mesmo tempo em que um medo incomum lhe encheu o coração.

* * *

Há milhares de quilômetros de distância, em uma sala ricamente decorada, duas pessoas passavam uma fria noite britânica. A mulher de cabelos negros e profundos olhos castanhos lia descansadamente um jornal perto da lareira acesa. Do outro lado da sala, em um piano de cauda, uma garota com longos cabelos tão dourados que eram quase brancos tocava uma música muito bonita, mas muito triste. Ela tocava com o coração. Vez por outra uma lágrima escorria pelo rosto, caindo de seus lindos olhos azuis marejados. A mulher à lareira chamava-se Glaux, e a garota ao piano, Elisa Heinz.

A fleuma britânica de Glaux a impedia de exprimir qualquer emoção enquanto lia o jornal, não importando quão trágica fosse a reportagem. Mas naquele dia uma de suas sobrancelhas se ergueu pela primeira vez, e tão forte era sua surpresa que até seus lábios tremeram por um milésimo de segundo.

Eis a reportagem.

“It happened today at 09:00 AM (local time), the unveiling of a statue of four hundred years in Brazil. Led by Coronella Coluber, a group of Nordic immigrants left for Brazil in 1601, fleeing religious conflicts in the region. The story tells that, Coronella Coluber she has led various clans that made up her nation and urged them to undertake this long and difficult journey that has taken them to the brazilian lands, where they have founded the city of New Borgeby, name that reminded them of there origin in the ancient Fortress of Borgeby, Sweden. The statue, and various other objects were found in an underground chamber about two months ago. According to the records also found at the site, the Coronella Statue of Coluber was still carved in Europe by unknown artist, and taken to Brazil together with immigrants. Restored, the statue was inaugurated today with great party, by the mayor of New Borgeby, Henry Coluber, direct descendant of the founder”.

Tradução:

“Aconteceu hoje, às 09:00 AM (horário local), a inauguração de uma estátua de quatrocentos anos no Brasil. Liderados por Coronella Coluber, um grupo de imigrantes nórdicos partiram para o Brasil em 1601, fugindo de conflitos religiosos na região. Conta a história, que Coronella Coluber tomou o título de Chefe dos vários clãs que formavam seu povo e os incitou a empreender essa jornada longa e difícil que os levaram para as terras brasileiras, onde fundaram a cidade de Nova Borgeby, nome que os lembrava de sua origem, na antiga Fortaleza de Borgeby, Suécia. A estátua, e vários outros objetos, foram encontrados em uma câmara subterrânea a cerca de dois meses. De acordo com os registros também encontrados no local, a Estátua de Coronella Coluber foi esculpida ainda na Europa por artista desconhecido, e levada para o Brasil junto com os imigrantes. Restaurada, a estátua foi inaugurada hoje com grande festa, pelo prefeito de Nova Borgeby, Henrique Coluber, descendente direto da fundadora”.

Quando Glaux terminou de ler a matéria, ela voltou a sua fleuma normal, e foi num calmo quase entendiado, que ela disse:

— Prepare as suas malas, Elisa, nós vamos viajar para Nova Borgeby.

— E onde fica Nova Borgeby? — perguntou Elisa sem parar de tocar o piano.

Notas finais
Por favor, comentem, critiquem, elogiem, digam qualquer coisa boa ou ruim sobre o capítulo.