O Primeiro Guardião
2 𝓒apítulo 𝟷 : O início
Estela estava sonhando.
Aquilo só podia ser um sonho...!
Ela não sabia onde estava, sabia que era uma floresta densa e escura em um clima tropical. Com árvores enormes e folhas largas. A terra estava quente sob seus pés descalços, o vento contra seus braços e pernas nus fazendo os pelos arrepiarem e o queixo tremer.
Aquele não era o problema. O problema era o fogo ao longe, sobre uma figura humanoide, olhos brilhantes na escuridão, a encarando e aquela voz que sussurrava em seu ouvido direito falando algo sobre "voltar para onde veio", e a que ecoava no ouvido esquerdo falando em uma língua Irreconhecível.
As costas dela estavam contra uma árvore de tronco áspero, ela estava tentando se esconder, mas sempre que saia do campo de vista daquela coisa, ele assobiava alto e corria para a encarar novamente, como um loop infinito.
Ela não entendia, não conseguia entender o porquê sonhava com aquilo...
— Estela!
O grito de seu irmão mais velho a acordou. Estela pulou na cama, se sentando enquanto respirava pesadamente. Seus olhos turvos começaram finalmente a focar, e ela percebeu que estava em seu próprio quarto. A cacheada se virou para olhar para o lado, percebendo a presença de Daniel ali.
— Qual é o seu problema?! — O questionamento veio alto, Estela agarrou uma almofada, jogando na direção do próprio irmão.
Daniel desviou como se estivesse em um filme de ação, e a almofada fosse a espada de um espadachim habilidoso.
— Como assim? Você tava falando "para, para" sem parar e eu sou o problema? Sua maluca... — Daniel provocou por fim, embora parecesse preocupado.
Estela suspirou, olhou para as próprias mãos, franziu as sobrancelhas, confusa... e então percebeu...
— E o que você tá fazendo no meu quarto?! — Estela confrontou abertamente, erguendo o queixo por uma fração de segundos. O olhou de cima a baixo, esperando a resposta
— Você teve febre de noite e a mamãe mandou eu vir ver como você estava, seu monstro.
— Eu tive 'frebre?!
— É 'febre', idiota — Daniel corrigiu.
— Cala a boca, besta. Me responde.
— Teve. Você até alucinou, pensou que tava em uma floresta, que tinha alguém sussurrando no seu ouvido e outro alguém te encarando de longe.
— Ué...
Estela levou uma mão à testa. Não estava quente. Estava totalmente suada. Blusa grudando nas costas, cabelo grudado na testa e pescoço. Ela franziu o cenho e curvou os lábios de nojo. Mas voltou a olhar o irmão.
— Como você sabe que eu sonhei com isso? — A pergunta saiu suave, afinal ela ainda pensava que aquilo era uma piada.
— Sonhou? Que estranho... eu não sabia. Você falou isso ontem a noite pra mamãe. Esquece isso. Vai tomar banho, sua fedida. — Daniel disse por último, antes de sair do quarto da mais nova.
Assim que a porta se bateu, Estela não se mexeu de imediato, apenas olhou para o nada, a mente um turbilhão de pensamentos. Ela estava farta daquilo. Aqueles sonhos já estavam indo para outro lugar, e agora viraram até alucinação? O pior era que ela não sabia como resolver. Ela orou, colocou um copo com sal grosso, água e um pedaço de carvão sob a cama, fez simpatias de tik tok. Nada resolvia.
A morena empurrou o cobertor para longe das pernas e então se levantou, as pernas pareciam bambas, mas ela as forçou a continuarem firmes. Calçou os chinelos e foi até a porta do quarto, saindo lentamente. Garantindo que ninguém percebesse sua presença, caminhou até o banheiro, fez suas higienes matinais e tirou as roupas para tomar um banho.
Assim que a água fria bateu contra sua pele ainda quente, Estela praguejou, pegando o sabonete, os pensamentos voltando.
Os sonhos dela pareciam normais, e então viravam aqueles pesadelos. Geralmente era um sonho assim: alguém a observava, ou sussurrava em seu ouvido, sempre era algo assim. Estela nunca falava sobre, nunca gritava quando acordava de madrugada após esses sonhos. Era... um segredo. Porque era loucura, e ela sabia.
Por sorte, hoje era sábado. Sem aulas, e com a febre na noite passada, provavelmente sua mãe a deixaria ficar sem fazer nada, o que significava que Estela poderia simplesmente pesquisar tudo a respeito desses sonhos malignos, ela concluiu, e então afundou a cabeça debaixo do chuveiro.
A água adentrou seus cachos densos, tapou seus ouvidos, e o silêncio parecia falar muito naqueles momentos do que qualquer voz. Ela sempre gostava daquela sensação. Debaixo d'água, o mundo inteiro desaparecia. Restavam apenas ela e aquele silêncio estranho e confortável.
Era como falar com o amor da sua vida, mesmo que Estela não ache que já sequer tenha estado perto de conhecer essa pessoa, ela sabia como era a sensação. Ela já imaginou tanto como seria essa conversa, e em todas as versões eram leves e calmas como aquilo. Não por que não houvessem risadas e provocações, era a pessoa em si que passava tanta calma.
E então aquela sensação... que ela não estava segura a fez sair debaixo da água, e olhou nervosamente pelo vidro do box. Não tinha nada. A morena simplesmente desligou o chuveiro, enquanto respirava fundo e puxava a toalha do toalheiro de barra.
Ela se secou superficialmente, enrolou a toalha no corpo e se abaixou para mexer no armário debaixo da pia, pegando sua toalha de cabelo, os enrolou e saiu da mesma forma cautelosa que entrou. Assim que voltou para o quarto colocou uma roupa de frio, pois o céu parecia fechar, passou creme nos cachos sem finalizar, e pegou o laptop, caindo na cama novamente.
— Estela!! — Suzane chamou, quase gritando.
— Oi, mãe! — Estela respondeu, largou o laptop e se levantou, caminhando até a porta.
— Vem comer!
— Com prazer. — A caçula brincou, rindo baixinho.
O café da manhã foi tão comum como todos os outros, risadas altas, Daniel quase cuspindo o leite com café enquanto ria da risada da própria mãe, Suzane mandando Estela por meias e tomar leite quente com caramelo e um antigripal que era um placebo, Daniel fazendo aquelas competições idiotas de quem come mais.
Durou pouco, apenas vinte minutos. Estela voltou para o quarto após escovar os dentes, fechou a porta, e então respirou fundo. Voltou para a cama, puxou a coberta sobre o corpo e o laptop em seguida.
Estela abriu o chrome, e encarou a barra de pesquisa.
O que você pesquisa quando está ficando louca?
Ela pensou...
E então abriu o Reddit. Ela já tinha uma conta conectada a uma página de terror que ela gostava de ler à procura de relatos interessantes. Fez login, e assim que entrou no subreddit já começou a escrever. Ela falou tudo, falou os sonhos, os vultos, a sensação horrível de perseguição, as febres estranhas apesar da sua boa saúde.
Foi um texto longo...
As respostas foram rápidas
Em quinze minutos ela já obteve respostas, às notificações brilhando na tela enquanto chegavam.
Estela abriu novamente a página, entrou na aba de notificações, clicou em uma qualquer e começou a ler.
"Isso não é sobrenatural, você precisa de um psicólogo" — foi a primeira, Estela riu, e continuou a ler.
"Minha irmã teve a mesma coisa, só resolveu quando levamos ela no centro espírita"
"Você precisa se benzer urgentemente"
"A postura dele era torta?"
Estela paralisou, prendeu a respiração enquanto olhava para as letras como se elas estivessem a ameaçando.
Ela tinha certeza que não tinha nada sobre isso no texto, e ela até mesmo procurou logo em seguida em que parte ela citou isso, mas não tinha nada. Ela nunca falou que aquela silhueta tinha uma postura torta.
Ela não respondeu, não curtiu o comentário. Ela entrou na conta.
@werewolfepes12. Não tinha nenhum post. Não tinha foto de perfil. Nada. Apenas participava de comunidades de terror, e era uma conta completamente anônima, sem pistas alguma.
Outra notificação, do mesmo tal "Werewolfepes12", a adicionou em um chat privado. Estela abriu rapidamente.
[@werewolfepes12: No seu sonho a figura com cabelo de fogo tinha uma postura bizarra?]
Ela clicou na caixa de texto, começando a digitar:
[@estrelinhabbe: como você sabe disso?]
Estela enviou sem pensar muito, e então voltou a digitar dentro da caixa de texto.
[@estrelinhabbe: sim.]
[@werewolfepes12: precisamos conversar]
Estela respirou fundo, não respondeu.
[@werewolfepes12: De qual estado você é?]
A cacheada ergueu uma sobrancelha, confusa, semicerrou os olhos. E então ela parou para pensar.
Podia ser um pedofilio querendo sequestrar ela, obviamente, mas ele sabia com o que ela sonhou... aquilo era pura coincidência?
[@estrelinhabbe: o que você sabe mais sobre o que eu descrevi?]
[@werewolfepes12: você ouviu vozes falando com você?]
[@werewolfepes12: no sonho]
Estela respirou fundo, continuou em silêncio. No quarto, e no chat.
[@werewolfepes12: você ouviu uma língua desconhecida e estranhamente familiar?]
Aquilo podia ser muitas coisas, menos coincidência.
[@estrelinhabbe: e por que não pode me conta o que sabe por aqui?]
Ele demorou para responder dessa vez, talvez procurando uma justificativa plausível sem parecer um monstro atrás de uma tela.
[@werewolfepes12: prefiro fazer isso pessoalmente.]
[@werewolfepes12: mas se você não quiser tudo bem]
Estela pensou por alguns minutos, que aquilo tudo era loucura. Ele não era confiável, provavelmente era um velho e se não fosse um era um sequestrador, ele provavelmente já tinha rastreado a conta dela e estava em um avião para vir roubar os órgãos dela.
O problema era que aquilo era... coincidência demais. Ele não podia estar adivinhando tudo aquilo, podia?
[@estrelinhabbe: me diz algo sobre você.]
Ele mandou algo, realmente. Uma foto.
Era de um rapaz, provavelmente entre 16 e 19 anos, cabelos levemente ondulados caindo sobre os ombros, despenteados, olhos puxados e castanhos claros. Ele estava em um quarto iluminado, parecia antigo, expressão tranquila.
[@werewolfepes12: pode pesquisar na internet.]
Aquilo era um desafio?
[@werewolfepes12: é uma foto minha]
Ela abriu outra guia, anexou a foto, passou o cursor sobre a lupa na tela, clicou e então carregou.
De cara, nada. Nenhuma foto sequer semelhante a ele. Estela procurou mais a fundo, passou pelo menos uns quinze minutos nisso. Até mesmo no Pinterest ela colocou a foto. Nada.
Então ela voltou para o Reddit.
Não respondeu, voltou para o perfil dele, sem foto, sem descrição, ele não seguia ninguém.
O peito dela doeu. E então ela respirou fundo. Se ele fosse, ela estaria preparada, levaria Daniel com ela.
[@estrelinhabbe: vou confiar lobisomem]
[@estrelinhabbe: Rio de Janeiro, zona norte]
[@werewolfepes12: obrigado]
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