O Recomeço

5 Capítulo Quatro


Aquele verão na Itália estava sendo uma penitência, qualquer ser humano estaria contando as horas para que o outono chegasse. Elizabeth tinha receios com o mês de setembro, o julgamento seria logo no começo, agosto não demoraria para acabar. Mas, prometeu a si mesma que seria forte o suficiente para aguentar qualquer dificuldade que poderia surgir. Entre sorrisos, lágrimas e pensamentos, aquela noite foi uma tortura.

O relógio marcou três e meia da madrugada, Elizabeth havia dormido somente duas horas, muito pouco para toda aquela viagem exaustiva. Ozzy estava dormindo ao seu lado, não parecia estar sofrendo nenhum pouco com insônia, muito pelo contrário, parecia estar no mais profundo dos sonos felinos. Seus pensamentos estavam variando entre altos e baixos, ela não conseguia entender; achou que seria melhor anotar todas as suas ideias em seu notebook. Acabara perdendo completamente a noção do tempo com aquilo, ficou horas e horas escrevendo e reescrevendo tudo o que estava pensando. Não conseguiu dar-se conta que boa parte das suas anotações incluía o nome John, Phill, Phillip.

— O que você está pensando, Elizabeth? — ela murmurou, recriminando-se terminantemente.

A vida real estava chamando naquele momento, mas Elizabeth não queria ouvi-la, não por agora ao menos; mais questões pessoais e outras questões para serem analisadas, seus pensamentos eram confusos, e os dias enrolados do feriado lhe deixaram ainda pior. Precisava de um dia com as meninas para conversar, rir, falar sobre assuntos de mulheres. Essa seria a melhor forma de encontrar suas respostas — achou conveniente apenas comunicar por mensagem — não quis ligar para Kimberly e Jennifer às seis horas da manhã, seria um pouco desesperador.



— Eu não posso acreditar que você me tirou da cama em plena folga às oito horas, Elizabeth — Kimberly disse, enfurecida com aquela situação. Poderia quebrar o suporte do cinto de segurança com tamanha força.

Elizabeth riu, o humor de Kimberly não era muito amigável de manhã. As pessoas evitavam ter contato tão cedo com ela, mas isso não a assustava nenhum pouco. Ao pegar Kimberly, foram diretamente para casa de Jennifer.

— Isso é uma emergência, urgência... o que você quiser nomear, Kimberly — Elizabeth disse, endireitando-se sobre o banco enquanto dirigia. — De qualquer forma eu faria por você, não seja mal agradecida.

— Mal agradecida por comprar roupas? — Kimberly olhou de cara feia para Elizabeth, arfando. — Tudo bem, eu não aguentaria ouvir as lamentações da srta. Denise hoje. Obrigada, prefiro ouvir as suas.

— Você é um monstro, Kimberly — Elizabeth disse, rindo.



As três amigas já estavam juntas a caminho do bairro onde ficavam localizadas as melhores lojas. Elizabeth queria renascer como uma fênix, usar os conhecimentos de Kimberly seria extremamente importante; ela havia se formado em moda por alguns anos em Londres, tinha todas as respostas que Elizabeth precisaria para repaginar seu guarda-roupa.

Um pote de sorvete de morango com bastante calda extra de caramelo e lascas de chocolate com creme e Kimberly estava pronta com um ótimo humor para ajudar Elizabeth no que a amiga fosse solicitar.

— O truque do sorvete, Beth. Muito antigo — Jennifer disse, com sarcasmo. — Meus agradecimentos ao seu péssimo humor, Kimberly.

— Eu sou um anjo, Jennifer — Kimberly disse, seus olhos rolaram. — Vamos entrar nessa loja, aqui têm coisas lindas.

As três entraram na primeira loja que viram, ficaram encantadas pelas diversas coisas que tinham por ali; roupas realmente lindas, vestidos de todos os jeitos, dos curtos aos longos e com diversos tons, nudes ou pretos, vermelhos ou estampados. Elizabeth perdeu-se em meio à tantas opções, não estipulou um limite para gastar, não pensou nisso, apenas queria desligar-se um pouco. Havia esquecido quando tinha sido a última vez que saíra para trocar todas as suas roupas, ela pensou que nunca havia feito isso de fato. Estava em êxtase com todas aquelas roupas incríveis, ignorou por um momento os olhares e vozes das vendedoras, queria apenas curtir aquela loja que mais parecia ser a entrada para o paraíso na Itália.

— Eu estou no céu! — Elizabeth murmurou, tocava suavemente em um vestido preto.

— Experimenta, Beth. Ele é lindo — Kimberly disse.

Nas mãos de Kimberly já haviam muitas peças, Elizabeth não se assustou ao ver aquilo, na realidade ficou empolgada para provar cada roupa, cada sapato. Queria ver todas as combinações possíveis, imaginar os penteados que usaria, as maquiagens que faria com cada roupa, os lugares que iria com cada peça.

Kimberly não deixou aquele vestido preto para trás, pegou o tamanho de Elizabeth e a arrastou para o provador; as duas ficaram sentadas de frente para a cabine enquanto Elizabeth estava com a sua pilha de roupas, uma verdadeira guerra. Ela estava provando diversas roupas e as meninas acenavam positivamente e negativamente sobre o que achavam de tal roupa ou não — certamente o vestido preto ficou deslumbrante em Elizabeth, foi a melhor escolha que elas fizeram por ali — entre roupas, sapatos, bolsas e acessórios, o trabalho na primeira loja havia acabado, mas na segunda só estava começando. Aquele ciclo interminável só estava sendo iniciado novamente: um tour pela loja recolhendo todas as possíveis roupas e sapatos, e todas foram para o provador, não poderia faltar aquela guerra de roupas com sinais positivos e negativos.

Elizabeth exibia a felicidade de quem tinha o cartão aceito em mais uma loja. O mesmo ciclo foi feito por mais sete lojas ainda naquele bairro. Horas depois e Verona tinha três mulheres cansadas, cheias de sacolas que não aguentavam dar um passo ao norte. Elas foram ao restaurante Paradiso Del Mare, mesa para três muito reservada e aconchegante; não conseguiram descrever o quão aliviador era respirar naquele lugar, comer aquela comida, sentir aquele ar-condicionado, beber aquele vinho tão suave.

— Isso é o paraíso, garotas — Jennifer disse, alisando sua barriga. Sentia seus pés inchados e latejando. — Me lembrem de nunca mais ficar grávida.

— Não seja tão passional, amiga — Kimberly disse, com sarcasmo.

— Garotas — Elizabeth mordiscou o canto do lábio inferior —, vocês já pensaram em algo demais a ponto de parecer errado?

— Simplificação, por favor — Kimberly disse, sentindo-se confusa com o rumo da conversa.

— A tintura está afetando os seus neurônios, Kimberly? Ela está falando do John — Jennifer disse, pensativa.

Elizabeth quase teve um ataque do coração. — O quê? Deus do céu... n-não — ela gaguejou. — Eu disse coisa, qualquer uma — podia sentir a comida revirar em sua barriga.

— Jura? Vamos continuar nessa brincadeira, Elizabeth? — Jennifer riu.

— Nós vimos vocês dois, afinal, sua boba. O quase beijo. Não somos a pobre Alice de nove anos. — Kimberly riu, dando de ombros.

— Não teve quase beijo, Kimberly. Eu ainda estou casada com o seu irmão...

— Meu irmão faleceu há quatro anos, Beth — Kimberly interrompeu Elizabeth, sacudindo as mãos —, e o John é um cara maduro, divertido. Parece se importar muito com você.

— Parem de querer decidir tudo por mim — Elizabeth ficou com os olhos marejados, suas bochechas ficaram vermelhas como se fossem explodir.

— Nós não queremos, Beth. Mas, meu irmão iria querer que você fosse feliz. Estaremos aqui em qualquer decisão.

Kimberly tocou a mão de Elizabeth que estava sobre a mesa.

— E bom, John Phillip é um gato — Jennifer disse, sendo positiva e honesta.

— Se no futuro eu conhecer qualquer outro cara que seja — Elizabeth disse, dando de ombros. — Não me referindo ao John, claro. Eu não estarei errada?

— De modo algum — Kimberly disse, acenando negativamente com a cabeça. — A sua vida merece continuar, você está viva ainda. Viveu o luto por quatro longos anos, em breve será aquele julgamento e tudo vai acabar, Beth. Sei que no seu coração sempre terá um lindo espaço para o George, ele sempre será lembrado com muito amor.

— Não gostamos de você desse jeito — Jennifer disse, aproximando-se de Elizabeth. — Não está fazendo nada de errado.

— Tudo bem, mas eu ainda insisto que aquela tal coisa não é o John — Elizabeth sorriu para Jennifer, abraçando-a.



Sobremesas depois, muitas risadas e conversas jogadas fora, Elizabeth não assumiu o que seria aquela tal coisa, as meninas resolveram não insistir no assunto. O dia acabou sendo muito benéfico para Elizabeth que naquela manhã tinha um guarda-roupa inteiro que não lhe agradava e pensamentos que não lhe cabiam, tantas questões mal resolvidas. As suas melhores amigas faziam qualquer esforço valerem a pena, um pouco mais tarde foram ao salão de cabeleireiro; fizeram cortes, hidratação, escova, unhas e maquiagem, como um dia de mulheres pede. Elizabeth resolveu permanecer com a cor natural de seus fios, manteve o corte em seus ombros. Jennifer manteve os fios longos e escuros, não fez absolutamente nada além de hidratar, afinal, ela está gestante e não podia fazer nada além disso. A senhora das tinturas, Kimberly, resolvera intensificar o ruivo "natural" de seus cabelos. Não tinha como encerrar um dia mais incrível do que daquele jeito. Estava decidida que iria trabalhar com os fios no lugar e roupas novas.

Seria um dia novo com tudo repaginado.

Elizabeth agradeceu suas amigas imensamente por terem sido tão presentes naquele mês de agosto tão tortuoso em sua mente. Momentos rústicos e intensos marcaram os iminentes dias de agosto, porém, momentos como aqueles clareavam os seus pensamentos, a fazia notar que precisava repetir a dose demasiadas vezes para sentir-se tão bem como estava.

Para completar o momento perfeito, precisaria de ao menos duas xícaras de café com creme e raspas de chocolate da Caffè Benevolo II. Não conseguia controlar o seu vício por aquele café, e notou que um dos seus maiores fatos era que a vida poderia passar, mas continuaria amando observar os detalhes rústicos da cafeteria e observar as pessoas com suas vidas agitadas andando para cima e para baixo.

Isso a fazia sonhar.