O Rei e o Valente
7 Inacreditável
Notas iniciais
Ciel dormiu poucas horas durante a noite, estava preocupado demais para conseguir ter um sono tranquilo. Já era quase tarde e ele ainda não havia pensado em nenhuma forma de conseguir se livrar de Elizabeth sem que a garota fizesse um escândalo. O rei não queria ceder a nenhuma chantagem barata, mas também não queria começar um escândalo. Como explicaria o fato de estar beijando seu guarda? Ainda por cima um homem? As pessoas do reino jamais aceitariam isso.
O rei tentou convencer a si mesmo de que não se preocupava com o que os outros a sua volta achavam dele e que ele podia fazer o que quisesse, afinal de contas, ninguém tinha nada a ver com isso. Eu negarei tudo o que Elizabeth disser, pensou. Mas Ciel sabia que não tinha ânimo suficiente para enfrentar Elizabeth e sabia que era mentira, ele se importava com o que os outros pensavam e ligaria se as pessoas do reino falassem dele e sobre o que aconteceu entre ele e Sebastian.
— Que inferno! Todos à minha volta me obrigando a tomar decisões e a seguir por caminhos que eu não quero! – Ciel gritou.
Ciel sentou-se na cama e então notou mais uma vez que a culpa não era exatamente das pessoas a sua volta. Ele poderia ter sido mais decidido e poderia não ter cedido a tudo o que lhe foi exigido. O rei decidiu então que precisava conversar com Sebastian sobre o que estava acontecendo.
Pediu aos empregados que chamassem o guarda, mas lhe foi informado que Sebastian não estava no castelo. Então o rei pediu que o guarda viesse falar com ele assim que chegasse. Ciel continuou em seu quarto, o garoto nem ao menos havia descido para se alimentar, pois sabia que encontraria com Elizabeth e tudo o que menos queria era ver o rosto da garota. Poderia ter pedido para levarem comida em seu quarto, mas naquele momento nem fome o rei tinha.
Ciel andou de um lado para o outro naquele quarto, os minutos pareciam horas. Pensava e pensava, criava mil soluções, mas nenhuma delas parecia suficientemente boa, nenhuma delas parecia capaz de livrá-lo daquela maldita situação. Estava prestes a surtar quando Sebastian chegou.
— Mandou me chamar, jovem rei?
— Eu esperava que você viesse mais rápido. – Ciel falou.
— Eu estava ocupado.
— Ocupado com mais alguma vagabunda?
Ciel não tinha a intenção de dizer aquilo, mas quando deu por si as palavras já tinham sido ditas.
— Essa informação faz alguma diferença na sua vida, Ciel?
O rei esperava que o guarda negasse tudo, que dissesse que não estava com ninguém ou que contasse o que estava fazendo, mas não foi essa a reposta que obteve o que de certa forma deixou Ciel decepcionado e então o rei decidiu ignorar as ultimas palavras ditas.
— Está feliz agora Sebastian?
— Não entendo o motivo de tal pergunta.
— Elizabeth nos viu.
— Nos viu?
— Não se faça de tolo! Era ela na porta, ela viu o que aconteceu naquela maldita noite!
— Então ela viu o beijo? Não vejo nenhum problema nisso. – Sebastian falou sorrindo.
— Como assim não vê nenhum problema? E se ela contar o que viu? Como você acha que as pessoas iram reagir?
— Não sei como irão reagir, mas também não me importo.
Sebastian respondia a todas as perguntas calmamente, demonstrando que não estava nenhum pouco preocupado e Ciel começava a se irritar com toda essa calma. O rei não conseguia aceitar o fato de que Sebastian não estava preocupado.
— Você é inacreditável, Sebastian!
— Ciel, eu apenas acho que isso não é motivo para preocupação.
— Ela está me chantageando! Disse que contará a todos o que viu se eu me recusar a casar com ela.
— Você quer casar com ela?
— Obviamente não.
— Então não case.
— Quem dera fosse simples assim.
— É mais simples do que parece.
Ciel sentou-se na cama, o rei não sabia mais o que dizer. Sua vida se tornava mais insuportável a cada dia. Ele nunca soube direito o que queria para seu futuro, mas tinha certeza que as coisas que estavam acontecendo agora, jamais fariam parte de seus planos.
— Eu só queria ser capaz de decidir o que fazer da minha vida, sem que alguém se intrometa.
A expressão no rosto de Ciel demonstrava tristeza e apatia e Sebastian sentia-se incomodado por não poder fazer nada. O guarda sentou-se ao lado de Ciel, ele esperava poder consolar o garoto, ao menos.
— Ciel você não é obrigado a fazer o que não quer. A opinião que os outros têm de você não importa e você não deveria dar tanta atenção a isso.
— Eu normalmente não me importo com o que os outros dizem, nunca me importei. Mas em relação à isso eu me importo, não quero ninguém falando sobre minha vida. Não quero que saibam o que aconteceu entre a gente. Eu não sei se aguentaria isso.
Sebastian se sentiu ofendido por saber que Ciel estava tão empenhado em esconder o que aconteceu entre eles, mas mesmo assim ele conseguia entender o garoto. O rei foi envolvido naquela situação contra à sua vontade. Ciel nunca pediu por aquele beijo e com certeza nunca imaginou que Sebastian agiria daquela maneira. E é impossível acreditar que um garoto orgulhoso como Ciel aceite o beijo e o amor de outro homem, assim do nada, sem mais nem menos.
— Entendo... – Sebastian falou enquanto passava os braços por cima do ombro de Ciel.
Ciel se assustou com a aproximação repentina, mas estranhamente decidiu não reclamar. O rei estava bastante confuso desde o dia em que se beijaram e qualquer mínimo contato com o guarda trazia milhares de sentimentos diferentes. Ciel não entendia o motivo de se sentir assim ou pelo menos fingia não entender.
—Não entendo... – Ciel falou
— O que você não entende?
— As suas atitudes, Sebastian.
— Ciel está tudo muito claro, não há nenhum segredo. Mas eu não pretendo lhe explicar nada, observe melhor e saberá o motivo das minhas atitudes.
O rei ficou em silencio um pouco, pensando nas palavras que acabara de ouvir. E a única coisa em que conseguia pensar era em amor, mas Ciel já havia descartado completamente essa possibilidade. O garoto não conseguia imaginar que Sebastian pudesse sentir algo assim, ainda mais por ele. Ciel não estava acostumado com esse tipo de situação, nunca passou tempo suficiente com alguém para que percebesse que era amor ou algo assim.
As únicas pessoas que o rei amou foram seus pais e ambos haviam morrido há muito tempo. Ciel percebeu que pela primeira vez na vida havia conversado com Sebastian sobre o que sentia. Pela primeira vez ele e o irritante guarda estavam em paz, apenas juntos. E então Ciel concluiu que essa aproximação não era ruim e isso o assustou um pouco. O rei se levantou da cama de repente, queria manter distancia do guarda.
— Fico grato pela conversa que tivemos, mas não quero que pense que algo mudou entre nós.
— Eu achei que sua versão orgulhosa tivesse ido embora Ciel, mas parece que ela acaba de voltar. – Sebastian falou sorrindo.
O rosto de Ciel havia tomado uma expressão séria e assim permaneceu enquanto terminava de conversar com Sebastian. O rei achava que algumas coisas nunca deveriam mudar e uma dessas coisas era a relação que ele tinha com Sebastian. Ciel já tinha coisas demais atormentando a sua cabeça e não queria arrumar mais um tormento.
— O que vai fazer em relação à Elizabeth?
— Você saberá em breve. Enfim, nossa conversa terminou.
O guarda levantou-se da cama ainda sorrindo. A forma como Ciel tentava, à todo custo, parecer frio, insensível e orgulhoso faziam Sebastian sorrir, já que o guarda sabia que lá no fundo seu rei não era assim. Sebastian se aproximou de Ciel e parou próximo ao rosto dele.
— Não pense que esse seu orgulho serve de escudo. Se essa sua personalidade irritante me assustasse eu já teria ido embora há muito tempo. Eu te disse que você não se verá livre de mim tão fácil. – Sebastian falou baixinho.
Sebastian saiu do quarto e Ciel continuou parado ainda pensando no que ouvira. Muitas coisas aconteceram nos últimos dias, mas a relação entre Sebastian e Ciel havia voltado ao que sempre foi. Apenas um rei orgulhoso e um guarda petulante, mas se dependesse de Sebastian as coisas não seriam assim por muito tempo.
Ciel sentiu que estava pronto para conversar com Elizabeth e mesmo que não estivesse pronto, ainda teria que conversar com a garota, a não ser que quisesse que ela cumprisse sua promessa de contar a todos o que sabia. O rei estava decidido em relação ao que fazer, agora só faltava contar a Elizabeth.
O rei andou em direção ao quarto de Elizabeth, Ciel não tinha certeza se encontraria a garota naquele lugar, mas foi o primeiro lugar em que pensou em procurar. Bateu repetidas vezes na porta, mas ninguém apareceu e quando estava prestes a desistir viu Elizabeth aparecer atrás de si.
— Estava me procurando, Ciel?
Ciel virou em direção a garota, depois da chantagem até a postura e o jeito de falar da garota haviam mudado. O rei não entendia como alguém era capaz de mudar tanto do nada. Mas talvez Elizabeth não tivesse mudado, talvez apenas ninguém tivesse visto esse lado dela antes. E por incrível que pareça aquela versão orgulhosa dela, era ainda mais irritante na opinião de Ciel.
— Sim, eu estava. Podemos conversar no seu quarto?
— Claro! – Elizabeth falou animada.
Elizabeth entrou no quarto e Ciel a acompanhou. Elizabeth se acomodou em uma cadeira, mas Ciel preferiu continuar em pé.
— O que decidiu em relação à proposta que te fiz?
Proposta? Aquilo não foi uma proposta, e sim uma chantagem barata, Ciel pensou.
— Eu aceito.
— Aceita? – Elizabeth falou, parecendo surpresa.
— Sim.
Elizabeth levantou da cama e então pulou em cima de Ciel, abraçando-o com força.
— Eu estou tão feliz que você tenha aceitado a proposta Ciel. Tão feliz!
Ciel ficou parado enquanto Elizabeth o abraçava e sequer fez questão de retribuir o abraço. A garota então se afastou ao perceber que somente ela fazia questão daquele abraço.
— O que foi Ciel?
— Nada. Eu só gostaria de deixar algumas coisas bem claras acerca deste casamento.
— Pode falar. – Elizabeth falou.
— Que fique claro que eu estou me casando contra a minha vontade, logo eu não serei feliz e duvido que você também seja. Não farei nenhuma questão de manter contato com você quando estivermos sozinhos, mas na presença das outras pessoas manterei as aparências e nós pareceremos mais um casal de bobos apaixonados. Eu não te amo e não creio que possa amar e se você julga que após ouvir tudo isso, ainda podemos seguir em frente é só marcar a data e organizar o casamento. – Ciel falou tentando soar o mais seco e frio possível.
O rei esperava que aquelas palavras fizessem Elizabeth pensar melhor, apesar de saber que a garota tiraria daquilo que ouvira, somente o que lhe agradasse.
— Eu sei que posso fazer você mudar de opinião, Ciel. Eu já fiz você mudar de opinião quanto ao casamento e ao contrário do que você pensa, nós seremos muito felizes.
Ciel achava inacreditável a facilidade que Elizabeth tinha em se iludir. Não importava o quanto ele fosse grosso ou estúpido, a garota dava sempre um jeito de enxergar as coisas de outra maneira.
— Você não me fez mudar de opinião Elizabeth, você me chantageou! Eu vou me casar com você apenas por que não tenho coragem o suficiente para agüentar os comentários que as pessoas fariam sobre mim, caso descobrissem o que aconteceu naquele quarto, eu só aceitei por não ser decidido o suficiente para me livrar de você!
— Não importa o que diga Ciel, eu não vou desistir de você. Eu acredito que podemos formar um belo casal e eu quero ser rainha e sei que posso fazer isso tudo dar certo. Confie em mim.
Ciel respirou fundo tentando manter o controle, sua vontade era de gritar com Elizabeth. O rei não conseguia aceitar e nem acreditar nas palavras que saiam da boca dela.
— Fique à vontade para tentar, vamos ver por quanto tempo você aguenta.
Ciel saiu do quarto deixando Elizabeth sozinha. O rei achou que havia esperança e que talvez Elizabeth desistisse, mas pelo visto não seria assim. Ciel sabia que Elizabeth era difícil de lidar, mas ele estava decidido a mostrar à ela que aquele casamento seria a pior escolha de sua vida.
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