O Que Eles Veem Em Você? 2
55 O final.
Notas iniciais
O momento do ano.
A sala era pintada de branco com uma texturização de muito bom gosto. Não era para ser diferente na casa de Zeus Olympus, até porque Hera tinha vários defeitos, mas ninguém poderia negar sua queda à fineza.
No momento do ano Thalia usava um belo vestido longo, de um preto brilhante que reluzia aos olhos. Sentada no sofá branco de couro, que ficava encostado na própria parede texturizada, estava cansada. Seus cabelos no começo da festa estavam perfeitamente alinhados, num coque alto, mas agora voltaram a seu comportamento original: totalmente rebeldes.
Seus pés cansados estavam para o alto com toda a fineza não repassada de Hera. Numa poltrona de couro poucos metros à frente Luke Castellan sorria em sua direção. Apaixonado. Ele abriu a boca para falar exatamente aquilo: o quão apaixonado era por Thalia Grace. Mas exatamente no momento certo a porta gigantesca de uma madeira enegrecida se abriu, Nico Di Ângelo entrou afobado no recinto com sua blusa social branca amarrotada, o terno nas costas. Atrás dele, Megan O’Connel sorria maliciosamente.
Thalia e Luke se entreolharam por milionésimos de segundos.
–O que vocês estavam fazendo? – perguntou Luke, sorrindo maliciosamente ainda pior que Megan.
–Vocês gostam de dar as notícias espetaculares e gigantescas, mas quem tem que lidar com a pressa de vocês somos nós, os melhores amigos – retrucou Nico. Deu um tapa nos pés de Thalia e pegou uma jarra de água que estava também encima da mesinha. Deu um longo gole para saciar sua sede.
Megan se sentou ao lado de sua melhor amiga, tirando ansiosamente seus saltos e suspirando de alivio ao ficar descalça.
–Vocês ligaram para eles? – perguntou Thalia, brincando com seus próprios anéis nos dedos. Megan suspirou.
–Não foi nenhum pouco fácil, quer dizer, nenhum dos dois queria voltar pra vocês sabem... Nova York – ela suspirou de novo, agora ainda mais forte. Luke olhou novamente nos olhos de Thalia, os dois conversavam por telepatia. Era impressionante. Então, o próprio decidiu se manifestar:
–Bem, talvez seja uma boa oportunidade para uma reconciliação. O que importa é que eles aceitaram vir, não seria a mesma coisa sem eles.
Nico brincava com seu telefone de uma forma muito perigosa. Deixava-o cair e depois o pegava no último segundo. Não estava tão em paz quanto seu amigo, até porque quem tinha ouvido poucas e boas ao telefone não era Luke.
–Bem, você sabe como Percy e Annabeth são. As coisas podem sair do controle, e ninguém quer que as coisas saiam do controle, isso já aconteceu demais nas nossas vidas.
Thalia deu um sorriso. Exatamente. As coisas estavam muito dentro do controle, e seria divertido que tudo se resolvesse numa festa. Feita por ela. Ela que sempre arrumou o tumulto. Era uma ideia genial.
E estava cansada da sua família, que parecia perfeita depois de todos os acontecimentos. O que não era verdade, mesmo com seus vinte e cinco anos, Thalia tinha ainda seu senso rebelde em alta.
Olhou novamente para Luke, que tinha os cabelos cortados jogados para trás de uma forma bem sexy, e percebeu que seus olhos azuis a fitavam também. Os dois sorriram sincronizados, era o plano perfeito.
–Nico, acho que a sua convivência com a Megan está te deixando muito metódico – caçoou Luke – Você costumava ser mais espontâneo.
Nico ofegou. Encabulado e revoltado.
–Metódico? Ter um senso mínimo de responsabilidade é ser metódico? Bem, então sou bastante metódico. Sou a pessoa mais metódica que você conhece – ele olhou para Luke e Thalia que agora riam, Megan tinha a mão nos lábios também tentando segurar a risada – Vocês enlouqueceram...
–A vida de socialite tá deixando igualzinho seu pai. Cuidado que daqui a pouco você está assustando as pessoas por aí com sua voz congelante – caçoou Thalia, rindo. Todos agora riam e Nico fez uma risada irônica.
–É sério Nico, você parece até bronzeado agora que está pegando umas ondas nas praias de L.A – Luke apertou sua bochecha. O que fez Nico ficar com o rosto realmente sombrio e todo mundo parou de rir.
Megan usava seu clássico tipo de vestido: rosa e com o corte perfeito. Seus cabelos acobreados soltos e desorganizados. Ela sorria enquanto olhava para Nico.
–Mas nós estamos nos divertindo muito em Los Angeles, não é Nico? – ele cruzou os braços, agora sorrindo maliciosamente. Thalia revirou os olhos.
–Por favor, me diz que vocês não estão tentando ter um filho... Porque seria a maior aberração de todos os tempos.
–Claro que não! – gritou Megan, e depois revirou os olhos – Quer dizer... Ainda não...?
Ela olhou na direção de Nico, que agora tinha uma das mãos na barba enegrecida que cobria boa parte do seu rosto. Acabou dando um sorriso. O que foi uma resposta aberta e bastante inteligente. Megan também sorriu.
–Bem, nós não somos inconsequentes igual vocês – completou Megan – O que fizeram hoje foi de longe a coisa mais irresponsável de todos os tempos. E também a coisa mais cansativa que eu já fiz na minha vida... Hera está passando mal até agora, sabia?
Thalia riu, dando de ombros.
–Mas foi à coisa certa a ser feita – disse Luke, os olhos cansados dos acontecimentos prévios. Nico concordou.
–Vai ser bom ter Percy e Annabeth de volta para tudo isto também. As coisas estão tão incompletas sem eles – disse Megan – Às vezes eu queria voltar no tempo e fazer com que as coisas dessem certo, mas os dois são iguais aos pais, então se dependerem deles...
Todos suspiraram do seu modo. Era realmente um assunto cansativo. Principalmente para Thalia que depois da faculdade nunca mais viu sua amiga novamente. Três anos se passaram. E tudo isto por causa daquela maldita festa.
Mas tudo estava resolvido, não tinha como voltar atrás. E não se arrependia de nada. Ia ser maravilhoso, Thalia tinha certeza.
–Mas eles estão voltando! – exclamou a ex-punk, agora dando risada.
E realmente estavam, e não podiam se esquivar daquela vez. Porque na festa daquela mesma noite já tinha sido anunciado, sem avisos prévios: Thalia Grace e Luke Castellan iriam se casar, e dali a uma semana.
[...]
Ao oeste de Nova York naquele mês ensolarado de maio os aviões internacionais pousavam na mais perfeita ordem no aeroporto da cidade, que estava cheio como o usual, e corriqueiro como não deveria deixar de ser.
Empurrando um carrinho enferrujado cheio de malas gigantescas estava Percy Jackson de volta a sua cidade natal. Respirou novamente aquele ar poluído e se sentiu nostálgico e em casa.
Claro que suas últimas memórias da cidade não foram as melhores. Algumas brigas horrendas e várias coisas importantes perdidas e esfareladas como em pó. Mas mesmo assim ele se sentia bem, e feliz, porque mesmo quando as coisas não saem do jeito que imaginamos, ás vezes existe um caminho paralelo, ainda bom, mas de um jeito diferente, e era este caminho que Percy vivia agora.
Digitava algumas coisas no seu telefone, respondendo a interjeição do seu amigo Nico Di Ângelo “sim, já cheguei. E sim, estou indo para casa”. Enquanto digitava Percy deu uma olhada para o lado, e alguns metros do seu lado estava nada mais nada menos que ela.
–Annabeth?- perguntou, sorrindo. Annabeth, que estava muito ocupada olhando seu próprio telefone olhou para frente. Espantosamente, falou:
–Ei, Percy... ?– disse um pouco receosa. Foi com seu carrinho um pouco mais perto do moreno.
–Sim, é o Percy. Quanto tempo né? Caramba...
–Pois é. Eu saí dos Estados Unidos depois que me formei na faculdade, fui pra Grécia... Loucura né? – Percy riu, balançando a cabeça.
–Que loucura, eu também fui pra Europa... Você está aqui por causa do casamento de Luke e Thalia, não é? Dizem que a família está louca porque eles decidiram se casar do nada... – disse ele. Annabeth riu, cruzando os braços.
–Vou te fazer uma confissão... Estou morrendo de medo porque eu também me casei do nada, e ainda por cima em outro país – a loira levantou a mão, mostrando sua aliança matrimonial no dedo anelar.
Percy admirou o anel, estupefato.
–Não acredito? Eu também! Meu Deus, que loucura! Você acredita que eu decidi me casar com a garota mais metida a sabichona do planeta?
Annabeth riu, agora passando os braços envolta do pescoço de Percy.
–Bem, e eu decidi me casar com o cara mais lerdo de todos os tempos. Quem é a sabichona agora?
Percy lhe roubou um beijo, e os dois sorriram enquanto se beijavam. Provavelmente pensando na mesma coisa.
–Nós estamos de fato ferrados, não é?- sussurrou Percy, dando mais um selinho em Annabeth, ela bagunçou seus longos cabelos negros, rindo. Não parecia tão preocupada quanto ele, mas é claro, não tinha sido ela que havia brigado diretamente– Falei com o Nico que nós indo direto pra casa. Mas o que você acha de mandar as malas pra eles e chegarmos só mais tarde?
Annabeth riu.
–Você está me copiando, sabia? Já fiz isto muito tempo atrás. Mas concordo e... Tem muito tempo que a gente não vai pro nosso lugar. Não seria Nova York se não dermos uma passadinha lá.
Depois de despacharem suas malas e pegarem os táxis amarelos que tanto sentiram saudades os dois subiram as escadas do prédio mais invadido por eles de todos os tempos. Quando chegaram ao topo do World Trade Center se sentiram ainda mais nostálgicos. Mas principalmente se sentiam apaixonados. Apaixonados pela história que tinham juntos, apaixonados um pelo outro.
Annabeth e ele se sentaram na beirada do prédio. Os corações batendo rápido pela rebeldia e por estarem um do lado do outro. Como sempre acontecia com Annabeth mesmo depois de todos os anos.
–É muito bom estar aqui – disse Percy, fechando os olhos. O vento bateu em seu rosto e seu cabelo ficou ainda mais desorganizado do que normalmente era. Annabeth o observava com carinho.
–Você ama este lugar, Percy. É a sua casa – ela apertou sua mão – Nós temos que voltar pra cá. Nem que pra isto nós temos que resolver todas as nossas brigas. E também... Não podemos odiar nossos pais pra sempre.
Percy concordou com a cabeça. Normalmente ele parava Annabeth sempre que ela falava sobre aquilo. Mas daquela vez não tinha volta. Estavam casados, eram uma família. E ele pensava... Pensava em ter filhos. E como seu pai não conheceria seus próprios filhos? Isto não fazia sentido.
–Sabe aquela festa... Que eu sei que você odeia, mas eu passei a amar, sabe aquela que eu chamei a Clarisse pra me ajudar?
Percy concordou com a cabeça, agora olhando na direção de Annabeth.
–Eu sei que você odeia tudo que aconteceu naquela festa, mas com o tempo eu aprendi a amar tudo aquilo. Todas as desgraças. E sabe por quê? – ela tinha os olhos cheios d’água, que infelizmente o vento fazia parecer um choro real – Porque foi naquela festa que eu percebi que tudo em Nova York não fazia sentido sem você, que eu não queria viver a vida que estávamos programados a viver. E mesmo que na marra você também entendeu aquilo naquela festa... E claro... Eu sei que toda aquela farsa com a tal da Rachel fez você e seu pai brigarem, mas mesmo assim valeu a pena porque você foi atrás de mim e desistiu de todo este dinheiro e esta maldita Olympus, e foi o que eu fiz também. Não foi a melhor coisa que a gente fez?
Percy não chorava porque queria ser o macho alfa, mas dentro dele tudo se derretia. Derretia-se por Annabeth. Ele nunca tinha pensado nos fatos daquela forma, mas ela estava certa. Como sempre.
–Foi a melhor coisa que a gente fez – afirmou Percy – Toda esta vida de magnata não combinava mais comigo, e não mais com você. Por que... Porque somos diferentes, e ainda bem que sim.
Ficaram um tempo calados, ouvindo o barulho dos carros, observando as luzes de Nova York. O único lugar que sentiam em paz, mas daquela vez eles entenderam que o topo do World Trade Center não era o que trazia paz, e sim a companhia um do outro.
Percy pensou em tudo que aconteceu nos últimos anos. Alguns iriam achar que tinha enlouquecido, ele e Annabeth. Abdicarem da Olympus e darem o pé de Nova York foi loucura, mas eles sempre quiseram fugir daquela vida, daquele mundo. E quando pensava em tudo que viveu com Annabeth, em todos estes anos longe de Nova York...Ele faria tudo exatamente igual, até os piores erros.
Principalmente os piores erros, porque foram eles que o fizeram entender o quanto amava Annabeth. E agora a amava muito mais por ela ter perdoado todos eles. Os dois se sentiam completos, se sentiam da melhor forma do mundo porque estavam felizes pelo amor. E era isto que ele iria fazer seu pai entender.
Percy apertou a mão de Annabeth com força.
–Vamos? – perguntou.
Annabeth apertou sua mão de volta, e sorriu na mesma hora que Percy sorriu. Os dois estavam cheios de alegria, porque estavam no melhor lugar do mundo e finalmente amando com toda a certeza que voltariam pra aquele mesmo lugar ao decorrer das suas vidas, até morrerem.
–Vamos.
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