O Recomeço

21 Capítulo Vinte


As memórias do Brasil haviam sido ótimas para Elizabeth, estava tudo conforme os planos ditavam. Diferente de todos os lugares, em Newton, Estados Unidos, Elizabeth iria ficar em uma casa alugada já que o tempo que passaria seria extenso comparado aos outros países. John uma vez havia comentado com Elizabeth, que Newton teria sido o lugar ideal para ela, isso de alguma forma, salientou a curiosidade aguçada que tinha sobre aquela pequena cidade americana. Iria ser um pouco estranho, afinal, foi onde John cresceu e passou boa parte da sua infância e adolescência.

O primeiro mês em Newton havia sido inusitado, apesar de ser realmente uma cidade fantástica, muito iluminada, a vizinhança nova era muito simpática e incrível, mas ainda era estranho imaginar que o homem que ela amava cresceu justamente ali e, o mais interessante, era que ele realmente estava certo; Newton realmente era ideal para Elizabeth, ela iria ter amado crescer e morar naquele lugar.

Conforme o tempo fora passando, Elizabeth passou a se adaptar com a sua nova rotina em Newton. A sua forma de manter os dias ocupados, era fazendo artigos para a Potere, era um trabalho a distância, mas era bom para ocupar a cabeça, entre muitas coisas, ela também exercia o seu cargo de dona da revista algumas vezes, não como rotina, pois ainda estava em seu plano de férias. Muitas chamadas de vídeos para Verona, conferências em algumas reuniões mensais, os meses em Newton foram dessa forma, Ozzy também havia se adaptado muito bem ao novo país e estava gostando da casa nova. A casa tinha apenas cinco cômodos, era pequena, mas era perfeita para Elizabeth; ela queria algo simples e tudo estava se adaptando as suas prioridades naquele momento.

Se tinha algo que Elizabeth odiava fazer aos domingos, essa coisa era mercado, mas definitivamente era o único dia da semana que lhe sobrava para fazer suas compras. Filas intermináveis, reclamações, crianças pedindo doces na fila e pensamentos sobre os próximos artigos da revista pairavam sobre sua cabeça, resumia-se apenas isso, mas já que não era apenas de artigos e vento que uma pessoa sobrevivia, Elizabeth arrastou o seu corpo para o mercado com muito sacrifício, é claro.

O clima sobre Newton estava bem frio, era época de muita neve no estado de Massachusetts, era difícil acostumar-se com tanto frio congelando os ossos. A parte boa é que Elizabeth agora tinha os fios longos e isso aquecia a sua nuca e suas costas, mas o seu rosto congelava como picolé no freezer.

Depois de horas decidindo o que levar, Elizabeth estava preparada para enfrentar aquela dura fila, algo que era difícil quando se estava com muita fome — era capaz de ouvir o seu estômago clamar por algum alimento — realmente aquilo era desesperador para ela. Por quanto tempo precisaria esperar por aquilo?

Ela debruçou o corpo sobre o carrinho do mercado na esperança de tudo ir mais rápido, talvez fosse um pouco de drama e desespero ou fome envolvidos com sua intensidade.

— Eu disse para você não vir nesse mercado, Catherine. Quando vai me escutar? — um homem disse, atrás de Elizabeth, aquela voz era familiar.

Elizabeth deu de ombros, rindo ao ouvir o quão sem paciência aquele homem estava, provavelmente com a sua esposa. Ela pensou que uma briga faria tudo ficar menos tedioso de suportar, mas não tão perto.

— A próxima vez eu escolho, obrigado — ele disse, reclamando novamente.

— Será que você pode parar de falar comigo nesse tom, John Phillip Armstrong? — a mulher retrucou, irritada aparentemente.

Elizabeth arregalou os olhos, sentindo o seu coração acelerar em questão de um segundo. Não poderia ser o John, ela pensou. As pernas de Elizabeth começaram a tremer como se estivessem em uma montanha-russa, as suas mãos estavam suadas, e o seu estômago estava embrulhado.

— Está tudo bem, Elizabeth — ela sussurrou para si mesma, sentindo toda a água que havia bebido querendo voltar em uma única vez.

— Moça, a fila — ele disse, tocando nas costas de Elizabeth.

Aquele toque fez os olhos de Elizabeth ficarem marejados, era o toque dele. Definitivamente era o John. Elizabeth ergueu a sua cabeça vendo que era a sua vez, empurrou o carrinho e começou a jogar os itens sobre o balcão, permanecendo com a cabeça virada a todo tempo para frente.

A sua falta de paciência era aparente, John estava cansado demais para dar ouvidos a Catherine naquele momento, desligou-se enquanto a irmã continuava reclamando sobre a sua falta de paciência, era muito claro o quanto ele estava farto daquilo. Ele franziu a testa, apertando os olhos ao observar o perfil da mulher que estava em sua frente, rindo ao perceber que se tratava de Elizabeth.

— Elizabeth? — ele disse, aproximando-se aos poucos.

Ela fechou os olhos por breves segundos, engolindo a vontade de chorar para erguer a cabeça na direção dele. — John, você aqui? — aquele tom que usou na voz parecia um pouco cínico.

Que besteira falar aquilo, ela pensou. Seria loucura ela em Newton, afinal, o que ela estava fazendo em Newton? Qual seria a sua desculpa para ele? Elizabeth precisava pensar o mais rápido possível, ele certamente perguntaria sobre isso.

— Meus pais moram aqui e esse é o grande mercado local, mas e você? O que faz por aqui?

Ela pigarreou, dando de ombros. — Morando provisoriamente enquanto faço alguns artigos para a revista.

— Moça, tudo deu no valor de 50 dólares — a atendente do caixa disse, olhando para Elizabeth.

Fez-se silêncio por um breve tempo, nesse mesmo momento os olhares de John e Elizabeth ficaram conectado e, ao que se via, ela realmente estava um pouco tímida com tudo aquilo.

— Eu não quero atrapalhar, mas deu 50 dólares — a atendente do caixa repetiu novamente.

— Claro, 50 dólares — ela suspirou, entregando o dinheiro para a atendente.

Elizabeth pegou as compras e arrumou sobre os braços, olhou uma última vez para John; deu alguns passos para longe daquele local, queria esquecer tudo aquilo o mais rápido e, claro, ligar para Jennifer e Kimberly para contar às amigas tudo o que havia acontecido no mercado.

O caminho até o estacionamento havia sido um pouco confuso para Elizabeth, não era bom ver John depois de tanto tempo, ela não estava preparada. Suas pernas ainda estavam falhando na medida em que seus passos foram ganhando vida, mas era uma realidade já que estava vivendo em Newton.

— Elizabeth, espera… — John gritou, ele estava correndo em direção a ela.

Por que ele estava fazendo isso com ela? Certamente John sabia o quanto revirava os sentimento de Elizabeth e, se ele ainda sentia algo por ela, talvez não fosse o correto fazer isso. Ela deveria ouvir o que ele tinha para dizer? Era tarde demais demais, o seu corpo já havia parado de andar e estava olhando para aquele lindo homem parado em sua frente.

— Sim? — ela disse, sentindo o coração querer saltar para fora do peito pela décima vez em poucos minutos.

— Eu estou fazendo um almoço para comemorar o aniversário do meu pai. Só os meus irmãos, os filhos deles e os meus pais — enquanto estava falando, ele pensou o quanto isso lhe pareceu desesperador —, eu gostaria que você fosse.

Ela deu de ombro, rindo suavemente. — É muito gentil da sua parte, mas não precisa. Eu vou comer pasta hoje.

— Não acredito que você vai fazer essa desfeita comigo, Elizabeth.

Merda de americano lindo, ela pensou. Era impossível resistir aos encantos de John Phillip, ela não havia evoluído nisso.

Ela acenou positivamente com a cabeça, sendo positiva pela primeira vez naquele dia. — Está bem, por que não?

Conhecer a família de alguém que você já namorou era algo estranho, eles não estavam juntos, como ela deveria se apresentar?

Olá, eu sou a ex namorada do filho de vocês.

Olá, eu fui a responsável pelo seu filho ter ido para o Japão com o coração dilacerado.

Ela pensou que isso iria ser uma missão para o John, afinal, o convite partiu dele. Elizabeth foi em seu carro apenas seguindo o carro de John, seus pensamentos não estavam muito concretos sobre como ela estava se sentindo a respeito disso, era muita novidade.

— Oi, mãe do John. Como você está? — Elizabeth acenou negativamente com a cabeça. — Olá, mãe do John — ela sorriu, tentando ser otimista. — Você é o irmão gêmeo? Oi, Joey. Oi, senhor Robert — ela franziu a testa, sentindo o estômago embrulhar, ficar testando formas de falar com a família era um péssimo jeito de passar o tempo.

Elizabeth estacionou o carro de frente para a casa e, ao sair do mesmo, conseguiu sentir o seu estômago reclamar de fome pela milésima vez naquele dia, isso era uma péssima hora, desejou que nunca mais fosse fazer compras em pleno domingo ou que fosse naquele mercado local. Cidades pequenas são péssimas nessas horas.

Obrigada Newton, ela pensou.

A casa era realmente linda, ainda mais presencialmente do que por foto. Fotos estavam espalhadas por todos os cantos, incluindo a escada central que estava de frente para a porta de entrada; desde fotos da infância dos três filhos até a fase adulta de cada um, além disso, os netos também tinham lugares especiais para os avós. Um grande corredor ao lado da escada dava diretamente em direção a cozinha e uma porta de vidro separava os cômodos do grande quintal, mas pela época de neve e frio, o almoço seria na sala de jantar.

A mesa estava posta, era realmente um lindo banquete e parecia tudo muito agradável para se comer, não apenas apreciar com os olhos, obviamente. Aos poucos o medo de Elizabeth estava cessando, certamente isso contava com uma ajuda especial do incrível cheiro de John que ia invadindo o seu coração e ganhando espaço em seus pensamentos.

— Mãe, eu quero te apresentar uma pessoa muito especial para mim — John disse, segurando suavemente o braço de Elizabeth. — Essa é a Elizabeth.

A pequena senhora de olhos azuis estava sorrindo para Elizabeth, mas aquele sorrindo era como se estivesse aliviada por algo. Aproximou-se e a abraçou suavemente, transferindo um pouco de carinho por ali.

— Olá, meu bem. Eu me chamo Lauren. Então, você é a famosa Elizabeth? — Lauren disse, sorrindo.

Elizabeth pigarreou, pensativa. — Eu não sei se sou famosa, mas espero que seja por ótimos motivos — ela disse, preocupada com o que poderia ser.

— Acredite que são por ótimos motivos, minha querida.

— Mãe, está tudo certo? — John perguntou, envergonhado enquanto coçava a barba freneticamente com o indicador.

O que tudo aquilo estava significando? Elizabeth gostaria de entender um pouco mais, é claro. Porém, por hora, ela havia gostado muito de conhecer a mãe de John, era uma mulher muito encantadora, assim como o filho. Robert também era muito encantador, estava explicado o porquê John era tão incrível e simpático, partia muito dos pais. Catherine e Joey também eram incríveis, Joey era mais reservado, Catherine era um pouco mais aberta para novas amizades, certamente, os sobrinhos eram crianças adoráveis. Realmente ali havia uma família surpreendente, Elizabeth amaria ter feito parte há uns anos.

Depois de uma bela refeição, o medo já havia passado, assim como susto também. Os pais de John foram descansar um pouco e todos foram embora, exceto Elizabeth que ficou um pouco mais a pedidos especiais. Ele estava morando com os pais por um tempo enquanto ainda não encontrava o lugar perfeito para morar, o quarto que estava dormindo era o mesmo da sua infância; era interessante analisar os rabiscos que fazia na parede para demarcar cada vez que crescia um centímetro, isso fazia Elizabeth rir verdadeiramente. Após observar por longos minutos diversos detalhes daquele quarto — entre rabiscos na parede, desenhos de foguetes, fotos polaroids, e um teto repleto de estrelas que brilhavam no escuro — Elizabeth jogou o seu corpo sobre a cama ao lado de John, virando a cabeça para a direção dele.

— Seu quarto tem muito estilo, Phillip — ela disse, sendo sarcástica e rindo.

Ele revirou os olhos. — Eu sei, costumavam falar isso na época da escola — John riu. — Qual a história de Newton? Não está aqui por artigos, Dean.

Ela debruçou o corpo sobre a cama. — Claro que você não iria acreditar nas coisas que eu disse. Nos últimos três anos eu viajei pelo mundo, John. Eu conheci tantos lugares incríveis e, certamente, eu juntei tantas memórias que não posso contar em uma única vez. Newton é o meu destino final — ela disse, parecendo um pouco empolgada.

Ele arregalou os olhos, ficando boquiaberto por um tempo. — Eu estou um pouco chocado, eu acho.

Fez-se silêncio por um tempo.

— Você… — ele pigarreou. — Você se recusou a ir para o Japão comigo, mas viajou sozinha.

— É diferente, Phill.

— Por quê?

Elizabeth deu de ombros, ela não sabia o que dizer naquele momento. John estava um pouco magoado, mas não queria brigas naquele momento, afinal, eles não tinham absolutamente nada para brigar.

— Você é muito difícil de entender — ele disse, antes de sair do quarto.

Aquele mesmo ciclo não iria se repetir mais uma vez em Newton, Elizabeth não iria permitir isso; ela estava diferente dessa vez, e depois das últimas horas, havia notado que realmente John continuava sendo o seu grande amor, nada havia mudado. Consequentemente, o queria por perto.

— John, por favor — ela murmurou.

Elizabeth correu para perto do homem que amava, abraçando o seu corpo fortemente, aquele abraço que tanto queria dar por intermináveis anos e não podia. O corpo de John estava um pouco resistente nos primeiros minutos, mas em torno do tempo que se estendia, a resistência ia passando e dando espaço para a saudade; ele não seria capaz de resistir aquela mulher, seria louco se permanecesse estável por mais algum tempo. Os braços de John envolveram fortemente sobre o corpo de Elizabeth, agarrando e a guiando para qualquer canto daquela casa, claro que não demorou para que ele a levasse de volta para o quarto. Eles precisavam matar a saudade do jeito deles, de diversas formas possíveis para recuperar os últimos três anos que passaram separados. Entre beijos e toques, Elizabeth e John transpareceram toda a necessidade que sentiam um do outro, sem medo algum.

Naquela tarde, com todo o frio de Newton e o maravilhoso som da neve batendo sobre o vidro da janela, eles fizeram amor pelas longas horas do restante do dia; repetiram intermináveis vezes ainda pela madrugada, e não se importaram com absolutamente mais nada. Nada além deles e toda a saudade que estavam sentindo um do outro.