O Querido Amigo Gay
1 O desconhecido
Notas iniciais
Mais um dia. Mais um dia chegava ao fim e nenhuma ligação, nenhuma! Talvez não tivesse sido uma boa ideia morar em um apartamento tão grande e sozinha... A culpa, na verdade, era de seu pai, que tirou todo o dinheiro de sua poupança de um dia para o outro, sem deixar um único centavo para sua sobrevivência. “Sério que você achava que ele iria ajudar?”, perguntou-se e revirou os olhos com seu pensamento irônico.
Suspirando e apoiando-se com as duas mãos à mesa, Hyuuga Hinata fitava fixamente a chuva descer pela janela e ficou assim, tentando ignorar os próprios pensamentos, algo impossível em seu atual estado. Em dois dias, ela teria que pagar o aluguel do apartamento e seu dinheiro não chegava nem a metade da quantia total. Na verdade, chegava exatamente ao meio, porém isso significaria ficar sem comida na geladeira.
Ah, como ela sentia raiva de seu pai naquele instante!
— Respire, Hinata, respire — recomendou para si mesma, fechando os olhos e respirando de forma lenta e calma. — Você precisa se focar, parar de culpa o otou-san e esperar a bendita ligação.
Sorriu para o nada e voltou a olhar o telefone, tentando parecer animada. Há três semanas, sua irmã havia dado essa ideia maluca de dividir o apartamento com alguém. Hinata, como uma boa medrosa que era, ficou um pé atrás e só aceitou a sugestão há duas semanas, quando viu que suas opções estavam acabando. Pensara em colocar no anúncio “apenas para mulheres”, contudo, não tinha dinheiro nem oportunidade para escolher.
Ela também poderia mudar para outro apartamento, menor e mais barato, porém tinha um pequeno defeito: a falta de costume. Na casa dos pais, Hinata recebeu durante toda sua vida do bom e do melhor e, do nada, perder essa “mordomia” parecia fora de questão na hora de alugar seu novo lar.
“O quê? Qual é o problema de ser um pouquinho mimada?”, deu de ombros e voltou a olhar o telefone. “Por que você não toca?”
Nesse segundo, Kami-sama atendeu seu pedido. O barulho estridente do telefone fez que Hinata pulasse da cadeira e corresse para atender. Animada e de esperança renovada, soltou um feliz:
— Moshi moshi!
Para receber um feliz:
— Moshi moshi, nee-san!
A felicidade e o sorriso morreram quando reconheceu a voz da irmã mais nova. Havia se esquecido que, todos os domingos, Hanabi e sua mãe a ligavam para ver como estava indo com sua vida de “garota independente”. Forçou-se a dar um sorriso e reprimiu um suspiro de decepção enquanto continuava a conversa com a sua irmãzinha.
— Como vai, Hanabi-chan?
— Nossa, que diferença na sua voz!— era claro que ela perceberia... — Pensou que fosse quem? Um namorado?
— Nabi — riu um pouco e negou para o ninguém. —, sabe que tenho mais coisa para me preocupar... Namorado está fora de cogitação.
— Posso sonhar, não? E o seu colega de quarto? É gostoso?
— Hanabi! — repreendeu, sentindo as bochechas queimarem, e ouviu a voz da sua mãe no fundo, rindo. — Está no viva-voz?
— Sempre, meu amor! — respondeu Hiroko, mãe de Hinata. — Como está indo, anjo?
— Bem, okaa-san. Um pouco nervosa, mas extremamente bem.
— Nervosa, nee-san?
— Hai, faltam dois dias para pagar o aluguel, mas não tenho nenhum colega de quarto...
— Anjo, quer que eu mande mais dinheiro? — indagou a mais velha, claramente preocupada.
Certo, o dinheiro que Hinata tinha não era fruto do seu “trabalho suado” e sim de sua mãe preocupada mesmo. Hiroko fizera uma conta sem que Hiashi percebesse e havia mandado uma quantia para que a filha vivesse sem se preocupar, mesmo que contra a vontade desta. Ela não queria mais dinheiro, queria aprender a se virar sem os pais e estava ficando difícil.
— Lie! Falta pouco para conseguir o emprego — mentiu e rezou para que nenhuma das duas percebesse. — e eu vou pagar essa quantia quando conseguir dinheiro, então, não aumente minha dívida, onegai.
— Mas, filha, você é tão bebê!
— Okaa-san! — corou e ouviu a irmã rindo ao fundo. — Hanabi, pare de rir!
— Nani? Vai pedir para a okaa-san te proteger, bebê? “Okaa-san, olha a Hanabi como é chata! Blá blá blá!” — continuava a rir e Hinata ainda sentia o rosto vermelho. Só que de raiva!
— Se querem saber, não precisam mais me ligar! Passar bem! — e bateu o telefone no gancho, fervendo de raiva.
Secou as lágrimas de ódio e ouviu o telefone tocar. Pensou em atender, contudo, sabia que seria sua mãe e, orgulhosa, ficou de costas para o aparelho. Tocou uma, duas, três, quatro vezes! Na quinta, engoliu todo o seu orgulho e pegou o maldito telefone, descontando sua raiva na pessoa ao outro lado.
— Não aceito desculpas, Hanabi!
— Ih, acho que está me confundindo...
Hinata estremeceu e sentiu o rosto vermelho novamente, desta vez de vergonha; do outro lado, havia uma voz rouca e sexy com um tom de brincadeira... E que, obviamente, pertencia a um homem. Será que era engano?
— G-g-gomen nasai... D-deseja falar com quem?
Droga, aquele não era momento para gaguejar!
— Hã... — se ele tivesse com vontade de rir, disfarçou bem enquanto parecia ler algo. — Hyuuga Hinata?
— S-sou eu mesma — repreendeu-se por gaguejar e respirou profundamente, tentando conter seu nervosismo.
Claro que estaria nervosa! Era primeira vez que ela falava com um homem sem ser seu primo ou pai ou motorista ou porteiro... Enfim, fora do seu “mundo”.
— Sou Uzumaki Naruto e queria saber se o quarto no seu apartamento ainda está para alugar? — ele era direto, ainda bem.
— Hai...
— Será que poderíamos marcar para eu ver como é aí?
Hinata engoliu seco e trocou o telefone de mão, secando o suor na calça logo em seguida. Aquilo estava mesmo acontecendo? Um cara queria alugar o apartamento? Seria ele um estuprador? Ou, quem sabe, um velho tarado? No entanto, será que velhos tarados tinham vozes roucas e sensuais como a do tal Naruto? “Pare de ser negativa, Hinata!”, repreendeu-se e sorriu. “O apartamento precisa ser pago, foque nisso!”
— Claro! Tem como ser hoje?
(...)
Ela estava mesmo fazendo aquilo? Quando ouviu o sino do minúsculo restaurante tocar, essa pergunta surgiu em sua mente enquanto avaliava o lugar. Acostumada com lugares imensos e tão recheados de detalhes de luxo, o Rámen Ichiraku era pequeno e humilde. Sem iluminarias de mil cristais, semmaître, sem mesas redondas cobertas com lindas toalhas de seda. Na verdade, aquele restaurante estava com cara de lanchonete americana.
Fechou o guarda-chuva e lembrou-se da descrição que Naruto havia dado dele: louro, olhos azuis e marcas de nascença nas bochechas. Olhou ao redor e corou ao constatar que todos no recinto olhavam-na como se ela fosse de outro mundo... Ela não se vestira tão mal assim: uma calça jeans, uma blusa preta, um casaco grosso bege e uma bolsa com franjas. Seu cabelo estava em um dia comportado, então, nada demais.
Hinata não percebia, porém não era a aparência e sim seu jeito. Ela tinha uma pose de superior e, para pessoas como freqüentadores daquele restaurante, uma pessoa como ela era uma novidade para todos.
— Hinata? — ergueu os olhos e corou mais um pouco ver de quem se tratava.
Na sua frente, estava o homem mais gato que viu em toda sua vida! O cabelo curto e bagunçado era de um louro vivo que fez que ela se lembrasse do Sol que raras vezes aparecia no céu de Kyoto; o sorriso daquele individuo era tão alinhado e brilhante que o deixava até mais lindo – “se é que é possível”, pensou ainda abobalhada com a beleza dele –; seu rosto tinha o formato divino e seu nariz, sua testa, tudo naquela face tinha a medida certa; e, por último e igualmente importante, os olhos dele eram azuis... Não qualquer azul, um azul ou igual ao céu ou ao mar ou a mistura impecável de ambos.
Um anjo ou um deus grego... Era beleza demais para um mero mortal!
Hinata voava em seus pensamentos quando percebeu o que estava fazendo, encarando um desconhecido fixamente, nem tentando disfarçar. Sentiu as bochechas ficarem mais vermelhas ainda ao lembrar que ficou encantada pelo rapaz, ou seja, deveria estar com a expressão mais idiota do mundo na cara. Repreendendo-se mentalmente, colocou uma mão na bochecha e curvou-se respeitosamente.
— Y-y-yo... v-você deve ser N-Naruto-san, não é? — ela não podia acreditar que estava gaguejando outra vez.
— Hai, eu mesmo! — o louro curvou-se com um sorriso e a moça apertou mais a mão contra a bochecha, sentindo a mesma ficar mais quente do que nunca. — Vem, vamos sentar.
Naruto guiou-a a uma mesa de canto e afastada e essa atitude deixou Hinata aliviada, porque a sensação de ser observada por todos ainda continuava a incomodá-la. Logo que se sentaram, uma linda moça veio atendê-los e a morena precisou de um minuto para ver o que queria no cardápio, afinal, estava faminta.
Também não era culpa dela, o fato de não saber cozinhar. Ou, talvez, era sim, mas não era importante na hora.
Quando a moça se foi, o louro puxou assunto sobre a casa e a Hyuuga acabou se rendendo ao papo. Ela explicou que estava procurando uma pessoa para dividir o apartamento pela falta de dinheiro e, quanto antes ele aceitasse, melhor seria para ambos. Em um momento da conversa, acabou descobrindo que ele estava procurando um apartamento próximo à faculdade que começaria a frequentar na próxima semana.
— Não me diga que você vai estudar na Universidade de Kyoto? — perguntou e riu quando o mesmo assentiu. — Eu também!
— Sério? Uau, que demais! Vai fazer o que por lá?
— Letras e Economia... Sim, eu passei nas duas — corou ao perceber o espanto dele, os olhos arregalados e a boca aberta.
— Caraca, além de gostosa, você é inteligente! — Naruto assobiou após alguns minutos, deixando-a corada e sem graça. Vendo isso, ele riu e coçou a nuca. — Perdão. Sou tão acostumado a dar conselhos sexuais que acabo falandoessas coisas...
— Conselhos sexuais? — se ela não estivesse envergonhada, provavelmente estaria fazendo a careta mais confusa do mundo.
— Hai, é o que o amigo gay faz, certo?
“Eh, oi? Perdi alguma coisa?”, ela tombou a cabeça levemente para o lado e estreitou os olhos. O Uzumaki corou ao ter soltado aquela bomba na cabeça da morena e ficou olhando-a a espera de alguma reação. Por fora, Hinata estava extremamente confusa, entretanto, por dentro...
COMO ASSIM, ELE ERA GAY? Kami-sama, que desperdício! Claro que, ao pensar daquela forma, ficou corada, porém era verdade! Louro, olhos azuis, bom-humorado, sorriso perfeito, brincalhão e despreocupado com a vida... Ah, e gay. Caramba, nada contra os gays, mas ele não combinava nada com um homem. Ou, talvez, combinasse... “Ah, mas é triste ver um cara tão lindo ser gay”, suspirou interiormente e sentiu-se decepcionada por dentro.
Olha pelo lado bom: ele não iria estuprá-la.
— Por favor, diga que não é homofóbica — torceu o rapaz e aquilo a chamou para vida.
— Nani? Lie, lie! É só que... — como ela iria falar que pensava que teria uma chance com alguém que gostava da mesma coisa que ela? — Essa notícia me pegou de surpresa. Você não parece ser gay... Nada contra.
— Lie, tudo bem. Eu sou um tipo de gay discreto, entende? — Naruto aproximou-se e sussurrou. — Não que eu seja discreto, mas prefiro manter minha opção sexual em segredo...
— Ah, entendo.
— Aqui está o pedido de vocês! — a garçonete voltou e colocou a comida sobre à mesa, assustando-os e afastando-os rapidamente. — Aproveitem!
Enquanto comiam, Hinata olhava disfarçadamente para o louro, pensando uma possível razão de fazer um rapaz tão bonito desistir das mulheres. Deveria ter algum motivo, afinal, as pessoas não nascem homossexuais, elas se tornam assim. Talvez, mesmo sendo extremamente gato, ele não tivesse bons exemplos de mulheres na vida... Seja qual for a resposta, ela não se importava; se ele era gay, então, eles seriam amigos.
Naruto percebeu que ela o olhava e fitou seus olhos com um sorriso, porém esqueceu que estava com macarrão na boca, o que fez o mesmo cair na tigela novamente e o caldo pular para fora, molhando o rosto e as mãos dele. Hinata tentou conter a gargalhada, mas acabou saindo uma risada baixa. Talvez não fosse tão ruim ter um amigo gay bonito assim...
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