A História das Lendas e das Rupturas não era uma boa aula para Iberê, era chata e sem nenhum movimento. Era apenas o Sete Flechas os forçando a ler livros e livros, lendo textos e textos. O vento úmido batia sobre a floresta naquela tarde. O céu estava nublado, anunciando chuvas, o tribal imaginava. Conhecia mais a mata do que a si mesmo. Ele se sentia especialmente mal naquela aula. Talvez pelo fato de seu fiel amigo Cisa não estar ali, ou talvez porque aquela aula, repleta de Irus curiosos, falava demais dele.

— E quem pode ler o trecho da carta de 30 de maio do Padre José Anchieta? — a voz esganiçada e velha do caboclo preencheu o ar.

O velho já não era tão firme quanto nos velhos tempos... pensou Iberê, sorrindo levemente, se lembrando da juventude do homem a poucos metros de distância. Embora ele jamais fosse admitir, ele realmente admirava aquele homem, afinal ele foi forte por muito tempo. E até hoje era saudado pela sua fé.

Entretanto, a oca ainda estava silenciosa, apenas com os sons de folhas secas que eram levadas pelo vento raspando o chão de terra.

— Vão forçar um tuibae como eu ler?! — dessa vez sua voz foi mais firme. — Certo... já que não me dão escolhas... Paula! Leia o trecho.

A Iru do clã Yvy suspirou, claramente se achando perseguida pelo caboclo a sua frente. Já era a terceira vez que ela lia algo em voz alta. Paula se levantou da cadeira frágil de madeira e começou a ler em voz alta e firme:

— "É coisa sabida e pela boca de todos corre que há certos demônios que os brasis chamam de Curupira, que acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhe de açoites, machucam-nos e matam-nos. São testemunhas disto os nossos irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles. Por isso, costumam os índios deixar em certo caminho, que por ásperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha, quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras coisas semelhantes, como uma espécie de oblação, rogando fervorosamente aos Curupiras que não lhes façam mal".

Assim que a mulher terminou e se sentou, Sete Flechas voltou a falar.

— Esse, dizem os homens com o papel, é o primeiro do que chamam de "relato" de entidades para os homens brancos.

O mais velho ergueu a cabeça adornada com o cocar, encarando a classe.

— Não é só mais uma história. Os Curupiras são brutos. Só se entrava na floresta com permissão do curupira da região. Eosque ousava entrar era morto.

Ele deixou o impacto ecoar, e então continuou:

— Essa era a regra antigamente. Mas, com a chegada dos Caraíba, os que mandavam enfraqueceram. A fé enfraqueceu... e esses teto se ergueu.

Iberê se mexeu ligeiramente em sua própria cadeira, meio desconfortável, pronto para ser citado pelo professor, afinal, ele era um Curupira.

Mesmo que algo sobre isso o incomodasse nos últimos meses, desde que ele encontrou o primeiro corpo.

Mas um grito estridente ecoou sobre a oca, fazendo o fogo de Iberê se esfriar, os pelos do corpo se arrepiaram e o medo percorrer sua espinha. Não era uma pessoa, ele sabia, era o grito de uma rasga-mortalha. Matinta Pereira, para os íntimos.

O som viajou pelo céu, se tornando distante, sobrevoando a área da Yacy-Tata, agora virando um eco surdo e aterrorizante.

Sete Flechas se mexeu rapidamente, seu corpo se ergueu tão rápido e seu rosto já duro se enrijeceu mais, focando na saída da oca. Para alguém tão velho, aquilo não era de se esperar. Todos ficaram em silêncio naquele momento, assustados, e então os murmúrios curiosos começaram.

Claro, porque aquilo não era um mau agouro. Era o aviso de uma crise.

Iberê se levantou rapidamente assim que conseguiu destravar o próprio corpo, olhou para o velho que já o encarava. O tribal se mexeu a passos largos, sem soltar nenhuma frase e assim que alcançou o humano, segurou seu pulso e ombros, ajudando o caboclo a ir até a saída da oca.

Toda a Yacy-Tata tinha uma organização, todas as ocas, casas, dormitórios davam para o centro, um pátio enorme que continha no centro imagens de Tupã e Yacy de frente um para o outro.

Matinta sobrevoava o centro, sem gritar mais, ainda em sua forma de coruja, quando uma multidão começou a se formar em torno das imagens, murmúrios curiosos e medrosos já eram tão altos que doíam os ouvidos.

As asas brancas e claras da coruja começaram a escurecer, indo do branco ao marrom, e do marrom ao preto em questões de segundos. As penas se tornaram maiores enquanto o animal as passava pelo rosto, penas virando tecido. Ela sequer tocou o chão. Ela se alongava e deformava nessa posição até finalmente tocar a terra com o braço ainda sobre o rosto caindo para revelar a velha por trás. As penas viraram a conhecida capa preta que Matinta usava sempre, a pele clara e enrugada do rosto mostrava uma expressão dura e firme olhos fixos na multidão, que fez com que Iberê tremesse.

Inês jazia ao seu lado, tão amarga quanto, o que era difícil para alguém geralmente tão animada e alegre quanto era a bruxa Inês.

— Por que veio, Mati-Taperê? — Sete Flechas foi o primeiro a falar.

— Outra passagem foi rompida. — Matinta foi direta.

Sons de suspiros surpresos e decepcionados preencheram o ar, mas ninguém ousou falar, nem entidades nem irus. Iberê procurou Cisa que também estava na frente da multidão, o amigo acompanhou o movimento, trocando olhares que nenhum dos dois sabiam o significado.

— E encontramos o corpo do iru do clã Y, Gabriel, na floresta na direção oposta da passagem.

Houve silêncio total dessa vez, em respeito ao iru. Talvez o choque fosse melhor para descrever. em toda a história daquele lugar nunca houve desaparecimentos, apenas nos últimos meses, quando Iberê começou a ter aquelas sensações estranhas, como se algo andasse sob sua pele. Ele abaixou a cabeça.

— Não podemos aceitar mais ataques! É o terceiro iru que perdemos, tivemos cinco passagens violadas e duas destruídas!! — Iara começou, dando um passo à frente.

Ela sempre fora assim, querendo enfrentar tudo.

— Não temos um plano, sereia, a não ser que você queira ir e cantar para... — Cícero pensou como nomear o que causava os ataques

— essa coisa. Se segure. — Cisa respondeu com aquele tom característico e humorístico.

— Repita isso, Cícero...

— Retiro o que disse. É um ótimo plano.

Iara revirou os olhos, mas seu corpo ainda estava inclinado para frente.

— O "intrometidinho" tem razão, Pocaruguara. — A voz dura de Caipora preencheu o ar, estudantes arfaram, sabendo da rivalidade brutal entre as duas.

Iara semicerrou os olhos e deu dois passos em direção a Caipora.

— Quem você acha que é para falar alguma coisa?

Mãe d'água confrontou a mais baixa, dando mais um passo à frente, as próprias mãos ousadas em sua cintura fina.

— Não é você quem se gaba de ser tão velha? Aposto que é você quem tá matando a gente... — Iara continuou.

Caipora, que é tãooo tranquila, avançou em Iara de imediato. Falando o tupi antigo que poucos ali compreendiam, mas não chegou nem na metade do caminho pois foi agarrada por Manaus, que a segurou pelos ombros, antes de se pôr entre elas.

— Podemos nos acalmar...? Estamos em uma crise... se acusar não é a melhor opção agora.

Cícero, entretanto, riu. O som parecia com soluços curtos, e era algo do qual Iberê estava acostumado a ouvir.

— É a primeira vez que eu vejo você pensar, Manaus.

Manaus sorriu e soltou Caipora, mas seu corpo ainda impedia a passagem dela até Iara.

— Eu tô' é pra ver o dia que você vai pensar.

Cisa riu mais, porém não durou muito.

— Meninos! Silêncio, isso é um assunto sério!! — Inês falou com autoridade.

Cícero simulou um zíper na frente dos lábios, e então uma fechadura, jogou a chave imaginária sobre os ombros.

Matinta limpou a garganta, e enfim, respirou fundo. O silêncio se instalou e sua voz amarga voltou a ecoar.

— ... O que podemos fazer é aumentar a segurança dos irus aqui, e reforçar todas as proteções. Vamos precisar de todas as bruxas do corpo docente, do Pai-do-Mato e da Comadre Fulozinha. Faremos rituais de proteção ancestrais...

— Mas a magia ancestral pode não funcionar. — A voz doce e esganiçada da bruxa Nicácia surgiu no meio da multidão.

— Vai funcionar. — Inês respondeu sem rodeios. — O que estão usando é magia ancestral, então vai funcionar.

— Nicácia, tente fazer previsões sobre isso. Precisamos de respostas. — Matinta ordenou.

E mesmo que eles continuassem falando, coisas importantes, discutindo o que seria o futuro da Yacy-Tata talvez para sempre, Iberê só conseguia focar na floresta. Como as nuvens escuras e densas cobrindo a mata pareciam nebulosas, os olhos castanhos claros do tribal percorreram a mata. O que ele avistou foi uma figura humanóide parada entre as árvores, postura bizarra, e um fogo sobre sua cabeça ardendo os olhos de Iberê, que prendeu a respiração chocado.

— É fogo...

A figura humanóide andou, o fogo sobre sua cabeça se espalhou, tomando as folhas e galhos, o cheiro da fumaça era nauseante para Iberê, que não soube reagir, apenas teve forças para repetir.

— Fogo... — Sua voz saiu fraca, mas audível para um iru próximo.

— Fogo? — Questionou, tirando a atenção de Inês, se virando para olhar Iberê, e então buscou o cheiro de queimado, reconhecendo, para só então olhar na direção que o tribal olhava.

— Ai, meu Deus!! É fogo! atiraram fogo na floresta!! — O iru gritou, levando a atenção de todos para a mata, que agora ardia em chamas.