O Relicário
16 Capítulo 16 - Um Futuro Sombrio
Notas iniciais
ELISA DORMIU QUASE O DIA TODO daquela Quarta-Feira fatídica, em parte pelo choque e em parte pela misteriosa poção. Glaux velou seu sono às vezes passando o vidrinho novamente perto do nariz da sua protegida. Diferente de sua frieza habitual, Glaux tinha um olhar preocupado e parecia que quando ninguém a observava, esta britânica fria de criação, demonstrava que ela tinha muitos sentimentos por Elisa. O dia inteiro Glaux cuidou dela como uma mãe faria. Nesses momentos ela se perguntava como teria sido se tivesse tido filhos. Mas seus caminhos deixaram de trilhar esse destino há muito tempo. Ela nunca seria mãe, mas nem por isso ela não teria filhos. Elisa era sua protegida desde bebê e ela continuaria a cuidar da garota.
Nícolas estava desnorteado com toda aquela confusão. Ele não sabia como a história sobre a fobia de Elisa se espalhara pela cidade. Ele tentou falar com Helena, mas a garota simplesmente não queria vê-lo. Ela não queria ver ninguém.
Nícolas voltou para casa num estado de completa incerteza. Ele queria estar ao lado da namorada, mas ela própria não queria isso. Foram anos tentando se aproximar dela e agora era o momento em que eles deveriam ficar mais unidos. Nicolas via isso nos treinos do seu pai: quando um time estava perdendo era fácil se desintegrar. Mas se o time que perdia conseguisse se unir e superar a crise, eles estariam muito mais fortes na vitória. Assim devia ser com a Helena. Se eles pudessem ficar juntos e superar todos esses problemas, então seu namoro ficaria mais forte e poderia sobreviver a qualquer coisa.
Helena pensava diferente. Ela não estava com raiva de Nícolas, e nem o culpava de nada. Mas nesse momento ela só queria ficar sozinha. Depois da emoção toda mais cedo, Helena pedira que Astride fosse embora e a filha do prefeito passou o resto do dia no seu quarto, sem falar com ninguém. Incrivelmente ela não tinha nenhum pensamento. Sua mente estava vazia para toda raiva ou tristeza.
Naquela noite Nícolas estava acabado. Era como se tivesse jogado sem parar por horas seguidas. Mas o peso que sentia nos ombros era ainda mais pesado. Para alguém com um senso positivista sobre a vida, tantas coisas ruins acontecendo uma atrás da outra, lhe tirava toda tranquilidade. Ele não queria culpar Helena, mas como não conseguia inocentá-la, o rapaz acabava pensando no pior. Mas como Glaux dissera trancar Elisa foi mais uma infantilidade do que uma maldade e também não tinha como Helena saber do trauma de Elisa então se sua namorada era mesmo culpada, ele poderia perdoá-la.
Adelfo percebeu o estado do irmão e não tentou fazê-lo falar. Ele gostava de Helena e se considerava seu amigo, mas com todas as provas contra ela, Adelfo tinha que admitir que a considerava culpada. Sendo assim, deixou que o irmão ficasse em silêncio.
Nícolas teve dificuldade para conciliar o sono. Seus pensamentos pareciam uma orquestra desafinada com dezenas de músicos, cada um tocando uma música diferente numa enorme cacofonia ensurdecedora. E quando finalmente dormiu, ele teve um sonho mais perturbador que o último. Num piscar de olhos, Nícolas deixou de ver o seu quarto e de repente ele estava completamente acordado, de pé na rua vazia.
Era noite. A cidade estava deserta. Nenhuma luz nas casas nem nos postes. Ele olhou para cima e viu as estrelas por um instante. Mas logo as estrelas desapareceram uma a uma, como lâmpadas que se apagam de repente e o céu ficou completamente escuro. Estranhamente, ainda havia luz para que Nícolas enxergasse a cidade em puro breu. Havia uma névoa verde brilhante pairando sobre toda cidade, no céu e nas ruas. Não era uma neblina comum. Nícolas andou pelas ruas de pedra, seus passos não produziram som algum. Ele continuou andando sem saber aonde ir, mas também sem querer ficar parado.
Virando uma esquina ele chegou à praça ou pelo menos ele reconheceu a silueta de alguns dos bancos de pedra, mas todo restante estava coberto com uma neblina tão densa que nada mais poderia ser visto.
Então ele ouviu. Era uma voz potente como se a pessoa estivesse ao lado, mas não havia ninguém. Nícolas teve um pressentimento que a voz vinha da névoa. Não, ele não achou que a pessoa estivesse escondida na névoa, ele teve o estranho pensamento de que a voz vinha da própria névoa. Como se toda aquela neblina não fosse apenas vapor de água, mas uma entidade pensativa. A voz era feminina, mas não tinha o calor de nenhuma mulher que ele conhecia. Ele pensou em Glaux, mas não. Até Glaux soava com certo calor apesar da inexpressividade. Era cruel. Sim! Era isso. Era uma voz cruel. Cruel como o medo que paralisa o coração e invade a alma.
Nícolas não era um cara profundo e nem filosófico. Era assim que ele se sentia. O corpo paralisado, o suor frio. Um arrepio percorrendo a espinha por causa da voz. Um medo desconhecido como ele nunca sentira antes. De repente ele teve medo enorme de morrer, como se a voz pudesse matá-lo usando apenas palavras.
Por causa do medo, no início ele não entendia o que a voz dizia. Depois de algum tempo os sons foram ficando mais claros e ele entendeu. Eram as mesmas palavras, repetidas diversas vezes.
A chama se apaga e o frio cresce,
o calor se esvai e a morena fenece.
O calor do seu abraço não tem poder,
Nem seus lábios podem a ela aquecer.
O fogo logo se perderá enfim,
e a morena certamente verá seu fim.
Quanto mais gelado você for,
Mais ela recobrará seu calor.
A flor de ouro você deve buscar,
E em seus braços se deleitar.
A flor te espera nesse instante,
Com cabelos de ouro brilhante.
Encontre os lábios de ouro sem demora,
Não espere mais nenhuma hora.
Agora decida o que mais importa:
Manter a morena feliz, mas fria demais,
Ou manter o calor para que ela viva mais.
Decida, decida, decida.
DECIDA!
Nícolas queria muito acordar, mas não conseguia e muitas e muitas vezes ele ouviu aquelas palavras. Quando acordou, Nícolas sentiu a cama confortável debaixo de si e apenas essa sensação já o acalmou. Mas o medo não abandonou o coração, que batia muito rápido como se quisesse pular do peito. Mas mesmo acordado ele continuou ouvindo aquelas palavras.
“Agora decida o que mais importa: manter a morena feliz, mas fria demais, ou manter o calor para que ela viva mais”.
Nícolas não entendeu direito o que significava esse sonho, mas ele tinha certeza de uma coisa: eram palavras cinzentas com a mais sombria das premonições.
Helena estaria em perigo? Não, claro que não. Foi só um sonho. Ela estava bem. Ele já tivera um sonho estranho antes, mas ele teve um sentido contrário. Ele sonhou que beijara Elisa, mas acabou beijando e namorando Helena. Então se no sonho Helena estaria em perigo, então era Elisa quem tinha que tomar cuidado. Mas o que adiantava se preocupar agora?
Nícolas tentou se acalmar para voltar a dormir. Mas seu sono foi tão leve que apesar de ter podido dormir, ele não conseguiu descansar.
Na manhã seguinte Nícolas se levantou devagar como se seu corpo fosse feito de chumbo e as juntas dos braços e pernas estivessem duras e enferrujadas. Ele acordou antes de Adelfo e se vestiu em silêncio. Quando o irmão começou a se espreguiçar, Nícolas passou pela porta e a fechou atrás de si.
Nícolas tinha pressa. Ele nem esperou o café da manhã. Passou direto pela cozinha e saiu pela porta dos fundos. Com passo rápido, mas sem correr, ele percorreu o trajeto até a casa dos Colúber como um bombeiro em busca de um incêndio. Tocou a campainha tentando sorrir para não preocupar ninguém e esperou.
A empregada que veio abrir a porta, no entanto, parecia aflita:
— Ah, Nícolas. Achei que fosse o médico...
— Médico? Como assim?
— Minha menina, minha pobre menina...
Sem esperar por uma resposta direta, Nícolas passou pela empregada, subiu a escada quase correndo e abriu com violência a porta do quarto da namorada.
Helena estava quieta em sua cama como se dormisse, coberta com diversos edredons quentes. O prefeito estava ao lado da filha com uma expressão séria. Nícolas se aproximou do outro lado da cama e pegou na mão de Helena: estava fria como gelo.
— O que ela tem? O que aconteceu?
— Eu não sei. O médico da cidade veio mais cedo e disse que ela está com hipotermia.
Nícolas ergueu a cabeça para Henrique.
— O que?
— Hipotermia é quando a temperatura do corpo cai abaixo do normal. É o oposto de uma febre, que eleva a temperatura. Mas a hipotermia acontece apenas em regiões frias quando a pessoa é exposta ao ambiente gelado. Eu liguei para um médico especialista do Rio de Janeiro, mas ele está demorando. Isso tudo é tão estranho!
Nícolas ouviu de novo as palavras do sonho e sem que pudesse contê-la, uma lágrima quente escorreu pelo seu rosto e caiu na mão fria de Helena:
“A chama se apaga e o frio cresce, o calor se esvai e a morena fenece”.
Nícolas beijou sua pele pálida e áspera de frio, e pensou:
“Que futuro sombrio espera a todos nós quando pesadelos se tornam reais!”.
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