O Rei e o Valente
18 Pedras No Caminho
Notas iniciais
Sebastian havia viajado assim como prometido. Durante a madrugada o guarda saiu, dizendo que tinha problemas pessoais para resolver e que tinha a autorização de seu rei para tirar alguns dias de descanso. Ciel não tinha autoridade para muitas coisas, mas ao menos podia dar folga ao seu guarda sem que alguém o repreendesse ou algo do gênero.
O fato de Sebastian ser guarda pessoal de Ciel era realmente muito conveniente. Ciel era rei, Sebastian seu guarda pessoal. A proximidade que existia entre eles era necessária e aos olhos de quem estava de fora isso era completamente normal e apenas profissional. Se Elizabeth não tivesse surgido na vida de Ciel, o guarda e o rei poderiam sem dúvida alguma manter um romance secreto e não teriam que fugir, pelo menos não por enquanto.
O que acontece de incômodo é que os dois nunca teriam paz de verdade. Um rei por mais sem autoridade que seja ainda tinha que manter as aparências. Não seria normal que Ciel envelhecesse e continuasse solteiro e sem filhos. Quem seguiria com a família Phantomhive? Quem seria o próximo rei?
Elizabeth tinha culpa nos problemas dos dois, mas não dava para dizer que a culpa era somente dela. Ciel e Sebastian teriam tranquilidade durante mais tempo se lady Elizabeth não houvesse aparecido, mas de uma forma ou de outra os problemas apenas seriam adiados. Não importa para onde se olhe. Mais cedo ou mais tarde as incômodas pedras surgiriam no caminho dos dois.
Durante o tempo em que Sebastian estava fora, Ciel teve que se contentar em ficar sozinho, sem ter com quem dormir e sem poder desabafar sobre as conversas irritantes que tinha com Elizabeth. Ciel ficava inquieto, andava por todo castelo, tentava ler, mas era como se não houvesse um lugar confortável para si. Era como se tivesse desaprendido a viver como antes.
O rei havia voltado até mesmo a sonhar com a morte de seus pais, algo que há muito não acontecia. A carruagem, a estrada cheia de neve, os cavalos visivelmente abatidos, todos os inúmeros detalhes que seu sonho lhe dava e que nunca tinha visto realmente. Ciel estava no castelo quando a carruagem de seus pais caiu naquele despenhadeiro e mesmo assim sonhava com a morte deles. O garoto havia pensando tanto nisso e sofrido por tanto tempo que de alguma forma seu cérebro recriava o acidente em sonhos.
Os três malditos e longos dias haviam passado. Sebastian prometera voltar pela manhã, mas já passava do meio dia e nem sinal do guarda. A neve caia insistentemente lá fora, o que com certeza atrapalharia a volta de Sebastian. Ciel começava a sentir a impaciência chegando, e passou quase a manhã toda olhando pela janela de seu quarto.
Elizabeth apareceu para chamar o rei para o café da manhã, mas Ciel achou melhor manter distancia da garota. O rei havia dormido mal durante a noite e Sebastian ainda não tinha voltado, logo sua paciência estava mínima naquele momento. Ciel não conseguiria sorrir e ser gentil. Não conseguiria fingir interesse por nada do que Elizabeth dissesse e então acabaria sendo grosseiro sem nem ao menos perceber.
O garoto sabia que estava cedo demais para preocupações, mas não conseguia evitar. Ciel não estava acostumado a fazer planos e o que o atormentava era a possibilidade de as coisas não saírem como esperado. O rei não estava acostumado a ter companhia, a se sentir protegido próximo de alguém e o medo de que algo atrapalhasse era quase palpável.
— Ciel? – Elizabeth chamou animadamente, enquanto batia na porta.
Ciel soltou um suspiro de desânimo e apenas continuou parado, esperando que Elizabeth fosse embora.
— Ciel, eu sei que você está ai! Posso entrar?
— Tenho dor de cabeça. Não é uma boa hora, Elizabeth.
— Você não desceu para o café da manha e nem para o almoço. Eu lhe trouxe chá e bolo. Abra a porta!
Elizabeth se tornava cada vez mais insistente. A convivência maior que tinha com Ciel só fazia com que a garota se sentisse livre para importunar o rei a todo o momento.
— Tudo bem. Entre.
Ciel acomodou-se na cama, o cobertor cobrindo suas pernas e os olhos fechados, como se realmente estivesse sentindo alguma dor. Elizabeth rapidamente entrou, trazendo consigo uma pequena bandeja.
— Você se sentirá melhor depois de um chá! E o bolo está realmente delicioso!
O rei respirou fundo e lutou contra a vontade imensa que tinha de mandar Elizabeth embora. A garota estava apenas sendo gentil e Ciel sabia disso, mas em certos momentos até mesmo a gentileza se torna irritante.
— Não tenho fome. Traga apenas o chá – Ciel falou.
Elizabeth levou a bandeja até Ciel e serviu para ele uma xícara de chá. O garoto sorveu a bebida quente, sentindo o corpo se aquecer por dentro.
— Obrigado.
— O que aconteceu hoje? Você passou o dia todo trancado neste quarto.
Elizabeth puxou uma cadeira e sentou-se próximo a cama de Ciel. A garota com certeza não tinha pressa em sair dali.
— Não se incomode. É apena uma dor de cabeça. – Ciel falou, olhando para o liquido em sua xícara.
— Entendo, mas talvez seja melhor comer algo. Eu sempre tenho dor de cabeça quando fico sem tomar café da manhã e isso pode estar acontecendo...
— Não precisa se incomodar. – Ciel interrompeu Elizabeth. —Eu sei que não é fome, tenho certeza de que estarei melhor em breve.
A garota suspirou entendendo que não adiantaria insistir. O ambiente parecia tenso e o rosto de Ciel se tornava cada vez mais inexpressivo. Elizabeth não era tola a ponto de não perceber o clima incômodo, mas era tola o suficiente para continuar ali mesmo sabendo do desconforto que pairava no ar.
— Faz tempo que não vejo o Sebastian. Aconteceu algo com ele?
— Não sei dizer.
— Ele é seu guarda pessoal, vocês são absurdamente próximos. Como seria possível que você não soubesse dizer onde ele está, ou o que acontece com ele?
Ciel encarou Elizabeth por alguns instantes, tentando imaginar o que a fizera tocar naquele assunto justo agora. Será que ela sabe de algo? Ciel pensou.
— Tenho muitos guardas. Você se surpreenderia se eu lhe dissesse que não sei da vida de todos eles? Ou acha que procuro saber o que acontece a todos?
— Sabe muito bem a diferença imensa que existe entre Sebastian e todos os seus outros guardas, mas deixemos esse assunto para outra hora. Sua tia viaja hoje.
Ciel pensou em perguntar a Elizabeth sobre os motivos que ela tinha para estar tão interessada em Sebastian, mas percebeu que seria um erro. Elizabeth sem dúvida alguma não diria a verdade e poderia soar suspeito questionar demais sobre o assunto. O rei então seguiu com o assunto da melhor maneira possível.
— Para onde minha tia viajaria logo agora que faltam poucos dias para o casamento?
— O vestido que ela vai usar precisa de ajustes e a costureira em que ela confia fica um pouco longe daqui. Ah! Você devia ver o quanto ela ficou linda naquele vestido vermelho. – Elizabeth suspirou e depois sorriu.
— Seria melhor pedir para que algum empregado fosse no lugar dela.
— Ela disse que precisava fazer compras e então aproveitaria para arrumar o vestido.
— Entendo. Elizabeth, eu sinto muito, mas tenho que pedir para que saia. Minha dor de cabeça piora a cada instante, acho melhor dormir um pouco.
— Que pena! Eu gostaria tanto de continuar nossa conversa! Sua tia virá aqui em breve. Até mais tarde.
Ciel abriu um sorriso discreto e Elizabeth lhe sorriu de volta, saindo logo em seguida. A bandeja com o bolo foi deixada, segundo ela para o caso de Ciel mudar de ideia. O rei pronunciou um falso agradecimento e então Elizabeth se foi.
O silencio que se formava no quarto era reconfortante. Ciel realmente se deitou, mas não foi capaz nem sequer de fechar os olhos. Elizabeth lhe pareceu diferente e estranhamente segura e o fato da garota questionar sobre Sebastian deixou Ciel mais aflito ainda. O rei não podia demonstrar insegurança, pois para todos os efeitos Elizabeth não sabia da fuga e caso falasse demais a garota poderia suspeitar de algo.
O rei ainda tinha apreço por aquele castelo, mas depois de tanto conviver com Elizabeth tudo o que Ciel queria era sair dali de vez e deixar tudo para trás. Ciel começou então a pensar em como seria a fuga, como seria a vida fora dali e isso lhe causou um agradável frio na barriga.
Angelina passou no quarto de Ciel algumas horas depois e se despediu do sobrinho dizendo a ele o mesmo que Elizabeth já havia dito mais cedo. Ciel se despediu com um abraço e dizendo a tia para que não se demorasse ou perderia o casamento. Casamento que tinha tudo para dar errado, mas isso com certeza não foi dito a ela.
Depois disso Ciel não foi mais incomodado e depois de tanto pensar, de tanto imaginar como seria sua nova vida e de tanto temer o que poderia dar errado o garoto adormeceu, sentindo a cabeça começar a doer. Enquanto dormia, Ciel sonhou com os pais, sonhou com Sebastian e também com Elizabeth. Um sonho mais confuso que o outro.
Ciel dormiu por pouquíssimo tempo e ao anoitecer foi novamente incomodado por Elizabeth. Os dois jantaram juntos, com direito a velas acesas e a um irritante clima de romance imposto pela garota. O jantar foi o mais longo da vida de Ciel e a vontade de soprar aquelas velas e de derrubar as malditas rosas vermelhas no chão era deveras grande. O rei teve que ser forte para resistir.
Elizabeth divagou sobre vestidos, sobre o casamento, sobre a vontade que tinha de ter filhos e novamente afirmou a certeza que tinha de que seria muito feliz ao lado de Ciel. O garoto ouviu a tudo em silencio, sorrindo e acenando com a cabeça. Elizabeth não parecia se incomodar com o silencio de Ciel e dessa forma o jantar seguiu até tarde da noite.
Quando finalmente pôde voltar para seu quarto tudo o que Ciel encontrou foi o silencio e a enorme cama vazia. O rei olhou em volta como se esperasse encontrar Sebastian ali e então andou até a janela. A lua brilhava no céu, e o vento forte balançava os pinheiros. Várias horas haviam passado e o atraso de Sebastian se tornava cada vez mais preocupante.
Ciel se distraiu criando teorias incômodas sobre o atraso de Sebastian. O rei estava distraído a ponto de não perceber quando a porta se abriu. Sebastian andou com cuidado, procurando não fazer barulho e aos poucos se aproximou de Ciel.
— Esperando por mim? – Sebastian falou, envolvendo os braços no corpo do garoto.
— Você está atrasado! – Ciel exclamou.
— Eu sei. Tive problemas com a carruagem durante o caminho.
Sebastian afastou um pouco os braços, dando espaço para que Ciel se movesse. O garoto virou de frente e novamente abraçou Sebastian. O tecido da roupa do guarda estava úmido e frio, mas o abraço não deixou de ser aconchegante por conta disso.
— Você chegou agora?
— Cheguei há cerca de dez minutos.
Ciel levantou a cabeça e passou a olhar Sebastian nos olhos. O guarda parecia cansado e seus olhos estavam marcados por olheiras. Sebastian abraçou Ciel com mais força ainda e aos poucos se abaixou. O guarda sorriu e então beijou Ciel. O rei rapidamente correspondeu ao beijo, pensando em como sentira saudade daqueles lábios. Ciel estava cada vez mais dependente de Sebastian e isso fazia com que a personalidade arrogante do garoto mudasse.
— Precisamos conversar. – Sebastian falou usando um tom sério.
— Não me diga que algo deu errado.
— Com relação a fuga está tudo certo.
Sebastian acompanhou Ciel até a cama. Ambos se sentaram e então Sebastian começou a falar. O guarda parecia apreensivo e falava lentamente como se tentasse poupar Ciel de algo. O rei prestou bastante atenção em cada palavra que ouviu, seu rosto tomando uma expressão de tristeza.
— Como isso pode ser verdade? – Ciel questionou, sendo atingido pelo desespero.
— Não sei. Eu apenas estou te dizendo o que descobri. Eu acho que não é a melhor hora para lhe contar isso, mas eu não seria capaz de lhe esconder algo assim.
— Eu preciso resolver isso agora!
Ciel se levantou e rapidamente andou até a porta, mas foi parado por Sebastian assim que encostou a mão na maçaneta.
— Como acha que pode resolver isso? Existe a possibilidade de que tudo o que me contaram seja uma grande mentira. Não temos provas, Ciel! É horrível descobrir algo assim, mas, por favor, não faça nada por impulso. Eu te prometo que resolveremos isso, mas por enquanto seja forte.
O rei virou-se e bruscamente abraçou Sebastian, apertando-o contra si com extrema força.
— Eu não serei capaz de esperar, Sebastian. Não com isso entalado em minha garganta. Como você pode pedir que eu espere?! É impossível ignorar algo assim.
— Eu sei o quão difícil é. Não estou dizendo que é fácil. Pode parecer frieza de minha parte, mas sejamos racionais, tocar nesse assunto agora não levará a nada.
— Eu não sou capaz de fingir mais. Eu preciso saber se isso é verdade.
— Não será necessário esperar. – Sebastian respondeu enquanto tentava acalmar Ciel.
O guarda levou Ciel de volta para a cama com muita dificuldade. O rei acomodou-se na cama e Sebastian deitou ao seu lado. O guarda contou a Ciel tudo em que havia pensado, tudo o que havia planejado e ao fim Ciel concordou em ser forte e racional, mesmo que seu interior gritasse por respostas.
Fale com o autor