O Recomeço
4 A Carta
Notas iniciais
Molly Weasley acordou cedo para preparar o café da manhã, como todos os dias. Ainda era difícil se acostumar a sua rotina novamente, depois dos acontecimentos da batalha e a morte do filho. Era estranho não ter Fred em casa e sempre que Molly pensava naquilo, chorava. Então decidiu distrair a cabeça e fazer comida para a família era algo que ajudava e muito. Ficou intrigada quando viu um pedaço de papel na mesa da cozinha. Não acreditou no que estava lendo, Harry havia partido. As lágrimas já começaram a aparecer em seus olhos.
— Ronald! Levante agora! — disse a Sra. Weasley, num tom de voz que acordou a casa inteira. — Cadê o Harry???
— Que? Sobre o que você tá falando? Pra que me acordar a essa hora mulher? — respondeu Ron, com uma voz de sono, descendo as escadas e chegando na cozinha.
Com toda essa barulheira, todos acordaram. Em pouco tempo, Hermione, Gina e o Sr. Weasley estavam lá embaixo também, só Jorge não desceu. Ninguém parecia entender o que estava acontecendo.
— Olhe Arthur! Harry foi embora, ele deixou essa carta — disse uma desesperada Sra. Weasley.
— Como assim? — respondeu o Sr. Weasley, pegando a carta e a lendo em voz alta. — “Cara família Weasley, eu tenho uma grande dificuldade em me expressar, vocês sabem disso. Mas vou tentar, nessa carta, explicar brevemente os motivos que me levaram a ir embora. Eu não tenho como agradecer por toda a hospitalidade de vocês nesses últimos dias, aliás anos. Vocês realmente têm ajudado muito. Porém, com tudo que aconteceu no último ano, todas as batalhas, todas as mortes, eu percebi que preciso de um tempo sozinho. Eu preciso absorver tudo, pensar, superar e tentar recuperar quem eu sou. Sinto que, para isso, tenho que ficar sozinho. Não se preocupem, estarei em um lugar seguro, só preciso de um tempo de tudo. Peço que, por favor, não venham atrás de mim (isso também vale pra vocês, Ron e Hermione). Vocês sabem do amor que sinto por todos vocês e isso não mudou, mas agora eu realmente preciso disso. Espero que entendam. Harry”.
Quando o Sr. Weasley terminou de ler a carta todos se olharam perplexos. Hermione tentava processar toda aquela informação, Ron ficou mudo, Arthur não acreditava no que havia lido e Gina ficou muito vermelha, parecendo extremamente irritada.
— Não consigo entender. Claro que percebi que ele estava abalado, mas todos estamos — disse o Sr. Weasley, incrédulo.
— Por que ele não nos avisou? Sabia que ele já tinha tentado fugir ano passado, mas achei que agora as coisas seriam diferentes — falou Hermione, que no fundo se sentia um pouco culpada.
— Não acredito que ele fez isso! Não é possível que depois de tudo que nós passamos ele vai simplesmente fugir! — gritou Gina, parecendo que queria matar Harry.
— Mas pra onde será que ele foi? — perguntou a Sra. Weasley.
— Largo Grimmauld, com certeza. É seguro e é dele. Pra onde mais ele iria? — respondeu Hermione.
— Então vamos logo! — disse a Sra. Weasley, já se preparando para sair.
— Acho que não devíamos, mãe — disse Ron, enquanto todos o olharam com espanto. — Sério que vocês não entenderam o motivo de ele ter ido embora? Harry se sente culpado por tudo, ele sempre foi assim. Agora, com a guerra, foi pior. Todos aqueles mortos, o estado que o castelo ficou. Ele acha que é culpa dele. E ainda por cima, ele tem que nos olhar todo o dia tristes por causa do... por causa do Fred. Que é algo que ele se culpa muito, como sempre.
— Por Merlin! Será que ele não percebe que tudo o que acontece no universo não é sempre culpa dele? — gritou mais uma vez Gina, subindo para o seu quarto furiosa.
Todos olharam para ela assustados, mas só Ron e Hermione sabiam o porquê. Os pais Weasley nunca ficaram sabendo do relacionamento de Harry com sua filha, então não entenderam muito bem o que havia acabado de acontecer. Hermione e Ron se olharam seriamente. Entendiam tudo e sabiam que ainda existiam sentimentos entre aqueles dois. Hermione, por sinal, achava que era só questão de tempo até que eles se acertassem, embora agora a dificuldade tivesse aumentado.
— Mas então Ronald, vamos até lá e explicamos que não culpamos ele — disse Molly, voltando ao assunto.
— Não adianta — falou Hermione, sem nem pensar direito.
— A vida inteira a gente tenta dizer isso pro Harry, mas ele é assim. Ele é um cara que coloca muito responsabilidade em si mesmo – disse Ron. — Sinceramente, acho que devíamos deixá-lo em paz por um tempo. Eu sei que é difícil de aceitar, mas acho que pode fazer bem pra ele.
— Ah não! O que você está pensando, Ronald Weasley? Nós somos a família daquele garoto e você quer só largar ele por aí? — gritou a Sra. Weasley, com lágrimas nos olhos.
— Ele sabe se virar mãe! E arrastar ele a força até aqui não vai trazer nada de bom. Eu amo o Harry. É como se ele fosse um irmão pra mim, mas agora eu acho que ele precisar ficar longe de tudo isso, por mais que doa pra nós — respondeu Ron.
— Você tem certeza disso? — perguntou Hermione, olhando para o seu namorado.
— Tenho, se Harry escreveu essa carta dessa maneira, é verdade. Se tem uma coisa que ele nunca quis foi atenção — respondeu o ruivo.
— Ok, eu concordo com você — disse Hermione, ainda parecendo um pouco hesitante.
— Arthur, por favor! Não me diga que concorda com eles? — suplicou a Sra. Weasley.
— Molly, eu sei que é difícil, mas eles estão certos. Harry está passando por uma fase difícil e já provou muitas vezes que sabe se cuidar — respondeu o marido.
— Ainda tem Comensais da Morte soltos por aí! Ele não está seguro sozinho — tentou mais uma vez a Sra. Weasley.
— Ficaria surpreso se o Ministério já não souber que ele foi embora. Kingsley colocou pessoas para cuidarem de Harry e de todos nós da Ordem, possíveis alvos. Vou falar com ele hoje no Ministério para garantir que Harry estará seguro — respondeu o marido.
Assim, Molly percebeu que não adiantava mais discutir, havia perdido. Voltou a preparar o café da manhã, ainda com lágrimas nos olhos, enquanto Arthur tentava consolá-la. Ron e Hermione decidiram subir para o quarto, para conversarem sobre a situação.
— Ron, você não acha que a culpa pode ser um pouco nossa? — perguntou Hermione entrando no quarto. — Não falei lá embaixo porque seus pais ainda não sabem sobre a gente, mas será que com a gente junto muito tempo, Harry não se sentiu sozinho? Sabe, ele e a Gina ainda nem se falaram, aí os melhores amigos dele começam a namorar, pode ser meio chato.
— Acho que não Mione, esse é o tipo de coisa que ele falaria comigo — disse Ron. — Até porque ele era quem se isolava mais, eu não pedia pra ele nos deixar sozinhos, nem nada do tipo. Mas você acha que ele e a Gina voltam? Já tô ficando puto com ele deixando ela triste, de novo.
— Ah Ron, não começa com os ciúmes! Deixa eles, sua irmã já é bem grandinha! — falou Hermione, impaciente.
— Ela é minha irmã! É impossível! Ele não podia escolher outra? — disse Ron, fazendo o papel de irmão mais velho.
— Meu Deus Ronald Weasley! Você por acaso gostaria que eu tivesse um irmão mala pra te encher o saco? — perguntou Hermione, deixando Ron sem palavras, do jeito que só ela sabia. — Acho que não né! Pois bem, agora trate de parar de incomodar eles.
— Não prometo nada, mas posso tentar — falou Ron.
— Ótimo! Por falar nisso, acho melhor eu conversar com a Gina. Nos vemos lá embaixo — disse Hermione, dando um selinho em Ron e saindo.
Gina estava no seu quarto, deitada na cama. Sentia vontade de quebrar tudo. A raiva que Harry havia gerado nela era algo inimaginável. Ela ainda não acreditava em como aquele garoto podia causar sentimentos tão fortes nela. Depois de tudo o que havia acontecido, Gina achava que, com o tempo, tudo se acertaria. Claro que ainda chorava toda a noite por causa da morte do irmão, mas o sofrimento, uma hora ou outra, iria passar. Em relação a Harry, esperava que agora finalmente pudessem ficar juntos sem problema, mas ele não parecia querer falar com ela nunca. Óbvio que era aquela culpa de sempre. E agora, ele a havia abandonado. Gina começou a pensar se ele ainda sentia algo por ela, afinal eles ficaram tanto tempo separados e não namoravam oficialmente fazia um ano. Ela estava tão perdida em pensamentos e em um sentimento de raiva que mal percebeu que alguém estava batendo na porta.
— Gina, posso entrar? — perguntou Hermione.
— Aham — respondeu Gina, abrindo a porta para a amiga, ainda com uma cara não muito amigável.
— Olha eu sei que é difícil e o Harry pode ser um idiota às vezes, mas tenta se acalmar — disse Hermione, escolhendo as palavras com cuidado.
— É que eu não aguento isso Hermione! Esse é um momento em que eu precisava dele, assim como você e o meu irmão precisam um do outro, e ele simplesmente fugiu, sem falar comigo uma vez! — disse Gina, tentando controlar o tom de voz.
— Eu entendo. O Harry foi um imbecil, mas garotos são assim mesmo. Tenho certeza que quando ele voltar vocês vão se acertar. Duvido que ele fique fora muito tempo — falou Hermione, tentando tranquilizar a ruiva.
— Não sei, ele foi tão estranho comigo nesses dias. Só não falava nada. Ele por acaso conheceu alguém em uma dessas viagens misteriosas de vocês? — questionou Gina.
— Infelizmente estávamos sendo caçados por um psicopata, então ele não teve tempo pra arrumar nenhuma gatinha — zombou Hermione. — Relaxa que vai ficar tudo bem.
— Eu espero, mas agora só queria ele aqui pra dar um soco naquela cara! Que raiva! Mas mudando de assunto, me conta você agora, como tão as coisas com o Roniquinho, hein? Quando vai falar pra sogra? Se demorar muito eu falo! — disse a caçula da família Weasley, rindo.
— Se você fizer isso, vou testar uns feitiços novos em você! — respondeu Hermione, rindo também. — A gente vai contar na hora certa. Por enquanto tá tudo bem. Tô aproveitando né, finalmente. O idiota do seu irmão só demorou alguns anos pra tomar uma atitude, mas valeu a pena.
— Que fofa! Não consegue nem esconder o sorriso quando fala dele, tá apaixonadinha! — dessa vez foi a vez de Gina zombar Hermione.
— Ah me deixa em paz, vamos descer logo, o café deve estar pronto — disse Hermione.
— Verdade, não podemos deixar a sogra esperando — brincou mais uma vez Gina, enquanto as duas desciam as escadas em direção à cozinha.
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