— Desaparecimentos — Meggan -

“Vocês já sabem para onde vamos quando morremos, mas conhecem a história da criação do mundo? Ah… Talvez seus pais já tenham contado alguma coisa, mas garanto que não contaram com tantos detalhes quanto um frade. Não fiquem com essa cara de curiosidade, relaxem, eu vou contar agora, este é o propósito do nosso encontro de hoje.”

“Como vocês sabem, nosso criador, o que chamamos de Deus, fez todos as coisas do universo, incluindo vários mundos. Ele cuidaria de todos esses outros mundos. Imagine só você tendo que cuidar de tantos mundos? Infinitos mundos? Dá muito trabalho né? É por isso que Deus criou os seus filhos, sete entidades que seriam responsáveis por cuidar de um mundo, o primeiro mundo de todos os mundos, o mundo onde habitariam seres inteligentes, nós. No entanto, não foi Deus que arrumou o nosso mundo e nos criou, ele deu o mundo ao seus sete filhos e deixou para eles este serviço. Eles deveriam criar um bom mundo para nós, nos criar, enquanto Deus ficaria responsável por todos os outros.”

“As entidades escolheram cada uma seus nomes, eles eram Ergo, Shura, Eva, Noah, Ivy, Zerat e Eiva. Vocês conhecem bem esses nomes, são os nomes que colocamos também na divisão das nossas terras. Eu poderia explicar sobre isso, mas eu sou um frade e não um governador, então essa parte vocês terão que descobrir de outra forma, eu não saberia falar ela com tantos detalhes. Voltando… Onde eu estava? Ah sim, o nome das entidades. Querem saber como elas criaram o mundo como o vemos? É a minha parte favorita da história da criação.”

“O mundo foi dado aos sete completamente limpo, sem nada. Apenas um espaço vazio pronto para criação. Deus passou seu poder para as entidades, então elas poderiam criar tanto quanto ele. A primeira que deu um passo a frente foi Eva, dizendo que a vida que eles iriam criar precisavam de um lugar para viver, um chão para pisar, uma superfície para moldar. Eva criou a terra, o solo, os minerais. Shura foi a segunda a se pronunciar, dizendo que algo precisava ser a fonte da vida, algo que todos os seres vivos precisariam para sobreviver sem exceção. Shura criou a água, os rios, os lagos. Noah, em seguida, disse que os inteligentes precisariam de algo como as entidades, algo que eles nunca iriam ver, mas que estava ali e era imprescindível para a vida. Noah criou o ar, os ventos, não podemos ver, mas precisamos respirar. Noah é deveras inteligente, não acham?”

“O seguinte foi Ergo, considerado a primeira entidade a ser criada por Deus. Ergo criou o fogo, dizendo que precisava criar algo belo e útil, mas também destrutível e assustador. O fogo lembraria aos inteligentes que a cautela sempre deveria ser tomada, que as escolhas têm consequências, que tudo pode ser bom ou ruim, dependendo de como é usado ou compreendido. Com o mundo parecendo em ordem, Ivy criou a vida. As plantas começaram a crescer, os animais a surgir, e nós, os inteligentes, também. A todos os seres vivos foi dado o dom da reprodução, para que o legado da criação nunca deixasse de existir. Zerat observou que, mesmo sendo muito bom o mundo que criaram, ele não era infinito como eles ou Deus eram. Num momento ele ficaria lotado, por isso, Zerat criou a morte, esta que viria a acometer cada ser vivo sem exceção. Por fim, Eiva observou o mundo com olhos analiticos e percebeu que algo precisava o mover, tudo precisava de um início, um meio e um fim. Equilíbrio. Eiva fez o mundo girar e criou os dias e as noites, e por consequência, criou o tempo.”

— Foi assim que o nosso mundo foi criado. Alguma pergunta?

O frade certamente não esperava que a juventude atual seria tão curiosa. Foram tantas as perguntas que o fizeram que ele, em sua elevada idade, não iria conseguir se lembrar de todas, ainda mais faladas ao mesmo tempo. “Porque falam que existem monstros?”, “Quem foi que criou os monstros? Foi Ivy também?”, “E Hassan, ele não é uma entidade?”, “E os guerreiros das entidades?”. O frade não se lembraria de todas as perguntas, mas Meggan captou a maioria delas. Junto aos jovens de quinze aos dezessete anos estava a sua irmã, Emília, mais chamada por Emy. Meggan tinha prometido a Emy que as duas caminhariam juntas para a casa naquele dia depois das lições de caça que Meggan receberia do pai das duas, um homem chamado Charlie.

Meggan suspirou, pelo visto esse encontro iria durar mais um pouco, os jovens não iriam desistir até o frade contar mais sobre as lendas. O rosto sereno do ancião olhava os jovens com confusão. Aquilo só iria demorar mais se Meggan não falasse logo o que os jovens queriam.

— Eles querem saber sobre Hassan e os guerreiros.

— Ah sim, Hassan e os guerreiros. Um ótimo assunto.

O frade disse com alegria, ele amava contar histórias sobre as entidades. Claro, ele escolheu dedicar a sua vida ao templo, cultuando a entidade que mais o apetecia. No caso dele era Eva, estavam nas Terras de Eva e aquele era só um dos vários templos de Eva. Meggan se escorou num dos pilares, não acreditando que iria ter que ouvir essa lenda mais uma vez. Cética como era nessa parte da história, não gostava muito de ouvir, por isso mesmo chamava de “lenda”. O que ela não fazia pela irmã? Essa era a pergunta que passava por sua cabeça quando o frade começou a contar.

“Muitos anos se passaram, todos os anos que conhecemos ser a era da prosperidade. Foi a era desde a criação do mundo até a era dos monstros. Foi uma era onde os seres humanos, nós, prosperaram, aprenderam a cultivar, a criar animais, a usar o fogo e a roda. As entidades sempre estão nos observando, mas duas delas observavam mais do que as outras. Ivy e Zerat são os mais dedicados, uma vez que criaram a vida e a morte, duas coisas constantes em nosso mundo, que precisam sempre ser renovadas, assim como são as gerações. Ivy e Zerat, observando os humanos, aprenderam com eles o que era o amor, se apaixonando. É, nem as entidades são isentas do amor.”

“O amor que tinham era tão grande que eles queriam fazer o mesmo que faziam os humanos, criar um descendente. Foi isso o que fizeram, criaram um filho, um filho com o poder da vida e da morte, seu nome foi Hassan. Hassan não é uma entidade, mas também não é um humano qualquer, pois ele tinha parte do poder de seus pais. Ele podia viajar entre o mundo e o universo, podia descer aqui e ficar conosco ou subir e ficar com seus pais, observando de cima. Infelizmente, Hassan não entendia muitas coisas sobre o mundo. Ele não entendia como seus pais conseguiam amar da mesma forma ele e os seres humanos, porque nós éramos imperfeitos demais, fazíamos erros, brigavamos entre nós mesmos por motivos fúteis. Ivy e Zerat, por seres os mentores da vida e da morte, sempre tinham um perpétuo trabalho para com o mundo, com o tempo, Hassan começou a ficar com ciúmes.”

“Apesar de ter os poderes de seus pais, Hassan não deixava de ser uma criação, ele não era isento de cometer erros. Hassan nunca tinha usado os seus poderes para além de viajar entre o mundo e o universo, mas um dia ele resolveu criar uma vida cujo objetivo seria causar a morte. Ele criou o primeiro monstro que invadiu o nosso mundo. O monstro era implacável, ninguém conseguia destruí-lo, nem mesmo os mais astutos caçadores ou os mais nobres guerreiros. Quem deu um fim ao monstro foi Zerat, causando-lhe a morte, mas também infligindo a primeira lei das entidades, jamais interferir no mundo criado. Zerat foi perdoado, afinal, estava apenas corrigindo o erro de seu filho. O mesmo não aconteceu com Hassan, que foi condenado a vagar pelo universo sem mais qualquer tipo de contato com qualquer mundo.”

“Não foi um destino muito cruel, Hassan ainda poderia vagar pelo universo e ficar com seus pais. As demais entidades o pouparam por o considerarem, afinal, ainda era filho de Ivy e Zerat, e os dois o amavam bastante. No entanto, Hassan foi tomado pelo ódio por ter sido castigado. Aos seus olhos, as entidades apenas continuavam a proteger seres estranhos e errôneos, seres que não eram dignos do mundo que as próprias entidades tinham feito. Hassan viajou para o mundo mais uma vez e ficou escondido por mais de mil anos. As entidades acreditavam que ele tinha ido para longe, querendo encontrar Deus. Hassan passou todos esses anos criando monstros, quando tinha o suficiente para dizimar os humanos, ele libertou todos os monstros de uma só vez. Eram incontáveis., pessoas começaram a morrer aos montes por conta dos ataques. Nem mesmo Zerat conseguiria causar a morte de todos antes que os monstros acabassem com os humanos, pois a arte da morte não se tratava de um simples estalar de dedos. Hassan levou anos para criar os monstros, Zerat não conseguiria os destruir em poucos segundos.”

“A situação era tão calamitosa que as entidades decidiram intervir no mundo para consertar mais um erro do filho de Ivy e Zerat. Cada um deles criou uma arma que seria capaz de destruir um monstro, aqueles que fossem escolhidos para empunhar tais armas seriam conhecidos como guerreiros das entidades. O guerreiro de Ergo usaria uma espada, assim como os guerreiros de Shura e Noah. O guerreiro de Eva usaria um arco e flecha. O guerreiro de Zerat uma lança, o de Eiva, sais, e o de Ivy usaria um bastão. Ivy era a única entidade que não criou uma arma letal, mas apenas de defesa, ela é a entidade da vida, afinal. Os guerreiros das entidades, junto das mesmas, que desceram ao mundo, combateram os monstros por anos, anos estes que ficaram conhecidos como a era dos monstros. Ao terminarem, deixaram a função de proteger o mundo aos guerreiros e voltaram ao universo. Estava na hora de enfrentar Hassan.”

“Por mais que fosse difícil para Ivy e Zerat, as entidades decidiram usar seus poderes para selar Hassan na mais cruel das prisões. Era isso ou a morte, Ivy, como mãe, não suportaria perder o seu filho. A prisão de Hassan era um lugar onde Hassan não poderia mexer um músculo, onde não poderia ver, ouvir, sentir ou cheirar. Uma prisão onde Hassan só teria os próprios pensamentos até enlouquecer numa eterna solidão. No entanto, dizem que ainda existem monstros. Dizem que Hassan, com seu poder, conseguiu criar uma brecha em sua prisão e continua a fazer monstros para pôr no mundo. Um após um, ele tenta, mas tais monstros são mortos pelos guerreiros das entidades.”

Meggan comemorava que a história finalmente tinha terminado. Para a sua tristeza, no entanto, lá estavam os jovens fazendo mais trocentas perguntas ao frade, que dessa vez pediu que uma fosse feita de cada vez.

— Quem são os guerreiros? — perguntou um dos jovens.

— Ora, não sabemos. Existem pessoas céticas que dizem que eles nem sequer existiram.

O frade olhou para Meggan e ela o encarou de volta sem pudor. Ele sabia que Meggan era cética. Monstros não existiam, tudo aquilo não passava de lendas para justificar os acontecimentos do passado. A chamada era dos monstros deveria ser a era da praga. Foi por isso que pessoas morreram aos montes, doenças, só isso. Ao menos, era a teoria de Meggan.

— Você já viu um monstro, frade Leroy? — Emy perguntava.

— Monstros não existem Emy. Vamos embora, o sol já está se pondo. — E de fato estava.

Emily entendeu o recado e percebeu a irritação de Meggan, se despedindo do frade brevemente. Meggan esperava ir embora sem uma frase de sermão, mas é claro que não poderia faltar. Frade Leroy sempre dava sermões em Meggan pela sua falta de crença nos guerreiros, nos monstros, nos demônios.

— Um dia você ainda virá a minha porta perguntando mais coisas sobre os guerreiros, Meggan.

— Vai sonhando.

E com isso, Meggan retirou-se do templo com a sua irmã. Meggan não tinha tanto respeito pelo frade quanto os demais no vilarejo, ela preferida tratar Leroy como um amigo. O frade poderia ser um chato com todo aquele seu papo sobre as lendas, mas ele era ótimo para dar conselhos.

Seguindo por uma das várias trilhas do vilarejo, Meggan e Emily caminhavam lado a lado, indo para a casa. No horizonte, o sol soltava os seus últimos raios, dando lugar a noite. Várias pessoas do vilarejo já tinham começado a acender suas tochas e lamparinas.

— Como foi a caçada com o pai? — Emily perguntou.

— O mesmo de sempre. Ele ainda não quer me levar para longe. Ser mulher e ser caçadora não é fácil. — Meggan suspirou.

— Se ele está demorando com você, imagina comigo. Aliás, porque você não acredita nos guerreiros?

— Quero a prova da existência deles, quem sabe assim eu acredito.

— Você não precisou de nenhuma prova pra acreditar que as entidades existem.

— Sério Emily? Guerreiros que protegem a humanidade de monstros que ninguém nunca viu? Onde estavam eles quando a nossa mãe morreu?

A mãe das garotas tinha morrido quando Meggan tinha quatro anos e Emily um. Emily não tinha nenhuma memória sobre a mulher, já Meggan tinha algumas, embora vagas e quase desaparecendo. É verdade, uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Os tais guerreiros devem combater os tais monstros e não salvar mulheres adultas de serem atacadas por ursos. Ainda sim, Meggan queria algo ou alguém para culpar, não iria culpar o pai delas, tão pouco o urso. Não fazia sentido algum, mas não precisava fazer sentido, apenas confortava-lhe o coração pensar de tal forma.

As irmãs continuaram o caminho sem pronunciar uma palavra. O assunto sobre a mãe era sempre complicado demais para ser conversado. Vozes só voltaram a ser ouvidas quando Meggan percebeu alguém na trilha. Hermet Wistel, um dos dois ferreiros mais bem conceituados do vilarejo, estava pregando um pedaço de papiro num tronco de árvore. Curiosa a respeito, Meggan se aproximou. Muitas pessoas pregavam papiros assim nos troncos que eram trabalhos para caçadores. O pai ensinou as duas filhas a sempre olhar, todo trabalho era importante para o sustento da casa.

— Hermet, o que está pregando? — Meggan perguntou

— O mesmo de sempre Meggan, o mesmo de sempre. — Ele falou frustrado.

— Ninguém mais aceitou?

— Ninguém.

A mulher de Hermet tinha desaparecido dias atrás. Todos já sabiam disso no vilarejo. Já no primeiro dia ele pregou papiros nos troncos procurando caçadores que encontrassem a sua mulher. Não demorou para alguns aceitarem o ofício. O contado pelo vilarejo era que os rastros denotavam que a mulher do ferreiro tinha sido arrastada para a floresta, de acordo com os rastros deixados na propriedade. Mesmo depois de dias, muitos dias, nenhum caçador que foi na busca da mulher de Hermet tinha retornado. Hermet estava visivelmente abatido com isso, mas insistia em atrair mais caçadores, uma recompensa alta estava sendo paga para quem encontrasse a desaparecida, viva ou morta.

— Todos já sabem que quem vai procurar ela não volta. Nenhum caçador mais quer essa busca. Estou quase indo eu mesmo. Eu sei que não tenho nenhum conhecimento de sobrevivência, mas estou cansado de esperar.

— Eu posso falar com o meu pai, ele voltou ontem de uma caçada em outra vila. Ele ainda não sabe sobre os rumores, posso garantir.

Charlie era um homem fechado e não era fã das fofocas. Meggan poderia parecer uma boa samaritana, mas ela mais queria a oportunidade de ir caçar numa caça real. Seu pai dizia que não a levaria para longe, mas que os próximos trabalhos que fossem nos arredores do vilarejo onde eles moravam poderia até ser. Meggan era uma caçadora, amava isso, foi isso que seu pai a ensinou. Ele não a levava para caçadas longínquas ou mais perigosas com a desculpa de “você é muito jovem”. Totalmente besteira. Meggan já tinha vinte anos, tudo aquilo era porque ela era mulher e seu pai ainda a via como frágil. Meninos caçadores de dezoito anos já saem com seus pais para caçadas maiores. Meggan não aguentava mais esperar. Como iria continuar a aprender a ser uma caçadora melhor se seu pai não a levava para caçadas mais importantes? Era uma ótima oportunidade poder achar a mulher de Hermet, além de estar fazendo uma boa ação, poderiam ganhar a recompensa e Meggan provaria seu valor.

— Ficaria muito agradecido Meggan. Agora preciso ir… Pregar mais papiros.

Hermet foi até o próximo tronco. Ele tinha tido muito trabalho escrevendo todos aqueles papiros um a um.

— A senhora Wistel não foi a primeira. Você sabe. Ela já é a terceira, sem contar os caçadores que não voltaram.

— Deve ser outro urso. O da nossa mãe levou quatro pessoas antes de levar ela.

— Ou um monstro.

— Francamente Emily, não se deixe levar pelo papo do Leroy, são só lendas.

— Frade Leroy. Muitas pessoas acreditam nas “lendas”, você é minoria. — Emily corrigiu.

— Eu vou continuar chamando ele de Leroy. São lendas sim.

E até chegarem em casa, as irmãs não pararam de discutir pelo restante do caminho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.