O Que A Chuva Nos Deixou

1 A Casa No Fim Da Estrada



Chove desde que cheguei.


O som da água batendo no telhado do bangalô é quase uma canção antiga, dessas que a gente não ouve há muito tempo, mas cuja melodia permanece grudada na pele.


Faz dez anos que venho para cá durante esse mesmo período, como se meu calendário emocional estivesse preso à estação das chuvas. Sempre sozinha. Sempre em silêncio.


A casa no fim da estrada continua como a deixei no ano anterior — com seus cheiros familiares de madeira molhada, tinta antiga e lembranças guardadas nas frestas das janelas. Ainda me lembro do verão em que viemos todos juntos pela última vez. Antes de tudo. Antes de Leon.


Subo as escadas e passo a mão sobre o corrimão, como se cumprimentasse um velho amigo. Cada cômodo me observa. O quadro inacabado ainda está lá, escondido no sótão, coberto por um lençol que nunca tive coragem de tirar.


Este ano, algo parece diferente. Não sei dizer o quê. Talvez seja o peso do tempo. Ou talvez... seja o fato de eu finalmente ter trazido meus pincéis.


Empilho as malas no canto da sala. Trago sempre as mesmas coisas: roupas velhas, um caderno de esboços, pincéis, tintas, um livro que nunca termino, e uma caixa de madeira com as cartas que nunca enviei.


A lareira está fria, mas eu a acendo com facilidade. Ainda sei os truques da casa, como se ela fosse uma extensão do meu corpo. Sento na poltrona preferida de minha mãe, aquela com um rasgo discreto na lateral, onde costumávamos esconder bombons. Ela não volta aqui desde o divórcio.


Nem Elina. Minha irmã prefere o verão e os filhos barulhentos correndo pela varanda. Eu prefiro o inverno e o vazio ecoando nas paredes.


Deito no tapete da sala e olho para o teto, como fazia quando era adolescente. O som da chuva me embala. Fecho os olhos e, por um instante, quase consigo ouvir a voz de Leon. A forma como ele dizia meu nome. A forma como prometeu que esse lugar seria nosso para sempre.


Mas nem sempre dura.


Quando abro os olhos, percebo que a luz da varanda está acesa. Não me lembro de tê-la ligado. Me levanto devagar, vou até a porta e vejo, do outro lado da cerca, a silhueta de uma casa que não estava ali no ano passado.


Uma nova construção. Um novo vizinho.


A chuva engrossa. Volto para dentro. Ainda não quero pensar em mudanças. Amanhã, talvez, eu descubra quem é ele. Por agora, só quero ouvir a chuva.


Porque, apesar de tudo, ela ainda me entende.