O Que Ficou Entre Nós
1 Quando o Mundo Para por um Segundo
Notas iniciais
Helena acreditava que aquele seria apenas mais um dia comum. Chegou cedo ao centro de eventos, como sempre fazia, segurando sua prancheta e o café forte que a ajudava a se manter de pé. O ambiente ainda estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes frias do teto, enquanto os expositores começavam a montar seus estandes.
Para ela, era rotineiro. Para o coração dela, era só mais um dia.
Ou deveria ter sido.
Caminhando pelo corredor principal, Helena revisava mentalmente a programação, tentando ignorar a leve ansiedade que sempre a acompanhava antes de grandes eventos. Mas, quando virou a esquina para verificar a área dos convidados especiais… ela parou.
Seu corpo simplesmente travou.
Um homem observava a planta do local com atenção, consultando algo no celular. Talvez fosse o jeito como ele inclinava a cabeça, ou a forma como a luz refletia nos fios castanhos do cabelo dele. Ou talvez fosse aquele perfume — o mesmo aroma de memória que ela tentou esquecer tantas vezes.
Mas foi quando ele levantou o rosto que o impacto a atingiu como um soco no peito.
Rafael.
Impossível.
Mas estava ali.
Os olhos dele se demoraram nela por longos segundos — e, dentro daquele silêncio sufocante, Helena sentiu como se todo o ar do corredor tivesse evaporado.
— Helena? — A voz dele saiu baixa, carregada de espanto… e algo que ela preferia não identificar.
O coração dela deu um salto, mas por fora ela manteve o controle. Ou tentou.
— Senhor…? — Ela piscou, tentando se recompor. — Desculpe, posso ajudar? — perguntou, como se não reconhecesse o nome que ecoava na própria mente.
Rafael deu um sorriso de canto, triste e surpreso ao mesmo tempo.
— Moretti — respondeu. — Rafael Moretti. Representante da empresa A&G Comunicação.
Helena sentiu o estômago se contrair.
O sobrenome soou como um fantasma chamando seu nome.
Claro. Ele tinha voltado.
Só não imaginava que o destino fosse colocar os dois tão perto… tão rápido.
— Ah — ela respondeu, respirando fundo para manter o profissionalismo. — Sim, você está na lista dos convidados. Bem-vindo ao evento.
Rafael a observou como se não tivesse ouvido uma palavra — como se estivesse tentando entender como ela estava ali, viva, real, tão perto depois de anos sendo apenas lembrança.
Ele deu um passo na direção dela.
Helena imediatamente recuou meio passo. Nada muito perceptível… mas perceptível o suficiente para o peito dele afundar um pouco.
— Eu não fazia ideia de que você estaria aqui — ele disse, com a voz estranhamente suave.
Ela forçou um sorriso cordial — o tipo de sorriso que costuma usar com desconhecidos.
— Acho que é assim que funciona. A vida surpreende.
Mas a frase saiu dura, quase cortante.
Rafael engoliu seco.
— Você está… diferente — ele comentou, sem conseguir controlar o olhar que passeava rapidamente pelo rosto dela.
Mais madura. Mais forte. Mais distante.
— O tempo faz isso — ela respondeu, desviando o olhar antes que a voz traísse as emoções que insistiam em despertar.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. O silêncio entre eles era denso, quase palpável. Mas não era o silêncio confortável de antes — era o silêncio de tudo o que ficou sem ser dito.
Quando Helena tentou se mover para escapar daquela situação sufocante, a coordenadora apareceu, totalmente alheia à tensão no ar.
— Helena, ótimo! — disse, sorrindo. — Preciso que você acompanhe o representante da A&G até o estande dele. Ele é prioridade da manhã.
Helena prendeu a respiração.
Rafael olhou para ela como se o destino tivesse acabado de lhe dar uma segunda chance.
— Claro — ela murmurou, aceitando a função que mais queria evitar naquele dia.
Ao caminhar ao lado dele em direção ao estande, Helena tentou manter os olhos fixos à frente, mas não pôde ignorar a presença dele tão próxima. O calor familiar. O perfume familiar. A dor familiar.
Rafael, por sua vez, parecia lutar contra a própria vontade de falar. A cada passo, ele parecia ensaiar uma frase… e desistir.
Finalmente, ele quebrou o silêncio:
— Eu não esperava que… depois de tudo… você ainda estivesse nesse caminho. — Ele hesitou. — Você sempre foi brilhante nisso.
Helena apertou a prancheta com mais força.
— Rafael — ela cortou, mantendo o tom neutro. — Não precisamos falar do passado.
Ele parou por um instante. Apenas um segundo.
Mas olhar para ela depois daquilo parecia doer.
— Certo — respondeu, baixinho. — Se é isso que você quer.
Helena respirou fundo, como se a frase tivesse pesado nas costas.
— É — mentiu.
Eles seguiram o caminho em silêncio, e Helena não percebeu… mas Rafael sorriu de leve, com o mesmo ar derrotado e esperançoso de alguém que reencontrou algo que nunca esqueceu.
Ele não tinha vindo para reviver o passado.
Mas talvez… só talvez… o destino tivesse outros planos.
Fale com o autor