O Que Vem Depois
1 Capítulo Único - O Que Vem Depois
Notas iniciais
(...)
A vida continua.
Ela não vai parar, mesmo que você queira. Podemos aceitar ou negar esse fato, mas ele mesmo assim não mudará.
Eu aceitei. Foi a decisão mais difícil da minha vida, mas eu a tomei.
Tudo estava quieto, tranqüilo. Sequer parecia que era o dia seguinte a um jogo tão importante quanto aquele... bom, talvez eu estivesse tão desligado que sequer percebesse o que se passava à minha volta. Não havia ninguém ali, era fato. O lugar estava morto. Mas isso era bom, muito bom. Era melhor assim.
Corri uma mão pela porta da quadra coberta, enquanto a outra segurava contra o corpo a minha bola de basquete. Eu trazia o objeto comigo mesmo sabendo que não o usaria... mas talvez estivesse pegando a mania de Midorimacchi de andar por aí com itens da sorte. Mas que a bola era meu item da sorte horóscopo nenhum havia dito... eu a trazia mais para companhia do que para qualquer outra coisa.
Saí de casa com o objetivo traçado, mesmo sem saber se poderia cumpri-lo ou não; mas mesmo assim, eu fui. E, para a minha sorte, a porta estava destrancada. Talvez alguma força em algum lugar me houvesse concedido o desejo de poder estar ali agora. Entrei, e o barulho ecoou pela quadra deserta e resfriada devido ao ambiente coberto. Fechei a porta às minhas costas, enquanto suspirava e filmava o lugar com os olhos, como sempre fazia quando chegava e cumprimentava a todos do time. Kasamatsu-senpai sempre me dava uma voadora quando eu me atrasava.
Mas ninguém sabia que eu estava ali. Jamais saberiam.
"É... mais um dia." pensei eu. Mais um dia em que eu me levantava e voltava àquele lugar, sempre com a cabeça erguida, não importando o ocorrido. Mas, desta vez, minha volta fora mais lenta e latejante, pois eu trazia comigo uma perna fortemente lesionada, com a qual mancava sutilmente. Mas não havia problema, estava tudo bem.
O silêncio sorriu para mim, dizendo-me para me sentir em casa, coisa que era felizmente fácil naquele lugar; comecei a caminhar para o centro da quadra, a convite de mim mesmo. Não pinguei a bola no chão, e meus tênis pela primeira vez não produziram barulho quando pisei na madeira muito bem encerada estendida aos meus pés. Depositei a bola no chão e me deitei, usando-a como descanso para a cabeça.
"Está tudo bem." Eu repetia em pensamento, para que permanecesse forte. Mas forte era a última coisa que eu era naquele momento. Dizia em pensamento porque se dissesse com a voz talvez meu próprio tom me fizesse chorar, e deitei-me para que não visse minhas próprias lágrimas caindo sobre minha roupa.
Mas está tudo bem.
A umidade dos olhos logo me escorreu rosto abaixo, com ou sem consentimento. As lágrimas me garantiram que seriam as únicas testemunhas de minha dor, e estenderam-me os braços para que eu pudesse descansar o peito sofredor, que permaneceu quieto apesar de tudo. Todos estavam atentos à história que já se desenrolava desde que o protagonista havia entrado pela porta, a chamado da própria alma, que urgia por ser libertada do que lhe causava mal, pois estava à beira de desatinar-se completamente.
Eu estava livre? Ou devia me considerar prisioneiro de uma dor sem igual após ter tomado aquela decisão? De qualquer forma, ela fora necessária. Eu escolhera arrancar meu próprio coração, ou pelo menos sentir dor parecida. Mas estava tudo bem, ainda havia a metade cheia do copo... e talvez eu estivesse sendo dramático demais. A primeira dor é sempre maior por não conhecermos sua profundidade. Mas quando sabemos de cor a ida e a volta nós podemos parar a qualquer momento, pegar um atalho, ou até mesmo tentar de novo do início.
Esperei tudo começar a transbordar de meu interior, coisa que não demorou, visto que naquele momento eu não estava contendo nada, e sim apenas esperando o momento certo de tirar a tampa — ou o curativo — para que saísse o que tivesse de sair.
E eu caí.
Cada um dos meus pedaços, das minhas peças,
espalharam-se pelo chão,
deslizaram para perto,
para longe,
para fora.
Pedaços rasgados, gastos, remendados.
Peças velhas, tortas, sem par.
Os traços de lágrima que escorriam quentes pela minha pele, e tornavam-se frios logo em seguida eram como mãos que me seguravam quando eu mesmo não fazia mais questão de permanecer dentro do campo gravitacional da terra. Eu queria flutuar, me sentir leve, ou pelo menos fingir. As memórias me jogavam de um lado para outro, em direção a um turbilhão formado sem o movimento de um dedo sequer. Sofrimento dilacerando o peito sem a necessidade de qualquer lâmina.
Eu conseguira abrir mão da admiração que tinha por ele... mas "só" disso. Era tudo do que podia me desfazer, pois sabia que se desse um fio de cabelo, uma respiração, uma batida de coração a mais, eu desmancharia, e deixaria de ser eu mesmo. Estranho, porque a agonia do abandono dessa admiração era tão grande quanto a de ser obliterado completamente, até que não sobre absolutamente nada.
Ali, naquele momento, eu era apenas restos. Restos que talvez não enchessem duas mãos em concha, mas cuja consistência era suficiente para que eu conseguisse recolher e montar novamente, usando como cola tudo o que me restara: esse outro inegável sentimento, tão forte quanto o primeiro, mas insubstituível. Desse eu jamais conseguiria me livrar. Era um sentimento infinito, embora eu me lembre de uma de suas pontas...
E eu me lembro de quando o conheci, e de como estava tão claro que ele era o único para mim.
E de como, conforme os anos se passavam, as coisas ficavam mais difíceis e nós éramos confrontados por mais desafios.
E eu me lembrava do que tínhamos no começo. Ele era carismático, magnético, elétrico, e todos sabiam. Ele era esse híbrido, essa mistura de um homem que não conseguia se conter.
Mas eu tinha esse sentimento de que era apenas questão de tempo até que ele se perdesse, devido à o que a vida de alguém como ele se tornaria.
Mas dessa forma eu o entendia, e eu o amava.
E eu o amava, eu o amava, eu o amava.
E ainda o amo. Eu o amo.
Era algo que eu tentava esquecer, ou pelo menos esconder. E quando estava frente a frente com ele, ocultei esses sentimentos com todas as forças, como se eles não fossem realmente meus... mas, em ordem de esconder estes, eu tive que colocar outros à mostra... e oferecê-los em sacrifício.
Mas pensando melhor... eu não me arrependo. Eu o respeitava demais para não jogar contra ele com tudo o que tinha. E sabia que com certeza ele me daria um soco se eu dissesse que havia sido fraco e facilitado o jogo. Não, pior do que isso... eu não agüentaria olhar meu próprio reflexo no espelho se, além de tê-lo subestimado, eu tivesse colocado todo o esforço do meu time a perder apenas por sentimentos meus que, além de tudo, nem eram correspondidos.
Mas estava tudo bem. Havia lugar em mim para todos estes sentimentos... tanto os que eu deveria ter dado a ele, quanto os que continuavam a crescer em meu peito, sabendo que morreriam no mesmo lugar onde estavam nascendo.
Pensei em levar a mão ao rosto e tapar os olhos, mas não havia motivos para isso. Eu felizmente não tinha mais de esconder nada, e isso me deixou aliviado. As lágrimas caíam, meus lábios tremiam e meus olhos até ardiam... foi quando tudo começou a não estar mais bem. Levantei o olhar e visualizei o aro, sentando-me e puxando a bola para meu colo. Olhei para ela, e voltei a fitar o aro. Tomei-a em mãos e levantei os braços para fazer uma cesta... mas não consegui. Na verdade eu sequer tentei, pois comecei a soluçar, deixando a bola escapar de minhas mãos e encolhendo-me o máximo que pude, envolvendo a cabeça com os braços e apoiando a testa nos joelhos. Fiquei assim por um bom tempo, tentando respirar entre um soluço e outro, que pareciam não me deixar por precisarem sair do meu peito o mais rápido possível, para darem lugar aos próximos, que eram muitos. Nem eu sabia que eram tantos.
Eu tentava me manter calmo... mas a sensação de aperto não era menor por causa disso. Fui vencido pouco a pouco pelo choro, que me fazia inutilmente tapar a boca enquanto meus ombros tremiam.
Talvez... eu devesse parar de ser tão exigente comigo mesmo. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde essa hora chegaria: a hora em que eu não agüentaria mais, e tudo o que havia em mim transbordaria. Não me apaixonei muitas vezes antes — na verdade, acho que nenhuma — mas... amar Aominecchi era o sentimento mais forte que eu já havia sentido e talvez o mais forte que sentiria em toda a minha vida. Embora o final não fosse nada feliz, acho que posso dizer que valia cada cicatriz deixada em mim.
Minha história havia sido escrita nesta quadra. Não só nela, mas também nela. Cada gota de suor que eu derramava, sempre me fazia lembrar o porquê de eu ter começado a jogar basquete: ele. Eu queria ser como ele.
Gotas de admiração, e lágrimas de amor. Todas, todas elas pertenciam a Aominecchi. Ali estava sendo plantada, derramada a prova de tudo o que eu sentia.
Aominecchi, eu amo você.
Eu amo você, eu amo você, eu amo você.
Eu não perguntaria o porquê de ele não me amar em retorno, e nem porque as coisas tinham de ser daquele jeito. Eram sentimentos dos quais ninguém nunca saberia, e que seriam enterrados assim que eu saísse por aquela porta, de volta para o mundo... de volta para a realidade.
Mas já que eles não seriam correspondidos, nada mais justo do que libertá-los. Como vagalumes que haviam cumprido sua função de iluminar o caminho pelo qual alguém seguia, fazendo-o chegar sã e salvo ao seu destino...
Aominecchi... eu amo você.
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