Notas iniciais
Oi gente. Só alguns minutos atrasada mas to aí.
Espero que gostem. Como o tempo é curto tive que cortar muitas das minhas ideias iniciais mas o grosso ta aí.

— Não é uma doença. — o homem na minha frente explicou um tanto preocupado. — Não sabemos o que é… Já tentamos de tudo.

Sorri simpaticamente, tentando disfarçar que ligava muito pouco para aquilo. Sinceramente eu só queria o dinheiro e não importava que tivesse que trabalhar com o filho maluco dele, desde que ele não fosse violento…

— Will! — chamou adentrando a parte de trás do balcão — o novo empregado quer conhecê-lo.

O rapaz levantou aparecendo como num show de TV. Ele tinha a pele escura e cabelos encaracolados que estavam amarrados em um coque desajeitado, os lábios se empertigaram num sorriso tão gentil que senti meu peito doer.

— Eu sou Don. Estou ansioso para trabalhar aqui — Estendi a mão tentando devolver um sorriso a altura.

Ele a ignorou.

— As pequenas mentiras fazem o grande mentiroso — ele disse, saindo de trás do balcão e indo na direção de algumas estantes, o sorriso se desfez.

Confesso que tive vontade de rir, mas também fiquei um pouco intrigado, eu realmente não estava animado para trabalhar ali. Mas o que mais me intrigou era que o que o pai dele me contara se mostrou verídico: ele só usava frases da autoria de Willian Shakespeare para falar com outras pessoas…

— Peço a Deus todos os dias um filho normal… — O pai comentou, olhando para onde ele tinha ido, suspirou.

— Deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo que lhe pedimos. — Will disse voltando com uma pilha de livros, ele tinha um bom timing, isso eu tinha que reconhecer.

Deixou os livros sobre a mesa. Todos do dramaturgo.

— Ele quer saber se você já leu algum. — Sr. Rui esclareceu para mim, Will assentiu.

Olhei a grande pilha. Não era fã de Shakespeare, tinha lido Romeu e Julieta no ensino médio e meus conhecimentos paravam por aí. Apontei apenas o que tinha lido e ele pareceu desapontado, deu de ombros.

— A sabedoria e a ignorância se transmitem como doenças; daí a necessidade de se saber escolher as companhias. — Piscou e me entregou o primeiro da pilha.

Era Hamlet.

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E assim se foram os meses. Eu lia, ele me dava outro. Falava pouco mas sempre seguia o mesmo padrão. Seu pai estava por perto 98% do tempo falando sobre como arrumar isso e aquilo e como ele era um péssimo filho que desapontara a família.

Era um pouco triste claro, eu podia ver que Will ficava muitíssimo incomodado com os insultos, decidi que conversaria o máximo possível com Sr. Rui para desviar a atenção do rapaz. Não era bem uma conversa já que eu apenas ouvia. Certa vez ele notou que eu nada falava.

— Esta quieto hoje, Don — disse, dando um tapinha em minhas costas.

— Os homens de poucas palavras são os melhores. — Will surgiu do nada, sua voz tinha um tom carinhoso.

Sorrimos uma para o outro. E aquele foi o início real da nossa amizade. Ele se tornou provavelmente meu melhor amigo em pouco tempo, era estranho mas depois eu me acostumei as palavras, talvez até gostasse delas, mas gostava mais de Will.

Em torno de seis meses de trabalho e uns três de amizade comecei a pensar no que levava uma pessoa a falar pelas frases de outra? Eu me perguntava constante. Talvez fosse algum problema psicológico, provavelmente era, mas segundo os médicos ele falava daquela forma por sua própria vontade. Um dia tomei coragem para perguntar o porquê.

— Will… Você… — eu fiquei apreensivo, não me importava afinal, era o que ele queria, não era problemo meu… — Por que fala assim? Consegue responder?

A curiosidade me dominou, eu acho. Ou a indignação.

— As palavras estão cheias de falsidade ou de arte; o olhar é a linguagem do coração — citou, dando de ombros.

O Sr. Rui apareceu de supetão com um pacote grande e disse que ia até o correio. Adicionou que confiava “apenas em mim” com a loja e se foi rua à dentro num passo apressado. Provavelmente a primeira vez que eu ficava sozinho na loja.

— Eu entendo, mas… Você não pode fazer isso para sempre, pode? — Não sabia da onde aquelas perguntas estavam saindo.

— Acontece que, para ter o que desejamos, é melhor não falar do que queremos. — ele trocou profundo olhar comigo, como se quisesse dizer uma coisa bem séria. Parecia triste.

Não perguntei mais nada. Achei que ele já não estava fazendo mais sentido. Talvez nunca tivesse feito, talvez ele fosse um doido recitando frases e eu fosse um doido interpretando, mas fiquei com aquilo na cabeça durante o fim de semana.

E acordei com a solução. Durante o sono resolvi o enigma, era mais simples do que eu imaginava afinal, ele tinha me dado a resposta sem saber. Naquele dia indo para o trabalho me senti leve, achava que podia resolver tudo.

Dei um bom dia animado ao patrão que abria a livraria sem pressa. Eram nove e pouca quando efetivamente entramos e quase ondes horas quando ele chegou, ofegante. Pôs se imediatamente ao trabalho, mas não sem antes acenar para mim.

O dia foi transcorrendo silencioso, eu estava esperando minha chance. Um momento propício. Quando a manhã virou uma sombria tarde fria, Sr. Rui apareceu com outro grande embrulho e se foi deixando novamente a loja em nossas mãos. Will veio para perto, tomando seu lugar a registradora, trabalhamos em grande harmonia, eu vendendo, ele recebendo e foi assim na paz até que a clientela cessou um pouco

O momento tinha chegado. Virei-me para ele e nesse exato momento ouvi alguém fechando a porta da loja. Era um homem alto, usava uma máscara feita de uma toca e… Ele tinha uma arma na mão. A constatação da arma me deixou paralisado.

— Isso é um assalto rapazes — anunciou com normalidade. — Quanto mais rápido isso for melhor.

Ouvi um único movimento de William, soube nesse instante que ele tinha acionado o alarme. O ladrão infelizmente notou a mesma coisa.

Com a máscara não vi o rosto, mas olhar que ele lançou foi um dos mais perturbadores que já vi na vida. Senti por todo meu corpo uma certeza de que ele ia atirar, não pensei muito e corri para cima dele.

Uma daquele momentos em câmera lenta da vida. O som alto e silêncio, a adrenalina e a dor profunda, o baque e a aterrissagem. Apaguei por alguns segundo pois quando recobrei a consciência senti que alguém pressionava minha barriga.

Abri os olhos com muita dificuldade. Will tinha sangue no rosto e chorava muito. Me senti esvair. Ia morrer e não faria diferença para ninguém. Eu tinha que dizer. Juntei minhas forças agarrei os ombros dele e olhando em seus olhos disse:

— Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente, Will. Não sei da sua dor, mas posso ajudar, compartilhe-a comigo, mas nas suas palavras. — uma torrente de palavras saiu de mim, a dor parecia distante.

Ele não disse nada num primeiro momento. O choro dele era o mais doloroso que já tinha visto, queria tanto abraçá-lo, mas não tinha força nem para falar. A sonolência me atingiu. Comecei a sentir a dor de novo e queria que ela parasse.

— Se você morrer, não posso compartilhar nada com você — disse, seu tom choroso quebrou meu coração mas não pude deixar de sorrir. A frase era dele.

Dei meu último sorriso vitorioso.

Notas finais
O título da fic é inspirado numa frase que não usei na fic.
"Eu poderia viver recluso numa noz e me considerar o rei do infinito. Contando com essa usei 8 frases.

Bjssss
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!