O Refúgio da Princesa

1 1. Traição, Teletransporte e Outro Mundo


Naquela manhã, Anneliese acordou com uma sensação de mal-estar. A dor aguda que percorria seu corpo era um resultado direto da ingestão de algo na noite anterior. Após o jantar, ela havia retornado ao seu quarto, imediatamente sentiu uma leve náusea que a incomodava.

Anneliese preparou algumas poções restauradoras, na esperança de acalmar seu estômago revoltado. Para seu alívio, as poções surtiram efeito. No entanto, não foram totalmente eficazes;

Enquanto se encontrava em um estado doentio, lutando contra a inconsciência, ela desmaiou e, ao recobrar a consciência, se viu deitada na cama fria da enfermaria. Os médicos, investigavam os sintomas, logo descobriram que ela havia sido vítima de envenenamento, o que explicava os intensos enjoos matinais e outros sintomas além das dores estomacais.

Enquanto ela permanecia sonolenta sob os olhares atentos dos médicos, os responsáveis pelo envenenamento desencadearam a primeira onda de bombardeios. O estrondo ensurdecedor das explosões irrompeu pelo silêncio da sala, fazendo com que Anneliese se erguesse atordoada, sentindo o cheiro pungente da fumaça e ouvindo o estouro dos tiros com um sentido turvo.

Cambaleando ao longo do caminho, ela tropeçou várias vezes, sua saia elegantemente adornada agora se torna rasgada e desalinhada, embora a devastação no corredor a torna insignificante em comparação. A espessa fumaça negra obstruía sua visão, e o odor de sangue impregnava no ar, torturando seus sentidos.

Num piscar de olhos, tudo ao seu redor mergulhou em uma escuridão impenetrável. Pesadas gotas de chuva começaram a cair, trazendo consigo uma tristeza silenciosa para as estruturas em ruínas do castelo. Sombras invisíveis pareciam se estender em sua direção, envolvendo-a na escuridão, ameaçando consumir sua esperança.

O vento soprava fortemente, assobiando pelas paredes da câmara onde Anneliese estava. Um relâmpago rasgou o céu noturno, iluminando seu corpo com um brilho avermelhado, que cintilava como um aviso ardente. Em seguida, o trovão retumbou, sacudindo o chão sob seus pés e enviando uma vibração de medo através de sua espinha. O ar estava carregado com um forte odor de destruição iminente.

Com o coração acelerado, Anneliese começou a correr. Suas pernas movendo-se freneticamente para escapar dos passos rápidos que se aproximavam. Monstros sombrios a perseguiram implacavelmente, suas garras estendidas para agarrá-la. Ela tentou se defender, lutando, mas era evidente que essas criaturas não iriam parar até tê-la em seu poder.

As razões para capturá-la eram diversas e sombrias. Alguns eram impulsionados pela ganância, sedentos por poder. Outros eram movidos pelo desespero, buscando uma solução desesperada para seus problemas. E ainda havia aqueles motivados pela vingança, ansiosos para infligir dor e sofrimento. Eles estavam unidos, pois a captura de Anneliese era essencial para seus planos, e, naquele momento, ela se sentia impotente para revidar.

Desesperada, Anneliese correu da porta que levava à câmara circular, percorrendo a passarela estreita enquanto seus olhos buscavam desesperadamente o altar à frente. Lá, vislumbrou o teto de vidro bordado, agora fragmentado em estilhaços brilhantes. O perigo não a impediu de prosseguir, ela precisava executar o plano de contingência.

Com a respiração ofegante, sua mão estendeu-se em direção ao cristal de Janish, e, em um instante, uma poderosa luz azul irrompeu, deslumbrante aos olhos, antes de se transformar em um verde vibrante e, finalmente, em um turquesa resplandecente. A esfera brilhante permaneceu assim, emanando uma aura mágica.

Enquanto Anneliese concentrava sua essência naquela esfera, uma barreira mágica começou a se formar ao redor de Elsydian. Uma energia protetora envolveu a terra sagrada, formando uma muralha invisível que bloqueia qualquer ataque vindo de fora do território elsydiano. Era a última esperança de defesa.

Anneliese suspirou, sentindo-se exausta. Sua visão turvou-se devido aos esforços, e a estava prestes a perder a consciência.

“Venha comigo, minha princesa…” A voz do atacante ecoou em seus ouvidos. Anneliese tentou atingi-lo com a palma da mão, mas Algus antecipou o golpe e esquivou-se habilmente. “É assim que você trata seu futuro marido?”

Um misto de fúria e ódio impulsionou as pupilas dilatadas de Anneliese. Seus olhos brilharam com um lampejo de luz, e ela desejou poder atingi-lo com algum tipo de força devastadora. No entanto, sua fraqueza era evidente, e o golpe quase não surtiu efeito.

“Contenha seu temperamento ou irá se arrependerá…” Algus agarrou o braço de Anneliese, aproveitando-se de sua debilidade momentânea. Ele sorria com satisfação, pois seu plano estava finalmente dando certo.

“Quero ver…” Em meio àquela presença desprezível, Anneliese focalizou seus olhos em Algus, nutrindo o desejo de vê-lo morto, enquanto o general observava a jovem, pronto para levá-la embora.

No entanto, antes que Algus pudesse prosseguir, seu braço foi profundamente cortado e seus movimentos se interromperam abruptamente. Confuso e cheio de fúria, ele fitou Ernest, cuja imponente figura surgia diante deles, empunhando sua espada. “Tire suas mãos sujas da minha filha…”

“Majestade…” Algus zombou, mas suas palavras foram cortadas por um golpe fulminante que o derrubou ao chão.

A presença de Ernest fez com que as pupilas de Anneliese se dilatassem ainda mais, enquanto seus olhos pareciam tornar-se completamente brancos. Ela sentia suas forças abandoná-la, seu corpo começando a se inclinar para frente, até que, finalmente, desmaiou instantaneamente.

Apesar da grave lesão em seu ombro, Ernest amparou Anneliese, pressionando-a contra seu peito. Com cuidado, ele auxiliou-a a ingerir um líquido laranja brilhante, uma solução regeneradora de emergência. Era apenas uma medida temporária, mas poderia fornecer uma rápida regeneração.

Após alguns minutos, a princesa finalmente recobrou a consciência, embora ainda se sentisse fraca e tonta. Com o apoio do pai, ela se esforçou para se levantar, levantando as pernas com cautela. O rei observou-a com preocupação. “Você está se sentindo melhor agora?”, indagou ele.

“Sim…”, respondeu ela, seus olhos percorrendo o campo de batalha repleto de inimigos derrotados e alguns guardas em volta.

Enquanto Anneliese lutava para manter as pernas firmes, Ernest segurou seu braço, e os guardas o protegiam a retaguarda. O pai a conduzia em direção a uma área restrita do castelo, seu rosto emanando seriedade e frieza.

“Pai, o que você está planejando fazer?”, indagou a jovem, sua voz repleta de ansiedade e confusão.

Ernest não respondeu, arrastando-a escada abaixo até um porão mal iluminado e afastado. Enquanto desciam, a adolescente notou a ferida no ombro do pai “Papai, seu ombro…”, murmurou, tentando tocar a ferida exposta.

“Estou bem!”, assegurou ele rapidamente, um leve sorriso se formando em seus lábios. “Eu já sabia do plano de Algus há muito tempo. Preciso que você confie em mim, pode me prometer isso?” Seus olhos fixos nos da filha.

“Claro, papai, eu prometo…” A jovem afirmou com convicção, seus olhos brilhando. “Para onde estamos indo?”

“Não nós, mas você. Eles acreditarão que você traiu e abandonou Elsydian, mas devo ficar para acalmá-los e garantir que você retorne em segurança.”, explicou Ernest com uma mistura de tristeza.

Adentrando a sala de teletransporte, Ernest colocou Anneliese em uma plataforma circular e prendeu uma pulseira em seu braço. Ao sentir o toque da pulseira, Anneliese percebeu a seriedade da situação e começou a se debater, tentando se libertar do firme controle de seu pai.

“Vem comigo, papai…” Implorou ela, os olhos marejados de lágrimas.

Ernest permaneceu em silêncio, enxugando suavemente as lágrimas de sua filha com o coração apertado. Era um momento breve e significativo. “Apesar de você ser a minha única filha, não tenho te abraçado desde que você tinha doze anos. Sinto muito, querida.” Ernest envolveu-a em um abraço longo e silencioso, expressando ser amor incondicional.

Enquanto o som do alarme dos guardas ecoava pelo castelo, Ernest agiu rapidamente, ativando o dispositivo mágico. Num piscar de olhos, Anneliese foi envolvida por uma intensa luz brilhante, que se transformou em um portal vibrante, como se uma tela tivesse se aberto diante dela.

A sensação era de ser puxada por uma correnteza de energia, como se estivesse imersa em um vendaval gelado. A região do outro lado revelou-se fria e ventosa, com o ar escasso fazendo seus pulmões queimarem. Anneliese sentiu um fluxo de energia circulando ao seu redor, navegando através de correntes invisíveis.

As paisagens se transformavam velozmente, passando de panoramas deslumbrantes a terras desconhecidas. O brilho do portal oscilava criando um espetáculo de luzes ao redor de Anneliese.

Enquanto as cores e formas se moviam rapidamente, o som do alarme do castelo desvaneceu-se, dando lugar ao som suave e etéreo que acompanhava a travessia pelo portal.

Anneliese segurava-se firme, maravilhada e um pouco aturdida com a experiencia. A sensação de movimento cessou abruptamente quando o portal se fechou.

Quando Anneliese despertou, encontrou-se esparramada em uma plataforma danificada. A confusão que assola Elsydian a deixava alheia ao fato de que seu pai havia recorrido a um dispositivo de alta tecnologia, que havia sido proibido por sua mãe. Ela passou as mãos sobre a superfície que se assemelhava à metade superior de um diamante, reconhecendo-a como um portal de teletransporte. Além de Elsydian, existia apenas um lugar com tais portais.

Enterrada no chão coberto de neve, a base do portal estava completamente camuflada, semelhante a um painel decorativo. A superfície, rachada e suja, ainda exalava um leve fluxo de energia residual da viagem recente.

Com relutância, Anneliese deixou o pódio e examinou seus arredores. Tinha dificuldade em se localizar, percebendo estar em uma área livre com uma cidade movimentada ao longe. O ambiente ao redor era vibrante, mas um odor forte pairava no ar, impossível de ser ignorado.

De onde estava, podia avistar e ouvir o tumulto e a cacofonia que a deixaram sem palavras. Era um turbilhão incessante de ruídos e sons. As buzinas dos carros se misturavam aos gritos dos vendedores de rua, à música alta das lojas e bares, às sirenes das ambulâncias e da polícia, e às vozes apressadas das pessoas.

O barulho era constante e intenso, quase se fundindo em um zumbido contínuo ao fundo, tornando difícil distinguir os sons individuais. A poluição no ar era desagradável e pesada.

Ao se afastar, Anneliese continuou avançando, examinando seu entorno. Vagou por alguns minutos até deparar-se com um banco em uma área abandonada, que mais parecia ser uma antiga praça. Esta era composta por brinquedos velhos e quebrados sob a cobertura de neve, e um terreno irregular com elevações e buracos. Tudo isso indicava que estava na área mais empobrecida da cidade.

O vento gelado soprava contra seu rosto, bagunçando seus cabelos e deixando um rubor suave em sua pele pálida. O frio não incomodava. Para ela, o inverno trazia uma sensação de calma e suavidade, uma oportunidade para refletir e encontrar paz interior.

Sua coroação seria daqui a alguns anos. Ernest havia considerado uma boa ideia permitir que a princesa assumisse algumas responsabilidades como treinamento para quando assumisse o trono.

Anneliese acreditava que sabia como lidar com os assuntos de Elsydian, mas suas ações acarretaram consequências graves. Sua última decisão colocará em risco a segurança de todos. Mas alguns erros poderiam ter um alto preço.

O vento se intensificava, desviando sua atenção da pulseira em seu pulso para o ambiente ao seu redor. Ela observou o subúrbio tranquilo à sua volta, notando que poucas pessoas andavam nas ruas naquele dia frio. Os poucos transeuntes que cruzavam seu caminho ficavam surpresos ao deparar-se com a adolescente sentada ali.

Alguns curiosos tentaram se aproximar, mas, ao notarem suas características diferentes, preocupação e incerteza se espalharam em seus rostos, fazendo-os desistir da abordagem. Anneliese, ficou apenas sentada, enquanto o tempo ia passando, seu semblante tranquilo e sereno contrastando com a inquietação do seu interior.

O tempo passava, e ela se mantinha ali, imóvel, como se estivesse à mercê de forças invisíveis que a impediam de se mover. A quietude aparente escondia a turbulência de sua mente, uma batalha interna que se desenrolava sem que ninguém pudesse testemunhar.

Enquanto as horas se arrastavam, a inquietação que se agitava dentro dela tornou-se insuportável. Os pensamentos dolorosos começaram a nublar sua consciência, obscurecendo o mundo à sua volta. Era como se uma névoa densa e sombria engolisse sua mente, afastando-a cada vez mais da realidade.

Anneliese, aparentemente serena por fora, estava perdendo o controle de sua própria consciência, afundando em um abismo de desespero e confusão, onde as fronteiras entre o mundo exterior e seu interior se tornavam cada vez mais difusas.