O Preço do Poder
13 Mentiras
Ela estava sentada na mesa com os braços jogados enquanto tentava se distrair com a farpa solta aleatória no meio da mesma, Merida estava cansada e podia sentir seus olhos pesados, ela não fizera questão de acompanhar o corpo do pai para longe, a imagem que tinha dele ainda era alegre e divertida e preferia que continuasse daquela forma, tinha ficado com os irmãos no castelo, Elinor só fora por obrigação, mas já estava no castelo, sentada com uma postura invejável e os olhos direcionados a cartas quaisquer, ela só estava se distraindo. Merida lançou o olhar para os irmãos menores. Nunca os vira tão entediados, sentados no chão com um martelo abandonado do lado, Maudie estava perto deles oferecendo-lhes bolinhos na tentativa de animá-los, o que não parecia que funcionaria tão cedo. O silencio era algo que trazia lembranças e mais tristeza, por isso após rodear o salão com os olhos, ela se concentrou em ouvir a conversa dos lordes da outra sala. Falavam sobre táticas de guerras e as vezes abaixavam o tom de voz para falar coisas do qual Merida não conseguira tomar nota.
Lorde Dingwall estava sentado na ponta da mesa, o resto acompanhava enquanto ele apontava áreas no mapa alfinetado. Eles simplesmente não conseguiam chegar em um acordo, e aquela altura era essencial a presença de um rei. Com o filho unigênito morto, o qual ainda carregava o luto. Eles tinham que escolher um dos jovens para assumir o trono, casando-se com a princesa. Enquanto McGuffin dizia os motivos pelo qual ele não concordava com a estratégia recém citada, ele direcionou o olhar discretamente até o canto onde os jovens de cada clã estavam, doeu-lhe lembrar-se do filho. Eles precisavam decidir aquilo, a cada contradição ele tinha mais certeza disso. E ele já tinha um preferido.
–O que há, Dingwall? – Perguntou Macintosh incomodado, direcionando o olhar na mesma direção que o amigo, mas não encontrando nada anormal voltou desconfiado ao homem de baixa estatura.
Tinham feito um acordo. Cada lorde tinha que provar ser digno da mão da princesa antes de conquista-la, porém não como dizia a tradição. A princesa queria amor. E ao que indicava os jovens também, assim que fora anunciado que iriam para DunBroch no clã Dingwall o seu filho demostrou interesse na princesa, como nunca tinha demonstrado com outra moça.
–Nada... – Ele respondeu vagamente tentando concentrar no mapa novamente.
–Com certeza temos que mandar tropas para todo o litoral, eles podem vim de qualquer canto. – Comentou Macintosh cruzando os braços.
–E deixar DunBroch desprotegida? – Comentou McGuffin interviu. Os dois olharam para o mais velho para que ele comprovasse um dos planos, mas ele apenas suspirou acompanhados pelos outros e sentaram-se cada um perdido em seu pensamento, prevendo a vitória garantido dos invasores.
–Um decisão precisa ser tomada. – Disse Macintosh olhando para o chão, os dois entenderam a insinuação dele. A verdade era que todos tinham o mesmo pensamento porém nenhum ousara pronunciar contra o combinado com a princesa até então.
–Eu voto no meu filho. – Disse o homem tomando uma atitude obscura, levantando o olhar levemente aos jovens distraídos do outro lado da sala sem nem mesmo notar que as vozes dos três tinham abaixado.
–E eu voto no meu. – Se adiantou McGuffin levantando um pouco a voz, como se já não fosse o conveniente propor um casamento forçado com a princesa. Era obvio que cada um votaria no seu próprio sucessor.
Ambos olharam para Dingwall, sem piedade e desconsiderando o luto que ele estaria sentido pelo filho e agora pelo amigo e rei. Dingwall pareceu nervoso e bateu as mãos contra a mesa, irritado, mas estava pensativo, ele próprio pensara naquela possibilidade não podia desconsiderar, ele lançou o olhar para os jovens que agora encaravam curiosos os pais. Ele arfou derrotado e levou os olhos para o mapa mais uma vez.
–Jovem Macintosh.
Macintosh comemorou com moderação, não devia ter sido uma decisão tão fácil de planejar e em seguida chamou a criada mais próxima para que ela convocasse a rainha. E em passos rápidos a moça foi até a rainha na outra sala. Elinor estava desconfiada, mas pediu aos deuses que eles finalmente tivessem entrado em um acordo para essa guerra.
Ela caminhou calmamente e analisou a feição triste de Dingwall, a feliz de Macontosh e a derrotada de McGuffin, e previu que coisa boa não viria daqueles três, na sua mente a ideia de sair correndo e se jogar da primeira janela aberta que encontrasse passou de relance, mas ela foi racional.
–Então? – Sua voz era mansa e tentava parecer inabalada pela morte do marido na presença dos lordes, e pelas atitudes suspeitas deles. O clima estava tenso. Elinor sabia que Merida estava atenta a conversa na outra sala. Ela mesma viu o olhar curioso da filha a acompanhando até a porta.
–Precisamos de um líder. – Macintosh foi direto. Elinor arregalou os olhos por segundos, mas foi rápida em voltar ao seu semblante sério.
–A princesa não está pronta. Milorde lembra dizer que a princesa só se casaria por amor? Deu sua palavra a ela.
Ela foi tão objetiva em sua resposta quanto o lorde a sua frente. Ele trincou os dentes furioso e apenas deu as costas revolto. Ele não esperava aquela atitude do homem, não depois da morte de Fergus, ele não teve nem um pouco de respeito pelo luto dela e, por isso, ela deu as costas e andou novamente para outra sala. Sentou se novamente.
–O que foi mãe? – Perguntou a filha desconfiada. Elinor encarou os olhos azuis.
–Nada, filha, nada. – Mentiu.
Merida voltou a implicar com a farpa, ela realmente não tinha escutado o que os lordes disseram para sua mãe. Mas pelas atitudes da rainha não era coisa boa. Ela percebeu que o poente estava chegando quando a sala estava escura o suficiente e precisando da iluminação das tochas. Merida encarou a mãe, que estava pensativa a ponto de não dar conta que o ambiente estava escuro o suficiente para ela não conseguir ler a carta, mas Merida não disse nada, e nem tentou entender os múrmuros de Elinor.
Ela fechou os olhos na tentativa de descansar, ali mesmo, não deixaria a mãe sozinha para ir em seu quarto. E a imagem de seu voo em um dragão foi tão clara quanto a de Soluço ensinando sobre dragões, ele tinha tanto amor aos seres, ele definitivamente não era mal. Ela torcia para que ele conseguisse resolver o problema com os vikings, seria um aliança perfeita, e ela precisava de novos pretendentes. Merida corou com o pensamento e tentou dispersar aquela possibilidade assim que ela chegou. Ela voltou ao silencio. E ouviu algumas batidas, mínimas.
–Ouviu isso? – Ela perguntou preocupada, para a mãe que levou um susto e só então percebeu que não enxergava mais a filha com clareza, por causa da escuridão do céu purpuro, que já revelava poucas estrelas da janela.
–O que? – Elinor se esforçou, mas só depois de alguns minutos ela pode ouvir as batidas constantes em escudos. Alguns criados começaram a correr e ela olhou a sua volta sem reação, mas logo se levantou e andou apressada, sendo seguida por Merida até o acampamento de batalha, os soldados estavam tão desesperados quanto os criados. Elinor visualizou os lordes sentados na barraca principal e foi até eles. Eles estavam sérios.
–Mandamos alguns soldados até eles. – Disse Macintosh com cara feia. A pressão de Elinor abaixou, mas ela se conteve dando apenas um passo para trás, sentido Merida segura-lhe o braço para auxilia-la.
–Vamos esperar o retorno deles. – Disse Dingwall.
.
Estavam todos aflitos por um ataque. Mas dois cavaleiros desengonçados apareceram com suas lanças que era o dobro de seus tamanhos e pararam em frente os lordes.
–Querem falar com o líder.
–Dizem ser a princesa Merida.
Todos pareceram confusos e sem entender. Elinor se levantou devagar, lembrou da filha ter falado sobre ter conversado com um dos vikings, era possível a filha ter dito uma mentira dessa, ela olhou os lordes encarando-a como se esperasse a solução vindo dela, Elinor se virou devagar em direção da filha que mordia o lábio inferior, com os olhos trincados.
–Merida...
–E-Eu posso explicar...
–Como pode fazer isso? Não sabe o que fez, você se condenou, condenou a todos nós.
Merida se calou ao ouvir as palavras que sabia que eram verdades, mas principalmente porque há tempos não ouvia a voz de Elinor em um tom tão alterado. Ela estava ofegante com as sobrancelhas retraídas. Era o fim de sua mentira, como dizer a ela que já tinha até voado em um dragão, como dizer que cogitara a possibilidade de um de seus pretendentes ser um viking?
–Eu não queria isso... – Novamente foi interrompida.
–Você foi irresponsável. Não consegue pensar em seus atos?
O silencio se restabeleceu Elinor percebeu os olhares do acampamento inteiro direcionado as duas. Ela sentiu a mão de Merida depositando em seu ombro.
–Calma mãe, vai dar tudo certo.
Elinor tirou a mão da filha de seu ombro com brutalidade se aproximou de Merida enquanto ela se afastava assustada até que a parede a impediu, Elinor colocou as mãos no ombro da filha o contato de seus olhos castanhos era absoluto com os de Merida.
–Você vai se casar. Salvar seus irmãos até a idade adulta para se tornarem reis. – Merida não sabia ao certo como reagir, sua mãe estava falando sério. Como uma despedida, Merida odiou o olhar de Elinor decepcionada, odiou os soldados inertes a cena. Odiou-se por ter mentido. Ela apenas assentiu.
Elinor a soltou e caminhou até alguns soldados que a acompanhava até a saída, Merida foi atrás até a entrada onde pode ver alguns vikings pouco distantes e três dragões. Ela olhou para mãe que não direcionava o olhar até ela uma única vez, e Elinor andou sendo escoltada por alguns soldados, foi então que o medo começou a invadir seu coração ela olhou para trás assustada e seus olhos amedrontados encontraram os de Merida pela ultima vez.
Merida colocou a mão em seus cabelos, desesperada olhou a sua volta e sentiu sua respiração alterar-se, fez que correria até Elinor, mas sentiu os braços do jovem Macintosh envolverem para impedir sua ida. Tinha dito para sua mãe que casaria. Ela sentiu as lagrimas e não pode evitar o grito pela volta de sua mãe, mas era tarde de mais a rainha já estava longe.
[...]
Minaz viu a figura da mulher esguia e elegante caminhar em passos lentos perto de si, ele a analisou de cima a baixo. O vestido verde de um tecido nobre, mas ainda estava desconfiado.
–A líder não é ruiva? – Ele disse lembrando-se da conversa que tivera com Soluço.
–Eu sou Elinor, esposa do falecido rei Fegus de Dunbroch.
Elinor disse rispidamente, tentando parecer tranquila, ela já conseguia prever a morte e desejou que Merida já estivesse do outro lado do castelo fugindo com qualquer um dos jovens e seus três filhos, futuros reis. Sua linhagem estava salva, graças a Dagda.
Minaz lançou o olhar aos outros vikings que nem pareciam ter ideia do que estavam fazendo ali, as palavras da mulher pareciam ser verdadeiras, e segundo Soluço mulheres lideravam aquelas terras. Ele pensou na possibilidade de mata-la, olhou para os dragões atrás de si, e seus respectivos cavaleiros até cruzar o olhar com Astrid. Sorriu com maldade. E voltou a atenção para a mulher que parecia aflita pela demora de sua replica.
–Está bem. – Ele fez uma pequena reverencia, debochada, mas que deixou Elinor confusa, em seguida virou em direção a loira que direcionou o mesmo olhar confuso para o homem.
–Está aqui o líder. Vamos tê-la como refém leve-a a Berk como prisioneira. – Astrid estava relutante, mas não parecia problema naquele plano, ela foi até Elinor que era mais alta que ela, levou o olhar para Minaz.
–Enquanto ela estiver viva, só ataque ao comando do líder. Você conhece as leis.
Ele assentiu com a cabeça. Astrid direcionou o olhar a Elinor e ofereceu a mão para ajuda-lá a subir em tempestade, com dificuldades, porque além do longo vestido e ser costumeira a ficar dentro de casa com poucas cavalgas acompanhando Merida, Elinor estava trêmula pela falta de comida e pelo seu estado emocional. Depois de subir a loira fez o mesmo e Tempestade levantou voo em direção ao norte.
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Soluço estava escondido entre as árvores, perplexo, então essa era a mentira de Merida? Ela não era a líder. Tudo estava perdido. Ele cambaleou para trás, e sentiu Banguela atrás de si, respirou fundo tentando manter a calma, precisava pensar, rápido.
[...]
Merida lançou o olhar mais uma vez para os irmãos que estavam zangados com ela, e não era para menos, todos pensavam que Elinor estava morta, e a culpada era Merida. Ela suspirou olhou para Macintosh que arrumava pouca comida para fugir e escutava os conselhos do pai com devoção.
Ela jamais se perdoaria pelo que fez, sua mãe que nunca tinha a abandonado, nem depois de ter sido transformada em um urso. Ela lembrou das palavras do pai “Você sabe o que é melhor para o reino.”. Casamento? Ela encarou mais uma vez os irmãos e por ultimo olhou Macintosh, Não. Aquele não era o destino dela, ela não aceitava. Ela caminhou até ele.
–Eu posso me despedir das tapeçarias feitas pela minha mãe? – Ela recebeu o olhar desconfiado de Macointosh que tinha a negação na ponta da língua, porém seu pai bateu em seu ombro na hora e ele apenas assentiu, Merida olhou os irmãos, Hamish sabia que a irmã não voltaria, mas o olhar dele significava para, pelo menos, achar o corpo de Elinor e enterrá-la.
Então ela correu rapidamente entre o castelo quase desértico foi em um dos quartos onde as criadas passavam horas tecendo, uniformes e outras roupas para os nobres, parecia que todos tinham fugido e recém abandonado , por isso ela teve livre acesso a uma das muitas vestimentas abandonadas ali, e rapidamente ela trocou de roupa, e prendeu o cabelo em uma longa trança, parou na frente do espelho e viu suas pernas nuas. Ela não sabia à quem pertencia, mas aquele kilt era quase do seu tamanho exato, as botas eram um pouco maiores. Ela direcionou o olhar até o arco no chão e já tinha como sair do castelo.
–Ei! – Era a voz de Macintosh na porta. Merida estava de costas e gelou.
–Viu a princesa?
Merida soltou o ar e balançou a cabeça negativamente, antes dele das às costas e sair caminhando a procura dela. Ela pegou o arco e se direcionou correndo por entre os cavaleiros desesperados ela foi pela lateral observou os lordes tentando acalmar os homens, que já tinham a sentença de morte. Merida observou os vikings indo em direção do acampamento deles e a única certeza jogada no ar era que a guerra estava mais próxima do que nunca. Ela caminhou sem se vista até a floresta. Estava sem rumo e sentia as lágrimas em seu rosto mais uma vez, o vento batia forte em suas pernas era quase cortante, todavia não era comparável ao peso de sua culpa. Então ela começou a correr, ela estava com medo, ela tentava acreditar que não morreria que eles teriam clemencia, então ela viu uma luz azul.
Ela direcionou o olhar para os lados em silencio, deu um passo a diante e foi seguindo as luzes até que pode ver o grande réptil que ao ouvir os barulhos de pegada direcionou o olhar a ela, então ela viu Soluço. E correu parando em frente dele.
–Por que mentiu? – Ele perguntou assim que ela estava na frente dele, ele evitou perguntar o porque dela estar vestida daquela forma, a floresta era escura, mas era possível ver as lagrimas soltas no rosto dela, era possível também ver como Merida estava tremendo de frio naquelas roupas xadrez.
–Me ajuda... – Ela suplicou antes de suas lagrimas começarem compulsivamente. Soluço suspirou e sem pensar abraçou a ruiva, que correspondeu quase de imediato. Ela estava frio, o cabelo em uma trança feita as pressas no topo da cabeça.
Quando percebeu o abraço Merida conteve os soluços e se afastou dele limpando as lagrimas de seu rosto.
–Eu vi a rainha, sua mãe não? Ela está viva, indo para Berk eu vou atrás dela e impedir que ela seja morta. – Ele não dizia com tanta certeza. Merida não se importou com o tom dele, Elinor ainda vivia seu sorriso foi involuntário, antes de corar ela desvio o olhar, assim como ele também fez. Ela voltou a olhá-lo quando ele começou a falar.
–Eu tenho um plano para evitar a guerra. – Disse Soluço convicto. Continuou.
–Não sei o que pretende Merida, mas vou deixar esse mapa com você. É de como chegar a Berk e de toda a região até Dunbroch. Não vou te levar comigo porque vou extremamente rápido, quanto menos peso em Banguela melhor. – Ele entregou o mapa com bordas irregular para a moça que concordou com a cabeça.
–Eu vou fazer algo. – Ela concluiu. Soluço caminhou até Banguela e subiu nele, colocou seu elmo e direcionou o ultimo olhar para Merida antes de alçar voo.
–Eu vou fazer algo. – Ela repetiu para si mesma mais uma vez.
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