O Recomeço
6 Será que Vai Acabar Assim?
Notas iniciais
Harry não entendeu direito o que aconteceu. Tudo foi muito rápido. Ao cair com a explosão ao seu lado, ele tomou um susto, mas já sabia que não tinha tempo para ficar atirado no chão pensando na vida. A guerra o havia ensinado isso. Logo se levantou e apontou a varinha para a figura que estava atrás dele e, provavelmente, tinha explodido o poste.
— Estupefaça! — gritou Harry, enquanto o homem misterioso, que certamente não esperava a rápida reação, era jogado para trás.
— Expelliarmus! — gritou outro homem ao lado de Harry.
Então a varinha de Harry voou de sua mão e ele se sentiu um tanto quanto envergonhado por ter esquecido do outro homem que caminhava na rua do lado; Olho-Tonto teria ficado desapontado. Harry percebeu também que estava indefeso, com algum maluco lhe apontando uma varinha. Será que depois de tudo o que ele passou em sua vida, era assim que morreria? No meio da noite, completamente sozinho e desarmado?
— Não se mexa, Potter! Peguei você, seu merdinha. Achou que a guerra havia acabado né? Esqueceu que nós ainda estamos aqui? Que nem todos morremos ou fomos capturados naquela escola ridícula? — disse o homem, que Harry reconheceu como um Comensal da Morte, embora não lembrasse exatamente o seu nome.
— Claro que não esqueci de vocês. Lembro que tiveram uns covardes que fugiram. Aí estão, preocupados ainda em matar um garoto. Isso já não cansou? — perguntou Harry, não mostrando nenhum medo com a situação.
— Sempre tão insolente não é, Potter? Estou apenas cumprindo os desejos do Lorde das Trevas. Você finalmente vai morrer e talvez quando meu amigo, que você apagou, acordar, nós vamos dar uma passadinha na casa daquela família traidora de sangue nojenta dos Weasley — respondeu o Comensal da Morte, querendo assustar Harry.
— Você não tem chance com eles, idiota — disse Harry.
— Se eu consegui derrotar tão facilmente o grande Harry Potter, acho que eles não serão problema. Não vamos perder tempo então — falou o seguidor de Voldemort, erguendo a varinha mais uma vez.
— Expelliarmus! Estupefça! — gritaram vozes que Harry não identificou e em milésimos, o homem que o ameaçava estava atirado a alguns metros do local onde ele estava antes no chão, ao lado de uma grade.
De repente, as duas figuras que haviam lançado os feitiços se revelaram. Era um homem alto, de barba clara, com roupas de trouxa e um rosto muito sério, que devia ter uns 40 anos. Com ele, estava uma linda garota morena, que não devia ter mais de 25. Os dois empunhavam as varinhas e a apontavam para a escuridão, claramente muito preocupados. Harry os reconheceu como aurores.
— Você não viu mais ninguém, Harry? — perguntou o homem, olhando para todos os lados.
— Não, eu só vi eles — respondeu o garoto.
— Nos perdoe a demora, Harry. Foi difícil te encontrar depois daquele lugar cheio de trouxas — disse a aurora, agora mais tranquila.
— Ah tudo bem, mas assim... quem são vocês? Tipo eu sei que são aurores, mas por que estavam me seguindo por Londres? — perguntou Harry, confuso.
— O Ministério nos pediu para cuidar de você Harry, ver onde você anda. Meu nome é Matthew Phillip e essa é Natália Thompson — disse o homem, apontando para a colega. — Ainda tem alguns Comensais da Morte soltos por aí, como você pôde ver, então não é tão seguro que você esteja andando por aí sozinho. Aliás, por favor não faça isso de novo.
— É sério isso? Achei que eu podia ter um pouco de paz sozinho — disse Harry, um pouco contrariado por precisar de proteção. — Mas obrigado por salvarem minha vida de qualquer jeito.
— É o nosso trabalho — respondeu Natália sorrindo. — Matthew, vou chamar os outros aurores, vai pegando as varinhas dos dois e traz eles pra cá.
Assim, Harry os observou trabalhar. Era legal ver aurores trabalhando porque até onde Harry lembrava, ele queria ser um. Claro que sua ideia de auror não era ser guarda-costas de algum garoto idiota, mas ele entendeu que podia fazer parte de suas obrigações. Então outros aurores apareceram e, além deles, Shacklebolt, o Ministro interino.
— Harry, que bom te ver. Esperava que fosse em circunstâncias diferentes, mas mesmo assim é bom. Me disseram ali que você jogou um dos caras longe. Não perdeu o jeito, né? Está bem mesmo? — perguntou o Ministro.
— Sim, agora tá tudo bem. O Matthew e a Natália me salvaram na verdade — respondeu Harry.
— É, eles são muito bons. Aquele Comensais eram malucos mesmo! Estávamos atrás deles desde que fugiram do castelo. Suspeitamos que eles mataram 3 trouxas alguns dias atrás — disse o Ministro, o que deixou Harry ainda pior. — Pelo menos agora vamos mandá-los pra Azkaban. Mudando de assunto, Harry eu deixei esse tempo pra você descansar, sem perguntas sobre a batalha, sobre Voldemort, nem nada que vocês fizeram nos últimos meses e ainda não vou fazer isso. Mas preciso saber de uma coisa. Por que você deixou a Toca, Harry? Pra que se isolou sozinho aqui? Sempre estivemos de olho em você, mas estamos preocupados, você não parece bem. Andando por Londres sozinho? Não parece você.
— Sinceramente senhor, não quero falar sobre isso agora. Tô cansado e preciso dormir, foi um longo dia — respondeu Harry.
— Eu entendo Harry — respondeu o Ministro, muito a contragosto.
— Você pode só me fazer um favor?
— Claro, o que precisa?
— Tem como isso não ser comentado no Profeta Diário amanhã? Não quero preocupar ninguém.
— Claro, eu entendo. Pode ir para casa que eu cuido de tudo.
Aliviado, Harry finalmente foi para casa e se atirou na cama. Havia sido um longo dia. Apesar de ter aproveitado a maior parte da noite e esse ataque ter sido apenas um susto, ele fez Harry pensar. Achava que não sentia medo de morrer depois de tudo o que passou, mas algo o deixou assustado essa noite. Morrer daquela forma, sozinho, sem poder se despedir de todos que amava. Enquanto Harry tentava distrair o Comensal e pensar em algum tipo de plano, ele também pensava em Gina, Ron, Hermione, etc. Como teria sido idiota morrer aquela noite, imagine como seria pros outros. Será que não era hora de realmente voltar pra casa, apesar de tudo?
No dia seguinte na Toca, Hermione lia um livro na sala durante a tarde, mas surpreendentemente não conseguia prestar atenção na história. Se forçaria a ler tudo de novo depois. Estava preocupada com Harry, em como seria a escola e o mais importante, seus pais na Austrália. Fazia quase um ano que não os via e esperava que estivessem bem. Uma hora ou outra ela teria que ir até lá achá-los e devolver suas memórias. Mas e se não conseguisse? E se algo desse errado? E se eles a esquecem para sempre? Hermione morria de medo dessa possibilidade e não sabia se conseguiria fazer tudo isso sozinha. Como seria falar com eles, se conseguisse restaurar suas memórias? Será que eles a perdoariam? Era muita coisa. Ultimamente a única pessoa que a acalmava era Ron. Embora poucas pessoas soubessem, tudo entre eles ia bem. Achava estranho que eles ainda não tinham brigado. Quando eram só amigos, acontecia direto.
— Deve ser só questão de tempo — falou Hermione, para si mesmo.
— O que deve ser só questão de tempo? — perguntou Ron, entrando na sala.
— Ah nada — respondeu Hermione, envergonhada. – Tava falando sozinha. É muito estranho?
— Um pouco — respondeu o ruivo sorrindo e se abaixando parar dar um beijo na namorada.
Hermione sabia que não podiam ficar se beijando pela casa, mas ela nunca resistia. Eles já não podiam ficar juntos de noite, quando Hermione dormia no quarto de Gina e tinham que estar sempre alertas, mas havia horas em que eles só não se importavam.
— RONALD BILIUS WEASLEY? O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? — gritou uma voz que entrou no cômodo.
Nessa hora, os dois deram um pulo de tanto susto. Hermione já estava totalmente corada e desesperada pensando no que iria dizer pra Sra. Weasley quando viu a irmã de Rony, Gina chorando de tanto rir na frente deles.
— Por Merlin, essa minha imitação da mamãe foi sensacional! — disse a garota, mais calma. — Vocês deviam ter visto as caras que fizeram? O Ron parecia que ia infartar.
— Nossa que engraçado Gina, você é muito divertido mesmo. Isso vai voltar pior pra você, hein — ameaçou Ron.
— Nossa tô morrendo de medo agora! — ironizou a irmã. — Então, qual era o papo antes dos beijinhos?
— Eu só tava pensando nos meus pais lá na Austrália — respondeu Hermione. — Tenho medo, sabe.
— Hermione, não exista nada pra se preocupar. Você é você. Fez todos os feitiços direitinho e vai reverter tudo sem problemas — disse Ron, sorrindo.
— Não sei se vai ser tão simples — disse Hermione, desanimada.
— Vai sim, às vezes o meu irmão acerta alguma coisa — falou Gina, já provocando o irmão mais velho. — Você consegue e vai tá todo mundo do seu lado.
— Exato — falou Ron, ignorando a provocação da irmã. — Eu vou com você até lá.
— Sério? — perguntou Hermione, feliz por saber que teria a companhia de Ron. Ela não teria coragem de pedir.
— Claro, nunca deixaria você ir totalmente sozinha tão perto do fim da guerra. Duvido de Harry deixaria também — respondeu o namorado.
— Afff tem o Harry ainda. Será que já não tá na hora de ele voltar? Já fazem dias — lamentou Hermione.
Nesse momento, Gina fechou a cara. Quando falavam do Harry na casa ela simplesmente parava de ser brincalhona ou divertida e ficava mal-humorada. Ainda estava muito irritada com ele. Ron e Hermione perceberam aquilo e não tocaram mais no assunto. Isso até o Sr. Weasley voltar do Ministério.
— Pessoal venham pra cozinha, preciso contar algo para vocês e para Molly — falou sério o patriarca da família.
Todos foram para a cozinha curiosos. O que será que havia acontecido de tão urgente? Quando todos na casa se encontravam no cômodo, exceto Jorge, que ainda preferia seu quarto, Arthur começou a falar:
— Pessoal, não se assustem quando eu contar isso, tudo está bem agora. É só que... o Harry foi atacado por Comensais da Morte ontem.
Nesse momento todos ficaram perplexos. Ron ficou branco só de imaginar o que havia acontecido com seu melhor amigo, que ele havia “permitido” que partisse. Hermione ficou muito preocupada, já querendo saber mais. A Sra. Weasley já derramava lágrimas e Gina pareceu esquecer toda a raiva, não querendo que nada grave tivesse acontecido com Harry.
— Ele estava voltando para o Largo Grimmauld ontem à noite, depois de passear pela cidade, quando dois Comensais da Morte tentaram atacar ele. Harry conseguiu neutralizar um deles, mas o outro rendeu Harry e não o matou porque era um idiota e Harry conseguiu enrolar ele com conversa até que os aurores que estavam encarregados de protegê-lo chegassem e conseguissem acabar com esse Comensal também. No final das contas, Harry não teve nenhum ferimento e os dois foram pra Azkaban — completou Arthur.
— Como esses aurores, que tinham a OBRIGAÇÃO de proteger ele, demoraram tanto? — indagou a Sra. Weasley, ainda em choque.
— Eles disseram que perderam Harry no centro de Londres. Ele foi em algum negócio estranho, “cilena” era o nome eu acho, coisa de trouxa. Depois eles não o acharam mais até a hora do ataque — respondeu o Sr. Weasley.
— Como nós não soubemos disso antes? Não saiu nada no Profeta — questionou Hermione.
— Falei com uns colegas aurores, boatos estavam circulando no Ministério o dia inteiro. Aparentemente o Harry pediu para que nada fosse publicado e o Ministro atendeu — respondeu mais uma vez o Sr. Weasley.
— Ele não queria preocupar ninguém — falou Gina.
— Bom, pelo visto não deu certo! — disse a Sra. Weasley. – Eu quero aquele garoto aqui em casa agora. Ele não pode mais ficar sozinho!
— Concordo mãe — disse Ron. — Mas não hoje.
— Como assim Ronald? Vamos deixar ele em mais perigo? — falou brava a Sra. Weasley.
— Depois dessa ele vai tomar mais cuidado, além disso ir lá tentar arrastar ele não vai adiantar nada. Não vai ter o almoço aqui com toda a família domingo? — perguntou Ron, calmamente.
— Sim, todos os seus irmãos vêm, mas é só daqui dois dias — respondeu a Sra. Weasley.
— Ele sobrevive dois dias. Eu mando uma carta para o Harry pedindo pra ele vir, aí quando ele entrar a gente convence ele a ficar. Vai dar certo — disse o Ron.
No fim, todos concordaram com a ideia. Gina voltou pro modo raiva e não se manifestou muito. Ron ficou com a impressão que ela ainda não iria falar com o Harry, mas no geral parecia ser uma boa ideia. Ele adorava ficar com Hermione, mas já sentia falta do seu melhor amigo. Não conseguia falar com Jorge e seu pai passava o dia todo no trabalho. Ele realmente precisava do Harry.
— Muito legal o que você fez hoje — disse Hermione, chegando perto de Ron enquanto ele pensava.
— Como assim? — ele perguntou.
— Você lidou muito bem com a situação. Teve calma e não fez nada muito impulsivo e idiota. No final, chegou a ter uma boa ideia — respondeu Hermione, orgulhosa do namorado.
— Por que sempre o tom de surpresa? — brincou Ron, já rindo de sua velha piada interna.
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