O Recomeço

15 Capítulo Quatorze


Querida, Elizabeth...

Receio que agora seja tarde demais para desculpas, para sentimentos bons. As palavras que gastamos um para o outro não foram as melhores possíveis, sei que as coisas que disse para você foram rudes demais. Eu realmente sinto muito se fui insensível com você, se disse palavras que foram insuportáveis de serem ouvidas. Resisti em sua casa por algumas horas depois daquela discussão, talvez tenha sido na esperança de nós dois nos reconciliarmos. Gostaria de ter ido ao seu quarto lhe abraçar, dizer o quanto você transformou a minha vida, mas não achei que seria conveniente naquele espaço de tempo.

Meu avião parte às dez horas da manhã, eu estarei esperando você no aeroporto. Talvez para uma possível retratação, para dizer o quanto sinto muito pelas últimas horas que passamos juntos. Mas, entenderei caso não queira ir ao meu encontro.

Em dias ruins, em dias bons…

sempre seremos um do outro,

sempre serei o seu Phill.

Eu amarei você para sempre, bella.

Armstrong

Elizabeth estava paralisada sobre a cadeira, nenhum dos seus músculos se moveram, agora era real; John havia realmente ido para o Japão, mas mesmo assim ele havia tentado reverter a situação do dia anterior. Seus pensamentos entraram em um labirinto de dolência. O que ela deveria fazer agora? Não teve tempo para perguntar em qual lugar do Japão John iria ficar, ela sabia que era muito provável que Mike também não soubesse. Talvez fosse o momento certo para deixá-lo ir. Talvez, no fundo, não era para eles ficarem juntos.

Não dava para entender como, de fato, todo aquele estresse começou. Eles nunca tiveram uma briga séria, mas, na primeira tudo desandou terrivelmente. Ela estava sendo covarde por não ir atrás dele? Quem sabe, mas tudo o que ela queria compreender era como tudo começou daquela forma e acabou da pior possível.

Era hora de ir na Caffè Benevolo II, precisava gastar uma parte do seu tempo com aquele calmante incrível baseado em cafeína. Precisava ver o movimento da rua, sentir o frescor de Verona, respirar fora de todo aquele sufoco, ficar em casa não estava sendo bom para ela. Era hora de ignorar um pouco a vida real.

Dirigir foi uma apneia, sua cabeça estava em outro lugar do mundo, não nas ruas de Verona. Era difícil tentar focar em algo quando lágrimas escorriam por seu rosto sem pausa alguma. Ela estava concordando que aquilo só poderia ser o fundo do poço, primeiro: ela briga com John, depois ele vai para o Japão deixando apenas uma carta e, agora, ela nem ao menos consegue ligar para ele. Estava sendo covarde, era uma opção, mas não queria pensar em absolutamente nada, só queria sentir aquele delicioso café aquecendo o seu interior, refrescando sua alma e trazendo paz ao seu coração. Era difícil ingerir qualquer coisa, mas o seu vício pedia por isso, ela sabia que, no fundo, era exatamente isso que ela precisava para ficar calma.

Como não poderia ser diferente, o café com creme e raspas de chocolate realmente fez milagre. Mas, ficar ali lhe trazia lembranças bem felizes dos seus dias com John. Elizabeth tentou não lembrar em como se sentira nos dias calmos, ela não queria lembrar de absolutamente nada, não queria chorar em público. Apertava a xícara entre os dedos na esperança de expelir qualquer lágrima que pudesse aparecer.

— A senhora gostaria de pedir mais alguma coisa? — o garçom disse, sorrindo para Elizabeth, parecia estar sendo bem simpático naquele momento.

Ela fungou, acenando negativamente com a cabeça. — Você acha que eu deveria?

— Eu não sei, senhora. Talvez seja bom comer alguma coisa.

— Não, eu não vou querer mais nada. Acho que você deve estar me odiando por segurar todos vocês aqui. — Ela riu sem graça, deixando o dinheiro sobre a mesa e levantando-se da cadeira. — Pode ficar com o troco, é todo seu.

O garçom respirou fundo, ele realmente notou como Elizabeth estava triste. Estava acostumado em vê-la por ali, mas não daquela forma. Ela parecia muito abalada e isso, de algum jeito, o deixou chateado com a situação.

— A senhora não gostaria de ficar mais um pouco? — ele perguntou, demonstrando empatia por ela.

Elizabeth virou-se para trás, antes que pudesse sair da cafeteria, apenas sorriu suavemente para o homem que parecia estar disposto a ouvi-la naquele momento. De fato, ela não queria atrapalhar Jennifer com os filhos, não queria atrapalhar a lua de mel que Kimberly estava tendo, não tinha mais John para conversar. Por que não? Ela pensou, certificando-se que não seria loucura. Mas, como iria encarar aquele homem nos outros dias que retornaria para beber o seu delicioso café? Ela achou que não iria ser adequado envolvê-lo naquela história, apesar de transparecer ter ótimos conselhos para ela.

— Eu agradeço, mas só estou um pouco gripada. Obrigada pela companhia, você é um cavalheiro.

Elizabeth sorriu uma última vez para o garçom, que apenas acenou com a mão para ela. Ele sabia que a veria mais vezes ainda, afinal, era comum durante os meses. Porém, aquele pouco de preocupação fez maravilhas no humor tão azedo e melancólico que ela se encontrava. Sentir empatia de alguém era bom, mesmo que não tivesse falado para ele se estava bem ou não.

As horas estavam demorando para passar e, durante todos os minutos, por diversas vezes Elizabeth pegou seu celular e pensou em ligar para John. Mas, o que ela falaria quando ele atendesse? Não teria nada para dizer. Aquelas palavras do dia anterior ainda estavam fazendo pressão sobre os seus pensamentos. Por que era cansativo amá-la? Será que ele havia falado só no momento da raiva? Ou será que aquilo era realmente real?

Elizabeth sacudiu a cabeça na intenção de arremessar aquelas perguntas para longe. Ela não teria como descobrir as respostas exatas, então por que ficar torturando os seus sentimentos? A partir disso, somente por isso, que ela pensou que seria hora de apenas pausar algumas coisas. Em poucos dias seria as festas de final de ano, então teria todo tempo do mundo para ficar irritada com Andrew, sentir o aconchego de seu avô, ouvir as perguntas e piadas infames de suas tias, como também pediria muitos conselhos ao seu padrinho. Iria ser um bom um retiro mental, um tempo longe de Verona. Pela primeira vez em anos, Elizabeth queria mesmo férias de toda aquela loucura, resguarda-se e apenas pensar.

Ainda que estivesse indo para um país incrível, para viver um emprego impressionante; John ainda não estava convencido se fez a coisa certa naquele momento. O corredor do avião era frio e fizera seu corpo estremecer, então naquele momento pensou como seria bom se Elizabeth estivesse lá para lhe confortar. Entretanto, ela não havia ido ao seu encontro, certamente era o fim para os dois, e apesar de tentar se convencer disso em todos os minutos, não conseguia parar de observar fotos que havia registrado em sua câmera, desde o feriado até o casamento.

— O que eu estou fazendo? — ele murmurou, sentia-se confuso com tantas coisas.

Ela era tão linda. Os seus traços eram incríveis. A cada foto, John notava o quanto havia se equivocado com a ideia de ir para o Japão, sobre ter falado para ela ir ao Japão. Quanto tempo levaria para voltar do Japão para a Itália? Péssima hora para não ter escolhido um voo com escala ou conexão.

John deixou sua câmera sobre o assento ao lado enquanto observava a asa do avião cortar às nuvens calmamente, suspirou sentindo uma leve agonia tomar conta do seu interior, não era algo bom para sentir, mas não tinha escolha. Não naquele instante. Estava privando-se de pensamentos, momentos e sentimentos, sua vida iria mudar drasticamente. Se era verdade que Elizabeth não tinha ido ao aeroporto para vê-lo, então pensou que o justo seria deixá-la partir, não deveria voltar para a Itália, certamente. Prometeu para si mesmo que tentaria aproveitar a sua estadia no Japão; sem pensamentos ruins, sem tristeza, exclusivamente e definitivamente para o trabalho. Se tudo aquilo custou quem ele mais amava, então faria valer à pena. Era o modo mais justo para nada ter sido em vão, era justo para ele e para a mulher que ele amava.