O Protegido
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Era a quinta ou sexta vez que o rangido da cama acordava Heitor, que mal conseguira dormir a semana toda. O sol ainda não havia aparecido, mas ele já não aguentava ficar um só minuto a mais na cama mesmo estando tão cansado e, por mais que não se importasse de ficar em albergues, talvez até preferisse, chegou à conclusão que já era hora de voltar para a estrada.
Enquanto o sol ia timidamente aparecendo o jovem já atravessava o centro da cidade. Ele não sabia ao certo onde estava, era provavelmente alguma cidade história de Minas Gerais e sempre algo o fazia pensar que voltara no tempo ali, ou eram as casas a moda antiga, algumas brancas e amarelas, outras verdes, ele gostava principalmente das brancas e amarelas, mas também fosse pelo chão de paralelepípedo em certas ruas.
Heitor não sabia há quanto tempo já estava andando, só conseguia pensar em quanto os sonhos que estava tendo nas ultimas semanas eram intimidadores. Desde que havia saído da casa do pai com uma mochila nas costas e pedindo carona ele só queria ir para longe, sem um rumo certo, contudo seus planos haviam mudado depois que esteve em São Paulo.
Não há mais como fugir, meu querido... Repetia em sua cabeça o que a mulher havia dito há menos de dois meses atrás. Estava em alguma cidade do interior de SP, a primeira em que ele havia parado mais que dois dias. Precisava conseguir um emprego antes que ficasse completamente sem dinheiro, então começou a trabalhar em um dos restaurantes do centro da cidade. Já havia ficado tempo demais ali quando decidiu partir novamente. Na ultima noite que trabalhava no restaurante havia tanto movimento que só nas primeiras duas horas, Heitor já havia conseguido mais do que duas noites de trabalho em gorjetas.
Faltando menos de uma hora para fechar o restaurante foi quando ela apareceu. Tinha os cabelos escuros e usava um vestido branco simples, entretanto o que mais chamava atenção eram seus olhos cinza extremamente severos. A mulher o lembrava ao pai de Heitor. Intimidadora.
Ela sentou-se a mesa mais próxima da porta, o garoto se aproximou e lhe entregou o cardápio.
– Gostaria de algo para beber por enquanto senhora? – Ela lançou os olhos para cima de Heitor e o avaliou por alguns segundos.
– Somente água, por favor.
Ele logo levou a água e antes de perguntar o que mais ela gostaria, ela o antecipou.
– Não vou querer mais nada por enquanto – Ele assentiu e já estava se afastando quando ela o deteve – Qual o seu nome, garoto?
Heitor franziu o a testa, olhou em volta para o restaurante ainda lotado e se voltou novamente para a mulher.
– Heitor – ele sorriu um tanto nervoso. Ela era definitivamente intimidadora.
– Curioso, venho ouvido falar de você a um bom tempo de definitivamente você não é nada do que eu esperava para o filho de Dário Diniz – Ela tinha um sotaque americano forte que o irritava.
Heitor congelou. Quem era aquela mulher?
– Como sabe quem é meu pai? Como sabia onde me encontrar? – disse ele alterando o tom de voz. A mulher riu com desdém, mas logo recobrou sua seriedade.
– Sei de muitas coisas, meu querido. Por favor, não altere o seu tom, discussões são feitas de argumentos e não de gritos. – Ela mexeu a cabeça em direção à cadeira.
Mesmo relutante ele sentou-se a mesa. A mulher tomou um gole da água que Heitor trouxera e voltou a olha-lo como se o fuzilasse com os olhos.
– Ele te mandou até aqui? – perguntou ainda confuso.
– Não seja tolo, ele não se importa com você – disse a mulher com tanta indiferença, que por mais que Heitor soubesse daquilo, ainda o machucava ouvir isso dessa maneira – Estou aqui pela sua mãe. Pagando uns favores...
– Não faço a menor ideia de quem seja minha mãe. Quem é você e como me achou?
– Isso eu já sei, querido, e ela prefere assim por isso estou aqui. Quem eu sou não importa agora e como te achei não faria o menor sentido para você. – Aquilo era realmente estranho para o garoto, ele queria poder sair dali pegar sua mochila e voltar para a estrada o mais rápido possível, mas algo no que ela dizia prendeu-o ali – Isso tudo não importa; o que importa é que sua mãe me pediu que o fizesse ir até Nova York.
–Acabou de dizer que ela prefere não me conhecer.
–Ah, ela não vai. Você, não sei como, tem passado tempo demais sem ser atacado... – ele ia dizer algo mais, contudo se deteve – Bom que seja, está correndo perigo e ela não quer que você morra por causa de seu sangue.
–A senhora está maluca ou algo do tipo? – questionou Heitor já saindo da mesa.
Por causa de seu sangue.
A desconhecida o puxou pelo pulso, todo corpo de Heitor estremeceu com o toque e então algo aconteceu. Sua visão se tornou sombras até que imagens invadiram em sua mente. Dor, sangue, jovens empunhando espadas, mortes, um dragão e monstros. Nada fazia sentido, Heitor parecia estar dentro de algum filme mitológico completamente sem sentido, isso deixava desesperado e assim como começou a visão se encerrou.
– O que... – sussurrou assustado para aqueles olhos cinza que o fuzilavam novamente.
– Não há mais como fugir, meu querido. Você pode fugir do idiota do seu pai, mas não pode fugir do seu destino.
–Por que acha que eu estou fugindo de algo?- gritou, mas ninguém no restaurante pareceu nota-lo — Você não passa de uma maluca que de alguma forma conhecia meu pai, mas não faço a menor ideia de quem seja e quero que vá embora.
Mesmo com a explosão do jovem, ela se manteve indiferente. Era ríspida e cruel, era como o pai de Heitor e talvez fosse por isso que ele havia se exaltado com a mulher. Por mais que estivesse de fato fugindo não se permitia admitir isso, não ia dar a vitória para Dário e definitivamente não iria deixar aquela mulher vencê-lo.
–Já parou para pensar como sempre estamos contando mentiras a nós mesmos? A verdade é uma coisa que nos assusta demais – ela riu – você pode fingir o quanto quiser, mas sabe que tenho razão, eu sempre tenho razão. Você pode ignorar, só que de agora em diante fugir vai ser quase impossível.
Ele fitava o chão com os punhos cerrados.
– Já fiz o que me foi pedido aqui – ela levantou e se dirigiu a porta – Quando voltar a si e recuperar sua sanidade vou estar em Nova York te esperando. Saberei onde você estará de qualquer modo.
Heitor se virou para a mulher, porém ela já não estava mais lá.
Dor, sangue, jovens empunhando espadas, mortes, um dragão e monstros.
Saiu do restaurante assim que o mesmo fechou, decidiu que essa não era uma boa noite para descansar então após pegar suas coisas na única hospedaria com preço acessível na cidade, Heitor pegou sua mochila e voltou para a estrada novamente.
Já havia passado por mais duas cidades do interior em uma semana, sempre fazendo bicos para juntar dinheiro, e logo foi parar em São Paulo (capital), quando tudo começou a dar errado.
Havia se despedido de Carlos, um caminhoneiro que havia lhe dado carona desde a segunda cidade que Heitor passara, eram cerca de onze horas da noite, a cidade ainda estava muito movimentada e logo achou um albergue próximo da entrada da cidade. Assim que chegou a balconista havia dito que um restaurante ali perto precisava de lavadores de pratos, o salário era baixo, mas o suficiente para ele.
O restaurante ficava em um shopping ao lado da Marginal Tietê que ele havia encontrado com facilidade. Fazia frio para uma noite de dezembro e apesar de não estar chovendo, era praticamente impossível se ver o céu por causa da poluição, desvantagens das grandes cidades, pensou. Atravessava o estacionamento com os braços cruzados, havia se esquecido de pegar qualquer roupa mais quente, afinal era verão e ele estava acostumado com temperaturas mais baixas tendo vivido a maior parte de sua vida no sul do país, mas nesse momento ele se arrependia dessa decisão.
O estacionamento estava mal iluminado, algumas luzes dos postes estavam queimadas, Heitor reparou em algo se mexendo por entre os carros, mas com certeza havia se enganado. Desde o encontro com a mulher no restaurante ele estava paranoico, como se algo o perseguisse, mas claro, nunca havia nada. Continuou andando e instintivamente apertava o passo para chegar logo até a porta do shopping até que ouviu um barulho. Olhou por todos os lados do estacionamento, não havia nada que seus olhos conseguissem enxergar, mas seus ouvidos tinham outra impressão. Um urro aparentemente de dor ecoou pelo local, um grito estridente, grave e ao mesmo tempo agudo, e uma sombra escura surgiu dos céus à sua frente. A criatura era gigante e emitia também um sibilo que aterrorizou Heitor; os olhos amarelos exaltavam na escuridão tornando o que quer que estivesse a sua frente ainda mais demoníaco. Ele correu em direção à fileira de carros esperando que a criatura o seguisse percebendo seu desespero, mas ela continuou olhando para onde segundos atrás estivera Heitor. Correu até perceber que não havia ninguém o perseguindo e então voltou seu olhar para a criatura, que agora estava acompanhada de outros dois seres exatamente iguais ao primeiro. Além dos olhos amarelos que emanavam ódio, Heitor conseguiu distinguir os três humanoides a menos de 5 metros de distância. Cada um continha um par de asas de morcegos tão grandes que Heitor calculou ser três vezes seu tamanho, além das estranhas asas, as criaturas tinham um corpo aparentemente feminino e longas garras nas mãos.
– Cheiro de semideussss – sibilou um dos seres.
– O garoto deve esssstar por perto – disse o segundo.
– Se nós não acharmos o filho de Dário, Hades vai nos mandar para o tártaro por milênios – sibilou o maior deles avançando para cima dos outros dois – Calem a boca e procurem-no, fúrias!
As criaturas caminharam pelo estacionamento levantando carros com uma das mãos e acionando diversos alarmes. O estacionamento era só caos e desespero. Desespero de Heitor. Desde que saiu de casa o que mais o atormentava era a conversa sobre o pai com a mulher do restaurante e agora tinham fúrias, que não deveriam ao menos existir, procurando o filho de Dário.
Procurando por ele.
O garoto correu até o albergue sem ser notado pelas criaturas, o que era um tanto curioso, contudo ele preferiu não pensar nisso. Pegou sua mochila e saiu pela estrada novamente.
...
Vinha desde São Paulo tentando esquecer o que havia acontecido aquele dia, entretanto, mesmo não tivesse encontrado nada de suspeito depois daquilo, seus sonhos o atormentavam tanto quanto mulheres demoníacas com asas. Neles, ele especialmente revivia a conversa com a mulher de olhos cinza, mas também via um homem de meia idade tão alto que ele precisava levantar a cabeça para olha-lo, ele o chamava, dizia que Heitor teria que ir até ele.
– Você corre perigo – dizia o homem. Ele tinha uma barba mal feita e o cabelo caindo nos olhos. Havia também rugas entorno dos olhos que o faziam parecer cansado – Venha até mim semideus.
Semideus. Essa palavra não saia da cabeça de Heitor, talvez ele estivesse apenas alucinando, talvez tivesse a mesma doença do pai e isso o assustava ainda mais. Seus sonhos também continham fleches de cenas de lutas de garotos contra um exército de monstros. Havia mortes, e uma profecia.
Sete meio-sangues responderão ao chamado...
E o que mais o intrigava: havia Nova York em seus sonhos.
Heitor estava sem saída. Tinha muitas perguntas, nenhuma resposta e ninguém que pudesse respondê-las, mas havia uma mulher. Ele vinha pensando fazia semanas em ir atrás dela mesmo não sabendo como, porém só decidiu finalmente pegar um avião em busca do incerto na ultima semana, quando seus sonhos pioraram.
Um caminhão preto estacionou no acostamento da rodovia, o jovem nem havia reparado que já estava andando o dia todo e o sol começava a se por no horizonte.
– Está indo para onde garoto? – o caminhoneiro perguntou. Ele era um homem magro, ruivo, que tinha um cavanhaque cheio e bem cuidado.
–Preciso ir para o aeroporto de Belo Horizonte.
Foi o que disse o garoto subindo no caminhão, certo de sua escolha.
Os sonhos haviam piorado, no final, ele agora morria.
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