O Relicário

24 Capítulo 24 - Quem conta um conto, aumenta um ponto


NAQUELA QUARTA-FEIRA a cidade de Nova Borgeby amanheceu aparentemente calma, mas logo aquele se tornaria um dos dias mais memoráveis nessa cidade nos últimos anos. O alvoroço foi tão grande que até as últimas atitudes de Helena perderam espaço na fofoca do dia-a-dia.

No Casarão Flint a manhã começou igualmente calma. Um raio de sol morno que entrou pelas portas da sacada veio acordar Nícolas. Ele estava deitado exatamente na mesma posição que na noite anterior. Seu corpo não doía menos que antes e agora que acordara não sabia como conseguira dormir. Ao abrir os olhos a primeira coisa que viu foi Elisa observando-o com olhos gentis e um sorriso claramente forçado.

— Good morning! — disse ela suavemente com um leve sotaque.

— Bom dia! — respondeu Nícolas — Você acordou há muito tempo?

— Um pouco, eu não dormi muito.

— Bom dia! — disse Glaux entrando no quarto.

Por causa do cansaço mental em que se encontrava Nícolas não se espantou como deveria quando viu a porta se abrir sozinha e Glaux entrar lendo um jornal, tendo atrás de si duas bandejas que flutuaram pela porta e foram pousar na cômoda.

— Hoje o café da manhã é mingau de aveia com mel. Achei que seria menos doloroso para comer.

Nem Elisa nem Nícolas estavam com fome realmente, mas também não podiam ficar em jejum até o meio-dia. Mas antes de servir as bandejas na cama, Glaux dobrou o jornal e se postou ao pé da cama para vê-los melhor.

— Eu fiz um pequeno passeio hoje de manhã. Uma pequena caminhada pela praça. Eu nunca faço isso, mas foi uma boa idéia. Tive o pressentimento que seria bom e eu estava certa, pois nesse passeio algumas pessoas me pararam para conversar e me contaram alguns boatos que estão pela cidade. Boatos sobre ontem à noite.

Nícolas e Elisa perderam a pouca fome que tinham. Suas expressões eram igualmente preocupadas.

— Que tipo de boatos? — perguntou Elisa.

— Bem — Glaux não parecia nada preocupada, mas franziu a testa incomodada com alguma coisa. Ela não estava encontrando as palavras certas para contar o que ouvira — Melhor ir do começo. Aparentemente o jardineiro responsável pelo campo de futebol foi até lá bem cedo, pouco antes de o sol nascer. Algum tipo de fertilizante especial que tinha que ser colocado no gramado antes do sol ficar quente. Enfim, ele foi o primeiro a encontrar uma misteriosa marca no campo. Um círculo queimado exatamente no centro. Ele ficou mais intrigado pela grama ter sido queimada com tanta precisão e cuidado, exatamente sobre a linha do círculo central. Nenhuma folhinha de grama estava queimada nem dentro nem fora do círculo. Intrigado, ele decidiu chamar o Prefeito Colúber.

Nícolas e Elisa ouviam com tanta atenção que eles nem piscavam.

— Henrique Colúber foi até o campo, momento em que já havia vários curiosos tirando fotos e discutindo como a marca teria sido feita. A explicação oficial, quer dizer, a opinião do prefeito, é que a marca foi feita por adolescentes querendo pregar uma peça na cidade. Ou seja, é apenas uma brincadeira. Nada de importante. Bom, pelo menos é o que ele mandou dizer pela cidade. Mas os habitantes de Nova Borgeby tem uma teoria bem diferente.

Glaux fez uma pausa. Aparentemente chegara ao momento de contar o que mais lhe irritava e ela não sabia como dizer. Ela pensava: “Como as pessoas podem suspeitar de algo tão ridículo?”.

— Fala logo Glaux! O que eles estão pensando que é? Eles descobriram que foi feitiçaria? Fala! — Havia uma nota de pânico na voz de Elisa.

— Se eles achassem que fosse feitiçaria eu até acharia normal, mas... bem... eles acham que aquela marca foi feita por... extraterrestres!

Por um instante pareceu que a última palavra chegou a ecoar nos ouvidos dos dois.

— Extra...? — disse Elisa.

—... terrestres? — disse Nícolas.

Os dois se olharam por uns cinco segundos até assimilarem o que ouviram e começaram a rir descontroladamente. Riram muito e muito alto. Eram gargalhadas gostosas e contagiantes.

— Ali... ens! — Nícolas se engasgara de rir no meio da palavra.

— ETs! — Elisa disse entre uma gargalhada e outra.

Quanto mais riam mais tinham vontade de rir, e quando se olhavam eles sentiam ainda vontade de gargalhar. Era tão absurdo... tão ridículo...

— Aliens! — disse Nícolas mais calmo secando as lágrimas de riso — Agora só falta aparecer a TARDIS! — e riu da própria piada.

Elisa riu também.

— Você assiste Doctor Who? — perguntou Elisa.

— Assisto às vezes na internet — respondeu Nícolas — Mas faz um bom tempo que não vejo. Saudade do David Tennant.

— Ah, eu prefiro o Matt Smith! Ele é tão lindo!

Nícolas ficou sério e respondeu:

— É só isso que ele tem mesmo. O Tennant era um Doctor muito melhor.

Foi a vez de Elisa ficar séria:

— O Tennant era bom. Mas o Matt é muito melhor.

— David!

— Matt!

— David!

— Matt!

— Tennant!

— Smith!

Elisa deu um tapa de leve no braço de Nícolas.

— Eleven!

Nícolas não se intimidou e revidou o tapa leve no braço de Elisa:

— Ten!

— Eleventh!

— Tenth!

Os tapas nem estavam mais leves. Os dois estavam se agredindo colocando cada vez mais força, e aparentemente sem nem sentirem dor alguma.

— Chega! Chega vocês dois! Duas pessoas doloridas, uma delas recentemente torturada, e vocês ficam aí se batendo pra decidir qual Doctor é melhor, David Tennant ou Matt Smith! Que absurdo!

Nícolas e Elisa pararam de se estapear. Curiosamente eles estavam sorrindo como duas crianças travessas.

— Bom, agora comam seu café da manhã e parem de brigar por coisas inúteis como essa! Oras!

Os dois se sentaram na cama e as bandejas vieram flutuando para eles, cada um com uma tigela fumegante de mingau de aveia. Ela os olhou com severidade e disse:

— A poção fica pronta em três horas — e dizendo isso saiu do quarto.

Quando bateu a porta atrás de si, ela ouviu os dois lá dentro começarem a comer o mingau, mas eventualmente repetirem, entre uma colherada e outra:

— Eleventh!

— Tenth!

Glaux sorriu e pensou “Fourth!” e foi para a cozinha.

Antes que o carrilhão batesse a décima segunda badalada do meio-dia, Glaux entrou trazendo uma taça de prata com uma poção roxa brilhante que para Nícolas parecia beterraba liquefeita. Por sorte Glaux disse que ele não teria que tomar, mas apenas Elisa.

A garota tomou um gole pequeno e Nícolas e ela tiveram exatamente a mesma reação:

— Ahhhhh! Amargo!

— Ahhhhh! Amargo!

— Credo! Porque minha boca está assim também? — disse Nícolas — Isso é pior que café extra forte sem açúcar algum.

— Ah! Eu não me lembrava que essa poção era tão ruim — disse Elisa.

— Ela foi concentrada quatro vezes, não se esqueça — defendeu-se Glaux.

Depois do terceiro gole, apesar da boca amarga, Nícolas começou a sentir o corpo mais leve, o alívio se espalhando pelo corpo. O mínimo sopro de vento lhe parecia como se sua pele estivesse coberta de pasta de dente com frescor extra. O ar quente que entrava pelas portas da sacada lhe pareceu bem gelado. Depois de doze horas com o corpo dolorido, a sensação era maravilhosa.

Elisa ao lado parecia sentir o mesmo, pois todos os pelos dos braços estavam arrepiados de frio e em seu rosto se formou uma expressão satisfeita.

— Até parece que voltei para a Inglaterra! Frio gostoso! Hmm!

Glaux, indiferente a todas as reações dos garotos, ficou ainda mais séria de repente.

— Espero que tenham aprendido a lição. Vocês pagaram um preço alto por revelarem os segredos de Ophidia. Tomara que tenham entendido que não dever fazer isso de novo, pois Ophidia não será tão complacente em uma próxima vez. O castigo para quem o fizer será mais terrível do que possam imaginar.