O Rebelde
10 Reviravoltas do Destino
Naquela noite, tive a impressão de visitar minha família. Primeiro, fui à enfermaria do palácio, onde papai montou uma UTI para mamãe. Ela estava deitada na cama, os longos cabelos ruivos e cacheados espelhados pelos travesseiros brancos. Uma máscara de nebulização repousava sobre seu delicado rosto, mais especificamente sobre sua boca e nariz. Soro era injetado em suas finas veias pelos seus braços delicados. Seu rosto estava preocupantemente pálido, e mesmo suas sardas simpáticas pareciam ter perdido a cor.
–Mãe...-sussurei, tocando seu pulso. Estava fria, e percebi em seu dedo indicador um oximetro, marcando com um ´pi pi` tenso seus batimentos cardíacos. Uma lágrima escorreu e minha visão ficou embaçada. Me aproximei de seu rosto e dei-lhe um beijo demorado nas faces.
Quando voltei a abrir meus olhos, estava em frente ao meu pai. Ele estava acabado.
O que mais me apavorou, chocou e preocupou não foram os olhos cansados, tristes e distantes ou a roupa desalinhada como nunca, assim como os cabelos. Não me apavorei tanto nem com o que havia ao seu redor; pilhas de livros, jornais, mapas, contratos... Todos espalhados pelo chão. Nem me apavorei de tal modo com sua postura; apoiava a cabeça na mão, as pernas abertas e cotovelos apoiados em suas pernas – a típica posição de um Homem de quem foram roubados os resquícios de quaisquer esperanças.
O que me apavorou mais que isso tudo foi a garrafa de vinho ao lado de seu criado mudo, e me apavorei mais ao constatar que, ao lado dela, no chão e no criado mudo, mais dúzias de garrafas jaziam vazias. Ele então levou a mão à garrafa em um movimento automático e bebeu no bico, virando a garrafa praticamente na posição vertical.
–Papai, você não é assim...- disse, suspirando e chegando mais perto. Por um segundo, pensei que ele houvesse me ouvido, pois o olhar dele me pareceu mais sóbrio e ele parou um gole com um engasgo pequeno, mas ele apenas tossiu e virou a garrafa mais uma vez.
–PAI, PARE COM ISSO- berrei desesperada, batendo na garrafa. Surpreendentemente, foi como se sua mão vacilasse e deixasse cair no chão a garrafa e a bebida que ela continha. Ele ergueu os olhos com surpresa em minha direção, lágrimas brotando.
–Katherine?...- perguntou ele, e eu perdi o ar no momento em que ele me estendeu a mão.
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Acordei com a luminosidade do sol entrando levemente pela janela. Deviam ser 05:00 AM. Olhei para o lado e Oliver já havia acordado, e me olhava. Eu já havia recebido vários olhares: os de minha mãe e meu pai, com carinho e orgulho; os olhares curiosos de entrevistadores e repórteres, sempre querendo mais uma pergunta; os de David, sugestivos e nauseantes; e claro, os de Conor, cheios de amor, ternura e sinceridade. Mas esse... Era muito mais parecido com o modo que eu olhava meus pais; com orgulho, como um porto no qual eu iria me basear para seguir minha vida. Mas após vê-los como estavam... Ela doente, pálida e a beira da morte; e ele totalmente perdido, desestruturado e destruído quase que por completo... Nervosa, passei as mãos pelos cabelos negros de Oliver.
–Dormiu bem?- perguntei, para tentar ignorar o medo e a angústia que cresciam ao meu redor.
–Sim... Posso contar meu sonho agora, Katie?
–Claro que sim, Oliver- disse, ajeitando-me e sentando-me perto dele.
–Eu sonhei que você voltou para o castelo, que nos deixou aqui e que Conor não aguentou e se matou.
Fiquei pasma e o abracei.
–Que horror Oliver!....
–Eu sei- disse ele, a voz soando culpada.
–Desculpe por sonhar uma coisa dessas...
–Não! Nós não temos controle sobre os nossos sonhos, Oliver! Nem pense em se culpar, entendeu?- disse, olhando em seus olhos. Ele pareceu um pouco melhor e sorriu. Mas quando viu meus olhos tristes, perguntou o que havia acontecido.
–Sonhei com meus pais esta noite- respondi.
–E como eles estavam?- perguntou ele.
–Mal...- disse apenas, tomando cuidado para não deixar transparecer meu medo, tristeza ou angústia.
Oliver tomou minha mãe e me dirigiu um olhar acolhedor.
–Tudo vai acontecer como dever ser, Katie.
Uma lágrima escorreu pela minha bochecha e eu sorri, bagunçando os cachos de Oliver, de uma maneira a tentar dissolver a tristeza acumulada ao redor de nós.
Logo depois, um brilho maroto se passou nos olhos de Oliver
–Ei, Katie. Posso provocar o Conor agora- disse ele, se levantando e dobrando os lençóis. Pelo tom de sua voz ter mudado subitamente, presumi que ele também queria diluir essa sensação de dor e incerteza.
–Como assim?- continuei a brincadeira.
–Posso dizer que dormi com você antes dele- e ele riu da própria piada. Ri, mas fiquei constrangida também. Joguei um travesseiro nele, que só riu ainda mais.
–Posso decidir não te ensinar a ler, cuidado menino!- brinquei, e ele começou a pular de um lado para o outro.
–Cadê o livro? Trouxe um livro?- perguntou Oliver, animado.
Repreendi-me mentalmente. Eu havia me esquecido do livro.
–Fui até o quarto de Conor pegar um livro, mas...- não sabia como continuar, e ele tomou a palavra.
– Vocês se distraíram um com o outro- disse ele, rindo mais um pouco.
–Na verdade, eu ia dizer que, é... Lembrei que eu preciso ensinar o alfabeto primeiro... Alfabeto, e para isso não preciso de livros, eu acho não é?...- mas eu acho que o meu rubor e minha confusão com as palavras me denunciaram, pois ele riu durante a explicação malfeita, e depois fez um ´´uhum...`` de quem não foi convencido.
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Era muito cedo e a cidade ainda dormia no geral. Algumas pessoas andavam pela rua, uma aqui e uma ali, mas o movimento normal não existia.
Na cozinha, tudo estava muito mais calmo, e logo percebi – ou senti – a presença de Conor. Ele estava em uma mesa bem distante, de costas, comendo algo sozinho. Fui até ele, a xícara de chá e duas torradas no prato em minha mão. Tropecei e o chá caiu nele enquanto as torradas caíram no chão. Ele segurou meu antebraço, me sustentando e me reequilibrando. Ergui os olhos rapidamente, como em um impulso, e me deparei com os lindos olhos cor de âmbar que ele tinha.
–Desculpe...- disse, envergonhada.
–Não há problema- disse ele.
–Parece que não tem café da manhã para mim hoje- disse, endireitando-me e observando os pãezinhos no chão.
–Nada disso- então, Conor me convidou a sentar-me com ele e dividiu seu café comigo. Não houve palavras, mas sim olhares significativos. Ele percebeu que havia algo errado e tocou minha mão.
–O que houve, Katherine?- eu não pretendia responder. Mas o calor de sua mão contra a minha pequena mão — que estava fria e tensa — me sensibilizou. Como sempre, ele parecia ver além de minhas palavras e ações, eu sabia que ele descobriria mesmo que eu inssistisse em não dizer nada. Prendi e soltei o ar lentamente.
–Sonhei com meus pais hoje- disse, falando em um tom quase inaudível.
Ele passou o polegar pelas costas de minha mão, me incentivando a continuar.
–Ela estava...Muito doente. Pálida e... E ele...-levei a mão a cabeça e continuei falando entre lágrimas.
–Ele estava acabado, bêbado e perdido... E ele me viu Conor! Não sei se foi um sonho, um encontro um... teleporte– disse, erguendo as sobrancelhas e torcendo a boca, pois sei que deixei minha imaginação dominar a razão na última resposta.
–Ei, ei... Aqui não é lugar para falarmos sobre isso...- disse ele, com ternura e em tom consolador, porém cuidadoso, secando discretamente uma lágrima em minha bochecha. Logo depois, saímos de lá e andamos em silêncio assim como o resto da cidade, que começava a ter seu habitual movimento. Quando chegamos a uma árvore – sempre mantendo uma distância razoável entre nós – nos viramos um para o outro.
–Conor...- disse, baixando os olhos e escolhendo bem as palavras antes de erguê-los novamente e continuar:
–Meu pai sabe que estou viva... Vai me procurar.
O rosto de Conor se contraiu em preocupação e seus olhos esquadrilharam o local rapidamente enquanto ele tomou minha mão e me puxou para trás de um pequeno celeiro que servia como uma dispensa de alimentos. Lá, ele me puxou bem para perto, tomou minhas duas mãos e disse de uma maneira tão baixa e discreta que eu só pude ouvir por que eu estava com o rosto a milímetros do dele.
–Katherine, você foi dada como morta há quase um mês e meio. Já cessaram as buscas.
–Mas ele me viu, Conor! Você não conhece meu pai; ele é muito inteligente e intuitivo, e não vai parar até me encontrar!
Ele pareceu perder um pouco o ar e desviou os olhos, olhando para o nada, como que a processar e digerir tudo isso. Logo, ele fixou em min seus olhos de âmbar profundos como um oceano e me lançou uma pergunta que eu vinha temendo há dias, pois soube desde o começo que uma escolha deveria ser feita.
–Katherine...- começou ele, de maneira calma, profunda e dolorosa. Engoli o seco e senti meus olhos começarem a lacrimejar quando ele completou a frase que eu temia a tempos:
–Se a encontrassem, se pudesse voltar... Você o faria?
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