O Primeiro Guardião
3 𝓒apítulo 𝟸 : Tudo o que conhecemos
Haviam muitas pessoas ali, e por isso era o local perfeito para encontrar um desconhecido. Estela escolheu um dia onde Daniel estava saindo com seus amigos para um shopping e os acompanhou até a praça de alimentação. Sentou em uma mesa próxima, ficando no campo de vista do irmão mais velho, mandou mensagem para o tal werewolfepes12, avisando onde estava.
Não demorou muito para alguém se sentar à sua frente. Era definitivamente o cara da foto. Ele estava com o cabelo preso em um rabo de cavalo simples, pele morena, aqueles olhos puxados, roupas antigas mas bem arrumadas. Era quase engraçado.
Engraçado que isso estava realmente acontecendo.
Daniel olhou para a irmã de longe, sem entender, Estela não devolveu o olhar, continuou olhando para o rapaz em sua frente.
— Estrelinhabbee? — O rapaz perguntou sorrindo, estendeu a mão para um cumprimento. — Me chamo Cauã.
Estela conseguiu sorrir de volta, levantou a mão que descansava sobre seu colo e apertou a dele levemente, antes de cair contra o mármore frio da mesa.
— Meu nome é Estela. — Sua voz e rosto estavam tranquilos, mas ela se mexeu na cadeira.
A morena respirou fundo e olhou bem para ele. Não soube exatamente por onde começar, até porque não era como se fosse algo simples ou sequer fácil, porque não era. Então ela decidiu ser direta. Mexeu no cabelo como se talvez fosse a deixar mais confortável.
— O que eu queria te perguntar desde o início é como você sabe tanto… sabe.. sobre meu sonho. — Estela perguntou com certeza, colocou o celular entre eles, tela para baixo.
Cauã suspirou, mas esboçou um sorriso.
— Eu tenho um amigo que viu a mesma coisa, só que ele estava acordado. — Os olhos dele foram para baixo, analisando como ela agarrava o celular e então voltou a olhar em seus olhos. — só… não tinha nenhum assobio.
Estela balançou a cabeça.
— Eu não sei se era um assobio mesmo… ele corria enquanto fazia, sabe? ele corria em “pulinhos”.
— Talvez por causa da postura dele?
— Provavelmente era por isso… mas esse não era o problema principal… era que ele me perseguia, e eu tentava me esconder atrás de uma árvore enorme…
— Árvore? Que tipo de árvore? — Cauã se inclinou mais para frente.
Estela franziu o cenho e então desviou os olhos, tentando se lembrar de algo no sonho. Ela decidiu fechar os olhos, sua mente se distanciou momentaneamente do barulho em torno, focando no sonho. Ela lembrou da silhueta, do fogo, ela abaixou a cabeça no sonho, olhou para a árvore mesmo que tivesse medo de desviar a atenção da figura. A árvore era enorme, isso era óbvio pela sua grossura, as raízes eram igualmente grandes, saltavam da terra, mas nelas havia linhas grossas talhadas, letras, símbolos ou palavras, isso ela não sabia. Mas estava lá.
Estela abriu lentamente os olhos, piscou para acostumar os olhos com a luz novamente, e encarou o rapaz à sua frente com certeza.
— Na verdade ela tinha marcas nas raízes, como se fossem símbolos, mas eu não os reconheço.
Embora Estela não soubesse o que era, Cauã aparentemente sabia, já que ergueu as sobrancelhas por alguns segundos, antes de cair na cadeira pesadamente.
— Tem certeza?
A morena franziu ainda mais o cenho, e se inclinou para frente.
— O que isso quer dizer, Cauã?
— Não é nada demais, só fiquei surpreso. — Ele estava claramente mentindo.
Não porque ele estava inventando aquilo tudo. Ele sabia mais do que estava contando.
— Por que você não conta?
— Como assim, Estela? — Ele voltou a se erguer, se aproximou dela também.
— Você sabia com o que eu sonhei sem eu ter contado, sabe algo sobre essas raízes e chegou aqui em um dia, sendo que você descobriu antes de ontem que eu era do Rio, mas claramente não pegou um avião, então fala logo.
Cauã suspirou, mas respirou fundo, sorriu, meio sarcástico.
— Olha, eu não sei muito… se eu soubesse não teria te procurado. Digamos que isso é uma investigação. É por isso que eu vim, e por que você veio.
Estela revirou os olhos, soltando o celular para passar as mãos no rosto, Cauã analisou.
— Certo… — Cauã voltou a falar.
— Digamos que isso que você sonhou não devia vir até você, deveria estar preso na floresta. É isso que eu sei, Estela, nada mais. E tudo que sabemos sobre essa coisa não faz o menor sentido. Só que se você sonhou com tudo isso significa que você tem alguma coisa a ver com isso.
— Mas eu não posso…
— É, eu sei que você não pode, por isso você não vai se envolver mais, ok? Você tem que se manter em segurança, custe o que custar. — Cauã falou mais alto, estendeu as mãos para as dela, segurando-as com força.
Estela não respondeu, apenas o encarou surpresa. O coração dela batia mais rápido, mais frenético, mas seu corpo não se mexia, ela se sentiu surda.
Então uma mão pousou no ombro de Cauã, Estela ergueu os olhos rapidamente, os olhos ardendo com a luz do shopping, mas era nitidamente Daniel.
— Solta ela. — Aquilo soou como uma ameaça.
— Dani… — ela foi interrompida.
— Tudo bem. — Cauã disse para Estela, soltando delicadamente as mãos dela.
Só naquele momento a garota percebeu o quanto a pele dele era áspera, o que a fez olhar para suas mãos, notando também quantas cicatrizes ele tinha nos braços. Não de cortes, de arranhões desgovernados, como se um dia ele tivesse sido atacado por leões.
— Já estou de saída. — ele levantou, olhou Daniel nos olhos, e voltou para Estela. — Se cuida, estrelinha.
Cauã se virou, caminhando para longe deles, ela só pode encarar. Várias perguntas se acumularam em sua cabeça.Tristemente, não pode focar em nenhuma, já que Daniel abriu aquela grande boca.
— Quem era aquele cara?!
Estela revirou os olhos, se virando para o irmão.
— Não é da sua conta.
— É da minha conta, eu sou seu irmão!
— Meu irmão, não meu pai. — Estela se levantou, erguendo o celular, clicou no grande botão vermelho com um quadrado finalizando a gravação de áudio.
— Era seu ficante? Por que esse cara é tóxico. — Daniel tinha o cenho franzido, claramente incomodado.
Estela não parou de olhar para o celular, salvando o áudio para ouvir depois, desligou o celular em seguida.
— Que?! Claro que não… ele é só um amigo. mal conheço ele. — ela assumiu, erguendo a cabeça, dando a volta na mesa.
— Então manda seu amiguinho esquisito parar de te tocar.
A mais nova riu, então passou um braço ao redor do irmão, dando-lhe um abraço frouxo.
— Relaxa maninho.
Depois disso tudo se passou como um borrão para ela, a ida para casa, os próximos dias de aula…
A única coisa que ela realmente focou foram as coisas que ele disse. Estela ouviu aquela gravação várias vezes. Prestou atenção, interpretou e reinterpretou o pouco que ele disse diversas vezes. O que ela entendeu? Entendeu que ela não devia procurar por mais, mesmo que ainda tivesse febre, mesmo que os sonhos não parassem, mesmo que a voz vinhesse no meio do dia, a lembrando daquela maldita perseguição.
Mas ela não pesquisou sobre as raízes, não pesquisou o significado da única palavra que gravou daqueles sussurros no ouvido esquerdo. Tagûaíba, a palavra literalmente lhe causava arrepios. ela aprendeu a pronunciar aquilo de tão assombrada que foi, literalmente.
Ela ainda pensava nisso, estava debruçada na janela, olhando a lua. Era tão raro que Estela prestasse atenção na lua, mas nos últimos dias, após tantos pesadelos, ela simplesmente não queria dormir. E ficar divagando sobre tudo aquilo era mais interessante, mesmo que aterrorizante.
— Estela! — A voz embargada e bêbada de seu pai a tirou dos pensamentos.
A morena se afastou da janela, a fechou enquanto gritava de volta.
— Já vou!
Ela se afastou da janela após puxar as cortinas e saiu do quarto indo para sala de jantar onde sua mãe e pai bebiam juntos, parou na porta, se encostando no batente.
— Filha, vai comprar um lanche para você jantar.. — Suzane também já estava bêbada, apenas estendeu o dinheiro para filha.
— Compra mais uma cerveja pro papai, também..? — o mais velho também estendeu dinheiro.
Se Daniel não tivesse ido dormir na casa da namoradinha, ele iria no lugar… Estela apenas suspirou, pegou o dinheiro de cada um enquanto murmurava positivamente.
— Já volto… — Estela não enrolou, pegou a chave e olhou para os pais conversando de longe, não pode evitar um sorriso.
Eles eram tão engraçados juntos, mesmo que não estivessem mais casados.
Estela saiu de casa.
Já era meia noite, os pais dela nem deviam saber, mas sinceramente, se o risco era espiritual, não importava sair tarde da noite. Ela caminhou até um barzinho próximo, pediu um X-Tudo completo e mais um amarrado de cervejas para os pais.
Ela ficou perto do balcão, analisou a rua, estava vazia para uma sexta-feira à noite. Geralmente era bem movimentado, mesmo que fosse um bairro pequeno. Deve ser por que é fim de mês. Estela pensou.
— Aqui, filha. — o dono do bar falou baixo, inclinando-se sobre o balcão enquanto empurrava as sacolas para ela.
— Ah.. obrigada. — ela sorriu tranquilamente, empurrou o dinheiro sobre o balcão. — ‘tá certinho.
Falou sobre o dinheiro, pegou as sacolas e saiu, tranquila, caminhou lentamente pela calçada. Ela ainda estava divagando, sobre como tudo aquilo era estranho, se perguntou então por que Cauã nunca mais mandou nenhuma mensagem.
Rrrngh...
Estela olhou no mesmo instante para trás, o bar já distante. Não tinha nada ali. Devia ser um cachorro, nem foi perto dela.
A morena voltou a caminhar, seus pensamentos caindo em Cauã, naquelas cicatrizes bizarras nos…
Grrr...
Isso foi mais perto.
Estela se virou novamente, seu coração batendo mais rápido.
mas quando ela virou, paralisou.
Ela não conseguia puxar ar, era como se a única coisa que ela conseguisse sentir fosse o coração palpitando, a visão virou um borrão. Mas era enorme, peludo.
Saliva escorria entre os dentes afiados enquanto corria de quatro na direção dela, as garras raspando o chão e causando um barulho nauseante. Suas pernas e braços eram tão grandes que lhe faziam praticamente saltar do chão. Ela percebia cada vez mais detalhes — como as inúmeras cicatrizes que causavam falhas no pelo —, tudo porque ele estava cada vez mais perto. E Estela só conseguia tremer.
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