O Que Eles Veem Em Você? 2
11 Reviravoltas
Notas iniciais
Percy mordeu o lábio inferior olhando alternadamente entre a porta do trailer e Annabeth fumando despreocupadamente. A primeira coisa que passou pela sua cabeça era “como ela entrou aqui?”, mas depois de praticamente estar numa tática de guerra dentro do colégio com ela para roubar um uniforme, era burrice perguntar o óbvio: Ela havia arrombado o trailer.
Ele fechou a porta com sua chave, para que ninguém entrasse. Percy fez a segunda pergunta que veio a sua cabeça e uma muito mais inteligente:
–Porque você está aqui? – ele foi até o sofá vermelho em que ela estava, sentando-se ao seu lado. Everlong começava a tocar na festa, só que bem baixinho dentro do trailer. Os dois se entreolharam.
–Parecia ser um lugar calmo. Eu queria estar num lugar calmo – respondeu ela sem entonação na voz, como ela falava sempre ultimamente –Eu achei que você estava muito ocupado com uma garota para sair de lá tão cedo.
Uma pequeníssima ponta de ressentimento estava em sua voz, Percy arqueou a sobrancelha.
–Eu achei que você estava muito ocupada masturbando um cara para estar em outro lugar.
–Não estou entendendo seu tom de voz. Parece até que eu fiz algo de errado – Annabeth parecia irritada – Eu tenho o direito de transar com quem eu bem entender e você não tem nada a ver com isto.
Percy colocou sua garrafa de Heineken no chão, suspirando e pegando o cigarro de Annabeth de sua mão, apagando-o no seu pé.
–Aqui é um lugar fechado, eu não tenho a obrigação de cheirar nicotina – Annabeth não objetou. Os dois se entreolharam novamente e Percy respirou fundo quando seus olhos se encontraram com os cinza tempestuosos.
Ele sentiu seu coração bater mais rápido e suas pernas se bambearem, Annabeth parecia nervosa.
–Já que você é tão esperta, será que poderia me explicar o que tem de errado? – perguntou ele com a boca seca, estava no ápice de sua coragem graças às cervejas – Eu sei que você não presta, mas você está presa no meu cérebro. Minha mente fica dizendo “corra o mais rápido que puder”, mas parece que você me puxa de volta.
Eles se fitaram mais uma vez, Annabeth, como sempre, parecia indiferente. Mas algo estava um tanto diferente em sua expressão: ela parecia digerir a ideia.
–Eu acho que você deveria seguir sua mente às vezes.
Ela se levantou com as pernas um tanto bambas e pegou uma cerveja na geladeira. As bochechas de Perseu ficaram vermelhas de vergonha e raiva. Ele quis se bater por tentar se abrir para Annabeth. Era a mesma coisa que falar com a parede. Ele a olhou por um tempo enquanto ela escolhia a cerveja e abria a garrafa.
Ela se virou e sentiu seu corpo ser pressionado pelo de Percy, este que parecia extremamente sério.
–Eu posso estar bêbado, mas não o suficiente para perceber que você estava olhando para mim enquanto comia aquele garoto na festa – Annabeth tinha as bochechas vermelhas enquanto sentia o corpo dele a pressionar contra a pia ainda mais. Ele pegou a cerveja da mão dela e sua boca passou pelo pescoço da loira, tão perto que a fez arrepiar.
O peitoral dela descia e subia com dificuldade, ela tateou a pia molhada sem objetivo. Percy foi até o seu ouvido.
–Se você se acha superior por negar, então continue.
Percy foi embora, deixando uma Annabeth vermelha e confusa na pia do trailer.
(...)
Percy abriu os olhos, sentindo a parte esquerda da sua bochecha pressionar-se contra o colchão. A primeira coisa que sentiu foi uma baita dor de cabeça, depois uma vontade súbita de vomitar, e mais dor de cabeça.
Ficou surpreso ao saber que estava na sua cama, na sua casa. E com a mesma roupa do dia anterior.
Passou a mão no rosto tentando melhorar sua dor de cabeça, em vão. Ele não fazia ideia de como havia chegado em casa, e muito menos quem havia o trazido. Sentou-se na cama, sentindo tudo a sua volta rodar. Olhou para um ponto fixamente no fim do quarto, tentando lembrar-se de alguma coisa que havia feito. Porém, a última coisa que se lembrava, era de entrar no trailer e ver Annabeth sentada ali e...
Tudo branco. Ele não se lembrava de nada que havia feito depois daquilo.
Levantou-se, sentindo suas pernas um pouco bambas. Foi até o banheiro do seu quarto e tirou a roupa lentamente, olhando no espelho um garoto de olhos fundos e vermelhos.
Entrou num chuveiro de água fria, respirando fundo. Aquela era uma baita de uma ressaca.
Desceu a escadaria da sua casa já com uma leve blusa branca e uma bermuda caqui, os cabelos molhados penteados para trás e os pés descalços.
Agora Percy sabia por que as festas de Nico eram sempre numa sexta feira, já era uma hora da tarde.
Pegou uma caneca e a encheu de café expresso, bebeu uma aspirina e sentou-se à mesa. Não conseguia lembrar o que havia acontecido, e o esforço de tentar lembrar o fazia ficar com mais dor de cabeça ainda.
–Bom dia – cantarolou Annabeth ao seu lado com um esquisito bom humor. Ela estava cuidando das flores que havia no jardim e suas mãos estavam sujas de terra. Percy franziu o cenho.
–Você sabe quem me trouxe para casa? – ele já se sentia fracassado no quesito “ser o responsável”. Annabeth tirou suas luvas e prendeu o cabelo num coque. Pegando também uma xícara de café.
–Sei, claro que sei – ela se sentou a sua frente – Até porque fui eu.
Percy a olhou por alguns segundos. Tentando lembrar tal cena, mas não conseguiu.
–Foi bem divertido até, você não parava de cantar e vomitou no meu pé, mas depois de uns cinco minutos baqueou na cama. Eu te achei deitado no sofá da sala do Nico, então roubei suas chaves e dirigi até aqui.
Ela não falava como um pedido de desculpas, nem como se houvesse feito um favor.
–Hm... Bem, obrigada, eu acho – Percy estava confuso – Eu não fiz ou falei...
–Não, você não me ofendeu de alguma forma – ela bebeu o resto de seu café – Claro, se você considerar (como eu) a sua versão de Sexy and I Know That como ofensiva, então sim, você me ofendeu.
Percy pôs as duas mãos no rosto, rindo um pouco. Annabeth acabou rindo também. O que foi algo interessante já que Perseu nunca a ouvia rindo desde que chegou naquela casa.
–Desculpa, eu ia ser o motorista, e também seu responsável – ele levantou as sobrancelhas, sentindo uma martelada na cabeça – Houve uma inversão de papeis.
–Pode ter uma nova inversão se você fizer o almoço – ela sorriu – Boa sorte.
Percy coçou o cabelo e se levantou, estava um pouco confuso pelo bom humor de Annabeth, mas não achava aquilo uma coisa ruim. Era óbvio que ela estava feliz por ter que cuidar do garoto bêbado que era “seu responsável”.
–Eu não quero ter uma infecção alimentar então proponho uma ajuda – ela foi até a televisão e ligou na rádio dos anos 60. Onde começou a tocar a música “The Twist”. Percy acabou rindo.
–Panqueca?
–Pode ser – Annabeth bateu os dedos na pia, pegando a farinha de trigo e os ovos. Percy lavou as mãos e colocou o avental, fazendo Annabeth rir pelo nariz.
Percy encostou o corpo no batente, olhando para a loira desconfiado.
–Você está muito feliz – ressaltou ele. Annabeth o olhou por um momento e depois mordeu o lábio inferior, pensativa.
–Eu sofri uma pequena epifania ontem – respondeu ela – Tem outras formas de conseguirmos o que queremos.
Percy não entendeu o que ela quis dizer, mas sentia que dali para frente ele nunca mais entenderia muito o que Annabeth queria dizer. De qualquer forma, ele preferia ela com um bom humor do que de mau humor.
O calor que fazia não era digno de começo de fevereiro, muito pelo contrário, era digno de um ensolarado dia de Junho. Percy tirou a blusa, deixando apenas o avental. Fazer a massa era o trabalho mais pesado, envolvia força e resistência.
Os braços de Percy iam para baixo e para cima, totalmente definidos.
–Me passa um pouco de leite – pediu Percy ainda forçando o braço. Ele olhou para a loira – Annabeth?
Ela olhou para o moreno com a sobrancelha levantada, um pouco confusa, piscou e olhou para ele.
–Leite...
–Ah sim – ela pegou o pote de leite e jogou um pouco na massa. Os dois se entreolharam por um momento.
Percy arregalou os olhos, lembrando-se da noite anterior. A cena do trailer ficou tão viva que quase o fez bambear, depois se lembrou de ter ficado com umas duas meninas e sair cambaleando pela casa. Lembrou-se de vomitar e Annabeth estar afagando o seu cabelo.
–Eu devia ter respondido outra coisa, Percy. Desculpa.
–Percy? – perguntou Annabeth agora séria – Tudo bem?
Percy acenou a cabeça falando que sim.
Na rádio, começou a tocar “Let’s Twist Again” e eles acabaram rindo. Depois de fazerem quatro panquecas, os dois se sentaram e começaram a comer silenciosamente. Percy ainda tentava processar as palavras que havia acabado de lembrar. Claro, Annabeth também não parecia tão sóbria assim, mas definitivamente não estava bêbada.
Por um segundo Percy olhou em seus olhos, e percebeu que ela também olhava para ele. O que ele não conseguia entender era o que se passava na cabeça de Annabeth.
Ele tentou olha-la como se ela fosse uma desconhecida. Tentou imaginar uma garota que ficou o ano todo dedicando a doença do pai, e no fim, ele morre tragicamente. Tentou imaginar como ficaria uma garota que é obrigada a sair da sua cidade amada onde estava seu pai morto, para ficar com uma mulher que ela decidiu no ano anterior não estar em sua reponsabilidade.
De fato, todos estavam sendo muito duros com ela. Em seu lugar, ele já havia ficado totalmente louco, insano e inconsequente.
–Me desculpa por te tratar igual a um animal nas últimas semanas – começou Percy ainda mastigando um pouco da panqueca – Eu estou me tocando agora de tudo que aconteceu e foi uma idiotice ser tão... Rude.
Annabeth colocou o garfo no prato, ficou olhando seriamente para Percy por algum tempo. Depois voltou a comer.
–Você demorou pra entender – ela disse mexendo no prato.
–Desculpa por isto.
–Pare de pedir desculpas, você não me fez mal.
–Mas não fiz bem.
–E duvido que comece agora, convencido.
Percy riu.
–Você é uma garota teimosa.
–Sempre fui – ela se levantou. Havia sido provavelmente o momento mais longo de paz entre os dois – Mas não sou a única pessoa teimosa por aqui.
Percy se levantou, também colocando seu prato na pia. Os dois se entreolharam por um momento. Verde no cinza. Só que não era mais como antigamente.
Tudo estava diferente. Eles nunca iriam ter a relação que tiveram um dia. Mas Percy sentia que aquela Annabeth era muito melhor que a antiga que ele havia conhecido. Esta sabia admitir os erros, e não se colocava em primeiro lugar em tudo, era quieta e comedida. Uma pessoa totalmente diferente de todas as outras que ele havia conhecido: Ela enxergava tudo que era superficial e que as outras pessoas não conseguiam enxergar. E isto não era nada superficial.
–Mas você é muito mais teimosa que eu – ressaltou Perseu depois de ficarem vários minutos se olhando – Eu só estava bêbado, eu não tenho Alzheimer.
Annabeth trocou o peso do pé, parando de lavar a louça.
–O que você está falando?
–O que você acha? – ele tentou ler os olhos dela – Você me ajudou lá na festa, eu falei o que eu acho que estou sentindo ou sei lá o quê e depois você respondeu, só porque eu estava bêbado na hora e não dei importância.
Annabeth olhou para o chão e depois para o prato. Percy saiu do seu lado e ficou na sua frente. Era impressionante o fetiche que ele tinha por ela, ele tinha o prazer de desvenda-la, e sempre que isto acontecia, ele se sentia completo de alguma forma. Era como um ovo de chocolate: Sempre que tem uma surpresa a mais você fica mais feliz.
Ela não o tratava mal toda hora como fazia com as outras pessoas. E isto o fez ter uma pontinha de esperança.
–Você tem medo de mostrar o que você pensa e sente por causa da morte do seu pai, por isto você é tão indiferente com tudo. – os dois se entreolharam por um momento, Percy a pressionou contra a pia, dando-lhe uma vertigem da última noite – Eu tenho uma novidade para você: Eu te enxergo através disto tudo. E eu gosto, muito.
Annabeth sustentou o olhar daquela vez. Apesar das bochechas rosadas, ela não parecia envergonhada nem ao menos tentava negar alguma coisa. Ela parecia esperar o que mais Percy tinha a dizer.
E Percy não disse nada, mas fez algo que disse tudo que ele falaria em milhões de palavras: Seu rosto ficou extremamente perto do de Annabeth, ele sentia a respiração falha dela e também as pernas dos dois tremerem.
Ele sentiu os lábios dela tão quentes como sempre foram, sentiu a língua quente dela lhe correspondendo de uma forma magistral. Mil vezes melhor que qualquer outra garota (inclusive ela mesma alguns meses atrás). As unhas de gato da loira foram para o seu pescoço e as mãos pesadas dele para sua cintura. Acabaram pressionando-se ainda mais contra o outro, sentindo a água da torneira jorrar um pouco neles.
Annabeth o afastou ofegante com os olhos arregalados, a mão foi à boca.
–Isto é insano.
E foi a única coisa que ela disse antes de subir escada a cima, deixando um Percy tão confuso quanto ela no andar de baixo, com os lábios e os dedos formigando como um pedido de quero mais.
(...)
O clima no colégio estava totalmente diferente. Percy se sentia como no primeiro dia de aula de Annabeth no ano, em que todos conversavam sobre uma garota especial chegando e ninguém sabia quem era.
Agora estava acontecendo exatamente à mesma coisa.
O que Percy não conseguia entender, já que Annabeth estava com ele, não naquele momento, mas havia ido com ele no carro para o colégio.
Ele pegou a bandeja cheia de comida no refeitório, tudo ao seu redor não parecia nenhum pouco saudável. E eu não estou mencionando a comida, as pessoas cochichavam e pareciam estar se preparando para o apocalipse.
Percy se sentou junto com seus amigos, Nico se separou de Megan para falar com Perseu.
–As coisas estão estranhas demais hoje, não é?
–Sim, demais – respondeu Percy.
Luke a sua frente parecia sério, assim como Thalia. Clarisse chegou andando do nada apenas com uma maça na mão, sua expressão era tão séria que Percy sentiu um frio na espinha.
–Percy – chamou ela com a voz tímida, o que fez o moreno ficar ainda mais desconfiado. Sem teatrinho na frente do público?
Ele olhou para o canto do refeitório, onde Annabeth (como sempre) ficava sozinha numa das mesas, com o headphone e seu Ipod na mão. Ela olhava para os lados, com a mesma expressão indiferente de sempre. Não parecia também entender muita coisa.
Depois de ficarem sem se falar desde o beijo, Percy também se surpreenderia caso conseguisse ler sua expressão.
–O que foi? – perguntou ele sem saco para nada.
–Tem um carro com a placa personalizada no estacionamento do colégio.
Percy revirou os olhos.
–E...?
Clarisse abriu a boca para falar. Mas as portas do refeitório falaram por ela: Elas se escancaram com tanta força que fez todos que estavam ali se calarem. De lá, saiu a garota mais estilosa, atraente e assustadora que Percy já havia visto na vida.
Ele provavelmente estava com os olhos semicerrados porque não conseguia parar de pensar. Porque ela falou que conseguia e conseguiu, ele não sabia como, nem por que. Mas Rachel Elizabeth Dare havia voltado para Nova York.
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