O Relicário
18 Capítulo 18 - Acabou
Notas iniciais
QUANDO DESPERTOU, Elisa ainda estava no chão. Glaux e Nícolas, em lados opostos da sala, tinham a mesma expressão assustada. Ela demorou um minuto inteiro para entender o que tinha acontecido e então se lembrou de tudo.
Elisa tirou o Relicário do pescoço, o soltou no chão e se levantou correndo, indo se sentar no banco do piano. Os três olharam para o Relicário no centro do chão da sala.
— Ophidia... — começou Elisa.
—... Heid — completou Glaux.
— Quem é Ophidia Heid? — perguntou Nícolas.
— Foi uma maga das trevas que viveu há oitocentos anos. Ela iniciou um reinado de terror no norte da Europa que ameaçou se espalhar por todo o continente. Ophidia parecia invencível — respondeu Glaux voltando a sua forma habitual, conseguindo mascarar seu susto.
— Eu já li sobre ela antes — disse Elisa — Mas ela não foi derrotada há oito séculos?
— Derrotada sim, destruída não. O que aconteceu é que Ophidia foi aprisionada nesse Relicário — e Glaux apontou para a joia — Seu espírito malévolo está selado no Relicário. Mas ao contrário do que esperava Selene, esse repositório não conseguiu aprisionar os poderes dela. E Ophidia teve muito tempo para aprender a usar seus poderes fora do Relicário.
Nícolas retomou a voz:
— Ophidia... Selene... poderes... — Nícolas disse cada palavra mais alta que a anterior — Que droga é isso tudo? O que uma bruxa mais velha que a roda tem haver comigo? Porque Helena teve que sofrer tanto? E só para que eu beijasse a Elisa?
Ele recobrou não só a voz como a atitude. De repente ele sentia uma raiva descomunal. O que tudo aquilo tinha a ver com seu namoro?
— O espírito de Ophidia está preso no Relicário, mas ela descobriu que poderia possuir o corpo de alguém se tivesse tempo para influenciar essa pessoa e dominar sua mente, pedaço por pedaço. O grande problema é que mesmo essa magia poderosa tem seus limites. E dominar a mente de alguém exige que seja pela própria vontade...
— Quem aceitaria ser dominado? — gritou o rapaz.
— Conscientemente, ninguém. Mas as pessoas se esquecem que a mente das pessoas é dividida em duas: a mente consciente, que usamos quando acordados, e a mente inconsciente, que usamos quando dormimos. Esta última é a parte mais profunda da pessoa e contém todos os seus medos e segredos, todos os desejos inconfessáveis. Elisa não aceitaria conscientemente ser dominada, mas Ophidia estava em seus pensamentos, em seus sonhos, cercando sistematicamente toda a vontade e insinuando que ela teria o que mais desejava se perdesse parte da própria mente. Não foi o trabalho de um só dia. Ophidia tem influenciado Elisa desde que nasceu, controlando sua vida e seus sentimentos, impedindo que Elisa tivesse qualquer pensamento original. Manipulando-a e dominando-a. Para finalizar, Ophidia só precisava que o desejo secreto de Elisa se realizasse e mesmo que sua mente consciente continuasse a bloqueá-la, Ophidia poderia finalmente dominar uma parte da mente inconsciente de Elisa. E assim aconteceu.
— Um simples beijo libertou a bruxa da prisão?
— Sim e não. Ophidia Heid não foi libertada. Ela continua presa no Relicário. Mas agora ela pode possuir Elisa quando quiser, graças ao beijo. E assim deve ficar, pois Ophidia não vai permitir seus planos sejam impedidos. Vocês tem que continuar com a aparência se não quiserem que Helena congele.
— Congele? Do que está falando? — disse Elisa. O que ela ouvia era horrível! Então toda sua vida tinha sido controlada. Quem sabe até a morte de seus pais fazia parte dos planos de Ophidia.
— Helena está congelando até a morte por causa de uma hipotermia. A única coisa que a impediria de morrer era se eu viesse aqui e te beijasse — falou Nícolas ainda com uma nota de raiva.
Elisa parecia que estava em choque de novo. Ela olhou para Glaux, que estranhamente desviou o rosto, sem conseguir encarar a protegida face a face.
— Bem, está feito. Ophidia conseguiu o que queria — disse Elisa num sorriso constrangido — Você pode voltar para Helena.
— Não funciona assim — Glaux se levantou e olhou diretamente de um para o outro — Para manter o controle sobre o inconsciente de Elisa, Ophidia precisa que as coisas continuem exatamente como estão. Mesmo que seja falso, o namoro de vocês dois tem que manter as aparências. Helena fica curada, mas sozinha. E se ela suspeitar que Nícolas não está realmente namorando Elisa, o frio retornará. E acreditem em mim quando digo: Ophidia não se importa com a vida de ninguém. Ou fazem o jogo de Ophidia Heid ou sofram com as consequências.
Elisa estava se sentindo cada vez pior, como se uma tonelada estivesse sendo depositada em seus ombros.
— E todos aqueles sonhos que eu tive? Todos tão fortes com se fossem reais. Foi Ophidia também? — perguntou Nícolas.
— Sim. Os poderes mentais de Ophidia são muito grandes. Vocês têm sido manipulados discretamente por ela desde que chegamos. É como usar uma lupa concentrar a luz do sol para fritar formigas. Nem é necessário estar perto fisicamente, apenas concentrar os poderes para realizar a tarefa á distância. E ela nem precisou fazer muita força, o universo já tinha preparado o ambiente perfeito. Você, Nícolas, ficou tão fascinado com a beleza de Elisa que criar aquele sonho foi muito fácil. Helena nunca tivera um namorado, então ninguém poderia saber como ela é ciumenta. Ophidia só precisou realçar o que vocês já sentiam para que as coisas acontecessem exatamente como ela queria.
Glaux parou para tomar fôlego.
— Acha que Ophidia controlou Helena para ela dar um ataque de ciúmes e até dar-lhe um tapa? Não. Ela não precisou. Helena já sentia tudo aquilo, Ophidia só precisou dar um pequeno empurrão e pronto: a garota explodiu o que realmente sentia. Pois é isso que Ophidia faz, ela extrai seus piores pensamentos e os usa contra você. Eu só tenho um conselho para dar: não lhe deem motivos para que ela se irrite com vocês.
Glaux se encaminhou para a porta.
— Vou fazer o jantar — e saiu da sala.
Nícolas se levantou para sair, mas parou à porta.
— Nada disso estaria acontecendo se você não tivesse vindo para essa cidade. Todos estariam mais felizes.
Ele não disse isso com raiva, mas a frieza de sua voz poderia ter causado uma hipotermia na garota. Ele saiu sem nem olhar para trás e Elisa cobriu o rosto com as mãos.
O dia seguinte amanheceu claro e radiante como sempre. Um raio de sol conseguiu passar pela fresta da janela e alcançar o rosto adormecido de Adelfo. De certa forma, quando abriu os olhos, ele se sentiu alegre por ter sido acordado por um raio quente e aconchegante em sua cama. Enquanto alongava os braços e pernas, e sentia a sensação gostosa que seguia isso, ele notou o irmão no lado escuro do quarto.
Adelfo reparou no relógio digital luminoso na cabeceira, não eram nem sete horas da manhã. Nícolas estava com aquele olhar de novo, sério e pensativo. Ele não gostava de ver o irmão assim.
— Bom dia!
Nícolas continuou quieto, um dos braços passado debaixo da cabeça, o olhar fixo no teto. Era difícil compreender o que se passava na cabeça do irmão. Ultimamente Nícolas tem estado numa montanha russa de emoções. Primeiro o fascínio por Elisa, depois o inesperado namoro com Helena e agora toda a questão Éris. Onde o irmão estaria hoje: subindo ou descendo?
Nícolas dormira pouco. Então ele perdeu o sono as cindo da manhã e passou as duas horas seguintes ensaiando as palavras cruéis que seria obrigado a dizer. Ele não estava com pressa, ele tinha tempo. Nícolas sabia que Ophidia manteria sua parte do acordo e faria a hipotermia desaparecer, mas Helena fora internada no Rio de Janeiro, então levaria alguns dias para ela voltar para casa. Ou pelo menos era o que esperava.
— Que mundo é esse que me faz querer que ela não volte.
Uma das primeiras frases completas que o irmão dissera em dias e Adelfo não entendeu nem uma palavra. Qual seria o problema dele?
— Qual o seu problema?
Adelfo sentou na cama e esperou uma resposta, mas foi em vão. Ele não pareceu nem ter escutado.
— Nic? Nic?
— Ah... Adelfo, desculpe. Eu estava distraído. Bom dia!
Adelfo não disse nada. Seja o que fosse que o irmão estava enfrentando, não era algo que quisesse discutir. Se quisesse, Nic falaria com ele.
Nicolas talvez passasse a Sexta-Feira inteira assim, se não fosse pelo telefone. Às nove horas da manhã ele ainda estava na cama quando ouviu o telefone tocar no andar debaixo. Então ele ouviu os passos na escada e a mãe abriu a porta do quarto trazendo o telefone sem fio.
— É Helena, ela quer falar com você.
Nícolas pegou o telefone, mas esperou a mãe deixá-lo sozinho para responder:
— Alô!
— Nícolas, oi! Eu estou muito melhor. Desculpe ligar tão cedo. Ah, bom dia! Hahaha! Desculpe, tinha esquecido de dizer bom dia — Helena parecia estar muito animada.
O rapaz não sabia como dizer. Ele sabia o que deveria dizer, mas será que não seria melhor ao vivo? Não. Tinha que ser agora, ele não aguentaria encarar Helena nos olhos para lhe dizer aquilo.
— Nic?
— Que bom que você melhorou, Helena. Já está em casa?
— Não, estou internada ainda. Os médicos querem mais exames porque eles não sabem o que eu tive. Mas eu consegui usar meu celular escondido da enfermeira. O que aconteceu? Sua voz está estranha...
— Então você está mesmo melhor? Completamente saudável?
Helena percebeu um tom de preocupação urgente na voz do namorado. Engraçado como nesse momento essa preocupação a acalmava: ela estava doente, então estar preocupado era mais normal que o tom frio de antes e foi com uma grande animação que ela respondeu:
— Sim! Muito melhor. Na verdade, eu nem me lembro do que aconteceu. Eu fui dormir normalmente na minha cama e então acordei aqui com uma enfermeira olhando pra mim.
— Eu quero terminar — ele disse secamente.
Houve um silêncio profundo de ambos os lados da linha.
— Porque Nícolas? Por quê? O que eu fiz? Não fui eu que tranquei a Elisa. Eu juro! Mas mesmo assim, não pode terminar comigo por causa disso. Não pode! Não!
— Não é só aquilo, é tudo. Mas principalmente, porque você não é mais a mesma. Eu não posso namorar uma Éris. Acabou Helena, acabou!
Ele ouviu soluços altos de choro pelo telefone.
— Sinto muito, mas tem que ser assim. Espero que possamos ser amigos. Mas não podemos ser namorados. Adeus!
Nícolas desligou o telefone e não aguentou: caiu de volta na cama, o rosto escondido no travesseiro e chorou. Toda a dor que o afligia desde aquele sonho macabro, passando pelo medo que sentira ao tocar pele gélida de Helena e o terror quando Ophidia se mostrou, estava tudo naquele choro. Ele tinha passado anos sonhando com Helena. Anos querendo se declarar... anos sonhando com o momento que chamaria Helena de namorada... e acabou antes mesmo de completar uma semana.
Começou inesperadamente e acabou inesperadamente.
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