O Rei e o Valente
6 Não Sei O Que Fazer
Notas iniciais
O rei estava cada vez mais envolvido pelo clima do momento, deixou-se levar pelas caricias do guarda e encontrou naqueles lábios um aconchego que nunca sentiu antes, como se cada toque lhe passasse segurança e tranqüilidade. O ar começava a faltar nos pulmões de Ciel, o garoto precisava respirar, mas não se atreveu a tentar se separar do guarda. Os braços do rei abraçavam Sebastian, as mãos segurando o tecido da roupa do guarda com força.
Por um momento Ciel pensou ter ouvido um barulho, abriu os olhos lentamente e então sentiu o coração palpitar ao ver Sebastian ali, tão próximo. O rei chegou até a se esquecer do barulho que ouvira e voltava a fechar os olhos quando percebeu que a porta do quarto se movia. Ciel sentiu o desespero tomar conta de si e então empurrou Sebastian. O guarda se assustou com a separação inesperada.
— Tem alguém na porta Sebastian!
O guarda levantou da cama e Ciel fez o mesmo, o garoto ficou parado próximo a cama enquanto Sebastian se aproximava da porta. Sebastian saiu em direção ao corredor e então Ciel o seguiu, mas ao chegar lá ninguém foi visto. O rei temia que alguém pudesse ter visto os dois naquela situação. Ciel entrou no quarto, deixando Sebastian do lado de fora. O rei trancou a porta e então encostou-se nela.
— Abra a porta Ciel! – Sebastian falou, batendo na porta.
— Vá embora Sebastian!
O guarda pensou em bater na porta até que Ciel a abrisse, mas o pouco de racionalidade que ainda restava o lembrou de que fazer um escândalo no castelo só pioraria a situação e Ciel jamais o perdoaria se alguém os visse daquela maneira. Sebastian decidiu que por hora a melhor opção era ir embora.
Ciel sentou-se ali mesmo, no chão, as costas ainda apoiadas na porta, a cabeça repousada sobre as mãos. O rei sentia ódio de si mesmo por ter cedido, por não ter se livrado de Sebastian, estava mortalmente arrependido. Mil hipóteses surgiam em sua mente. E se alguém nos viu? Por Deus, eu sou o rei! O que irão pensar de mim?
— A porta estava apenas encostada e não havia ninguém no corredor. Ninguém nos viu. – Ciel sussurrou, tentando se acalmar.
O garoto respirou fundo e então se lembrou com clareza das sensações que aquele beijo causara em seu corpo. Tocou os lábios com os dedos, ainda sentindo o toque da boca de Sebastian sobre a sua. A sensação era boa, isso era inegável. Ciel estava com o orgulho ferido, mesmo em meio ao desespero o orgulho do garoto ainda falava mais alto.
Como vou olhar para Sebastian de agora em diante? Preciso arrumar outro guarda o mais rápido possível, pensou Ciel. O rei pensava em se livrar do guarda, mas lá no fundo havia uma pequena parte de si, procurando qualquer desculpa, por mais tola que fosse, para manter Sebastian como guarda.
Ciel levantou-se e foi em direção a sua cama, o dia já estava quase amanhecendo. Deitou-se , afundando nos cobertores que cobriam a cama, queria apenas dormir e esquecer todos os acontecimentos daquela maldita noite. O rei sabia que a noite seria problemática, mas jamais imaginou que seria tão problemática assim.
Ciel acordou especialmente tarde naquele dia, mexeu-se preguiçosamente na cama, o corpo doía. O rei nunca dormira tão mal em sua vida, não conseguiu esquecer Sebastian sequer um instante, sonhou com o guarda a noite toda. Dormir apenas parecia ter trazido mais cansaço e indecisão.
Ainda pensava em se livrar de Sebastian, mas acabou percebendo ao acordar que demitir o guarda não seria a melhor solução. A demissão do guarda traria perguntas que Ciel não gostaria de responder e além do mais isso daria a Sebastian a certeza de que o beijo havia afetado Ciel de alguma maneira.
O rei decidiu então que seria frio, que iria ignorar Sebastian e fingiria que aquele beijo nunca aconteceu. Ciel não queria dar a Sebastian o gostinho de vê-lo assim, tão confuso. O garoto terminou de se vestir e então saiu de seu quarto, tentando convencer a sua mente de que aquele beijo não significara nada.
Ciel desceu as escadas, apreensivo. Tinha a incômoda impressão de que todos direcionavam olhares estranhos a ele. Fique calmo Ciel! Os empregados não sabem de nada, pensou. Achou estranho não ver Elizabeth e nem Angelina na mesa de refeições, mas só então se lembrou que a hora do café havia passado há muito tempo. Chamou um dos empregados e pediu para que servissem algo para comer e então se sentou à mesa.
Terminou calmamente sua refeição achando estranho o silencio que tomava conta do castelo. Sabia que a tia não havia ido embora ainda e muito menos Elizabeth, mas decidiu não procurar por elas, tinha coisas demais perturbando sua mente e tudo o que menos queria era perder tempo discutindo com alguém. Subiu as escadas indo em direção ao seu quarto e em frente a porta de seu quarto encontrou com a ultima pessoa que queria ver naquele momento.
— Precisamos conversar, Ciel.
— Não, não precisamos Sebastian. – Ciel, falou entrando em seu quarto.
Ciel tentou fechar a porta deixando Sebastian para trás, mas não conseguiu. O guarda entrou seguindo Ciel e trancando a porta logo atrás de si. Sebastian queria ter certeza de que ninguém os incomodasse naquele momento. O rei se afastou de Sebastian tentando manter uma distancia que julgasse como segura.
— O que você quer aqui, Sebastian?
— O beijo de ontem...
— Por tudo que é mais sagrado, esqueça o que aconteceu ontem!
— Eu não posso!
— Sim, você pode. Eu quero esquecer aquele maldito beijo que você me deu e te proíbo de tocar nesse assunto outra vez, fui claro?
Sebastian se aproximou de Ciel, prendendo o corpo do garoto contra a parede. Ciel virou o rosto tentando não manter contato visual.
— Eu não quero fingir que nada disso aconteceu, Ciel.
— Não quer, mas vai!
– Ciel... Olhe nos meus olhos e diga que o que aconteceu ontem não mexeu com você sequer um pouco.
Ciel continuava com o rosto virado, não queria olhar nos olhos de Sebastian. Tinha medo de ceder novamente, de não resistir ao guarda, de não saber o que fazer.
— Eu sou homem, sabia? Homem! E ainda por cima seu rei! Você entrou no meu quarto e me beijou sem mais nem menos, como acha que eu me senti? Confuso? Estranho? Com nojo?
Sebastian se afastou de Ciel assim que ouviu a palavra nojo ser proferida.
— Nojo? Desculpe-me, mas nojo não combina em nada com as suas reações de ontem à noite.
Ciel engoliu seco, sentindo a face esquentar. O rei tinha total consciência de que suas reações em momento algum representaram nojo ou mesmo incômodo. Ciel sequer sabia como responder a afirmação de Sebastian, então apenas ficou em silencio, ainda evitando olhar nos olhos do guarda.
— Não tem resposta para isso, não é?! – Sebastian, falou ao ver Ciel em silencio.
— Apenas vá embora Sebastian.
Sebastian se aproximou de Ciel mais uma vez, mantendo seu rosto próximo ao do garoto.
— Eu não desisti dessa conversa ainda e nem de você. Se nojo foi realmente o que sentiu e se não me quiser por perto, me demita. Caso contrário eu me sentirei livre para continuar indo atrás de você.
O guarda abraçou Ciel com força, mas o garoto não correspondeu ao abraço, ficou apenas parado na mesma posição em que estava. Sebastian se abaixou e o beijou de leve nos lábios antes de sair do quarto. O rei sentou-se na cama, as palavras de Sebastian ecoavam em sua cabeça. “Se não me quer por perto, me demita.” “Eu não desisti de você.”
— Eu preciso demiti-lo, eu preciso! Não tem como isso dar certo. – falou encostando a cabeça em seu travesseiro.
Ciel nunca estivera tão confuso quanto estava agora, sentia até mesmo falta da sua vida monótona e sem acontecimentos, pois pelo menos assim não tinha que se preocupar com nada. Sabia que a solução estava em suas mãos, bastava apenas demitir o guarda petulante, mas por algum motivo não conseguia e de certa forma também não queria.
Continuou a pensar em alguma solução e em algum momento se pegou pensando em como seria sua vida, se aceitasse os sentimentos do guarda. E se eu o quiser também? E se ficarmos... Assustou-se ao perceber onde seus pensamentos o estavam levando. Talvez fosse cedo demais para decidir algo, talvez fosse melhor deixar o tempo passar e assim quem sabe tudo se resolvesse.
– É isso, eu vou esquecer esse assunto, ao menos por enquanto.
Um mês. Bastou apenas um mês para que minha vida se tornasse um inferno, pensou. Elizabeth, Sebastian e minha tia, todos conspiram para me deixar louco! Ciel tentava se convencer que as pessoas a sua volta eram culpadas pelo seu inferno pessoal, mas lá no fundo sabia que a culpa era dele, somente dele. O rei poderia se livrar de Elizabeth e da tia quando quisesse, mas mesmo assim nada fez, deixou que as coisas saíssem do controle e mais ninguém, além dele, poderia ser penalizado por isso.
Decidiu que ficaria o resto do dia no quarto, não queria ver mais ninguém naquele dia. Afundou-se novamente nos cobertores e fechou os olhos, sua cama seria sua única companhia pelo resto do dia. Jurou que realmente teria sossego, mas percebeu que talvez estivesse enganado ao ouvir batidas na porta.
— Quem é?
— Sou eu, Elizabeth.
— Elizabeth nos falamos depois. Não me sinto muito bem.
— Mas é importante! – Elizabeth falou com uma voz manhosa.
Ciel levantou da cama bufando de ódio, não queria falar com a garota, mas já que ela insistira tanto abriria a porta para ela e então aproveitaria o momento para despejar seu ódio nela, quem sabe assim se livrasse dela de uma vez por todas.
— O que quer? – Ciel falou rispidamente, ao abrir a porta.
— Posso entrar?
— Sim.
O rei se afastou da porta e então Elizabeth entrou no quarto e sem nenhuma cerimônia se acomodou na poltrona de Ciel.
— Gosto daqui – Elizabeth falou olhando em volta.
— Creio que a senhorita não veio até aqui para observar a decoração de meu quarto. – falou polidamente.
Elizabeth olhou para Ciel com uma expressão estranha. A garota achava as atitudes de Ciel mais azedas do que o normal.
— Eu gostaria de lhe falar sobre o casamento.
— Que casamento, Elizabeth?
A garota olhou para Ciel com uma expressão de quem não estava entendendo nada.
— O nosso.
Ciel estava completamente sem paciência naquele momento, não sabia por quanto tempo agüentaria as ilusões de Elizabeth.
— Nosso casamento? Isso nunca existiu, Elizabeth! Foi apenas invenção sua e da minha tia. Eu nunca concordei com isso.
— Mas... Eu achei que você pudesse mudar de opinião, Ciel. – Elizabeth falou fazendo uma expressão de tristeza.
— Pois é, mas não mudei. – Ciel respondeu rispidamente.
A expressão no rosto de Elizabeth demonstrava que a garota poderia começar a chorar a qualquer momento, mas nem mesmo isso comoveu Ciel. O rei estava, mais do que nunca, decidido a resolver aquela infeliz situação. Antes sofrer agora, do que depois.
— Elizabeth eu sei que você esperava outro tipo de situação ao chegar aqui e peço desculpas por tudo, mas eu não pretendo me casar com você. Eu não quero ser grosseiro, mas minha paciência está por um fio. Sugiro que você me deixe sozinho, antes que veja um lado meu que não vai agradá-la nenhum pouco.
A garota levantou-se da poltrona e foi em direção a porta. Ciel respirou aliviado por finalmente ter dito tudo o que queria à ela, e pensava ter se livrado daquela situação, mas ao se virar viu Elizabeth ainda parada próximo a porta do quarto.
— É por causa dele, não é?
— Não sei do que você está falando Elizabeth.
Elizabeth fitava o chão em silencio, Ciel estava prestes a acompanhá-la para fora do quarto quando a garota se pôs a falar novamente.
— Eu vi tudo! Eu... vi você e o Sebastian... juntos na sua cama ontem.
O coração de Ciel quase parou naquele momento. Então era ela na porta ontem, pensou.
— Esqueça isso, Elizabeth! Nada disso aconteceu.
— Aconteceu sim, e se você não aceitar o casamento eu contarei a todos o que vi!
Ciel jamais esperou que alguém como Elizabeth fosse capaz de chantagem, ele esperava tudo, menos aquilo. Elizabeth sentiu ainda mais certeza do que dizer, ao ver que suas palavras haviam afetado Ciel.
— Você tem até amanhã para se decidir, e se o casamento ocorrer terá meu eterno silencio. E se quiser que eu vá embora, prepare-se para agüentar os comentários em relação as coisas que você faz com seu guarda.
Elizabeth saiu do quarto, deixando Ciel sozinho. A garota que acabara de ameaçá-lo não se parecia em nada com a Elizabeth que havia conhecido dias atrás. Ciel concluiu então que algumas pessoas são capazes de fazer de tudo para conseguir o que querem.
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