O Reino

4 Capítulo 3


Notas iniciais
Não tenho muito a declarar. Boa leitura!


Fui acordada as 7:00 horas em ponto para começar a me aprontar. Clarissa e Rose já haviam preparado o meu banho, e depois de 15 minutos, ele terminou. Elas passaram loções corporais em meus braços e pernas, e depois disso, secaram o meu cabelo e o prenderam em uma trança elaborada de lado.

Ouvi batidas em minha porta e sabia que era a Doutora Santiago. Tenho diabete tipo 1. Meu pâncreas não produz insulina, então doses são aplicadas em seringas na minha barriga, e era esta doutora que iria aplicar para mim na minha estadia no palácio de Meyer. Quase ninguém sabe disso. Para o meu pai, é muito importante a imagem. Não só eu, mas todos nós da corte francesa temos que parecer perfeitos.

— Bom dia, Alteza— cumprimentou.

A cumprimentei de volta com um sorriso. Clarissa e Rose insistiram e ficaram no quarto para auxiliar no que precisasse. Levantei parte da minha blusa, deixando a mostra boa parte do meu abdômen. A doutora aplicou aproximou a seringa perfurando a minha pele.

Choraminguei um pouco. Por mais que fosse uma picada de nada, aquilo me incomodava. E o fato de ter um pouco de pavor de agulhas não ajudava.

Durou questão de minutos, e logo eu já havia recebido a insulina.

— Obrigada— agradeci.

— Não foi nada, Alteza.

Ela fez uma última reverência e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.

Depois disso, Clarissa e Rose voltaram a me preparar para o dia. Escolhi um dos vestidos que eu havia trazido da França. Ele era verde e possuía alguns detalhes em dourados com duas mangas curtinhas. Era um de meus preferidos, e muito, muito confortável. Optei por um sapato de salto baixo branco, bem simples. Por último, Clarissa correu em minha mala e pegou uma das coroas que lá estavam. Repousou cuidadosamente em minha cabeça e finalmente, eu estava pronta.

— Não vai querer usar nenhuma joia?— Rose perguntou, vendo eu me afastar da penteadeira.

— Não, e se pudesse, nem usaria essa coroa. Mas você sabe, meu pai não aprovaria essa atitude— respondi.

Clarissa e Rose se entreolharam confusas. Eu sabia que, além dos guardas me protegerem, eles levavam algumas informações para o meu pai. Isso era óbvio. E se eu fizesse algo de errado, provavelmente seria descoberta em pouco tempo.

— Bom, me desejem sorte— pedi, enquanto abria a porta para sair do quarto.

— Boa sorte!— disseram em uníssono.

Não pude evitar o riso. Era engraçado o fato de serem tão sincronizadas.

— Bom dia, Alteza— disse Seth ao mesmo tempo que fazia uma reverência.

Os outros guardas o imitaram, e assim que terminaram, sorri em agradecimento. Juntos, fomos até o vestíbulo do alto da escadaria esperar pelas outras garotas. Danbi e Madeleine já estavam lá, enquanto as outras ainda estavam se aprontando.

— Há quanto tempo estão esperando aqui?— perguntei, me sentando ao lado delas no sofá.

— Acabamos de chegar— Danbi respondeu.

— Espero que as outras não demorem muito— disse Madeleine, checando as horas em em relógio pendurado na parede.

Assenti, também não queria ficar esperando muito pois estava com fome.

Comecei a analisar as garotas para me distrair. Madeleine usava um vestido salmão com um saia de tule. A costa era aberta e a parte de cima era bordado em forma de rosas. Seu cabelo castanho estava preso em um coque e a maquiagem era leve. Já Danbi usava um vestido azul tiffany de renda, e a sua saia tinha bastante volume. Seus olhos puxados estavam bem destacados com uma sombra marrom, e os seus lábios finos encontravam-se pintados de rosa claro. Assim como Madeleine, ela estava linda.

Aos poucos, as selecionadas chegavam. As últimas a chegar foram Nicola e Skylar, que pareciam mais árvores de natal de tão produzidas que estavam. Percebi que quase todas olhavam para mim, se viravam e cochichavam. Eu poderia ignorar igual ao dia anterior, mas ainda assim, sentia certo desconforto.

— Por que estão me encarando?— sussurrei para Danbi e Madeleine, que estavam bem ao meu lado.

— Talvez elas estejam um pouco inseguras pelo o fato de você ser princesa— Danbi sussurrou de volta apontando para a minha coroa.

Suspirei. Parecia que isso seria um problema enorme durante toda a Seleção. Será que elas não entendiam que era o príncipe que fazia as escolhas e não eu?

— Não importa. Não pretendo ficar muito tempo— resmunguei, porém não baixo o suficiente para que Danbi ouvisse.

— Como?

— Não pretendo ficar.

Continuamos a andar, e durante um bom tempo. Ela não disse nada.

— Eu te entendo. Você já é princesa. O que para nós é um sonho para você já é uma realidade— disse, mas não me encarava.

— Nenhuma de nos conhece o príncipe. Como sabe que é uma pessoa boa? Como sabe que é alguém que você irá querer passar o resto da vida? Se entregar para ele desse jeito me parece estupidez— exclamei, tentando acompanhar seus passos rápidos.

Ela parou de andar, e então, ficamos nos duas para trás. O resto das selecionadas nos desviavam e continuavam o caminho.

— Não conheço. Mas assim como todos acho que ele merece uma chance. É o mínimo que podemos fazer— falou.

A sua postura impecável somado ao seu olhar rígido se transformavam em esculturas gélidas. Danbi não era nada como imaginava que fosse. Ela continuou a caminhada e me deixou na companhia da minha guarda no vasto corredor. Balancei a cabeça em negativa. Não estava tão disposta a largar as minhas ambições em funções das ambições de outra pessoa. Pelo menos, poderia fazer parte da Elite, mas 90% de mim acreditava que eu não iria acabar essa Seleção com um anel no dedo. Os outros 10% eram que o meu pai faria de tudo para que quando voltasse, trouxesse a coroa de Meyer comigo.

Cassandra nos conduziu pelas escadas até que chegássemos no primeiro andar. Os saltos batiam no piso de mármore reluzente e formavam uma pequena melodia sincronizada. Os cochichos ainda não haviam cessado, mais Madeleine me distraia de qualquer incomodo.

Em vez de entrarmos na sala de jantar para fazermos a nossa primeira refeição do dia, fomos levadas até o grande salão que estava arrumado com fileiras de mesas individuais. Pousado graciosamente, haviam talheres, copos e pratos em todas as mesas, mas nenhuma comida. Imaginei que seriam as aulas de etiqueta. Me cansava só de pensar no tempo gasto que isso levaria.

Não haviam lugares marcados, então me sentei no fundo, nas últimas mesas. Fui companhia por Madeleine. Sabia que agora, nos éramos uma dupla. Iria ser bom ter um apoio em meio a tudo isso.

— Não acredito que teremos aulas de etiqueta— Madeleine reclamou— Eu sou péssima nisso!

Estranhei, aliás, o seu modo de agir era digno de uma princesa.

— Se eu não estivesse com fome talvez aproveitasse um pouco— falei, fazendo com que ela gargalhasse.

Cassandra bateu um livro na mesa para que chamasse a nossa atenção. O múrmuros acabaram, e todos fixaram os seus olhos nela.

— Olá mais uma vez, senhoritas. Espero que estejam todas confortáveis em suas novas acomodações. Hoje é o nosso primeiro dia de trabalho, e iremos começar a toda vapor. Ensinarei a vocês como se comportarem como verdadeiras damas, pois uma de vocês, será a nossa nova princesa. Será um processo que durará todo o tempo que passarem aqui. Não toleraremos nenhum mau comportamento, e saibam que se isso ocorrer, será imediatamente reportado a família real— explicou, fazendo com que todas as garotas estremecessem.

Revirei os olhos.

Super, c'était tout ce dont j'avais besoin— murmurei. (Tradução: Ótimo, era tudo que eu precisava).

— É importante que tenham modos a mesa, e antes de fazerem a primeira refeição na presença da família real, terão a sua primeira aula. Entendem uma coisa, quanto mais rápido terminarmos, mais rápido poderão tomar o café da manhã— finalizou.

Me endireitei na cadeira. Cassandra começou a explicar que seríamos servidas pela direita, qual talher deveríamos usar em cada prato, e que nunca, jamais deveríamos pegar um pedaço de bolo com a mão. Aquilo não era novidade para mim, então fiz tudo normalmente. Fiquei feliz ao ver que as outras selecionadas também estavam indo bem. Estava louca para comer um croissant! Já iria comentar isso com Madeleine quando alguém bateu na porta.

Todos os olhares se viraram para a porta quando Cassandra disse:

— Alteza!

Isso foi o suficiente para que todas arrumassem os cabelos, os vestidos e tudo que pudesse ter saído do lugar. O príncipe entrou no grande salão, e ficando na frente das fileiras, cumprimentou Cassandra.

— Me permite atrapalhar a sua aula?— ele perguntou, com um sorriso na face.

— Claro que sim, Alteza.

Isaac se virou em nossa direção e os seus olhos azuis percorreram todo o grupo de selecionadas, até que parou em mim, lançando um bonito sorriso.

— Bom dia, senhoritas. Sei que ainda não tivemos a oportunidade de conversarmos, mas pretendo mudar isso agora mesmo. Chamarei cada uma para um encontro individual, espero que assim possamos nos conhecer melhor. Estou ciente de que todas estão com fome, então começaremos neste mesmo instante.

O príncipe chamou a primeira garota da primeira fileira, e quase que imediatamente, senti um alívio enorme por ter sentado no fundo.

A sala inteira permaneceu em silêncio até que o príncipe e a garota (que descobri ser Kylie Campbell) se sentaram em um sofá. Depois disso, os cochichos recomeçaram.

— O que você acha que ele irá perguntar?— Madeleine perguntou, se inclinando para que eu pudéssemos ouvir.

— Conhecendo o que conheço sobre príncipes, talvez ele nem consiga conduzir uma conversar com uma garota— retruquei.

— Isso não pode ser verdade!— exclamou, rindo.

— Certa vez conheci um que ficou desesperado quando uma garota ameaçou chorar— contei, me lembrando do dia no jardim.

Madeleine parecia uma criança. Gargalhava como se eu tivesse contado a melhor piada do mundo. Talvez não risse tanto as soubesse que eu estava falando de Isaac.

Não sei o motivo, mas comecei a ficar ansiosa. Enquanto via as meninas voltarem sorridentes de seu "encontro" com o príncipe, eu me perguntava o que ele dizia para elas. Eu não queria estar participando da Seleção, mas se fosse expulsa, eu não sei o que o meu pai faria. Mesmo não querendo admitir, eu sentia medo do que poderia fazer.

Quando vi Madeleine voltar radiante para a sua mesa, meu estômago se embrulhou. Agradeci mentalmente por nos deixarem sem comida.

Isaac caminhava em minha direção, e quando chegou perto fez uma reverência. Fiz o mesmo gesto, e em silêncio, caminhamos para o sofá. O encarei um uma ou dias vezes recebendo os olhares de volta.

— Você parece nervosa— ele disse.

— Eu pareço muitas coisas, mas nervosa não é uma delas— retruquei, mas me arrependi no mesmo instante.

Assim que ele sorriu, me tranquilizei. Ainda era o mesmo príncipe do jardim.

— Tudo bem, irei começar de novo. Você está bonita, Alteza.

Revirei olhos e Isaac sorriu. Era a sua intenção me ver irritada. De repente, a sua expressão ficou séria, e os seus olhos ficaram opacos por um momento.

— Me desculpe pelo que disse no jardim. Sei que isso pode ser difícil para todos nós.

Assenti com a cabeça. Não poderia dizer que não havia me afetado na hora, mas agora, não fazia muito diferença.

— Vou lhe propor um acordo— ele disse, mudando de assunto.

Levantei o rosto, o encarando. Meu corpo foi consumido pela curiosidade.

— Um acordo?— perguntei.

Isaac pareceu pensar duas vezes nas próximas suas palavras.

— Sim. Sei que a senhorita não tem nenhum interesse em vencer essa competição, e é de conhecimento geral o quanto fico ocupado com assuntos do país. Talvez fosse mais fácil se tivesse alguém dentro da Seleção. Algo como um espião.

Estreitei os olhos, mas não pude evitar um sorriso malicioso.

— E este "espião", o que ele faria?— indaguei.

— Muitas garotas só estão aqui pela coroa, não sou ingênuo ao ponto de não perceber isso. Queria que me contasse quem são, e que me ajudasse a fazer a escolha certa. Minha confidente, talvez?

— Ah, estou ciente disso. Mas... Confidente? Como melhor amiga?— perguntei, com animação.

— Sim. Melhor amiga. O que acha?

— Eu acho que você está no caminho certo, meu caro.

Notas finais
Espero que tenham gostado meus amores. Comentem para eu saber o que acharam, sim? Beijos ♥