O Recomeço
8 Reencontros
Notas iniciais
O dia na Toca estava ao mesmo tempo feliz e tenso. Feliz porque quase toda a família estaria reunida novamente. Todos os filhos Weasley estariam lá para o almoço, com exceção de Carlinhos, que morava na Romênia. Tenso porque ninguém sabia se Harry iria aparecer ou não. Ele não havia respondido a carta de Ron e a Sra. Weasley estava decidida que, se ele não aparecesse, iria até o Largo Grimmauld naquele mesmo dia arrancá-lo de lá. De qualquer jeito, fez comida contando que ele viesse, pois Ron poderia comer tudo de qualquer jeito.
Gina estava sozinha no seu quarto. Ron e Hermione haviam saído para uma “caminhada”. Ela sabia muito bem que eles só queriam um lugar para ficarem se agarrando sem ninguém para incomodar. Ainda era estranho imaginar aqueles dois naquela situação. Gina sempre sentiu que havia algo entre eles. Na verdade, todos que eram próximos deles sentiam aquilo. Os dois só não tinham coragem de tomar uma atitude, até que a guerra aconteceu. Pelo visto situações de morte iminente fazem isso com as pessoas. Ela ficava feliz de ver os dois alegres daquela maneira, mesmo que Ron fosse um idiota às vezes. Não podia deixar de sentir, porém, um pouco de ciúme de tudo aquilo. Os dois tinham alguém para passar o momento atual, que era difícil, trazendo conforto e felicidade um para o outro. Infelizmente, o cara com quem Gina queria estar naquele momento havia sumido do nada. Ela tentava não pensar em Harry, mas era uma tarefa quase impossível. Por mais que ele tivesse feito muita coisa errada nos últimos tempos em relação a ela, Gina não conseguia evitar os sentimentos de preocupação e saudade. Entretanto, era lógico que focava na raiva e toda vez que pensava nele já sentia vontade de azarar alguém ou quebrar alguma coisa. O que mais tinha medo era perdoar ele muito facilmente, isso se ele ainda a quisesse de volta, outra coisa que ela também tinha dúvidas. Ele não iria chegar e ser recebido de braços abertos e beijos, isso era certo. Gina acabou horas perdida em todos aqueles pensamentos, até que decidiu descer perto da hora do almoço.
No começo, só seus pais estavam lá. Jorge só descia quando almoço estivesse pronto mesmo. Só perto do meio-dia que o resto da família começou a chegar. Gui e Fleur foram os primeiros. A esposa de Gui foi direto em direção a Sra. Weasley cumprimentá-la. Era impressionante como as duas se tornaram cada vez mais próximas desde o ataque sofrido por Gui.
— E aí maninha? Como estão as coisas por aqui? — perguntou Gui, abraçando a irmã mais nova. — Lidando melhor com tudo?
— Ah você sabe que ainda é difícil pra todo mundo — respondeu Gina. — Mas, aos poucos, vamos melhorando. Mamãe fica bem triste às vezes, aí nós tentamos acalmar ela. O problema é o Jorge, que só sai do quarto pra comer.
— Se já é horrível pra todos nós nem imagino como é pra ele, mas uma hora ou outra ele vai se recuperar — disse Gui. — E o resto? Cadê Ron e Hermione?
— Foram dar uma caminhada, eles fazem isso bastante — falou Gina, tentando não rir.
— Aham, sei — falou Gui, um pouco desconfiado. — E o Harry? Nenhum sinal?
— Ron chamou ele pra vir hoje, mas não sei se aquele idiota vem — respondeu a caçula, não se esforçando tanto para esconder a raiva.
— Ah Gina, não pega tão pesado com ele — defendeu Gui. — A gente sabe como ele é. Deve ter muita coisa na cabeça.
Antes que Gina pudesse começar seu discurso sobre como Harry era um imbecil, outro Weasley chegou.
— Bom dia, família! — disse Percy, de uma maneira um pouco esquisita.
Ele visivelmente ainda estava um pouco desconfortável depois de todas aquelas brigas e totalmente arrependido. Vendo isso, o resto dos Weasley já trataram de fazer com que ele se sentisse em casa. Claro que ele havia sido um completo idiota, mas todos viam que ele era sincero no seu arrependimento. Além disso, Percy era família. Assim, era só uma questão de tempo até que as coisas voltassem ao normal com ele, sendo aquele cara estranhamente formal que, no fundo, todos adoravam.
Naquela mesma hora, em outro lugar do terreno da propriedade dos Weasley, um casal se encontrava deitado, encostado em uma árvore. Ron e Hermione estavam abraçados, aproveitando um daqueles momentos em que realmente podiam estar sozinhos. O dia estava bonito e não havia lugar melhor para estar.
— Que foi? — perguntou Hermione, vendo que o namorado ria sozinho.
— É só que... eu tô amando tudo isso, não me entenda mal — começou Ron. — Eu só tô me imaginando contando isso pro Ron de 6 anos atrás, sobre esse momento agora. A cara que ele ia fazer seria hilária.
— Acho que comigo seria a mesma coisa — disse Hermione, já rindo também. — Mas fala sério, você sempre foi meio apaixonadinho por mim. Pelo menos no quarto ano você já era.
— Ah nada haver, isso foi só depois — retrucou Ron. — No quarto ano, eu só não gostava do Krum, que era um babaca. Mas falando sério, quando você acha que isso começou?
— Acho que foi se desenvolvendo sabe, mas no sexto ano eu já tinha certeza. Você que foi muito demorado! — debochou Hermione.
— Talvez, mas antes tarde do que nunca — falou Ron, antes de beijar Hermione.
Esse beijo, que começou como qualquer outro, acabou sendo diferente. Eles estavam muito próximos e simplesmente não sentiam vontade de parar. O beijo começou calmo e foi se tornando mais intenso, com seus corpos cada vez mais próximos. Os dois esqueceram do resto do mundo e tentaram aproveitar ao máximo. A verdade é que eles também estavam um pouco nervosos, nunca haviam tido um momento como aquele. Até onde aquilo iria? Felizmente ou infelizmente, eles foram interrompidos mais uma vez.
— Ron!!! O que é isso? No meio do mato? — disse uma voz estranhamente parecida com a do Sr. Weasley.
Os dois se levantaram rapidamente ao ouvir aquilo, num susto. Até que perceberam quem era.
— Harry! Que porra é essa cara? — gritou Ron, ao mesmo tempo irritado com o amigo e aliviado por vê-lo novamente.
Harry ainda ria quando Hermione correu para abraçá-lo.
— Por Merlin, Harry! Ainda bem que você veio, todo mundo tá preocupado! — disse Hermione, ainda abraçando o amigo. — Você está melhor? No Largo Grimmauld imagino. Tem se alimentado? Como está a casa? Ah e nós soubemos do ataque! Nos conte tudo!
— Deixa ele respirar, Hermione! — disse Ron, também se adiantando pra dar um abraço apertado no amigo. — É bom te ter de volta, cara.
— Valeu — respondeu Harry, com um leve sorriso. — Fiquei melhor sim. Desculpa qualquer coisa, eu precisei desse tempo, por mais que tenham sido motivos idiotas, mas eu sou meio assim, vocês sabem.
— Temos certeza, na verdade! — disse Ron sorrindo. — Que tal a gente ir pra casa? Harry já vai ter que responder tudo isso pra algumas ruivas bem irritadas, então não vamos fazer ele falar tudo 15 vezes.
— Faz sentido — concordou Hermione. — Mas Harry, como você nos encontrou aqui?
— Bom, decidi aparatar lá no começo e dar uma caminhada, tava com saudade de tudo isso. Aí encontrei um casal se engolindo numa árvore — respondeu Harry, rindo de novo.
— Muito engraçado Harry — ironizou Ron. — Mas vamos logo, tô morrendo de fome!
— Você comeu uns 3 pratos no café da manhã! — disse Hermione, com uma cara de horror.
— Ah, nem vem com essa! Você me conhece — se defendeu Ron, enquanto os três voltavam rindo para a Toca.
Enquanto isso, dentro da casa, Molly já terminava de preparar o almoço. Estava desapontada com a ausência de Harry, mas tentou pensar em outra coisa. Pelo menos, o resto da família estava lá. Até Jorge já tinha descido. Ela iria tentar pensar em Harry depois e aproveitar tudo aquilo.
— Gina! Vá lá fora procurar Ron e Hermione — gritou Molly.
— Afff, sempre eu — respondeu Gina, de má vontade, mas se levantando mesmo assim.
Porém, ao abrir a porta se sentiu aliviada por ver Ron e Hermione caminhando em direção a Toca e não ter que procurar aqueles dois por aí. Mas algo tirou completamente sua atenção daquilo: havia uma terceira pessoa com eles. Gina reconheceu Harry na hora. Fechou a porta e voltou para a cozinha. Não queria dar de cara com ele assim, por mais que isso fosse inevitável.
— Ué, não mandei você chamá-los? — perguntou sua mãe.
— Eles estão vindo... com Harry — respondeu Gina, ainda absorvendo o que tinha visto.
Naquele instante, todos pararam de conversar. Ninguém realmente acreditava que Harry apareceria, pois já havia passado um pouco da hora normal do almoço. Entretanto, não houve muito tempo para pensar naquilo, pois logo em seguida Ron, Hermione e, por fim, Harry entraram.
— Oi, tem espaço pra mais um? — perguntou Harry, tímido.
— Claro que sim, querido! — respondeu a Sra. Weasley, dando um forte abraço em Harry. — Finalmente você de volta! Já estávamos preocupados. Sente aqui que eu já vou servir um prato cheio pra você, nem imagino como tem se alimentado.
— Obrigado Sra. Weasley, mas na verdade eu tenho comido bem — disse Harry, sentando no lugar justamente entre Ron e Gina. — Monstro está comigo e tem sido bem útil. Cozinha bem.
Harry nem teve tempo de cumprimentar todos e já tinha um prato cheio na sua frente. Tentou pelo menos uma troca de olhares com Gina, mas ela nem o notou. Antes de comer, porém, Harry sentia que precisava falar algumas coisas.
— Sra. Weasley, eu só queria pedir desculpas pela maneira como saí — começou Harry. — É só que eu não estava muito bem, tinha muita coisa na cabeça e precisava de um tempo sozinho. Achei que vocês não me deixariam ir, mas sinto muito pela maneira que aconteceu, não deveria ter feito aquilo.
— Harry, nós entendemos o que você deve estar sentindo — disse o Sr. Weasley. — Mas você também é muito importante pra nós e te queremos perto. Família nesses momentos é muito importante.
— Eu sei — falou Harry, um pouco envergonhado. — Eu só estava mal com tudo o que aconteceu...
— Harry, ninguém te culpa — interrompeu Jorge, falando calmamente.
Nesse momento, todos ficaram surpresos. Jorge não falava direito desde a morte de Fred.
— Tudo o que aconteceu na batalha, com Fred e tudo mais — continuou Jorge — foram coisas que acontecem em uma guerra. É horrível, mas nós fomos lá sabendo dos riscos. Fred sabia no que ele estava se metendo. E, desculpa Harry, não me entenda mal, mas aquilo era maior que você. Não existe motivo para se sentir culpado.
— Obrigado Jorge. Tive uma conversa parecida com Andrômeda ontem, que me ajudou bastante. É difícil não me sentir culpado, mas eu tenho entendido tudo melhor. Obrigado mesmo — respondeu Harry.
— Tudo certo — disse Jorge, com um leve sorriso. — Nunca vai ser a mesma coisa, mas está na hora de seguir em frente. Tô pensando até em reabrir a loja.
— Isso é ótimo filho! — disse a Sra. Weasley, já um pouco emocionado.
— Posso ajudar se você precisar — ofereceu Percy, deixando todos ainda mais surpresos.
— Sério? Você já não tem muito trabalho no Ministério? — perguntou Jorge, perplexo como todos.
— A gente acha um tempo pra família — respondeu Percy, sorrindo.
— Valeu irmão, sério — agradeceu Jorge.
Aquele foi um dos momentos mais felizes que a família estava presenciando em muito tempo. Jorge voltando a falar e pensando no futuro. Percy querendo se reconectar e disposto a ajudar. Aquilo era algo a ser valorizado.
— Isso é ótimo meninos! – disse a Sra. Weasley, sorrindo. – Mas mudando de assunto, Harry nós ouvimos do ataque. O que diabos aconteceu?
Nesse momento todos olharam pra Harry apreensivos. Ele se sentiu um pouco pressionado em falar tudo, mas eles eram família, não tinha problema.
— Bom, eu saí pra passear em Londres. Queria andar um pouco onde ninguém me reconhecesse — começou Harry.
— Harry, desculpe interromper — disse o Sr. Weasley. — Mas ouvi boatos que você foi a alguns lugares trouxas. Um “cimena”, não é assim que chamam?
— Arthur! Agora não! — disse a esposa, irritada. — Continue, Harry.
— Bom, eu estava voltando pra casa de noite quando vi dois homens me seguindo. Então um deles me atacou. Eu consegui apagar um deles, mas o outro me rendeu. Então os aurores que estavam me vigiando apareceram e me salvaram — explicou Harry. — Foi só isso.
— Harry! Por favor né, andando por aí de noite sozinho! — disse Hermione, como uma mãe.
— Desculpa, não pensei muito na hora — admitiu Harry.
O resto do almoço foi tranquilo. Voltou a existir uma conversa barulhenta na casa dos Weasley, o que foi um alivio para Harry. A família, aos poucos, ia se reestruturando. A pior parte foi Harry ter que explicar para Sra. Weasley sobre como estava se virando no Largo Grimmauld com a ajuda de Monstro. Ela ainda não confiava muito no elfo doméstico. A única pessoa que Harry não conseguia comunicação era Gina. Ele só não sabia como começar uma conversa com ela, mesmo estando sentado ao seu lado. Ela também não parecia facilitar. Harry percebeu na hora que aquele seria um problema para outra hora. Agora só estava feliz por estar com a sua família de volta.
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