O Profeta

1 O Menino da Profecia


Um jovem encapuzado andava nas ruas de Duque de Caxias, estado do Rio de Janeiro, em plena manhã de verão. Mesmo que o clima ameaçasse mudar de ensolarado para uma tempestade, o calor era insuportável debaixo do casaco. Mas ele tinha que suportar. A missão dele era não ser reconhecido afinal. Bizarro, mas ele não queria ser reconhecido pela própria mãe no futuro. Pois naquele dia, primeiro de novembro de 1996 EC, ele ainda não existia.

Conferiu novamente o relógio para ver se aquele era o tempo certo. Curioso que o mesmo não sabia qual dia era o correto para estar ali, mas presumiu que estava em boa data.

O homem de apenas vinte e cinco anos, mas cara de doze, avançava discretamente nas sombras, evitando atrair olhares de curiosos que às vezes se cruzavam com as vestimentas estranhas para aquela época do ano. Ainda assim, ele passou despercebido pela maioria, que simplesmente passou e foi em direção a seus afazeres. Mesmo estando longe de seu presente, o menino-homem sentia que as pessoas estavam apressadas. Assim como no seu tempo. Engraçado que essa tendência começou antes ainda, mas ele esperava que as pessoas fossem mais calmas. Decepcionou-se. A única grande diferença era que as pessoas se alimentavam melhor, já que não passavam a escassez e problemas que tinha em 2022. E, claro, a ausência da high-tech. Agradecia por não ver ninguém mexendo em um smartphone.

Distraído em comparar as instâncias, nem percebeu que estava tão próximo de seu destino até se chocar com o próprio alvo. Um homem de trinta e três anos de idade, um pouco barrigudo e parecido com o menino de capuz e casaco preto carregava duas sacolas de compras até derrubar tudo no chão por causa do avoado que não olhava por onde andava!

- Me desculpe! — Pediu o jovem disfarçando a voz, abaixando-se para pegar o que derrubou.

O homem mais velho ficou atordoado e sem palavras por alguns segundos, só olhando e, ao pegar as bolsas de papel, disse com uma voz controlada, porém meio surpresa e confusa:

- Eu que me desculpo! É raro achar meninos educados como você! Está de parabéns.

O jovem engoliu uma frase clichê e encarou o chão da rua.

- Eu estava te procurando, senhor... Podemos conversar por um momento?

O "senhor" já ficou mais alarmado e apreensivo.

- Como assim me procurando? Quem é você? Nos conhecemos antes?

O garoto segurou uma risada.

"Isso é uma piada de mau gosto?", pensou antes de responder.

- Não nos conhecemos antes, mas podemos nos conhecer no futuro.

O senhor ficou mais confuso, desenhando em seu rosto total dúvida. O encapuzado não se divertiu com aquilo, mas também não parou para explicar direito.

- Se puder conversar comigo, ficaria agradecido. Tenho um assunto muito importante para discutir com você.

A expressão do interlocutor era ilegível. Ele hesitou em responder.

- Desculpe, mas estou ocupado agora. Não tenho tempo para brincadeiras.

Virou as costas e seguiu um caminho diferente para subir o prédio onde morava. Depois do homem andar um pouco, o menino não aguentou e declarou:

- Eu sou um profeta. Fui enviado por Deus para te prevenir de eventos fatais que podem acontecer com você se desobedecer.

A mentira chamou a atenção do alvo, que se voltou para a pessoa toda anônima.

- Qual é o seu nome, garoto?

Inventou um qualquer.

- Hmmm... Como posso saber que está falando a verdade?

O menino suspirou, e após hesitar um pouco, descreveu o cotidiano dele e da família dele. Descreveu o problema da filha dele e seu desejo de ter uma outra filha para cuidar dela. Também contou coisas que ele nem sabia sobre a esposa e criança. Obviamente que o dono de casa ficou espantado.

- Certo... Mas...

O homem estava pensativo. Assim como o garoto imaginara antes de partir, o senhor ali era mais esperto do que aparentava.

- ... Ou você é um viajante no tempo, ou estava nos espionando... Ou é mesmo um profeta de Deus! — E começou a rir à toa. — Venha comigo. Vamos subir.

O jovem mordiscou o lábio sem o outro perceber.

- Como você pode confiar em alguém assim? E se eu for realmente um espião?

- Um espião não saberia tantos detalhes, certo? — Estava tão tranquilo e sorridente que o misterioso teve calafrios.

"Será que 'eu' estive aqui antes de mim? Não, não acho que ele esteja atuando, mas... Como pode ter tanta confiança?"

O menino estava perdido em suas dúvidas. A mente dele estava prestes a explodir com tantas dúvidas.

- Vamos, o que está esperando? Venha aqui! — O mais velho chamou, já que estava entrando no prédio.

O jovem foi atrás correndo. Meio atrapalhado, mas conseguiu alcançar o mais velho, que saiu na frente.

Eles subiram até o terceiro andar. Andaram pelo corredor, e em menos de dois minutos estavam no apartamento. Estava vazio. O mais jovem perguntou pelas mulheres, e o outro balbuciou algo sofrido como hospital. Logo o menino entendeu que se tratava da menina. Depois disso ambos sentaram-se um de frente para o outro. Uma mesa os separava.

- Certo, o que tem para me dizer? — O mais velho perguntou seriamente.

O viajante respirou fundo e piscou algumas vezes antes de encará-lo diretamente. Suava frio. Tremeu e tremeu. Silêncio. Engoliu em seco.

- E-eu sei que você quer ter uma filha para cuidar da que você tem, já que ela tem... Problemas mentais... E várias complicações de saúde... Mas... EU TE PEÇO! — Respirou fundo novamente. — Por favor, NÃO TENHA ESSE NOVO FILHO!

Aquele foi o pedido mais difícil da vida dele. Perguntava-se se isso era o bastante para ativar o Paradoxo do Avô. Mas o objetivo dele obviamente era outro...

Silêncio. O clima ficou denso. O menino sentia como se o fardo que estivera carregando até aquele momento estivesse ficando mais e mais pesado. Enquanto que os pensamentos do outro eram impossíveis de se descobrir apenas pelo seu comportamento. O menino sentia como se tudo aquilo fosse uma ilusão provocada pela sua mente. Era muito surreal estar diante DAQUELE homem. O mesmo que respondeu:

- Mesmo que sejam ordens de Deus, eu vou desobedecer.

E sorriu. Sorriu. Sorriu! O mundo não podia acreditar, mas ele sorriu!

Furioso, o garoto bateu na mesa. Algumas palavras sem sentido saíram de sua boca até que ele percebesse isso e parasse para se recuperar.

- Olha aqui... O seu filho caçula vai ser um homem. E ele trará o fim da humanidade. Ele vai inventar uma máquina do tempo e...

- E isso não é incrível?! Por que eu deixaria de ter esse filho então?

- Acho que você não ouviu direito a parte de ele acabar com a humanidade...

O homem riu muito.

- Eu sei que isso não é verdade... Dá para ver claramente nas suas palavras. Você só quer evitar que ele nasça, certo?

O menino ficou sem palavras.

- Acertei? Haha! Sou demais...

- Eu não vou tentar nem negar...

O pior é que ele estava certo. Mas nem deu atenção ao sibilo.

- Vejamos... Acho que até já sei um nome perfeito para o meu filho... Obrigado por me ajudar a decidir!

- O-o quê?! — Agora quem estava confuso era o jovem.

- Mateus, o Talento de Deus! Ele é o filho da profecia que vai mudar o mundo! Não posso deixar de colocar um nome menos inspirador do que esse!

Agora a expressão do homem era legível. Inacreditável alegria. O menino se perguntava o porquê. Aquilo só daria tragédia. Ele não viajou tudo aquilo à toa.

- E vai acontecer mais algo. Você vai morrer daqui a quatro anos. De câncer.

O semblante rapidamente mudou. Finalmente o esperado pelo jovem ocorreu. O mais velho estava perplexo. A voz séria voltou.

- Isso é mesmo verdade?

- Sim.

Silêncio.

- Mas você não estaria aqui se isso não fosse verdade, certo?

- Sim.

- Você quer apenas me alertar de um perigo, certo?

- Sim.

- E você não é um profeta, certo?

- Sim.

Já estava quase desabando. O homem tirava as amarras do anonimato e desatava as amarras do passado, presente e futuro enquanto revelava:

- Me desculpe por tudo o que te fiz passar, Mateus, mas eu vou fingir que isso aqui nunca aconteceu.

Desabou. Mateus desabou em lágrimas e abraçou o pai.

O tempo foi curto para eles, porém. O relógio de Mateus tocou. Era hora de partir para o futuro.

- Você sabe bem o porquê disso? — O pai perguntou.

- Claro. Você me ama.

E essas palavras foram o seu alento final em 1996.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!