- Olha para baixo, serve o almoço e, depois vai-te embora. Não fiques mais tempo do que o necessário no camarote presidencial. Não converses com o príncipe e, sobretudo, não tentes seduzi-lo. O príncipe Luan tem muito má reputação com as mulheres e…Joyana, estás a ouvir-me?

Ela assentiu.

- Sim – conseguiu dizer. – Estou a ouvir-te, Anna.

- O que disse?

- Disseste… — com o cérebro cansado devido à angústia e à falta de sono, Joyana não recordava uma só palavra, — disseste-me que… Não sei, lamento muito.

- Pode saber-se o que se passa? Normalmente, és séria e diligente, foi por isso que te escolhi para este trabalho.

Séria e diligente.

Mais dois defeitos para acrescentar à lista de razões pelas quais Hélio a deixara.

- Não devia ter de te recordar que hoje é um dia muito importante para mim. Atender um membro de uma casa real no estádio Twickenham é algo que não fazemos todos os dias. E o Torneio das Seis Nações! O campeonato de râguebi mais importante do mundo. Se o fizermos bem, choverão contratos e mais trabalho para ti. Mas tens de te concentrar, tens de o fazer bem.

Uma empregada de mesa alta e magra aproximou-se com uma bandeja cheia de copos vazios.

- Deixa-a em paz. O namorado acabou com ela ontem à noite e é um milagre que tenha conseguido vir trabalhar. Eu não me teria levantado da cama.

- O teu namorado acabou contigo? – perguntou Anna. – Isso é verdade, Joyana? Porque te deixou?

Porque era séria e diligente. Porque o seu cabelo tinha a cor de um amanhecer e não o de um girassol. Porque era dissimulada e inibida. Porque o seu rabo era demasiado grande…

Pensando na lista de razões, Joyana sentiu uma onda de desespero.

- Hélio conseguiu o lugar de director de marketing e eu já não sou boa para a sua nova imagem.

No momento não chorara e sentia-se muito orgulhosa de si própria. Orgulhosa e um pouco surpreendida. Porque não chorara? Ela amava Hélio. Tinham planeado um futuro juntos…

- A partir de agora tem de receber clientes e jornalistas e…Enfim, agora tem um Porsche e precisa de uma mulher que fique bem com tudo isso – Joyana encolheu os ombros para lhe tirar importância – Eu sou um utilitário.

- Tu és demasiado boa para ele, isso é o que se passa – Rute, uma empregada de mesa, fez um gesto com a mão e os copos de bandeja começaram a tremer. – É um cab…

- Rute! – Interrompeu-a Anna. – Por favor, recorda que tu és o rosto da empresa.

- Será melhor pagares-me umas injecções de botox para quando me aparecerem rugas por ter de atender esses idiotas. O ex-namorado de Joyana e a loira que trouxe estão a beber champanhe como se ele se tivesse tornado director de marketing de uma das cem empresas mais importantes do país e não de uma empresa que vende comida para animais.

- Está com ele? – perguntou Joyana. – Então eu não posso ir lá. O camarote do Hélio fica ao lado do camarote presidencial e não quero que todos os seus colegas olhem para mim com cara de pena… Nem quero vê-lo com essa mulher! Não, recuso-me.

- O que tens de fazer é procurar outro namorado o mais depressa possível. O bom dos idiotas é que há milhares deles – Rute pôs a bandeja nas mãos da sua chefe e segurou Joyana pelo braço. – Respira fundo. Olha, isto é o que vamos fazer: vais entrar no camarote calmamente e vais beijar aquele príncipe. Se tiveres de te apaixonar por algum idiota, pelo menos que seja rico. Além disso, a julgar pelo que dizem, o príncipe beija maravilhosamente. Vá lá, vamos. Um beijo com língua… Isso deixaria o Hélio paralisado.

- O príncipe também ficaria paralisado – rindo-se apesar da sua tristeza, Joyana afastou-se. – Não, esquece, uma rejeição por semana é mais do que suficiente. Se não sou loira nem suficientemente magra para o director de marketing da Pet Palace, não acho que um príncipe repare em mim.

- Porquê? – Rute piscou-lhe o olho. – Desabotoa alguns botões, entra lá e começa a seduzi-lo. Eu fá-lo-ia.

- Felizmente, a Joyana não é como tu – Anna suspirou. – E não vai desabotoar nenhum botão! Além disso, não vos pago para seduzirem os clientes, o comportamento do príncipe Luan começa a ser escandaloso e recebi instruções rígidas do palácio: nada de empregadas de mesa bonitas. Ninguém pode distraí-lo. Especialmente as loiras. Foi por isso que te escolhi, Joyana. Morena e com algumas sardas, perfeita.

Ela franziu o sobrolho, tocando nos lisos cabelos submetidos por centenas de ganchos. Perfeita? Perfeita para passar despercebida, claro.

- Anna, não consigo fazê-lo. Hoje não, impossível. São todos bonitos, ricos e com sucesso – tudo o que ela não era. – Olha, vou levar isto para a cozinha – ela suspirou, pegando na bandeja. – Rute pode atendê-los. Eu não conseguiria suportar que olhassem para mim como se…

Não fosse ninguém.

- Se fizeres o teu trabalho como deves fazê-lo, não olharão para ti – Anna tirou-lhe a bandeja com tal violência, que os copos estiveram prestes a cair ao chão. – Tu levarás a bandeja para a cozinha, Rute. E tu, Joyana, se queres conservar o teu emprego, farás o que te disse. E nada de tolices. Além disso, não acho que te interesse chamar a atenção do príncipe. Um homem da sua posição só estaria interessado numa rapariga como tu por uma razão e… — nesse momento, Anna viu outra das empregadas de mesa a esticar o pescoço para admirar os jogadores de râguebi que treinavam no campo. – Estás aqui para trabalhar, não olhar para as pernas dos jogadores!

A sua chefe desapareceu para repreender a jovem, deixando-as a sós por um momento.

- Claro que estamos aqui para olhar para as pernas dos jogadores – murmurou Rute. – Porque é que essa parva pensa que aceitámos o trabalho? Eu não sei nada sobre golos, mas esses rapazes são fantásticos. Ou seja, há homens e homens. E estes são homens, não sei se me entendes…

Joyana nem entendia nem estava a ouvir.

- A surpresa não é que o Hélio me tenha deixado, mas que tenha saído comigo.

- Não digas isso. Não deixes que esse imbecil faça com que te sintas mal! – protestou Rute. – E, por favor, não me digas que passaste a noite a chorar por ele.

- O curioso é que não. Não derramei uma única lágrima. Se calhar estou tao mal que nem sequer consigo chorar.

- Comeste chocolate?

- Sim, claro. Bom, biscoitos de chocolate. Isso conta?

- Depende de quantos tenhas comido. São precisos muitos biscoitos para conseguires o aumento necessário de chocolate.

- Comi dois.

- Dois chocolates?

Joyana corou.

- Dois pacotes. E depois odiei-me por isso. Mas, nesse momento, precisava.

- É normal.

- O Hélio levou-me a jantar num restaurante para acabar o namoro. Suponho que o fez para evitar que começasse a chorar. Mas soube que se passava alguma coisa quando pediu aperitivos…Ele nunca pedia aperitivos.

- Oh, que típico – Rute suspirou. – Na noite em que acaba contigo convida-te finalmente para comeres alguma coisa decente.

- Os aperitivos eram para ele, não para mim – Joyana abanou a cabeça. – De qualquer forma, eu não consigo comer à frente do Hélio.

- O quê?

- Olha-me de uma maneira… Não sei, faz-me sentir como se não soubesse mastigar. Disse-me que tínhamos acabado entre o peixe grelhado e a sobremesa. Depois, deixou-me em casa e eu esperei que chegassem as lágrimas, mas não chegaram. Não conseguia chorar.

- Não me surpreende. Certamente, tinhas demasiada fome para teres energia – replicou Rute, brincalhona. – Mas o facto de teres biscoitos de chocolate é bom sinal.

- Diz isso à minha saia. Porque é que a Anna insiste que usemos umas roupas tão justas? – suspirando, Joyana passou uma mão pela saia preta. – É como se usasse um espartilho. É demasiado curta.

- Estás muito sexy, não te preocupes. E comer chocolate é a primeira fase no processo de cura. O próximo é vender a aliança.

- Ia devolver-lha.

- Devolver-lha? Tu estás louca? – os copos vazios voltaram a tremer. – Vende-a. E compra uns sapatos muito caros. Assim terás uma lembrança dele. E da próxima vez, escolhe sexo sem emoção.

Joyana sorriu, demasiado envergonhada para confessar que, na verdade, nunca fora para a cama com Hélio. Esse, é claro, fora um dos problemas da sua relação. Ele acusava-a de ser uma dissimulada.

Seria mais desinibida se o seu rabo fosse mais pequeno?

Provavelmente, mas nunca o descobriria. Estava sempre a jurar que ia começar a fazer dieta, mas não comer deixava de mau humor.

E era por isso que o uniforme ficava demasiado justo.

A esse passo, morreria virgem.

Deprimida, Joyana olhou em direcção ao camarote presidencial.

- A sério, não consigo fazê-lo.

- Vale a pena para ver o príncipe perverso em carne e osso.

- Nem sempre foi perverso. Uma vez esteve muito apaixonado por uma modelo italiana – explicou Joyana, momentaneamente distraída dos seus problemas. – Eram um casal de cinema, mas, há oito anos, ela morreu juntamente com o seu irmão durante uma avalanche. Foi muito triste. O príncipe perdeu a pessoa que amava e não me surpreende que depois disso se tenha tornado um pouco… Enfim, desenfreado. Certamente, precisará que alguém o ame a sério.

Rute sorriu.

- Então podes amá-lo. E não te esqueças do meu provérbio preferido.

- Qual?

- Quem anda à chuva…

- Molha-se – acabou Joyana por ela.

Notas finais
Até ao cap. 3 já tenho escrito, mas só posto quando alguém comentar a fic.
Beijinhos, Jessy.