O Regresso do Desespero

4 Welcome to Despair's Peak Academy - Parte III


Notas iniciais
Antes de começarmos o capítulo, tenho umas coisas a dizer: 1- Sobre o discurso japonês: Como podem notar nesse capítulo, algumas personagens usam sufixos como "-kun" e "-chan" além de empregarem palavras japonesas no próprio discurso. Decidi fazer isso apenas quando achei que isso seria algo fundamental para a explicação da personagem em si. Além disso, como podem notar, maior parte das personagens se trata pelo segundo nome em vez do primeiro. Isso é um costume japonês com apenas algumas exceções: - Quando a pessoa com quem falamos é estrangeira (caso do Teemu, por exemplo, que trata e é tratado sempre pelo primeiro nome) - Quando conhecemos muito bem/somos bons amigos da pessoa com quem falamos Ainda tem o caso da Kayo (que é tratada assim por esse ser exatamente o nome pela qual ela ficou conhecida) e do Eikichi (que trata todos pelo primeiro nome porque... Porque ele é um chato). É isso. 2 - Sobre o tamanho do capítulo: É, eu sei que isso ficou enorme. A ideia era que eu colocasse o fim das apresentações (que toma cerca de 3000 palavras, por aí) e explicações do local e das regras (que inclui o resto do capítulo). Eu até cortei muito algumas partes para encolher e não ficar chato. XD Por isso, desculpem, e saibam que os próximos capítulos provavelmente não serão assim tão grandes. 3 - Grade das personagens: É, uma pessoa muito querida fez uma linda grade para as personagens! Assim vocês podem ir lá verificar alguns pormenores que não estejam compreendendo (afinal, esse negócio de alguns tratarem pelo primeiro nome e outros pelo segundo PODE ser confuso) ou então fazer como eu e ficar encarando a grade por horas e ponderar como ela ficou bonita. Aqui, ó: http://madness-of-the-lady.tumblr.com/shsl-perfection É tudo (por enquanto). Boa leitura c:

Não havia muito mais para explorar, a não ser por um quarto em particular, que estava logo à esquerda após sair da enfermaria. A placa dizia “arrecadação”, mas a porta parecia trancada. Tentei abri-la vezes sem conta, mas sem resultado. Estava prestes a desistir, quando ouvi uma voz masculina atrás de mim.

– Você é muito imbecil, não é mesmo? – Perguntou. Ao virar-me, encontrei um garoto alto – ou pelo menos PARECIA alto, visto que as suas botas pareciam ter uma sola grossa o suficiente para lhe adicionar uns quantos centímetros – que me encarava de braços cruzados e um sorriso divertido, mas de todo simpático. – Não dá para ver que para abrir essa porta é necessário usar aquele painel?

Virei-me para onde o garoto apontava, descobrindo um painel fixo à parede que eu não tinha visto antes, com uma luz vermelha acesa. Parecia o tipo de coisa ao qual você colocava a sua mão ou um cartão eletrónico para ativar. Era razoavelmente grande, mas a minha mente estava demasiado fixa na porta em si para o notar. É, eu às vezes não era muito inteligente.

– Ah… Tem razão. – Murmurei, num tom baixo. No entanto, o garoto não pareceu querer deixar isso passar, porque insistiu em aumentar a minha vergonha.

– Você tem algum problema de vista, talvez? Devia ver um médico, tipo, urgentemente. – Deu um riso trocista, que não durou muito tempo, porque subitamente a pelúcia de nome Monokuma aparecia de novo (assustando tanto a mim quanto ao garoto) no meio de nós. Caído do teto.

– Oh, estou a ver que encontraram a arrecadação! – Disse ele, num tom exageradamente feliz. – Que lindinho ver dois gatos se encontrando na frente de um lugar desses… Estou sentindo alguma ação bishounen? É isso mesmo? Uii, minha barriguinha gorda até treme de excitação!

Ele se abanou um pouco, o rosto vermelho como se ele estivesse tentando se libertar de alguns pensamentos menos próprios, mas o garoto não pareceu estar muito feliz.

– O que você quer dizer!? Está louco!? Eu nem conheço esse cara e CERTAMENTE não caio para esses lados!

– Mas Ichiro-kun, romances proibidos são tudo de bom! É disso que a plateia gosta! E você deve de saber como agradar a plateia, não é mesmo? – O urso piscou o seu olho preto para o garoto de nome Ichiro.

– V-Você… – Ele cerrou as mãos, o rosto ficando vermelho de raiva. Parecia que ia pular em Monokuma a qualquer momento.

– Hey, hey! Violência contra o diretor é proibida! Nem tente ou sofra com as consequências, e uma dicazinha: A consequência é a morte!

– M-Morte? – Perguntei, surpreso. Do nada, mais uma coisa caiu do teto: Dessa vez, uma enorme metralhadora que aterrou em cheio nos braços do urso. Ele a apontou para nós, numa pose ameaçadora.

– Sim, morte. Não acredita? Quer mesmo experimentar? Meu enchimento está pronto para você! Apenas venha, venha!

– …Diga o que você quer e saia… – Resmungou Ichiro, parecendo mais calmo. Não, ele não estava mais calmo: estava só tentando se conter face à arma que lhe estava sendo apontada. Também eu tentei suavizar as coisas com uma risada nervosa, esperando apenas que Monokuma parasse de brincadeiras.

– Ohh, não vão quebrar as regras, não? Da outra vez quebraram duas vezes e… Eu estava tão entusiasmado para isso! – O urso suspirou, aparentemente desapontado – Bom, de qualquer forma, só queria avisar que, para entrar ali dentro, é preciso passar o vosso ID de estudante no painel. Só assim a porta se abre. E também, todas as noites, uma lista dos nomes o painel registou é impressa pelo próprio, à qual deverá ser guardada pelo delegado de turma! Obrigado!

E dito isto, ele caiu num alçapão que apareceu do nada – de novo – e sumiu. Juntamente com a metralhadora. E com o bom humor que Ichiro tinha até antes dele ter aparecido.

– Delegado de turma…? E quem seria esse “delegado de turma”? – Resmungou, pensativo. Não falava para mim, na verdade, parecia ter esquecido que eu ali estava.

– Hmm, talvez alguém que nós ainda não conhecemos? Quem sabe…

– Cala a boca, imbecil. Não preciso das suas opiniões. – Respondeu Ichiro de uma forma autoritária. Depois, ele sorriu vagamente – De qualquer forma, vamos ver o que tem lá dentro. Você primeiro, vai.

E, com um pequeno empurrão, ele obrigou-me a passar o meu ID de estudante no painel. Que garoto irritante. A luz, que antes estava vermelha, piscou num tom verde e respondeu com um “clique”, o que me permitiu abrir a porta. Entrámos, sem haver a necessidade de Ichiro passar o próprio ID, e analisámos o quarto.

Era um armazém. Tinha de tudo ali, desde coisas normais como materiais escolares a coisas não tão normais como tapetes e cortinas. Não consigo imaginar nada que não dê para encontrar ali. Após investigar um pouco, voltei para Ichiro.

– Hm. Ao menos temos a certeza que dá para sobreviver aqui, com essas coisas todas. Tem até comida enlatada e tudo mais, como se já não houvesse suficiente na cozinha. – Comentou, novamente mais para si mesmo do que para mim. – Hey, qual é o seu nome, pirralho?

Engolindo a ofensa, apresentei-me.

– Isao Kimoto. Super High…

– Não pedi o seu título, só o seu nome. Céus, além de cego também é surdo? – Revirou os olhos de forma arrogante. Não esperava que ele se apresentasse, no entanto, assim o fez, sorrindo de forma presunçosa.

– Chamo-me Ichiro Suzuki. Mas provavelmente você já sabia disso.

Ichiro Suzuki – Super High School Level Racer

Realmente, eu sentia que já tinha visto o seu rosto em algum lugar recentemente. Provavelmente, isso devia-se ao facto de Ichiro Suzuki ser, tal como muitos outros alunos daqui, uma figura recorrente na televisão. Ele era um piloto de fórmula 1 (e outros desportos motorizados) que, segundo dizem, venceu quase 100% das partidas das quais participou. Mais impressionante ainda é que ele fez tudo isso antes de sequer tirar a carta. Não entendo como que a polícia não decidiu cair em cima dele, mas aparentemente isso nunca aconteceu. Ele parecia bem convencido, mas de certa forma tinha motivos para tal. Os seus feitos davam inveja a pessoas “normais”. Contudo, não consegui evitar responder à letra.

– Não pedi para se apresentar, só falei meu nome. Céus, além de chato mandão também é surdo? – Sorri levemente, e mais uma vez Ichiro ficou vermelho e pareceu querer me bater. Só que, mais uma vez, tentou se conter.

– Humpf. Eu vou embora.

– Espera! Tem uma reunião entre todos os alunos…

– Te pareço com alguém que queira saber disso? – Perguntou ele – Quanto menos eu tiver de andar no meio de um grupo de alunos irritantes melhor. Adeus.

E sem me deixar sequer dizer alguma coisa mais, abandonou a arrecadação. Bom, já eram menos duas pessoas.

De qualquer forma, após dar mais umas voltas àquele lugar para garantir que não encontrava nenhuma saída ou algo que nos pudesse ajudar, decidi que talvez fosse melhor se eu voltasse para a sala comum. Eu já tinha explorado maior parte desse lado da escola e certamente Tsubomi e Teemu haviam tratado do lado este. Assim sendo, voltei para lá.

Quando lá entrei, estavam maior parte das pessoas que eu já tinha conhecido ali presentes, uns sentados nos sofás, outros em pé conversando. Tsubomi fez o favor de me dar as boas-vindas ao chegar, como se ela fosse a anfitriã daquele encontro. Sorria delicadamente.

– Você foi o último a chegar. Não vem mais ninguém? – Perguntou. Ao ver que eu acenei negativamente, ela suspirou. Obviamente, tinha percebido que algumas pessoas simplesmente tinham decidido não vir, como era o caso de Ichiro, pelo facto de haver mais portas do que pessoas naquele quarto.

– Ohh! Esses peixes são TÃO fofos! – Comentou Kayo, encarando o aquário com entusiasmo – Eu nunca antes vi um aquário ao vivo…

– Não? – Inquiriu Natasha. Ela parecia bem mais calma do que quando a vi pela última vez. Ela deu uma risada divertida – Em que mundo é que você vive?

– Em que mundo, de facto. Kayo Mitsui, essa é a pergunta que todos querem saber: ONDE é que você vive?

– Deixe-a, Eikichi. – Ralhou Satoru para o loiro, de braços cruzados. Estava calmo, mas obviamente não estava gostando do que o paparazzo estava fazendo com a vlogger.

Do outro lado do quarto, Evan e Teemu pareciam ter uma conversa animada numa língua estrangeira, à qual Natsuri parecia estar ouvindo e tentando compreender – ou talvez ela compreendesse mesmo, visto que ela era a SHSL Genius. Ai também não parecia estar entre os presentes, ou pelo menos, se estava, estava muito bem escondida. Era um ambiente bastante animado até. Agradável.

– Então, Kimoto. – Começou Tsubomi, trazendo-me de volta à realidade – Receio que você ainda não conheça todas as pessoas aqui presentes, não é mesmo?

Era verdade. Ao fundo, uma moça de cabelos gigantescos loiros e um vestido rosa conversava animadamente com uma outra garota de cabelos negros e roupas de marinheira. Uma outra garota que cobria o seu rosto com um capuz estava sozinha no canto da sala.

– Oh, realmente. Ainda não conheci alguns daqui. – Concordei. Tsubomi acenou afirmativamente, não escondendo muito o seu orgulho por estar certa.

– Permita-me que eu te ajude nessa tarefa de conhecer os restantes alunos, então. – Aquilo era na verdade um pedido, mas saiu como uma afirmação. E, antes que eu pudesse responder, ouvi uma vozinha muito fina guinchando atrás de mim.

– PIKA!!

Dei um salto, assustado, pensando que alguém estava tendo um enfarte ou algo do género, mas quando me virei, era só um garoto. Tinha um rosto de criança, mas pela altura deveria ser mais ou menos da minha idade. Usava um casaco amarelo, cujo capuz que cobria todo o seu cabelo negro tinha orelhas e o rosto do pikachu. Pensei que ele tivesse dito realmente alguma coisa e eu não tivesse compreendido, e então, burro como sempre, perguntei:

– Desculpe, não entendi. O que você disse?

– Pikachu ~ Pikapi! – Respondeu ele. Encarei-o atônito, perguntando-me porque é que ele estava imitando uma personagem de um anime, até que Tsubomi decidiu ser a minha grande salvadora para explicar a situação.

– Kimoto, esse é Connor Fukusaku. – Explicou ela docemente – O título dele é o de “Cosplayer”… Daí estarmos presenciando esse intenso roleplaying, suponho.

Ele retirou o capuz e sorriu amavelmente.

– Yep! É o que ela disse. Quando eu estou fazendo cosplay, “Connor” desaparece e fica apenas a personagem que eu estou interpretando. De qualquer forma, prazer em te conhecer, Kimoto!

Connor Fukusaku – Super High School Level Cosplayer

Pelo nome, ele também devia de ter alguma raiz estrangeira, apesar do seu sotaque ser definitivamente japonês. Não me lembrei de muita coisa sobre ele, apenas tinha uma ideia vaga de que ele ia a imensos eventos e sempre se destacava pelos seus cosplays lindíssimos e perfeitos, além de que ele mesmo também tinha um pequeno ateliê onde fazia os disfarces personalizados para quem quiser. Um talento engraçado, para dizer a verdade, e ele devia ser mesmo bom para ser reconhecido por algo assim.

– Você devia de tentar fazer cosplay um dia desses! Não, não apenas você, vocês os dois mesmo! Ahh, eu consigo definitivamente ver a Tsubomi de Sakura e o Kimoto de Shaoran! Espera, mas aí a Tsubomi teria de usar peruca… É claro, estou falando de Tsubasa, não de Card Captor, porque afinal, vocês já não são crianças. Pensando bem, ignora isso, Tsubomi, eu arranjo algo melhor para você. Talvez…

– Uh, desculpe? – Eu não era de todo uma pessoa extremamente ligada a animes, pelo que não tinha muita noção de algumas séries. O que ele estava dizendo não tinha muita lógica para mim, apesar de eu ter uma vaga ideia de que programa ele estava falando. – Hmm… Depois falamos, sim?

Ele continuava falando, até mesmo por cima da minha própria voz, e acabei ficando um tanto irritado. Assim sendo, apenas tentei me afastar dele logo, e o garoto não pareceu se importar muito. Com certeza ele estava planeando vir até mim de novo mais tarde.

– Ele é uma personagem e tanto. – Comentou Tsubomi, com uma risadinha leve – Bom, de qualquer forma, ali estão Kobayashi e Chiyeko, vamos cumprimenta-las. Oh, a Kobayashi é um tanto… Diferente, sabe. Não se impressione.

Chegámos perto das duas garotas que estavam tendo uma aparente agradável conversa. Tsubomi apressou-se a apresentar-me.

– Kobayashi, Chiyeko, esse aqui é Isao Kimoto. SHSL National Hero. – Explicou ela, delicadamente. Ambas se viraram e acenaram afirmativamente, levantando-se ao mesmo tempo. Por um momento ali, parecia que tinham praticado aquilo anos antes.

– Aww, Kimoto-kun! – A de rosa bateu palmas, esticando a mão para me cumprimentar e apertando-a entusiasticamente – Prazer em te conhecer! Takane adora o seu cabelo, cabelos ruivos são tudo de bom. Como o calor do pôr-do-sol, entende? Tão acolhedooor! ~

Takane Kobayashi – Super High School Level Fashion Designer

Takane Kobayashi é a dona de um ateliê de moda extremamente famoso no Japão. Com certeza que você já ouviu falar, embora duvido que tenha a disponibilidade financeira para comprar as suas roupas. – Explicou Tsubomi, sempre atenta e prestativa – Eu mesma às vezes uso peças de vestuário dela e já inclusive pedi algumas personalizadas só para mim… Porque realmente, ela tem muito jeito. Especialmente com as peças de cores vermelhas, que pessoalmente são as minhas favoritas.

Dava para perceber só de olhar para as roupas de Kobayashi que ela sabia exatamente o que vestir. Apesar de absurdamente rosa, tudo estava bem combinado e bonito. Sorri ao ver Tsubomi comentando como ela gostava das roupas da designer. Afinal, apesar de uma empresária de sucesso, ela ainda era uma garota, e isso era adorável.

– E é um prazer fazer roupas para você, Tsubomi-chaaan! Você fica tão kawaii, tão tão kawaii, que meu coração flamejante mal aguenta!

– Hmm… Certo, obrigada, Kobayashi. – A empresária pareceu um pouco reticente, mas agradeceu gentilmente. Enquanto isso, a outra garota ficava apenas olhando.

– E você quem seria? – Perguntei para ela. Ela estava com os braços cruzados e parecia apenas observar a nossa conversa. Quando lhe dirigi a palavra, semicerrou os olhos, analisando-me de cima a baixo (para meu grande embaraço) e respondeu.

Shizue Chiyeko. – Apresentou-se. Não parecia querer dizer muito mais, contudo.

– Oh, prazer em te conhecer. Qual seria o seu título?

Estiquei a mão, à qual ela apertou sem grande entusiasmo comparativamente à amiga, e respondeu.

– Justiceira.

Shizue Chiyeko – Super High School Level Vigilante

– Oh? E de que se trata esse talento? Você… Traz justiça?

– É.

– Como?

– Não interessa, sério.

Ficámos por um tempo nos encarando, cada um à espera da reação do outro, mas nenhum obteve os resultados que queria até que Tsubomi decidiu se meter no meio.

– Hmm, Kimoto… Chiyeko não é uma pessoa de conversar muito, mas acredito que…

– Ninguém falou com você. E também, ninguém realmente se importa com o que você “acredita”. – Cuspiu Chiyeko na cara da outra – Então, por favor, que tal você se esconder num cantinho e ficar vendo, sim?

As morenas ficaram se encarando por uns momentos. Por alguma razão, Chiyeko não gostava de Tsubomi. Não estranhava que houvesse realmente gente que não gostasse dela, devido ao seu enorme poder e às difamações dos media, mas não esperava que isso fosse mostrado tão na cara assim. De qualquer forma, não via nenhuma das duas como más pessoas. Talvez “incompatíveis” fosse a expressão mais fácil de arranjar para descrevê-las. E por falar em incompatibilidade, outro indivíduo se jogou no meio da conversa.

– Heeey, Isao! Eufrat! KT. – Cumprimentou Koji avidamente, mas perdendo um pouco de entusiasmo ao se virar para Kobayashi, e chamando-a de um nome estranho. – E Shizue também, olá.

– KT…? – A designer pareceu interessada pela forma como fora tratada, lançando um olhar curioso para o paparazzo que havia aparecido do nada, inclinando ligeiramente a cabeça para o lado. Depois, ela deu um sorriso e a sua voz saiu… Um tanto diferente. Mais séria, mas ao mesmo tempo mantendo tom infantil de antes. De alguma forma aquilo me arrepiou. Senti que a garota estava irritada. – Ara, ara… KT, não é mesmo? Kawaii. Tão, tão kawaii.

Um sorriso arrogante saiu de Koji como resposta. Pareciam estar se desafiando um ao outro.

– “Kawaii”? Você pensa que é o quê, personagem de anime? “A menina abençoada”, não é mesmo? De facto, parece algo que você veria na televisão, melhor perguntar para o Connor ali sobre isso, talvez ele saiba sobre algum show desse género…

– Hey! – Logo Chiyeko estava se metendo na frente de Kobayashi, numa pose defensiva – E quem é que VOCÊ pensa que é?

O clima parecia piorar a cada segundo. Primeiro a briga entre Chiyeko e Tsubomi. Depois Koji aparecera para se juntar à brincadeira, e Satoru parecia demasiado entretido mostrando uns truques para Kayo, Natasha e Connor para realmente se importar em apaziguar a situação como das outras vezes. Felizmente, a empresária casualmente me puxou para fora dali, deixando a briga apenas entre eles os três. Me senti um pouco mal por deixá-los daquele jeito, mas acho que tudo o que eu fizesse para acalmar as coisas só ia piorar tudo.

Só faltava uma pessoa para eu falar com, só que Tsubomi não me levou até ela. Em vez disso, ela me levou até ao outro lado da sala comum, num canto mais privado.

– Aquela garota… É Riya Akatsuki. – Murmurou Tsubomi com cuidado, tentando não ser ouvida. Talvez estivesse exagerando um pouco demais na discrição, mas deu para entender as suas intenções. – Eu te apresentaria a ela pessoalmente, só que sinceramente… Não acho que isso vá resultar, sabe? Ela é uma pessoa muito reservada e estranha. E tem uma forma tão deselegante de falar…

– Sério? – Perguntei, apenas para dar a entender que estava ouvindo. Olhando para Akatsuki, não era de suspeitar que ela fosse realmente como Tsubomi descrevia.

– Sim. Eu realmente não queria me aproximar dela… De qualquer forma, o título dela é “estrategista”.

Riya Akatsuki – Super High School Level Strategist

– Uma garota a se temer, na verdade. Eu mesma me encarreguei de várias pesquisas sobre ela, e as informações que eu obtive foram com muita dificuldade. Aparentemente, ela ajudou o governo japonês com dicas e ideias que evitaram uma guerra contra a Coreia do Norte… Como que uma garota de 15 conseguiu sequer chegar PERTO do governo, também não sei. Talvez tenha algo a ver com a sua família… Mas o mais estranho é que eu não encontrei informações nenhumas sobre isso. É como se ela fosse filha de ninguém, sabe?

Lançou mais um olhar na direção da garota antes de voltar ao seu normal estado sorridente e calmo.

– Bom, Kimoto. Acho que você agora já conhece todos, não é verdade? – Disse, agora um pouco mais alto que antes. Aparentemente, a conversa sobre Akatsuki acabara tão depressa quanto começara. – Suponho que isso dê tudo por terminado. Hmm, gente! A vossa atenção, por favor!

Enquanto ela se dirigia para o centro da sala comum, a sua voz propagou-se pelo cômodo inteiro. Como é claro, todas as pessoas viraram as suas atenções para a morena. Ao ter a certeza que todos estavam atentos, ela começou a falar.

– Como sabem, todos nós nos reunimos aqui para discutir a nossa presente situação nesse recinto escolar. Assumo que todos receberam a mesma notificação no seu quarto, certo? – Não houve ninguém a negando, por isso a empresária continuou – Então, temos de avaliar o nível de seriedade disso, e como que podemos escapar. Todos nós estivemos explorando um pouco desse lugar. Acho melhor começarmos por aí. Quem quer começar?

– Bom… Eu dei uma volta aos quartos. São 16 deles, e todos têm acesso a essa sala e ao corredor. – Explicou Evan, no seu normal tom calmo. Ele era bastante claro, provavelmente devido ao seu talento, parecia ter jeito para reportar o que encontrara sem causar pânico – Notei também que existe uma saída para uma possível ala este da escola. Contudo, esta está trancada, umas grades impedem a passagem e é necessária uma chave.

– E-Eu também dei uma olhada por aí… E todas as janelas estão firmemente trancadas com enormes placas de metal. Nem daria para saber que são janelas se não fosse pelo seu posicionamento. – Comentou Natasha, um pouco mais baixo que os dois anteriores, e também um pouco menos calma. – Quando vi Teemu, achei que ele talvez fosse forte o suficiente para arrancá-las ou algo assim, mas…

– Não consegui fazer nada. Elas estão extremamente bem presas, e se recusaram a mover por muito que eu tentasse. – Explicou o estrangeiro com o seu sotaque um tanto engraçado – Acho que elas foram presas às janelas por uma máquina de algum tipo.

Fez-se um silêncio por alguns momentos, o qual Kurama fez o favor de quebrar.

– Vocês viram o elevador? É uma porta vermelha que fica ao lado do refeitório, só que não tem botão nem fechadura, está simplesmente trancada. Ao lado também tem umas escadas descentes… As quais, tal como a saída para a ala este que Evan encontrou, também estavam trancadas por umas grades. Acho que isso faz com que estejamos presos a essa ala em particular.

– Eu, por outro lado – Começou Kayo, levando o indicador aos lábios enquanto parecia pensar um pouco – Não dei muitas voltas à escola. Na verdade, depois de encontrar o Kimoto, voltei para o meu quarto… E notei que me faltam várias coisas, como a minha câmera de filmar ou o meu telemóvel. Na verdade, apenas fiquei com algumas mudas de roupa… E não muito mais que isso.

– O portfolio de Takane também desapareceu! – Acrescentou Kobayashi, tristonha – E o seu tablet, nem mais! Ohh, o que pode Takane fazer sem as suas escaldantes imagens!

– …Escaldantes imagens? – Repetiu Connor, ficando subitamente muito vermelho. Ao entender o que ele queria dizer, apressei-me logo a mudar de assunto antes que EU ficasse vermelho.

– Eu visitei a enfermaria e a arrecadação. – Comentei – A enfermaria tem tudo o que precisamos se alguém ficar doente. Sério, tem de tudo lá, até mesmo coisas um tanto perigosas. Os armários têm todos fechadura, contudo, por isso acho que se deixarmos as chaves nas mãos de alguém responsável não vamos ter muitos problemas…

– E quanto ao armazém? – Perguntou Satoru, que parecia ter tirado uma folga da sua atitude lunática para prestar atenção às coisas – Não tem nada lá dentro que nos ajude a escapar?

– Bom, tem imensas coisas, incluindo ferramentas. Só que não acho que sirva para nos ajudar a fugir. Mas tem tudo o que precisamos para a nossa sobrevivência aqui dentro… E mais algumas coisas ainda. Está realmente muito completo.

– Hey. Antes de vir para aqui, eu tenho a certeza que passei lá pra dar uma olhada, e a porta não abriu. – Interrompeu Riya, num tom rude, como se estivesse me acusando de algo. De certa forma, percebi o porquê de Tsubomi a ter evitado mais cedo.

– Ah, sim… A porta só abre se você apresentar o seu ID de estudante a um painel. – Expliquei, o mais calmamente possível – Só assim que dá para abri-la. Depois, a sua entrada é marcada e guardada, e o próprio engenho imprimirá uma lista de pessoas que lá entraram todas as noites.

– Uma questão de segurança, suponho? – Comentou Tsubomi – Seria bom se alguém guardasse essa lista…

– O Monokuma apareceu lá, na verdade. – Não queria comentar sobre isso, mas meio que fui obrigado – Ele explicou que a lista deveria ser sempre guardada pelo “delegado de turma”.

– Espera, Monokuma? Você quer dizer aquele urso que apareceu no anúncio? Eu pensava que ele era só um desenho animado! – Exclamou Natasha, surpresa

– Não, ele é real. – Confirmou Teemu – Eu também o vi… Junto de Tsubomi e Kimoto, sem mais. Ele nos apareceu no refeitório e nos explicou umas coisas…

– Já falamos sobre isso. – Interrompeu Tsubomi – Antes disso, eu tenho que perguntar: Quem seria o delegado de turma?

Silêncio. Nenhum dos presentes parecia saber a resposta, mas ficaram todos olhando para mim. Simplesmente encolhi os ombros, mostrando que também eu não fazia ideia. Suspirando, Tsubomi indicou para Teemu continuar com um aceno.

– Ah, bom. O refeitório é muito grande, e tem uma cozinha própria, obviamente. A cozinha tem todo o tipo de comida e é reabastecida todas as semanas à noite. Só que o refeitório está fora dos limites durante o período noturno, por isso… É, segundo o Monokuma, não podemos quebrar as regras, por isso não vai dar para ir lá enquanto eles reabastecem a cozinha.

– Regras…? Quais regras? – Perguntou Kayo, ainda ostentando a mesma expressão pensativa.

– Você não olhou no seu ID de estudante? – Perguntou Connor, com um sorriso animado comparativamente aos outros – Lá tem um mapa da escola e um monte de regras, além de um pequeno perfil de todo o mundo aqui presente. É muito útil… Uma pena que não dê para assistir animes por lá.

– De qualquer forma – Começou Koji, que parecia estar irritado por não ter recebido a chance de falar ainda – Eu e Kyoishi estivemos no teatro. Aquele lugar é gigante, mas não tem janelas nem nada do tipo. Mas tem todo o tipo de coisas necessárias para fazer até um concerto da grande ídolo Sayaka Maizono se fosse necessário, ou um show de mágica do próprio Kyoishi.

– Mas não há saída? – Perguntou Evan, mesmo que este já parecesse saber a resposta – Quero dizer… Normalmente um teatro tem bastidores, talvez até mesmo um alçapão, ou qualquer coisa que leve para uma saída de emergência.

– Não, não havia saída naquele lugar. – Confirmou Satoru – Existem de facto bastidores, aos quais eu dei uma olhada, mas são pequenos comparativamente ao anfiteatro em si e não têm muita coisa, apenas mais materiais. Nada que nos ajude na nossa fuga.

– Então, estamos realmente presos!? – Gemeu Kayo, mordendo o lábio inferior nervosamente – Não pode ser…

– PODE SER E ASSIM SERÁ! – Gritou a voz inumana quando Monokuma apareceu, mais uma vez, no meio de todos sem qualquer aviso prévio. Alguns gritaram, outros mantiveram-se calados, mas pessoas como eu, Tsubomi e Teemu não reagiram muito. – Meu deus, vocês são de compreensão lenta, não são? Mas que saco! Que personagens mais chatas, assim o show nunca vai continuar! Então deixem-me que vos explique tudo bem direitinho, ok?

– I-Isao… Não estava brincando? – Comentou Koji, que pela primeira vez ficou com a voz trémula.

– M-Mas é impossível… Uma pelúcia… Falante… e ambulante… – Acrescentou Natasha, agora tão baixo que se eu não estivesse mais próximo dela não teria percebido.

– Ai, por favor! É sempre a mesma coisa, o meu nome é Monokuma, sou o vosso diretor e também sou um urso! Qual o problema com isso, podem me falar? Exato, nenhum. Então vamos passar para a explicação das regras.

1 – Os alunos devem continuar as suas vidas juntos exclusivamente dentro da academia. Indefinidamente.

2 – O período desde as 10 da noite às 7 da manhã é designado “período noturno”. Lembrem-se que o refeitório está fora dos limites durante esse tempo.

3 – Dormir é apenas permitido nos dormitórios. O uso deliberado de qualquer outro quarto será dado como dormir na aula e punido como tal.

4 – Os alunos poderão investigar Hope’s Peak livremente. Nenhuma restrição em particular será imposta nas vossas ações.

5 – Violência contra o diretor, Monokuma, é proibida, assim como a destruição e/ou perturbação das câmeras de vigilância.

6 – O vilão que matar um dos seus companheiros será permitido “graduar”, desde que o seu crime não seja descoberto pelos alunos.

7 – Pouco após a descoberta de um assassinato cometido pelos alunos, um Julgamento será realizado para descobrir o criminoso. A presença de todos é obrigatória.

8 – Se o aluno vilão for devidamente identificado durante o Julgamento, ele apenas será executado.

9 – Se o aluno vilão não for devidamente identificado durante o Julgamento, ele apenas graduará e os restantes alunos serão executados.

10 – Regras adicionais poderão ser adicionadas com o tempo.

– É claro que vocês podiam ter aprendido tudo isso apenas olhando para o vosso ID de estudante né… Mas eu fui fofinho o suficiente para vos explicar tudinho agora mesmo! Alguma dúvida?

– Sim, na verdade…

– Que bom! Agora, têm de votar para eleger o vosso delegado de turma! É muito importante saber quem vai ter esse papel pois é ele o responsável por diversos problemas que podem surgir na escola. Mas não se preocupem, o delegado de turma também pode matar ou ser morto! – O urso piscou o olho alegremente – Agora, por favor, que comece a votação!

Ele entregou uns papéis por todos e pediu que escrevêssemos um nome ali. Sem entender nada, todos os que tentaram ripostar foram interrompidos pelo nosso “diretor”. Assim, lá fizemos a tal votação, um tanto ao acaso.

– Ufa! Quem será o delegado de turma? Não se preocupem, eu já peguei os votos daqueles que não estão aqui presentes. Esperem um pouco enquanto eu faço a contagem…

Após alguns momentos, ele deu um pulo de alegria e acenou afirmativamente.

– É isso! O representante da turma, ou delegado da turma é Eufrat Tsubomi! Uma salva de aplausos para ela, por favor! Uhuuu!

Contudo, ninguém ali bateu palmas. Apenas encarámos a pobre empresária com uma expressão fúnebre. Quem sabe o que Monokuma ia obrigá-la a fazer. Após dizer mais algumas coisas sem sentido, o urso sumiu como das outras vezes.

E atrás dele ficou apenas um rastro de desespero.

Notas finais
Gostaram? Por favor, digam o que acharam! E agora que já estão todos apresentados, seria legal se dessem um parecer em relação a cada pessoa e quem acham que vai cometer o primeiro crime/quem será a vítima. c: Also, eu também fiz um pequeno mapa da ala oeste desse andar. Aqui está ele: http://i.imgur.com/5FTURSW.png Eu sou muito boa desenhando mapas, podem falar. B) A laranja são as portas. E sim, eu sei que ali só estão 14 quartos em vez de 16, finge que são 16. Obrigada e até ao próximo! c: