​A festa de apresentação, que deveria ser o triunfo da nova geração dos Kane, transformou-se em um cenário de horror gélido. O som da orquestra desafinou e parou bruscamente, substituído pelo murmúrio chocado da corte.

​Pelo corredor central, caminhava uma mulher que parecia ter sido expelida pelas próprias sombras do passado. Giulia Lâfrer não vestia mais o dourado da opulência, mas um veludo roxo tão escuro que beirava o luto. Ao seu lado, segurando sua mão com uma rigidez desconfortável, estava um garoto de doze anos. Ele tinha cabelos claros e olhos de um azul pálido, quase translúcido, que varriam o salão com uma melancolia precoce.

​O silêncio no salão era tão pesado que se podia ouvir o crepitar das chamas nas tochas. Adrian, que um segundo antes sorria para Diana, transformou-se. Seus ombros cresceram, sua mandíbula travou e seus olhos tornaram-se duas fendas de puro granito. Ele reconheceu a tática antes mesmo que ela abrisse a boca: Giulia não trazia um herdeiro, trazia uma provocação.

​— Eu dei ordens para que seus pés nunca mais tocassem o solo de Aethelgard sob pena de morte, Giulia — a voz de Adrian não era um trovão, era o sussurro da guilhotina antes de cair.

​Giulia parou a poucos metros do estrado real. Ela não se curvou. Em vez disso, empurrou o menino para a frente.

— O solo de Aethelgard pertence ao sangue, Adrian. Mas eu trouxe algo que você, em sua arrogância, esqueceu: a linhagem que Roma protegeu enquanto você brincava de família feliz com sua baronesa de negócios. Conheça Lucca. Ele é a prova de que o passado nunca morre, apenas espera.

​Um murmúrio de confusão percorreu a nobreza. Mellyssa sentiu o estômago revirar; a tática de Giulia era brilhante e cruel. Ao trazer um menino que claramente não era filho de Adrian (os traços eram estrangeiros, a idade não batia com o tempo em que estiveram juntos), ela estava jogando com a dúvida. Estava sugerindo que havia outros segredos, outras alianças, que o trono de Aethelgard não era tão seguro quanto parecia. Ela estava usando a criança para desestabilizar a legitimidade dos gêmeos.

​Adrian desceu os degraus do trono com uma lentidão predatória. Ele ignorou o menino — que paralisara diante da figura imponente do Rei — e parou diante de Giulia. A aura de fúria que emanava dele era tão intensa que os nobres mais próximos recuaram.

​— Você usa uma criança para tentar roubar a atenção que nunca mais será sua? — Adrian sibilou, tão perto que apenas ela ouvia. — Eu não me importo de quem ele é filho, Giulia. Se é de um cardeal romano ou de um cavalariço. Para mim, ele é apenas o peão na sua última jogada desesperada. E eu não negocio com espectros.

​Ele se virou para os guardas reais, apontando para a saída com um gesto violento.

— TIREM-NA DAQUI! Arrastem-na se for preciso. E o garoto vai junto. Se eles forem vistos dentro das fronteiras ao amanhecer, eu pessoalmente garantirei que o exílio seja permanente... em uma cova rasa.

​— Adrian, ele é uma criança! — Mellyssa interveio, a voz trêmula de choque, tocando o braço do marido. Ela odiava Giulia, mas a frieza brutal de Adrian para com o menino, que tremia de medo, a deixava aterrorizada. Parecia que ele estava descontando todo o ódio por Giulia em uma criatura inocente.

​Adrian desvencilhou-se do toque de Mellyssa sem olhar para ela.

— Ele é a arma dela, Mellyssa. E eu não permito armas perto dos meus filhos.

​Os guardas reais agarraram Giulia pelos braços. Ela não gritou. Ela apenas sorriu, um sorriso vitorioso e macabro, enquanto Lucca era puxado rudemente pela gola da túnica. O menino não chorou. Ele apenas fixou os olhos em Alexander e Diana, um olhar que misturava medo e uma inveja silenciosa, que fez a pequena princesa estremecer.

​— VOCÊ VAI SE ARREPENDER, ADRIAN! — Giulia gritava enquanto era arrastada para a escuridão do pátio. — O SANGUE PODE NÃO SER O SEU, MAS O ÓDIO É! E ELE VAI QUEIMAR TUDO O QUE VOCÊ CONSTRUIU!

​O Pós-Tempestade

​O salão continuou em silêncio. A música não voltou. Adrian permaneceu parado no centro do salão, ofegante, as mãos fechadas em punhos tão apertados que as juntas estavam brancas. Ele era novamente o homem frio e impiedoso que Mellyssa conhecera nos primeiros dias — ou talvez algo pior. Ele não rejeitara um filho, mas rejeitara a misericórdia.

​Alexander caminhou até o pai e tocou sua mão. — Pai... quem era ele?

​Adrian olhou para o filho, e por um segundo, Alexander recuou diante da escuridão nos olhos do Rei.

— Ele não era ninguém, Alexander. Ele era apenas uma sombra enviada para testar a nossa força. E nós não tememos sombras.

​Mellyssa observava a cena de cima do estrado. Ela olhou para Diana, que estava encolhida, e para Alexander, que parecia ter envelhecido cinco anos em cinco minutos. Ela percebeu que o Livro 2 não seria sobre o amor deles, mas sobre como o medo e o ódio de Adrian por Giulia poderiam destruir a própria família que ele jurara proteger.

​A festa de dez anos terminara. E o exílio de Lucca Lâfrer, o menino que não era sangue de Adrian, mas que agora carregava o peso de sua rejeição, fora apenas o primeiro movimento de uma guerra que não seria travada com espadas, mas com o ressentimento de uma criança usada como peão no jogo dos reis.