O Rebelde
20 Flagra
Notas iniciais
Eu não queria me virar. E mesmo que eu quisesse, estava petrificada. Os nós de meus dedos estavam brancos pela pressão que eu aplicava sobre eles, uma maneira idiota e possivelmente inútil de tentar diminuir a pressão que crescia dentro de mim.
– O... O que você está fazendo, Katie?- sua voz soava confusa, embargada de tristeza, pois na verdade, ele sabia.
Virei-me lentamente, passando uma perna, depois a outra, e por último, inevitavelmente os olhos, que logo encontraram os olhos arregalados e verdes de Natan, com tristeza, angústia, medo... Logo me fizeram revirar e contorcer dentro de mim mesma.
–Natan... Eu- dei três passos mancos, pequenos e desajeitados para mais perto e tropecei no roupão de banho que eu havia tirado minutos antes.
–Que roupas são essas?- perguntou ele, dando um passo mais para o interior do quarto – para longe de mim.
–Natan, eu... Eu...- contorcia as mãos no perto do estômago, sentindo agora a brisa, antes agradável, se tornar um vento mais forte, que uivava de maneira medonha e nauseante, fazendo as cortinas se debaterem contra as portas de vidro, que batiam de um lado para o outro como se fossem animais ferozes aprisionados. Tudo isso causava uma sinfonia dramática, cortante e fatal.
Natan procurava meus olhos em meio a essa orquestra, e eu propositalmente os evitava. Mas sabia que ele merecia uma resposta.
–Eu...
Quando ergui os olhos a direção dos dele, percebi que ele focava algo atrás de mim, e foi quando senti uma mão quente em meu ombro. Seus olhos voltaram a me focar enquanto Conor se colocava entre nós, como que a me proteger.
–Temos que ir, agora-pressionou ele, mas eu não faria isso. Não assim.
–Pensei que ele estivesse morto- Natan falou, a voz séria como nunca ouvira. Ele focava Conor, mas eu sabia que suas palavras eram direcionadas a mim.
–Eu também.
Seus olhos estavam turvos. Fora por conta de um morto vivo que viera buscar sua noiva? Pelo fato de a noiva querer fugir com esse morto vivo? Tudo isso junto?
Conor puxava delicadamente meu braço, e eu sabia que ele estava certo. Foi quando Natan se aproximou de nós, e percebi que ele carregava uma espada – a espada de papai. Ele vinha em passos firmes e com olhos cravados nos de Conor.
–Natan, não...-murmurei desesperada enquanto Conor se postava em minha frente, para me proteger. Natan desembainhou a espada, mas não a ergueu. Ele apenas a segurou com as duas mãos e a contemplou por um segundo tenso, enquanto eu segurava com mais força os ombros de Conor, e ele me mantinha atrás de si segurando minha cintura. Ele estava tenso.
–O rei me deu esta espada há alguns dias. É de família, para que um Rei proteja seu reino, e seu bem mais valioso de todos; sua Rainha.
Ele deu um sorriso tristonho e torto, sarcástico, e nesse segundo percebi que em seus olhos, acima de tudo, havia lágrimas. Ele então continuou:
–Eu pensei que eu teria essa honra; de defender minha rainha e a família que teríamos. Desde o começo soube que o coração dela nunca seria meu, mas tinha certeza de que eu poderia, com o tempo, conquistar a maior parte dele... Eu estava enganado.
Ele ergueu os olhos para Conor, que o encarava com solenidade.
–Quero eu você faça isso. É um homem de sorte, Conor. Ela ama muito, de forma tão bela que nem compreendo por completo. Defenda-a, para onde vocês forem. Cuide dela, com todo o seu amor, sejam felizes.
Lágrimas banhavam meu rosto enquanto ele passava para Conor a espada. Natan era muito bom. Aproximei-me dele e o abracei. Receoso, ele passou os braços por mim.
–Obrigada, Natan. Obrigada. Te amo tanto por isso- e beijei seu rosto.
–E eu sempre vou te amar, pois eu posso não ter seu coração, mas você terá sempre o meu.
E com lágrimas nos olhos, ele me deu um beijo curto, breve. Eu diria um ´selinho`, mas teve mais significado que isso. Era um adeus, um obrigado, uma promessa, um selo de tristeza para ele e um passe de alegria para mim.
–Posso ajudar vocês a saírem daqui. Esperem lá embaixo, eu busco os cavalos. Dois cavalos para vocês. Abrirei o portão dos fundos, a entrada dos funcionários, para que possam ir embora. Apenas esperem, saberão quando ir.
E ele deixou o quarto. Virei-me para Conor e o abracei.
–Ele é um bom homem- sussurrou para mim.
–Eu sei...Espero que ele possa amar alguém como nos amamos, e que esse amor seja correspondido.
–Eu também-terminou Conor, beijando minha cabeça e acariciando minhas costas.
–Mas... Podemos confiar nele?
–Sim, claro que sim- respondi, mas na verdade, somente os próximos minutos revelariam quem era o real Natan.
Ele tinha tudo para nos denunciar. Tudo para nos ajudar.
Tinha dois destinos em suas mãos, e a escolha cabia, agora, somente a ele.
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