O Primeiro Guardião
5 𝓒apítulo 4 : Visitas sempre são boas
Cauã ainda não acreditava que passou a noite toda rondando a casa de uma garota. Ele só saiu quando os primeiros raios de sol ameaçavam brotar, e sua transformação acabaria. Só aí ele voltou para o pequeno quarto cedido por um ex-aluno da Yacy-Tata. Sua pequena estadia ali estava prestes a acabar, ele imaginava.
O moreno se mexeu na cama pequena, ainda nu, puxando a coberta junto para cobrir os músculos. Sua mente voltou para Estela. Ela era uma humana tão pequena, tão frágil, nem pensava antes de agir, como ela poderia estar em uma profecia tão importante para a Yacy-Tata?
Apesar de suas péssimas qualidades físicas, ela era inteligente, ele tinha que admitir. Ela gravou a conversa deles, levou alguém que pudesse intervir quando eles se encontraram, marcou em um local público... ela estava preparada para o previsível. Para o que os monstros que eles denominam de criminosos.
Não para as coisas brutais do mundo. As coisas que eles, humanos comuns, chamam de mito.
Por isso ele teve que intervir. Sinceramente, Cauã se lembra muito bem de pedir mais de uma vez que ela ficasse segura. Então por que ela saiu tão tarde da noite e sozinha? Se ele não tivesse decidido vigiar ela de perto desde que ele saiu daquela praça de alimentação, provavelmente ela estaria morta.
Ele curvou as sobrancelhas, com um sobressalto, se sentou na cama. E se ontem, pelo susto ela tivesse tido uma parada cardíaca? Ou não tivesse aguentado o peso de tudo nos últimos dias e...
Cauã pulou para fora da cama, imaginando o pior. Decidiu ir até a casa da garota.
Assim que ele vestisse uma roupa.
Cauã vestiu uma bermuda jeans meio surrada que cobria os joelhos, uma camisa de botão com mangas curtas de estampa quadriculada verde musgo, prendeu o cabelo em um rabo de cavalo médio e saiu do cômodo.
o sol estava forte, como era de se esperar, o calor reconfortante em seus músculos ainda doloridos pela luta de ontem.
O quarto não era tão longe da casa de Estela, isso era bom porque facilitava para ir encontrar com ela. Mesmo que fosse a primeira vez que ele fosse lá formalmente. Ele também esperava que ela já estivesse acordada, eram dez e meia da manhã. Ela não podia ser, além de frágil, preguiçosa.
Ele riu, imaginando o capelobo brigando por ela correr lento demais. Ou se ela se daria bem com alguém lá... as entidades costumam ser acessíveis, mas com essa história de profecia muitos podiam a rejeitar.
Quando percebeu, já estava lá.
Que seja Estela que abra esse portão... Ele pensou enquanto dava três batidinhas no portão de metal. Esperou, e então ouviu passos pesados.
Com um clique suave o portão se abriu, Cauã ajustou a postura, os lábios já entreabertos para dar um simples "bom dia", mas morreu assim que viu quem abriu o portão.
— É você?! — O homem lá dentro praticamente gritou.
Cauã se lembrava dele. Era o homem do shopping, que interrompeu a conversa dele com Estela. Ele não soube como responder, até porque não o conhecia.
— A Estela está? — Cauã pensou um pouco em como continuar, embora já falasse, que aquele cara parecia ser superprotetor com a pequena estrelinha.
— Estávamos conversando ontem a noite e ela disse algumas coisas estranhas e parou de me responder, fiquei preocupado.
Ele estava mentindo. O único momento que ele viu Estela foi quando a defendeu daquele lobisomem selvagem. Mas aquele cara não precisa saber.
O homem dentro do quintal riu, irônico, parecia irritado.
— Eu sabia... você é ficante dela?
Cauã franziu o cenho, sequer teve tempo de responder.
— Escuta: minha irmã nunca teve um namorado, e nem nada. Ela finge que não liga para nada, mas é sensível, e se eu souber que ela chorou por sua causa...
— Não. — Ele o interrompeu, a voz alta suficiente para sobressair com a do irmão dela. — Nós... não estamos... ficando, e nem nada. Eu só me preocupo com ela.
O irmão encarou Cauã por mais alguns instantes, estava prestes a falar algo e bater o portão na cara de Cauã.
— Daniel! Dani!! — A voz de Estela ecoou, desesperada.
— Droga... entra aí. — o tal "Daniel" disse praticamente correndo para dentro da casa.
Cauã não reclamou, apenas entrou, batendo o portão e seguindo para a porta principal. O ambiente era absurdamente urbano e acolhedor lá dentro, mesmo que tivesse plantas para todos os lados. Mas o lobisomem não sentiu dificuldades para os encontrar, era só seguir a aura perturbada da adolescente.
Os encontrou em uma sala, com televisão e um grande sofá onde Estela estava estendida com um cobertor, Daniel com uma mão em sua testa, talvez medindo a temperatura? Ela teve mais febre?
— ... eu não quero ficar sozinha... pensei que... — Ela parou de falar quando o viu. — Cauã?
Nenhum dos dois disse nada. Mas, o silêncio pareceu pesado demais.
O licantropo prestou bastante atenção nela, nos olhos cansados, cabelos emaranhados, o curativo mal feito. Ela se ergueu um pouco, talvez para se sentar, tanto daniel quanto cauã se mexeram para a impedir, o irmão a segurou pelos ombros, sussurrando algo sobre "você está fraca".
— Não...! Continua deitada. — Cauã deu mais alguns passos em sua direção. Seus olhos foram para Daniel.
— Você pode... deixar eu falar com ela...?
Daniel olhou para Estela, esperando um protesto da mais nova, mas quando o que recebeu foi um olhar esperançoso, ele revirou os olhos e saiu, sumindo em um corredor da casa.
Um breve silêncio se instalou entre eles, Cauã apenas caminhou para se sentar em um canto do sofá, perto dela.
— Eu tentei seguir seu conselho... — Estela começou. A breve pausa, foi a que deixou as lágrimas se acumularem nos cantos de seus olhos. — Mas...
Ele suspirou, mas sorriu, se aproximou dela para acariciar sua cabeça.
— Tá tudo bem... — Ele esforçou-se para acalmá-la, os dedos afagando cuidadosamente sua cabeça. — Fala devagar... eu vou ouvir.
Seus olhos assistiram ela se acalmar, os lábios oferecendo um doce sorriso sem dentes. Estela respirou fundo, então entreabriu os lábios como se procurasse palavras para descrever. O que significava que ela não tinha contado para ninguém ainda.
— Ontem, eu sai para comprar algo pra comer... estava tudo bem, eu lembro que tinha acabado de dar meia noite... e...
A garota engoliu em seco, limpando as lágrimas que brotavam, Cauã continuou a acariciar seu cabelo.
— Foi horrível... — Um breve soluço atrapalhou seu relato, sua respiração tensa.
— Meu corpo não me obedecia... um... monstro horrível começou a correr na minha direção... e eu pensei que fosse morrer... só que... outro monstro parecido apareceu e... ele me cortou...
Estela se mexeu, virando de costas para ele. Cauã já estava arregalando os olhos.
— Ele esbarrou em mim enquanto corria para atacar o outro...
Estela segurou a bainha de sua camisa, a erguendo para mostrar as costas nuas. Havia um roxo enorme ali, o hematoma cobrindo do ombro até o centro de suas omoplatas, ela abaixou a blusa poucos segundos depois.
Cauã contorceu o rosto imaginando a dor, ele não sabia que tinha sido tão bruto com ela. Significava que ele tinha que treinar ainda mais a descarga de força. Ele só queria tirá-la do transe, não a machucar.
— Só que a dor me fez lembrar de agir.. aí eu corri. Só que.. — A morena se virou para o encarar novamente.
— Depois de desacordar aquele outro monstro, o que esbarrou em mim simplesmente... me... carregou até em casa.
Cauã continuou em silêncio, não parecia surpreso e nem desacreditado. Ele só a encarava esperando por um final. Estela desviou os olhos dos dele, descendo o olhar até o braço do rapaz, marcado por cicatrizes, não com curiosidade, apenas olhando.
— Parece loucura. Talvez eu fiquei maluca e vi um lobisomem enquanto estava acordada. Igual seu amigo.
O mais velho riu, finalmente esboçando algo, a menina o olhou com raiva.
— Eu tava falando sério!
— Eu sei, — Cauã continuou sorrindo. — Desculpa... É que...
Ele fez outra pausa, umidecendo os labios com a lingua antes de falar
— Estela, não é loucura.
Aquilo era para ser tranquilizador, ele até continuou a acariciar o cabelo dela.
— Tudo isso é verdade. O que você viu, sentiu. Não tem como ser falso se você se machucou, Estrelinha.
— Eu devo ter me machucado em outro lugar!
— Não foi isso.
Ela franziu o cenho, encolhendo os ombros menos do que o necessário para aquela expressão que ela tentava fazer, que claramente dizia "como você pode ter certeza?!". Talvez pela dor do seu mais novo hematoma
— Como...
— Eu sei porque quem te arranhou fui eu.
Ele deixou a informação entrar na cabeça dela, ficando em silêncio momentaneamente. Estela o olhou incrédula, os olhos dela procurando os dele, procurando pela mentira.
— Quem esbarrou em você e te trouxe para casa fui eu.
Cauã a olhou de volta, procurando o medo, a incerteza. Seus dedos em seus cachos indo para seus ombros, segurando com delicadeza. Era demais para aceitar, ele entendia.
— Eu só não sabia que ia te machucar tanto. — ele olhou para seu ombro machucado, e voltou a olhar para os olhos dela.
— Estela... era isso que eu não podia te contar. Só que... você tem que acreditar. Por que você viu tudo isso. Eu sei que parece loucura, mas tem mais coisas... e...
Como explicar? Ele perguntou-se.
— Estela, nesse mundo, quem sabe demais é caçado. Foi isso que aconteceu com você.
— Mas... eu não fui atrás.. eu..
A morena mal sabia o que dizer, literalmente quase soluçando enquanto falava, seus olhos brilhando com lágrimas. Seus ombros pequenos se encolhendo em um soluço fraco, ela ainda balançava negativamente a cabeça, sem conseguir falar pelos soluços que a escapavam.
Ele a olhou por alguns instantes, era a primeira vez que ele achou um Iru, não era algo que ele soubesse como explicar.
Então a puxou para um abraço, seus braços fortes a envolvendo com delicadeza surpreendente. Estela entretanto ficou rígida por alguns segundos, antes de relaxar, seus braços trêmulos o circulando com hesitação.
— Mas você sonha, estrelinha... Você sente demais. A árvore que você sonhou significava isso... Eu tentei evitar... tentei te proteger...
— Por que isso tá acontecendo...? — Estela conseguiu dizer entre os soluços, que agora estavam altos.
Daniel, que ouviu os soluços, apareceu de repente no corredor, pronto para falar algo. Talvez gritar com Cauã e o mandar embora. Mas a cena que vou foi de Estela se agarrando a ele como uma tábua de salvação.
O licantropo encarou Daniel, e mexeu levemente a cabeça, indicando para que os deixasse mais um pouco a sós, o irmão os encarou por mais um tempo, e se virou para ir embora, claramante desconfortavel com a situação.
Os soluços dela começaram a se acalmar aos poucos, os dedos dele fazendo carícias lentas em sua coluna.
— Por que você faz parte desse mundo.
— Mas eu sou normal, Cauã... eu-
— Você não precisa ser um "monstro" para fazer parte desse mundo... Existem humanos como você no lugar de onde eu vim.
Estela se afastou dele, o rosto ainda molhado, lábios ainda meio trêmulos.
— De onde você veio...? — Ela repetiu.
— É... É como uma escola. Para pessoas como eu, para o que chamam de mito, para pessoas como você. É seguro lá e...
Cauã repensou, e então respirou fundo. Contar sobre as recentes crises na Yacy-Tata não pareciam a melhor ideia. Ele segurou em seus ombros novamente, com todo o cuidado para não a achucar mais, apenas para que ela focasse nele.
— Escuta, você pode vir comigo até esse lugar, você vai ficar bem lá. — Outra pausa, dessa vez, porque ele não sabia como dizer aquilo.
— Só que se você vier comigo, vai ficar lá por muito tempo. É uma escola pra te ensinar a se proteger e cuidar desse seu lado... espiritual.
Ele claramente não sabia como explicar totalmente, e então respirou fundo, soltou os ombros dela, e ajeitou sua própria postura, um tique nervoso que ele nunca assumiria.
— É uma escola fundada por Tupã e Yacy, Deus do trovão e Deusa da lua. É de cultura indígena... — Ele foi interrompido.
— Eu sei quem são. — Estela falou abertamente, ainda o olhando fixamente.
Cauã pigarreou, limpando a garganta.
— Ok... essas terras, o Brasil, tinha grande influência dos deuses tupi, mas acabou que com a chegada dos colonos, catequização forçada de muitos povos, esses deuses perderam as forças.
Ele diria que se saiu bem, para quem reprovou em História das Lendas e Rupturas.
— Tupã, enfurecido e triste, ordenou que construíssem a Yacy-Tata, mas as terras escolhidas eram do domínio de Yacy, que cedeu as terras.
Ele apenas repetiu o que ouviu do Sete flechas a dois anos atrás. Bem, o que se lembrava.
— Fica na Amazônia, perto do rio Amazonas, lá eles podem explicar muito melhor do que eu... mas...
Um breve silêncio se instalou, a ameaça que não vinha dele, se estabeleceu entre os dois.
— Acontece que se você recusar...
Ele engoliu em seco, suas mãos ásperas se erguendo para secar suas lágrimas da bochecha. A pele dela era muito macia.
— O que aconteceu ontem a noite, vai se repetir. Pessoas como você...
Como explicar? Ele pensou, e então voltou a falar:
— Que sabem, que sentem; tem uma energia forte... e o que não é controlado vai vir atrás de você.
Cauã esperou para continuar. A encarando em busca de dúvidas, mas Estela apenas o olhava com firmeza, e uma curiosidade que o surpreendia.
— Por que eles não querem que os deuses que podem os castigar sejam cultuados, eles só querem se alimentar. E muitos deles se alimentam do medo dos humanos, da carne...
Um som de batidas contra metal o interrompeu, que vinha nitidamente do portão ao lado de fora da casa.
Cauã se virou em direção ao som. Em forma humana, ele só sentia energia. E a energia disso prometia não ser algo bom.
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