O Rei Das Trevas (0)

3 Capítulo 3: Mais rápido! Os Logrus se aproximam!


Capítulo 3: Mais rápido! Os Logrus se aproximam!

Herrz era, definitivamente, um nome capaz de causar terror em qualquer um que o ouvisse. Um ser vivo frio, duro, sempre fazia uso da sua brutalidade avantajada quando era necessário, mas era do tipo que não matava sem necessidade. Preferia muito mais seguir uma boa estratégia previamente preparada do que simplesmente agir por intermédio da força bruta, mas isso não desmentia o fato de que inúmeros assassinatos já tinham sido cometidos pelas suas mãos. Um Logru legítimo, suas ações cruéis fizeram com que sua fama se espalhasse rapidamente por toda a Cidade de Lunn e, portanto, era respeitado não apenas dentro da Morada mas também por todos os habitantes daquela pequena cidade, ainda que, no caso destes últimos, o sentimento era mais de temor do que de respeito propriamente dito.

Diversas histórias circulavam a respeito dele. Segundo se dizia, certa vez havia enfrentado um pequeno conjunto de seres vivos pouco habilidosos que vivia na Subida Pedregosa — uma espécie de pequeno vilarejo que não chegava a ser uma cidade, mas ainda assim era relativamente próximo de Lunn, também estava contido dentro da grande Cidade de Rolly — pois os mesmos tinham achado equipamentos valiosos no subsolo daquela pequena região e, portanto, os Logrus os desejavam para trazer mais lucro às suas atividades comerciais. Este era, por sinal, um ato muito comum realizado pelos Logrus. Inúmeras vezes se focavam em simples pesquisas a fim de descobrir em que locais poderiam ter itens que valessem a pena ser vendidos e, quando achavam, faziam de tudo para obtê-lo, mesmo que precisassem matar outros seres para a realização de tal tarefa. Herrz havia sido o designado daquela vez para seguir à Subida Pedregosa para apanhar todos os escudos, armaduras e espadas que encontrasse lá, e assim o fez. No conflito, entretanto, dizimou aquele pobre grupo de seres vivos, rasgando os seus corpos violentamente de ponta a ponta. A crueldade do ato fez com que sua fama se ampliasse ainda mais, não só por Lunn mas por outras regiões no interior da Cidade de Rolly também.

Calculista e estrategista, tinha uma altura média — era alto quando comparado a seres vivos de outras raças, mas existiam inúmeros Logrus mais altos do que ele, portanto, na Morada, era considerado um ser de altura média — com músculos ligeiramente desenvolvidos, cabelos curtos e loiros, um rosto um tanto quadrado e uma aparência um tanto jovem. Se não fosse pelos vários olhos amarelos espalhados por todo o seu corpo, a pele avermelhada, e as estacas escuras de quase quinze centímetros que brotavam dos seus cotovelos, poderia até ser considerado bonito por aqueles que o vissem.

Diante de mais vinte Logrus, alguns com aparências até mesmo mais ferozes do que a dele, Herrz se mantinha de pé com uma expressão bastante séria em sua face. Não trajava nenhum tipo de roupa acima da cintura e, abaixo dela, apenas um tipo de calça preta que chegava até o início dos pés. Esta era mais uma característica típica dos Logrus. Geralmente, quando não estavam em alguma guerra ou em algum combate realmente sério, não trajavam nada na parte de cima do corpo, porém, quando se fazia necessário, vestiam-se com as suas brilhantes e imponentes armaduras, fazendo uso também dos seus escudos e espadas.

Os seus olhos dançavam de um lado para o outro, indo de uma moradia para outra, parando por vezes em algumas por um tempo um tanto mais longo. O restante do grupo permaneceu em silêncio, não era comum que alguém se dirigisse a Herrz a menos que ele mesmo perguntasse algo, pois nunca se sabia quando ele estava irritado ou algo parecido. Não demorou muito tempo até que ele se virasse para os demais Logrus presentes ali.

— Como estão vendo, existem muitas moradias aqui — começou em um tom de voz relativamente alto para que todos fossem capazes de ouvir. — Não estou certo de que alguma delas realmente pertença àqueles malditos membros da CIV, mas de qualquer maneira, teremos que investigar.

— A região que está sob a nossa responsabilidade de investigação termina aqui, certo? — manifestou-se um Logru quase da mesma altura de Herrz com cabelos azulados presos num rabo de cavalo através de um artefato brilhante e vermelho.

— Sim. Iremos invadir estas casas, mas não faria sentido se todos nós fossemos entrando em cada uma delas...

A divisão foi feita rapidamente. Daqueles vinte e um Logrus — número no qual já estava incluso o próprio Herrz — foram formados sete trios, sendo que um deles ficou composto por Herrz, além de Rolki — aquele de cabelos azuis, presos no rabo de cavalo — e Rabylen, que era o maior dos três e com os músculos mais avantajados, porém, poderia ser facilmente considerado o mais feio e apavorante daquele trio. Um rosto bruto, com orelhas pontudas e nariz num formato bastante largo, uma aparência que o fazia parecer bem mais velho do que a sua verdadeira idade. A única característica que se podia dizer bonita nele eram os seus cabelos muito pretos e lisos, consideravelmente longos, chegando quase à metade das suas costas.

— Investiguem cuidadosamente e estejam preparados para a luta, caso seja necessário — Herrz falou alto mais uma vez quando todos os trios já estavam prontos. — Se não encontrarem nenhum ser, possuem plena autorização para que saqueiem todas estas casas, apanhando tudo aquilo que considerem ser de valor.

Sem mencionar mais nenhuma palavra, virou-se de costas para os demais e, com um brusco aceno de sua mão direita, o show de vandalismo e selvageria teve início.

Uma casa feita de material acinzentado, com uma aparência ligeiramente envelhecida, teve o seu teto totalmente destruído por um Logru de cabelos esverdeados, que pulou de um jeito muito belo, desferindo lindas piruetas no ar, até pousar no topo da casa e desferir um violentíssimo soco, fazendo todo o telhado afundar velozmente até se chocar com o chão, provocando um baque extremamente sonoro ao mesmo tempo em que uma nuvem de fumaça bastante densa, ainda que pequena, surgisse ali naquele lugar. Uma outra, de formato quadrado, feita à base de material bastante escuro, teve suas paredes destruídas em questão de um curtíssimo espaço de tempo através de socos, chutes, cabeçadas e até mesmo cotoveladas de um dos trios dos Logrus.

Não demorou quase tempo nenhum até que todo aquele lugar ficasse tomado por uma grande quantidade de gritos, alguns raivosos e outros de empolgação devido à toda a destruição que se desenvolvia ali. Herrz começou a se aproximar um pouco da moradia em formato de pirâmide, preta e brilhante. Sentiu, por um breve momento, dó de ter que invadir uma casa como aquela, era realmente bastante bonita, mas tinha de fazer aquilo e então o fez. Chegou bem perto da porta, sendo acompanhado por Rolki e Rabylen. Ficou olhando para ela por mais alguns poucos segundos.

Uma das principais características de Rabylen era a empolgação fora do comum no momento em que a violência e brutalidade eram necessárias e isso, por vezes, fazia Herrz se irritar um pouco e foi exatamente o que aconteceu naquele momento. Enquanto ainda encarava a porta de entrada da moradia, Rabylen passou por Herrz como se ele não existisse e desferiu um potente chute com a sola de seu pé direito bem no meio da porta, fazendo ela se desprender totalmente e voar a uma velocidade incrível para trás até se chocar com alguma coisa lá dentro, o que, por sua vez, provocou um intenso ruído de algo se quebrando em inúmeros e pequenos pedaços. Herrz virou-se para ele com um olhar bem sério no rosto e aquela expressão selvagem que tomava conta de Rabylen sumiu quase que por completo, sentindo-se momentaneamente com medo do que Herrz poderia fazer, mas nada demais aconteceu, apenas uma simples advertência:

— Controle-se, Rabylen. Lembre-se de que o nosso objetivo aqui é encontrar os foragidos. Sei o quanto preza o vandalismo, mas meça as suas ações.

— Está certo, perdoe-me, Senhor Comandante — Rabylen respondeu quase que de imediato, fazendo uma pequena e rápida reverência logo em seguida.

Herrz entrou e os outros dois fizeram o mesmo. Inicialmente, andaram bem devagar por aquele hall de entrada, com Rolki analisando as estantes com todos aqueles livros envelhecidos e facas simples, enquanto que Rabylen parecia andar um pouco sem rumo, mas a advertência de seu Comandante, de certa maneira, havia funcionado, pois não estava destruindo absolutamente nada, apenas observando com atenção, seus olhos indo de um lado para outro, esperando encontrar algum ser vivo a qualquer momento.

Herrz também ficou por mais um pouco de tempo andando naquele aposento até que seus olhos pararam sobre a cama esbranquiçada em formato de arco sob a luz da chama azulada proveniente do teto. Fez um rápido aceno com o seu braço para que os outros dois se aproximassem e assim o fizeram.

— Achou algo, Senhor Comandante? — foi Rolki aquele que perguntou.

— Olhe — Herrz apontou para a cama.

Estava bastante bagunçada e os outros dois rapidamente compreenderam o que o Comandante estava querendo dizer, mas mesmo assim, ele deixou bem explícito aquilo que estava pensando:

— Provavelmente tem alguém aqui — usou um tom de voz bastante baixo. — Escutem, vocês dois seguem para o andar de cima e eu sigo por aquele buraco na parede. Estejam preparados para o combate, talvez eles estejam nos preparando uma emboscada. E Rabylen, especialmente você, não haja precipitadamente.

Rabylen fez um rápido movimento positivo com a cabeça e, com mais um aceno da mão de Herrz, ele e Rolki seguiram rápida, mas silenciosamente escadaria acima.

O Comandante então se virou para o buraco existente na parede ao fundo e o adentrou, ficando rapidamente rodeado por uma escuridão intensa. À medida que avançava o corredor se tornava cada vez mais estreito e escuro até que chegou um ponto no qual não conseguiria nem mesmo esticar os seus dois braços horizontalmente.

A falta de espaço não era a única coisa que o incomodava. Um cheiro ruim se tornava cada vez mais forte, era como se aquele lugar não fosse limpo há muito tempo, o que fez Herrz aumentar mais a velocidade dos seus passos. Não era nem um pouco do seu desejo permanecer naquele horrível beco por muito mais tempo, ao contrário, queria sair dali o mais rápido possível, aquilo já estava lhe causando náusea.

O seu nariz ficou bastante agradecido com o cheiro que o invadiu repentinamente. Aquele fedor foi substituído por um odor bastante agradável, algo que lembrava a mistura de inúmeros perfumes. Acabava de adentrar um novo aposento, uma sala de formato retangular, com as paredes cercadas de prateleiras e mais prateleiras sobre as quais se encontravam vários itens: inúmeras garrafas de bebidas, pacotes embrulhados de ervas, aparentemente medicinais, os mais variados temperos utilizados na culinária, além de livros, velhos e novos, grandes e pequenos, limpos e sujos, bonitos e feios.

O teto da sala mais parecia uma ladeira e quando Herrz percebeu, ficou com medo por um rápido instante de que tudo aquilo desmoronasse, mas o medo desapareceu logo em seguida junto com a surpresa quando viu que aquela característica era parte da estrutura natural da moradia. Mexeu o seu rosto lentamente para os dois lados e concluiu sem muitas dificuldades que não havia nenhum ser vivo ali, mas seus olhos pararam curiosos em uma garrafa que se destacava das demais. Era grande e continha uma bebida esverdeada, a qual o Comandante foi capaz de reconhecer quase que no mesmo instante.

Tratava-se de uma poção curativa extremamente potente feita através de um processo minucioso de extração de uma erva bastante rara que se chamava Limus, que só era encontrada em locais bem distantes dali da Cidade de Lunn, na grande Cidade de Prok ou na de Lysa, o que fazia, portanto, com que aquela poção fosse extramente difícil de ser obtida. Entretanto, a raridade não era a única característica que lhe fornecia um valor elevado no mercado.

O próprio Herrz já havia tido o prazer de ter experimentado a poção certa vez em batalha, quando estava gravemente ferido por um golpe desferido por uma lança pontiaguda, a qual perfurara profundamente o seu ombro direito. O sangue jorrara em abundância e sua consciência se esvaía pouco a pouco, com a visão tornando-se cada vez mais turva, a audição cada vez menos clara e já não conseguia sentir muita dor nos seus membros feridos... quando um dos seus companheiros entornou uma pequena quantidade daquele líquido esverdeado e quente e, quando o mesmo fluiu através de sua garganta, tinha certeza de que jamais havia tido uma sensação tão boa. Um gosto extremamente doce e prazeroso tomou conta do seu paladar e em questão de poucos segundos, a tonteira foi passando, a visão foi se tornando mais nítida e a audição tão clara como antes, e o sangue que jorrava velozmente através do buraco no seu ombro foi diminuindo até que não havia mais hemorragia alguma.

Os efeitos daquela poção eram realmente milagrosos, afinal, não apenas as feridas superficiais melhoravam, mas os efeitos negativos que se abatiam sobre os sentidos também e um item que conseguisse proporcionar tal melhora em algum ser vivo, certamente era muito útil numa batalha. Surpreendeu-se consideravelmente ao ver a poção em uma casa miserável como aquela. Teve certeza de que aquilo havia sido fruto de um roubo e, sentindo-se enojado, chegou à conclusão de que era quase certo de que aquela casa pertencia a algum membro da organização CIV.

Mexeu mais um pouco a sua cabeça e seus olhos pararam curiosos novamente, desta vez sobre uma pequena mesinha encostada na parede da direita, onde não havia nenhuma prateleira. Havia um pequeno suporte dourado e brilhante sobre a pequena mesa, rodeado por quatro velas de chama azulada, muito semelhante àquela que era responsável pela iluminação do hall de entrada. No suporte, um livro que pareceu bastante familiar para Herrz. Seguiu até ele e se surpreendeu mais uma vez quando viu qual livro era.

A capa era azul e brilhante e, no centro, havia os dizeres grafados em dourado "Livro de Raikus — Os Ensinamentos do Criador", e Herrz sentiu uma súbita vontade de rir. O pensamento que lhe passou pela cabeça foi praticamente o mesmo que provocara tantos questionamentos por parte do pequeno Bour Diell. "Chega a ser incrível ladrõezinhos como eles fazerem culto a Raikus".

Deu mais uma rápida olhada no aposento, desferindo um lento e perfeito giro em torno do seu próprio eixo, porém não havia mais nada ali que fosse do seu interesse. Apanhou a garrafa contendo a poção de Limus e regressou ao estreito, escuro e fedorento túnel pelo qual havia caminhado anteriormente.Ao chegar no hall de entrada, não havia nada de diferente e levou um leve susto ao ouvir fortes baques ao lado. Virou-se e observou a rápida descida dos seus dois subordinados.

— Acharam algo? — perguntou.

— Nada de muito importante — Rolki foi aquele que respondeu. — Existe apenas um quarto onde encontramos roupas simples e um outro aposento bem pequeno no qual vimos alguns equipamentos velhos e enferrujados... o que mais parecia ter um pouco de valor era um escudo que, aparentemente, deve ter sido produzido à base de Carniem, mas também está bastante envelhecido, duvido muito que tenha algum valor decente.

Herrz fez um leve movimento de desdém com a sua boca, deixou a poção no chão, a um canto e voltou-se mais uma vez para os outros dois.

— Muito bem. Sabem o que fazer.

Para a felicidade de Rabylen, a ordem havia sido dada e a brutalidade não demorou mais do que um único segundo para ter início. Uma mistura de golpes ferozes e rápidos desferidos por aqueles três fez com que, praticamente, todas as prateleiras — bem como os objetos localizados sobre elas — fossem ao chão, provocando inúmeros baques sonoros enquanto que a cama bagunçada foi rasgada em pedacinhos. Rabylen foi o único que regressou ao andar de cima e, a julgar pelos ruídos que era possível ouvir do hall de entrada, certamente o vandalismo desenvolvido por ele fora ainda maior do que o de Herrz e de Rolki juntos.

Quando não acharam mais absolutamente nada que pudesse ser destruído ou roubado, abandonaram a casa levando apenas a poção de Limus, a qual era carregada cuidadosamente pelas mãos do Comandante. Lá fora, depararam-se com quase todos os demais Logrus daquela equipe de busca. Alguns comiam de uma maneira bastante feroz e, ao ver aquela cena, Herrz pôde concluir sem muito esforço que a comida fora proveniente do saque às demais moradias da região. Outros apenas conversavam, sentados ou em pé, rindo em voz alta, enquanto que alguns simplesmente cochichavam. À frente deles, encontrava-se um amontoado de objetos que mais pareciam um monte de quinquilharia: algumas armas enferrujadas como lanças, escudos e espadas, além de algumas poucas ervas medicinais coloridas, um número relativamente grande de roupas, dentre elas, algumas brilhantes e bonitas, mas outras pareciam ter sido tecidas há muito tempo a julgar pela aparência surrada que possuíam.

Ao verem Herrz se aproximando, pararam aquilo que estavam fazendo, os que estavam sentados e mais relaxados, ergueram-se como se suas vidas dependessem disso e todos ali presentes assumiram uma posição totalmente ereta, como se estivessem se apresentando para uma guerra.

— Aparentemente, também não conseguiram encontrar nenhum ser vivo, estou certo? — a expressão raivosa de Herrz era de se assustar.

Todos ficaram consideravelmente amedrontados em responder, portanto o local permaneceu em silêncio durante alguns poucos segundos até que Herrz cuspiu ao chão.

— Não acredito... Aqueles malditos... — murmurou.

O único trio que ainda não estava ali presente se aproximou lentamente, vindo de alguma das moradias dali, mas pelas suas expressões, os resultados não tinham sido muito diferentes.

— Desculpe-nos, Senhor Comandante — disse cautelosamente um Logru alto, de curtos cabelos alaranjados, ombros largos e um rosto um tanto rechonchudo demais. — Nós não encontramos ninguém e nem ao menos algo que valesse a pena ser saqueado.

Mais um cuspe saiu voando velozmente através dos lábios de Herrz e o mesmo ergueu bem alto a mão na qual se encontrava a grande garrafa contendo aquele líquido esverdeado.

— Estão vendo o que é isso? — perguntou, balançando o braço de maneira feroz pelo ar. — Isto aqui é uma poção de Limus. Para aqueles que não sabem, é uma poção extremamente eficiente, importantíssima dentro de um campo de batalha e devo dizer também que o seu preço é bem alto. Um líquido como este é raro, e, caso qualquer um de vocês aqui, em algum momento da vida, tenha a oportunidade de usá-lo, considere-se com sorte. E sabem onde encontrei isso? — um curto espaço de tempo tomado totalmente pelo silêncio se seguiu, até que as palavras de Herrz cortaram o ar uma vez mais, ao mesmo tempo em que sua mão vazia apontava para a moradia escura e brilhante da qual havia saído — Dentro daquela casa! Uma poção como esta encontrada em um local como este, é mais do que óbvio que isto é fruto de roubo, o que nos leva a crer que a moradia da qual retirei a poção é pertencente a algum membro da maldita CIV. Não sei dizer se a casa é de alguns dos Bours foragidos que estamos caçando, mas o que realmente importa é o fato de que aqui vivem membros da CIV e, por isso, gostaria de parabenizá-los por toda a destruição que desempenharam aqui.

Aquelas últimas palavras de Herrz fizeram alguns poucos Logrus rirem de satisfação, porém a grande maioria permaneceu tensa e em silêncio, com os olhos nem ao menos desviando do rosto do Comandante, o qual, por sua vez, prosseguiu com o seu discurso:

— Mesmo que não tenhamos conseguido capturar os foragidos, fizemos um bom trabalho aqui. Eles podem até ter escapado de nós, mas certamente não irão muito longe, afinal, somos apenas um único grupo de busca, há mais Logrus espalhados por Lunn e estejam certos de que os nossos colegas conseguirão capturá-los! — o término do discurso ecoou naquele lugar quase como se fosse um grito e, ao mesmo tempo em que ele adentrou os ouvidos dos Logrus, um forte sentimento de animação os invadiu.

O fôlego já estava quase acabado e suas pernas doíam não somente pela velocidade com a qual corriam, mas também pelo fato de que a cada momento em que avançavam um ou dois passos, eram obrigados a se desviar de uma árvore ou de um arbusto. Aquele tortuoso caminho parecia não ter fim e, por um momento, Marrncifer chegou a se perguntar se realmente era por ali que deveriam seguir a fim de se chegar ao Porto dos Pescadores. Como que em resposta ao seu questionamento, um estranho ruído começou a invadir os seus ouvidos. Não reconheceu de imediato, mas quanto conseguiu identificar a fonte geradora de tal barulho, sentiu uma felicidade extremamente grande, a qual veio acompanhada de uma pitada de esperança.

— Está ouvindo isso, querido? — Marrncifer perguntou.

Luyul, que avançava a mais ou menos uns três passos à frente, respondeu quase que no mesmo instante.

— Estou sim! É água! — um leve sorriso abria-se em sua boca. — Já devemos estar bem perto do Porto dos Pescadores.

Não apenas na Dimensão de Luk, mas também nas demais dimensões, já existia a água, bem como a terra, o fogo e o ar. No momento de suas criações, todos os quatro elementos foram gerados simultaneamente, além de inúmeros tipos de plantas e alguns animais, ainda que, no caso destes últimos, os tipos eram menos variados do que os das plantas. De acordo com a classificação que se era dada, animais e plantas não eram considerados seres vivos e sim criaturas pelo fato de não serem capazes de falar, portanto, estavam numa categoria situada entre objeto e ser vivo. Desta maneira, tanto plantas como animais podiam ser mortos na quantidade desejada a fim de que pudessem servir de alimento para os considerados seres vivos e tal ato, portanto, era praticado sem a mínima culpa na consciência.

A fonte da dúvida, de fato, era como tais criações tinham ocorrido, se realmente haviam sido Deuses que deram origem às dimensões ou se havia sido qualquer outra coisa e também não se sabia ao certo qual raça de ser vivo havia nascido primeiro e quem — ou o que — havia dado origem a tal raça. Tal incerteza era a responsável pela geração de inúmeras crenças, dentre elas, aquela adotada pela família de Bours que avançava desesperadamente para fugir de Lunn, a de que um ser vivo supremo chamado de Deus Raikus, habitante da Dimensão da Pureza, havia sido o responsável por toda a criação.

Diell acabara de ouvir as palavras de seus pais e sentiu-se bastante feliz por um momento, estava começando a perceber que era possível a chance de que tudo desse certo no final.Virou o seu rosto na direção da mãe, que ainda o segurava fortemente pelo braço, e ela retribuiu o olhar.

— Está vendo, querido Diell? Tudo vai ficar bem, não precisa mais ter medo!

Continuaram perfurando como um raio aquele denso matagal até que uma visão realmente muito bela adentrou pelos seus olhos. Um lindo horizonte esverdeado, acompanhado de uma grande quantidade de água, que parecia brilhar intensamente, se revelou para cada um deles e o alto grito que ecoou pela boca de Luyul no momento seguinte foi de um tom bastante esperançoso:

— É lá! Finalmente conseguimos!

Correram só mais um pouco até que finalmente chegaram na entrada do longo píer do porto, uma ponte relativamente larga situada logo acima da água. Parecia bastante velha e construída à base de um material obsoleto e cinzento, não havia a presença de nenhum tipo de proteção lateral ao longo do seu comprimento. Ao seu final encontrava-se um grande local de formato retangular e lá, era possível avistar-se três seres vivos de pé, os quais pareciam pequenos pontos distantes vistos aos olhos dos Bours. Quando os percebeu, Diell franziu ligeiramente os olhos e tentou identificá-los, mas não conseguiu e o sentimento de alívio que o havia invadido instantes atrás foi substituído pelo medo.

— Papai, quem são aqueles? — perguntou com uma voz bastante fina e amedrontada.

— Não se preocupem, não são Logrus — afirmou para a tranquilidade de Diell e de Marrncifer também. — Provavelmente são Juhs, Amn e Krink. Se um deles realmente for o Krink, ficarei muito feliz pelo fato de ele ter conseguido se recuperar. Vamos.

Voltaram a avançar, correndo, enquanto que do outro lado, dois dos seres que estavam de pé perceberam a aproximação de Luyul e dos demais e rapidamente se viraram para o píer.

Aquele que se chamava Amn tinha longos cabelos dourados, que chegavam a uma altura um pouco mais abaixo de sua nuca e, naturalmente, eram brilhantes, lisos e sedosos, porém, naquele momento, estavam feios e emaranhados devido à sujeira proveniente das recentes batalhas. Seus olhos possuíam a mesma cor dos cabelos, um rosto um tanto retangular além de um corpo forte, com músculos bem desenhados e desenvolvidos. Não trajava absolutamente nada na parte de cima de seu corpo, apenas um calção bege e sujo abaixo da cintura — muito semelhante aquele que era usado por Luyul — salpicado de manchas de sangue em alguns pontos. Por todo o seu corpo havia ferimentos, porém, grande parte deles não era grave, se limitavam apenas a pequenos arranhões. A ferida mais severa era a que se encontrava no seu braço esquerdo, um corte relativamente fundo que percorria todo o caminho do seu ombro até o início do seu pulso, mas o sangue não jorrava mais como jorrara no momento em que ganhara tal ferida. Tudo o que se via agora naquela parte de seu corpo era uma linha que misturava as cores preta e amarela, pois amarelo era a cor do sangue dos Bours.

O Bour de nome Juhs possuía cabelo bastante preto e curto, terminando no início do pescoço e parecia, naquele momento, não estar tão sujo e maltratado como o de Amn. Seus olhos azuis brilhantes eram lindos e seriam capazes de seduzir qualquer outro ser vivo de qualquer outra raça que os encarasse por mais de alguns poucos segundos. Era mais alto que Amn, porém, quanto à musculatura, era tão desenvolvida quanto a de seu colega. Trajava um pequeno e estreito pedaço de pano branco que atravessava todo o comprimento que começava no seu ombro direito e terminava na extremidade esquerda de sua cintura e visivelmente fazia parte de uma linda vestimenta, a qual havia sido rasgada violentamente durante o combate encarado na Morada dos Logrus. O seu calção bege também estava sujo, porém as manchas amareladas de sangue, tanto no calção quanto no restante de seu corpo, não se apresentavam em uma quantidade tão grande como no caso de Amn.

— Krink, venha aqui , rápido — Juhs foi aquele que falou.

Krink estava mais afastado dos outros dois, mais próximo das águas, mas quando ouviu o chamado de seu amigo, se aproximou freneticamente, por um momento, com medo do que poderia ter feito Juhs chamá-lo com toda aquela urgência.

Definitivamente, a aparência de Krink se diferenciava um pouco da dos demais Bours presentes. Era o mais baixo de todos, porém, o mais forte e robusto, era como se a quantidade de músculos compensasse a pouca altura. Seus cabelos eram curtos, avermelhados e arrepiados, seus olhos grandes e muito pretos, um nariz fino e lábios um tanto grossos demais. Pelo seu corpo, estavam espalhados inúmeros ferimentos, muito mais do que os que podiam ser vistos em Amn e Juhs juntos. Cortes e mais cortes, arranhões e mais arranhões, as feridas mais graves estavam na barriga, no pescoço e na perna direita. Um corte de ponta a ponta, ligeiramente profundo, atravessava o seu corpo quase que na altura do umbigo além de uma grande esfera amarelada que preenchia grande parte da esquerda de seu pescoço e um rasgo nauseante na coxa direita, indo do início da cintura até quase a metade do joelho. Não apenas nestas feridas, mas em quase todas que podiam ser vistas em seu corpo encontrava-se uma mistura de cores além do amarelo do sangue e era fácil observar que as demais cores deviam-se ás ervas medicinais coloridas utilizadas no seu tratamento.

Os três permaneceram olhando na direção do píer por alguns instantes e não demoraram muito até perceberem quem estava vindo. Seus rostos se encheram de felicidade, as suas bocas ganharam sorrisos e seus olhos começaram a brilhar intensamente.

— Luyul... é ele mesmo! — Krink foi aquele que falou primeiro.

— Ele conseguiu trazer a família dele, pelo que parece — comentou Amn.

Ofegante, com a respiração forte e as pernas latejando de dor, mas com bastante emoção, Luyul chegou e, um a um, encarou os seus amigos, quase não acreditando em tudo aquilo. Da última vez que os vira, estava cercado de espadas, lanças, escudos, armaduras e seres avermelhados por todos os lados e ambos foram obrigados a se separar, sem saber se iriam se ver de novo... Mas ali estavam, todos frente a frente uma vez mais e uma emoção ainda maior invadiu Luyul no momento em que os seus olhos cruzaram com os de Krink.

Qualquer um que o visse daquele jeito se surpreenderia com o fato de que ainda estava vivo mesmo com todas aquelas feridas e mais do que isso, não apenas vivo, mas de pé normalmente, quase como se nada de especial houvesse acontecido. Os olhos de Luyul lacrimejaram um pouco.

— Eu fico feliz por não terem sido capturados e, Krink... você...

O mais baixo do grupo já sabia o que o seu amigo estava prestes a falar, portanto se apressou e falou antes dele.

— Estamos felizes que esteja a salvo também, Luyul, estávamos morrendo de preocupação com você — Krink desviou um pouco o seu olhar, dirigindo-o inicialmente para Marrncifer, a qual cumprimentou com um rápido aceno de sua cabeça e depois encarou o pequeno Diell. — E o melhor de tudo é que agora está ao lado de sua família.

Diell o encarou por alguns momentos. Sabia que não era inimigo e que não lhe faria mal algum, mas a sua expressão era vazia e indiferente, não ilustrava nem felicidade e alívio por vê-lo, mas também não transparecia medo ou desespero. Já o havia visto por algumas poucas vezes, nas quais Krink fora à sua casa para conversar com Luyul e Marrncifer a respeito de algum assunto qualquer relacionado à CIV. Krink também se lembrava mais ou menos dele e poderia jurar que, da última vez que vira aquele jovem Bour, ele era pelo menos uns dez centímetros mais baixo. Quando os seus olhos o encararam, sorriu levemente e, logo em seguida, voltou a olhar para Luyul.

— Krink, é incrível que esteja bem — Luyul estava realmente bastante feliz e aliviado. — A sua situação não era nada boa, eu pensei que você...

— Eu também pensei, mas graças à ajuda deles dois — e Krink apontou para Juhs e Amn -, eu consegui sobreviver. Sempre serei grato por isso.

A recuperação de Krink, havia sido, de fato, fabulosa. Quando a impactante traição se abateu sobre aquele grupo de vinte membros da organização CIV e os Logrus caíram sobre eles como se fossem um bando de feras famintas, foram obrigados a fugir da Morada o mais rápido que podiam e Krink havia se oferecido a encarar os ferozes seres avermelhados sozinho por mais algum tempo a fim de que os seus amigos pudessem escapar mais facilmente. Entretanto, as consequências de tais atos tinham sido muito severas. Conseguira sobreviver, mas foi carregado quase inconsciente por Juhs e Amn, os quais foram obrigados a ouvir os seus sonoros gemidos de dor e agonia durante todo o caminho percorrido até o Porto dos Pescadores. Quando os dois começaram a analisar os seus ferimentos, sentiram-se nauseados com toda aquela quantidade de sangue e de carne rasgada em inúmeras regiões do corpo de Krink, mas ambos não se permitiram fraquejar, afinal, a vida de seu amigo estava valendo naquele momento, portanto, iniciaram o tratamento medicinal rapidamente.

Não dispunham de muitos recursos para curar as feridas, basicamente ervas medicinais que sobraram da missão e foi isso o que usaram. Juhs ajudou, mas se era possível dizer que houve um ser vivo realmente determinante para que Krink conseguisse continuar com vida, este ser havia sido Amn. O uso das ervas medicinais requeria um conhecimento um tanto mais detalhado sobre elas. Dependendo de qual erva era usada, a função era diferente bem como a forma de aplicação, a qual por sua vez, era importante que fosse desenvolvida da maneira correta para garantir o máximo de eficiência da erva e, neste aspecto, Amn não decepcionara.

Antes de entrar para aquela vida de criminoso como ladrão da CIV, Amn havia trabalhado como vendedor de uma humilde unidade comercial na pequena Cidade de Uholla. Lá, uns dos principais itens vendidos eram ervas medicinais, portanto, fora obrigado a conhecer um pouco sobre elas a fim de que as vendas fossem efetuadas de uma maneira mais eficiente e, quando algum cliente lhe perguntava sobre como deveria usar uma determinada erva, Amn sabia responder muito bem, portanto, ele certamente era o mais apto a cuidar dos ferimentos de Krink, o que fez Juhs ser útil mais como um simples ajudante.

Definitivamente, o conhecimento mais avançado de Amn havia surtido um efeito muito positivo. Krink permaneceu bastante debilitado mesmo alguns instantes após o término do tratamento e Juhs estava bastante preocupado, pois não observava melhora alguma e Amn havia lhe dito que não podiam fazer mais nada, apenas esperar e rezar para que aquilo que já havia sido feito, funcionasse.

Ninguém sabia ao certo se Raikus realmente existia ou não, mas alguém deve ter ouvido as preces porque Krink começou a se recuperar lentamente e quando menos esperavam, já estava mexendo a sua boca para falar e depois não demorou muito tempo até que conseguisse ficar de pé.

— Todos vieram direto para cá quando nos separamos? — foi Luyul aquele que perguntou, seu estado emocional estava lentamente voltando ao normal e as palavras conseguiram fluir facilmente pelos seus lábios.

— Sim, viemos — Amn se apressou a responder. — Apenas o Lark não veio. Pelo que me recordo, ele estava planejando levar a família dele para os Krullian, ainda que eu não ache isto lá muito seguro...

— Não creio que vá ocorrer problemas em relação a isso — Juhs rebateu. — Pelo que sei, os Krullian são uma família antiga de habilidosos caçadores e um deles conhece a família do Lark há bastante tempo, além do fato de que não creio que os Krullian já tiveram contato com os Logrus em algum momento, portanto não existe nenhum risco de traição.

— Sim — Luyul concordou. — É como você disse, eles são caçadores fortes, então são bem treinados nas artes do combate, os Logrus não seriam suficientemente loucos a ponto de desafiarem os Krullian apenas por causa de uma mera suspeita de que eles estivessem escondendo um "foragido". Não arriscariam começar uma guerra com outros seres vivos fortes, pondo em risco as suas atividades comerciais que estão tão em alta ultimamente.

Luyul estava correto no seu raciocínio. Os Krullian certamente eram mais fracos do que os Logrus, mas mesmo assim, os ferozes seres vermelhos teriam que se esforçar consideravelmente para ganhar um conflito contra eles caso algo assim eclodisse.

— Eu não tenho certeza de mais nada — um leve tom de revolta podia ser percebido nas palavras de Amn. — A missão que tínhamos de invadir a Morada para roubar a tal pedra preciosa era extremamente confidencial, o que significa que apenas membros da CIV sabiam, certo? Portanto, fomos traídos por alguém de dentro, por alguém que acreditávamos que era confiável, a menos que os Logrus tenham descoberto tal informação por algum método especial que tenha conseguido penetrar a privacidade da nossa organização, mas, sinceramente, duvido muito que seja este o caso. Então vocês estão dizendo que os Krullian são confiáveis? Pois eu não acredito mais em confiança, a não ser em nós mesmos. Acho que Lark está errado enquanto que o Luyul é que está absolutamente certo em trazer a sua família para que escape junto.

O curto discurso de Amn foi ligeiramente impactante para todos os que estavam ali presentes, mas ninguém rebateu, afinal, sabiam que nada do que ele havia acabado de dizer era mentira. Ficaram sem reação e, como consequência, o Porto dos Pescadores mergulhou num profundo silêncio. Luyul desviou o olhar e se virou para o píer pelo qual havia chegado e ficou encarando a sua extremidade oposta, franzindo os olhos, esperando ver alguém se aproximando, esperando que o seu amigo Lark chegasse em velocidade por ali, exatamente como havia feito há poucos instantes atrás, e então finalmente poderiam abandonar a Cidade de Lunn. Entretanto, nada aconteceu nos instantes que se seguiram. Nenhum ser chegou e a única coisa que percorreu o píer foi uma leve brisa que o atingiu no rosto e fez movimentar os seus curtos e lisos cabelos pretos.