O Reflexo do Verão

23 O Jantar da Trégua


A mesa na casa de Hamilton estava posta com uma elegância despretensiosa, o som das ondas lá fora compondo a trilha sonora perfeita. Pela primeira vez em cinco anos, não havia tensão no ar. Parecia que o tempo, com sua passagem implacável, tinha lavado a mágoa e deixado apenas a leveza de quem já não tinha nada a provar.

​Ricardo, Mônica, Marcus e Zayra riam de uma história sobre os primeiros dias de faculdade de Ariel, enquanto Conrad tentava convencer o pai de que seu novo contrato com a NBA não o tornava rico o suficiente para comprar um time inteiro.


​— Eu ainda acho um absurdo — dizia Ricardo, servindo-se de uma taça de vinho — que o Conrad tenha ganhado mais na última temporada do que eu ganhei em dez anos na minha clínica.

​— Pai, é o mercado! — Conrad riu, dando um empurrão no ombro do pai. — Além disso, eu divido o sucesso com o Michael, ele que faz o trabalho pesado de marcar os pivôs adversários para eu enterrar.

​Michael, que estava sentado em frente a Sarah, soltou uma risada genuína.

— Trabalho pesado? Eu chamo isso de carregar o Conrad nas costas, na verdade.

​Sarah, impecável em um conjunto de linho, apenas sorriu, o olhar sereno.

— Se vocês dois pararem de inflar o ego um do outro, talvez consigam terminar essa refeição antes de virarem as estrelas da noite.

​A mesa toda riu. Ariel, agora a Dra. Styles, interrompeu, segurando um pedaço de pão.

— Gente, vocês não sabem. A Sarah quase foi barrada no aeroporto de Milão porque tentaram levar o manequim de prova dela como bagagem de mão. Ela teve que convencer o fiscal de que era uma "colega de trabalho" inanimada.

​— E funcionou? — Zayra perguntou, encantada.

​— Funcionou — Sarah respondeu, rindo. — Eu disse: "Ela é modelo, não pode ser despachada". O homem olhou para mim, olhou para o manequim e simplesmente desistiu de discutir.

​Mônica e Zayra trocaram olhares de orgulho absoluto.

— É fascinante ver onde vocês chegaram — comentou Mônica, suspirando. — Parece que foi ontem que a gente estava rindo de vocês jogando videogame na sala de estar.

​O clima leve

​Ninguém mencionou o soco. Ninguém mencionou Chloe. Ninguém mencionou o dormitório. Era como se a memória traumática tivesse sido enterrada sob o peso da maturidade. Michael, observando Sarah, percebia como ela gesticulava ao contar sobre a moda em Paris — ela era vibrante, segura e, acima de tudo, feliz por conta própria.

​— E você, Michael? — Sarah perguntou, surpreendendo a todos ao puxar o assunto diretamente. — Ouvi dizer que você está pensando em abrir uma fundação de esportes para crianças carentes. Isso é admirável.

​Michael parou de comer, segurando o olhar dela por um longo momento.

— É uma forma de retribuir, Sarah. A gente passou muito tempo focado em subir, em vencer... mas agora é hora de fazer valer a pena para quem não teve a nossa sorte.

​— E você, Ariel? — Sarah continuou, mantendo o tom casual. — Como é a rotina no hospital? Já curou todo mundo?

​— Estou tentando! — Ariel respondeu, animada. — Mas o Conrad ainda é meu paciente mais difícil. Ele insiste que gelo resolve qualquer lesão de basquete.

​— Mas gelo resolve! — Conrad protestou, fazendo a mesa gargalhar novamente.

​A Nostalgia sem Dano

​O jantar seguiu com o quarteto relembrando os dias de "Os Sobreviventes do Vale". Eles contavam piadas sobre os jantares de Ação de Graças passados, sobre as vezes em que os meninos tentaram cozinhar e quase incendiaram a cozinha.

​Para um observador externo, ali estavam apenas quatro amigos e duas famílias unidas. A decepção não existia porque Sarah já não dava mais a ela o poder de existir. Ela não precisava perdoar Michael, porque, para ela, ele já era uma página virada — ele era apenas o "amigo da família" que fazia sucesso na liga de basquete.

​Quando o jantar terminou e todos se levantaram para ir para a varanda, Sarah sentiu um toque leve de Michael ao passarem pela porta.

​— Você está incrível, Sarah — ele disse baixo.

​Ela parou, olhou-o nos olhos, e o seu sorriso foi o de quem não guardava ressentimento, mas também não guardava espaço.

— Eu sei, Michael. A gente sempre foi destinado a coisas grandes, né?

​Ela saiu para a varanda, deixando-o para trás. Ela não estava mais esperando nada dele, e foi exatamente por isso que, pela primeira vez em cinco anos, Michael percebeu que a tinha perdido de verdade — não para outra pessoa, mas para a própria vida dela. E, diante disso, ele só pôde sorrir, respeitando a mulher em que ela se tornara.