O Rei e o Valente
5 Longa Noite
Notas iniciais
Elizabeth e Angelina estavam completamente envolvidas com os preparativos para o baile de mascaras. Os dias passaram com extrema rapidez e o dia do baile já havia chegado, a rotina no castelo estava mais movimentada e barulhenta do que nunca. Os empregados andavam para cima e para baixo, abrindo caixas, limpando as mesas, preparando a comida que seria servida.
O salão de festas do castelo fora aberto pela primeira vez depois da morte dos pais de Ciel. Até então o local estava abandonado e não era aberto nem para ser limpo, mas os empregados já haviam sido encarregados de organizar o local e tudo estava na mais perfeita ordem. Um mês já havia passado e Ciel passou a ter um pouco mais de sossego, a idéia do baile e todo o barulho que a organização dele, causava, ainda incomodavam Ciel, mas o consolo do garoto era não ter que conversar com sua tia e nem com Elizabeth.
O rei desistiu de discutir, deixou o castelo nas mãos da tia, dando autorização para que ela comprasse o que fosse necessário e mexesse no que quisesse. Ciel não queria se envolver na organização daquela festa, não queria decidir sobre nada, queria apenas esquecer que a festa aconteceria. Ciel quis desistir daquilo várias vezes, mas não desistiu e saber que sua tia e Elizabeth iriam embora em breve já fazia tudo valer à pena. O garoto passava a maior parte do tempo em seu quarto ou então na biblioteca, de vez em quando andava pelos bosques que rodeavam o castelo, sempre na companhia incomoda de Sebastian.
Já era quase noite e Ciel sabia que o baile aconteceria naquele dia e por isso mesmo estava relutante em sair de seu quarto. Várias famílias nobres haviam sido convidadas para aquela festa, com um mês de antecedência, e Ciel sabia que teria que conversar com pessoas esnobes e desconhecidas e isso causava um grande desconforto no garoto.
Ciel nunca foi dado a festas, nunca gostou de ambientes cheios e muito menos de ter que manter conversas que julgava desagradáveis, mas mantinha a cordialidade mesmo nessas situações tão desconfortáveis, aprendeu desde cedo a ser cortês com todos, inclusive com as pessoas que não gostava, sua mãe havia lhe ensinado essa lição e o rei fazia questão de seguir o que sua mão lhe ensinara.
Angelina já havia passado no quarto de Ciel para deixar a roupa que o garoto usaria durante o baile. Ciel fora avisado de que precisava descer em uma hora para receber os convidados junto com Elizabeth. Ciel vestiu-se lentamente, sendo tomado pelo desanimo, se pudesse teria saído dali correndo e ido para um lugar sossegado, onde não fosse obrigado a participar de eventos assim. Ciel estava em frente ao espelho penteando os cabelos.
– Mantenha a calma Ciel! Você é o rei, infelizmente, e precisa lidar com isso da melhor maneira possível. – falou tentando se convencer de que tudo daria certo.
Terminou de se arrumar e então colocou a mascara que a tia havia lhe dado. Sua mascara era de um tom roxo quase preto, com alguns detalhes prateados, a mascara lhe cobria os olhos e o nariz. Ciel parou em frente a porta de seu quarto, segurando a maçaneta e então respirou fundo antes de abrir a porta.
Ciel torceu para que não encontrasse com Sebastian, pois sabia que o guarda teria vários comentários inconvenientes para fazer a cerca de sua atual aparência. Ciel se pôs a andar e por sorte não encontrou ninguém, desceu as escadas e foi em direção ao salão. Parou na entrada do local e então olhou em volta, vários convidados já haviam chegado.
Elizabeth notou logo a chegada do rei e então foi em direção a ele. A garota usava um longo vestido azul escuro com detalhes vermelhos, um tom similar ao da roupa de Ciel. A mascara da garota também combinava com a do rei.
— Muitos convidados já chegaram Ciel. – Elizabeth falou animada.
— Eu percebi. – respondeu Ciel.
O rei olhava para a roupa da garota e achou ridícula a idéia de que seu traje e sua mascara fosse tão semelhantes ao dela. Assim pareceremos um casal, pensou. E pouco depois concluiu que a idéia era exatamente essa, que parecessem um casal. Ciel tentou se afastar de Elizabeth, mas a garota o chamou para cumprimentar alguns convidados junto com ela.
— Prefiro ficar por aqui, Elizabeth.
— Mas você não pode Ciel, precisa vir comigo para conhecer as pessoas que estão aqui. E eu prefiro que me chame de Lizzy, assim terão a impressão de que somos um casal.
Ciel não acreditava no que estava ouvindo. Desde quando Elizabeth e Ciel eram um casal? Ciel esperava que sua tia já tivesse esclarecido as coisas com a garota, mas pelo visto nada havia sido esclarecido ainda.
— Prefiro continuar te chamando de Elizabeth. – respondeu Ciel.
— Que seja! – Elizabeth respondeu sorrindo.
Elizabeth envolveu seu braço no de Ciel e então começou a puxar o garoto em direção aos convidados. Ciel desistiu de resistir e então acompanhou Elizabeth, sabia que resistir só tornaria tudo pior do que estava sendo. Ciel teve sua chance de impedir o baile, mas não o fez. Agora já era tarde demais para se passar por incomodado.
Andaram por entre as mesas dando boas vindas a todos, Ciel sorria constantemente. O garoto sequer se lembrava da ultima vez que havia sorrido tanto. Alguns chegaram a perguntar se Ciel e Elizabeth estavam noivos e toda vez que essa pergunta surgia Elizabeth sorria e então começava a andar de novo com Ciel, sem permitir que o garoto tivesse tempo para responder a pergunta que haviam feito à ele
Ciel e Elizabeth andaram por todo o lugar e após muito andar Ciel foi levado a sua mesa que ficava no centro do salão. A mesa estava destinada a Ciel, Elizabeth e Angelina, mas apenas o garoto quis ficar por lá. Elizabeth preferia conversar com os convidados e Angelina sequer havia sido vista por Ciel.
O rei tomava uma taça de vinho, sozinho, aproveitando-se dos poucos minutos de sossego que Elizabeth deu a ele. Olhou em volta, prestando atenção na decoração do lugar. Havia cortinas vermelhas, as toalhas de mesa também era vermelhas, mas de um tom diferente do das cortinas e o local era iluminado por velas. A decoração era simples e bem organizada, nada muito exagerado.
Ciel continuava sozinho em sua mesa e em um dado momento começou a sentir falta da presença de Sebastian. Tinha certeza de que sua tia o havia convidado a comparecer no local, olhou em volta várias vezes até que depois de muito tempo notou Sebastian encostado a uma parede, o guarda estava bem vestido, mas não usava mascara. Ciel passou então a encarar Sebastian inconscientemente e não desviou mais o olhar do guarda, chegou até a se esquecer do que acontecia a sua volta.
— Ele é muito bonito, não acha?!
Ciel se assustou e então virou para o lado tentando identificar de quem era a voz que acabara de ouvir.
— N-Não sei do que v-você está falando. – Ciel falou tropeçando nas palavras.
— Não se preocupe eu vou fingir que acredito.
Ciel olhava para Sebastian com tanto afinco que sequer percebeu que alguém havia se acomodado ao seu lado.
— À propósito quem é você? – Ciel perguntou rispidamente.
— Alois Trancy.
— Continuo sem saber quem você é, Alois.
— Sou apenas um conhecido da sua prima.
— Entendo.
— Quem é aquele homem pra quem você olhava descaradamente?
Ciel conhecia o garoto loiro há poucos minutos, mas já era o suficiente para concluir que o garoto o irritava profundamente.
— Eu não estava olhando para ninguém! – Ciel falou quase gritando.
Alois riu descontroladamente e então se aproximou do rosto de Ciel.
— Pois eu digo que você deveria saber disfarçar melhor as coisas. – Alois sussurrou no ouvido de Ciel.
O garoto loiro se levantou e então saiu, sem dar a Ciel a oportunidade de voltar a falar. Ciel pensou em ir atrás de Alois, mas no fim decidiu que era melhor continuar onde estava. O rei voltou a se concentrar em sua taça de vinho e decidiu que não procuraria mais pelo rosto de Sebastian.
Ciel estava quase terminando de tomar seu vinho quando Elizabeth se aproximou novamente junto com Angelina.
— Ciel eu convidei alguns parentes distantes de sua mãe e eles acabaram de chegar, venha cumprimentá-los.
Ciel levantou-se de sua cadeira e acompanhou as duas mulheres em silencio em direção aos tais parentes e após isso o garoto não teve mais sossego. Passou o resto da noite conversando com parentes que nunca viu antes, sendo questionado sobre o noivado com Elizabeth e andando pelo salão de braços dados com a garota.
Ciel negou o noivado para todas as pessoas que conseguiu, mas sempre ouvia um comentário aqui e ali sobre como os dois formavam um belíssimo casal. E as próximas horas se arrastaram, já era madrugada quando as pessoas começaram a ir embora. Ciel temia que alguém pedisse para dormir no castelo até que fosse de manhã, mas por sorte isso não aconteceu, todos preferiram partir para suas casas.
Elizabeth continuava a se despedir de todos junto com Angelina e Ciel usou a velha desculpa de que não se sentia bem para subir para seu quarto antes de se despedir de todos. O rei saiu discretamente do salão deixando que as duas cuidassem das despedidas. Ciel subiu as escadas rapidamente temendo ser abordado por mais algum convidado inconveniente que não sabia a hora de parar de beber.
Chegou ao seu quarto e só então pôde respirar aliviado. Aquela noite infernal havia finalmente chegado ao fim. O rei tirou seu colete, abriu os botões da camisa que usava, deixando parte do peito nu e então se aproximou de sua cama, sentando-se na beirada.
— Até o fim da semana estarei livre de Elizabeth! – Ciel falou em voz alta.
O garoto deitou-se na cama e só então percebeu o quanto estava cansado, ter andando tanto não o afetava, o que trazia cansaço era o fato de ter lidado com tantas pessoas diferentes em apenas uma noite. Continuava deitado na cama, tentando reunir ânimo suficiente para trocar de roupa, a noite não havia sido fácil e Ciel só desejava dormir.
O rei acabou cedendo ao cansaço, estava quase cochilando, mas foi acordado por batidas na porta. Decidiu não responder, era tarde da noite e não queria conversar com mais ninguém, e se ficasse quieto, quem quer que estivesse na porta acabaria indo embora. As batidas não cessaram, mas Ciel continuou ignorando.
Após alguns instantes as batidas na porta pararam e Ciel jurou que teria sossego, mas percebeu ao ver a porta se abrindo que seria incomodado mais ainda. Sentou-se na cama tentando ver quem tivera a coragem de entrar em seu quarto sem permissão, olhou para a porta e se assustou ao ver que era Sebastian.
— Eu não deixei você entrar, Sebastian.
— Eu sei. – respondeu o guarda.
Sebastian encostou a porta e então se aproximou de Ciel, o quarto estava quase escuro, sendo iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela.
— O que Diabos você quer aqui?
O guarda ficou um pouco em silencio e então sentou-se na cama ficando de frente para Ciel, a poucos centímetros de distancia.
— Vai se casar com ela, Ciel?
— Não, eu não vou. E mesmo que eu fosse. Você não tem absolutamente nada a ver com isso.
— Tem certeza? – Sebastian falou passando a mão no pescoço de Ciel.
Ciel começava a se incomodar com a atitude atrevida de Sebastian. O guarda estava tão perto que Ciel conseguia sentir a respiração dele em seu rosto.
— Você cheira a vinho. – Ciel falou.
— Bebi apenas uma taça.
Sebastian se aproximou mais um pouco e então encostou o rosto no pescoço de Ciel, tragando o cheiro fraco de perfume que o garoto exalava.
— Se afaste, Sebastian! – Ciel gritou.
O guarda continuou parado e então Ciel o empurrou com força, mas o empurrão sequer surtiu efeito. Sebastian ergueu o rosto e então tentou beijar Ciel, mas foi parado pelo tapa que Ciel deu em seu rosto. O guarda ficou de pé outra vez ainda próximo a cama.
— Vá embora daqui, Sebastian! Antes que...
— Antes que?
Sebastian se aproximou novamente e dessa vez segurou os dois braços de Ciel com uma das mãos.
— Um garoto do seu tamanho não tem força suficiente para me afastar. – Sebastian falou próximo ao rosto de Ciel.
– ME SOLTE, SEBASTIAN!
Sebastian passou alguns instantes olhando Ciel de perto com um sorriso largo nos lábios.
— Peço desculpas a lady Elizabeth, mas ela não terá o prazer de ser a primeira a lhe beijar os lábios.
Ciel se preparava para gritar com Sebastian novamente, mas foi impedido. Os lábios de Sebastian estavam grudados nos de Ciel. O garoto não sabia o que fazer, estava sendo atacado por seu guarda, queria sair dali, mas isso não era possível. Era seu primeiro beijo e ainda por cima com um homem. Tentou se soltar várias vezes, mas não conseguiu.
Sebastian beijava os lábios de Ciel devagar, o garoto permanecia com a boca fechada. O guarda passou a língua pelos lábios de Ciel e por fim desistindo de lutar o rei abriu sua boca permitindo que o beijo fosse aprofundado, se assustou um pouco ao perceber que a língua de Sebastian estava à procura da sua. Ciel não sabia o que fazer então apenas seguiu seus instintos, o guarda já havia soltado os braços de Ciel há um certo tempo. O garoto envolveu os braços no pescoço de Sebastian e o guarda puxava o garoto para mais perto.
Aquela altura Ciel já estava completamente envolvido pelo momento e por um instante se esqueceu de que era rei, se esqueceu de Elizabeth, se esqueceu até que odiava Sebastian profundamente. E na cabeça do garoto aquele frio no estomago era causado pelo enorme ódio que ele jurava sentir naquele momento.
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