O Preço da liberdade livro 2
6 O Sabor da Ambição
A sala de carvalho do conselho privado estava impregnada com o aroma de fumo de cachimbo e couro. Adrian ocupava a cabeceira da mesa, com Alexander à sua direita e o velho Rei Alexander à esquerda. Saullo, sempre atento, girava uma taça de conhaque, observando o jovem Conde Delavga com um olhar que misturava curiosidade e a eterna desconfiança de quem já viu de tudo na corte.
Marcos abriu um mapa de linho sobre a mesa, apontando para as regiões montanhosas do Norte com uma segurança que impressionou até o Rei Adrian.
— O café das minhas províncias não é como o que chega do Sul, Majestade — começou Marcos, a voz firme e profissional. — Ele cresce na altitude, sob a névoa. O grão é mais denso, o aroma é persistente. Minha proposta é estabelecer uma rota direta que ignore os atravessadores das cidades portuárias. Aethelgard terá o monopólio desse fornecimento.
Adrian inclinou-se para a frente, analisando as linhas do mapa.
— Uma rota direta pelas montanhas? O terreno é acidentado e os bandoleiros costumam gostar desses desfiladeiros. Como pretende garantir que a carga chegue intacta aos meus armazéns?
— Com escolta privada, Senhor — Marcos respondeu prontamente, sustentando o olhar do Rei. — Eu não confio a segurança do meu ouro ou do seu café a milícias locais. Meus homens são treinados nas terras frias. Se um grão de café cair no chão, eles saberão o motivo.
Alexander, que passara os últimos minutos em silêncio, interveio com sua precisão habitual.
— O custo de transporte por essa rota é elevado. O lucro de Aethelgard viria do volume ou da exclusividade? Porque, se o preço final for o dobro do café comum, meu povo continuará bebendo a mistura barata das províncias vizinhas.
Marcos sorriu para o jovem príncipe, reconhecendo nele a mente de Mellyssa.
— Da exclusividade na exportação, Alteza. Aethelgard não apenas consumirá o café; ela o revenderá para as cortes de Roma e do Leste. Nós seremos o filtro por onde o luxo passa. O lucro não está no que o povo bebe, mas no que os Reis dos outros países pagam para ter o que vocês possuem.
Saullo soltou uma risada baixa, batendo a taça na mesa.
— Ouça bem, Adrian. O rapaz tem o espírito de um pirata e as mãos de um banqueiro. Gostei da lógica. Se ele conseguir passar por aquelas montanhas sem ser saqueado, teremos ouro líquido em nossas mãos.
O Velho Rei Alexander, que até então apenas observava, limpou a garganta. Sua voz era cansada, mas carregava a autoridade de décadas.
— E o que o Conde busca em troca? Ninguém oferece um monopólio de mãos beijadas. Quer terras? Títulos de pesca? Ou talvez uma voz permanente neste conselho?
Marcos fez uma breve pausa, o momento exato para que sua resposta soasse pesada.
— Busco aliança e estabilidade, Majestade. Minhas terras são ricas, mas isoladas. Estar sob a proteção comercial de Aethelgard é o que garantirá que minha linhagem prospere pelos próximos cem anos. Não busco sua coroa, busco a sombra da sua árvore.
Adrian estreitou os olhos. Ele sentia algo naquele rapaz. Não era medo, era uma familiaridade incômoda, um reflexo de uma ambição que ele próprio tivera um dia. Mas a lógica comercial era impecável.
— Vamos analisar as planilhas de Alexander — decidiu Adrian, levantando-se. — Se os números forem tão sólidos quanto sua fala, Conde, teremos um contrato antes da colheita.
— Como desejar, Majestade — Marcos curvou-se, fechando o mapa.
Enquanto os homens se levantavam e o clima relaxava, Saullo aproximou-se de Marcos, oferecendo-lhe um charuto.
— Você é jovem para carregar tanta responsabilidade no Norte, Delavga. Onde aprendeu a negociar assim?
— Com as perdas, Senhor — Marcos respondeu, com um brilho frio e fugaz nos olhos. — Nada ensina mais sobre o valor do café e do ouro do que saber exatamente o que é não ter nada.
Adrian, que já estava na porta, parou por um segundo ao ouvir aquilo. Ele não disse nada, mas a frase ecoou em sua mente enquanto caminhava pelo corredor. O lobo estava dentro da alcateia, e ele acabara de ganhar a chave da despensa.
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