O Preço da liberdade livro 2
28 A Renúncia do Coração
Os meses de jogos emocionais haviam drenado a energia de Lucca. Ele percebeu que, por mais que tentasse derreter o gelo de Diana, ela usava cada momento de intimidade como munição para feri-lo no dia seguinte. O cansaço finalmente venceu a esperança.
Naquela manhã, ele solicitou uma audiência privada com Adrian e Mellyssa.
Lucca entrou no gabinete real com uma postura que Adrian não via desde o dia em que ele saíra da masmorra: era a postura de um homem que tomara uma decisão final.
— Majestades — começou Lucca, a voz limpa de qualquer hesitação. — Eu agradeço por tudo o que fizeram por mim. Pela liberdade e pela chance de reconquistar minha honra. Mas eu cansei de perseguir um fantasma. Diana deixou claro que a mulher que eu amei não existe mais, e eu não vou passar o resto da minha vida sendo o carrasco da minha própria sanidade.
Mellyssa inclinou a cabeça, preocupada. — O que você pretende fazer, Lucca?
— Vou reconstruir minha linhagem. A Condessa de Valença, apesar do incidente meses atrás, manteve contato. Ela é uma mulher prática, nobre e, acima de tudo, ela me quer. Eu pedi a mão dela em casamento oficial. Diana agora é o meu passado.
Adrian suspirou, sentindo o peso daquela derrota. — Você tem minha bênção, Lucca. Você merece ser feliz, e minha filha... talvez precise perder tudo para entender o que tinha.
O Veneno da Notícia
Mais tarde, o sol poente banhava o jardim de laranjeiras onde Diana estava sentada, bebendo vinho e observando as pétalas caírem. Mellyssa aproximou-se, sentando-se ao lado da filha em silêncio por alguns instantes.
— O palácio terá um novo casamento em breve, Diana — disse a Rainha, o tom de voz tingido de uma tristeza profunda.
Diana soltou uma risada ríspida. — Quem é o infeliz desta vez? Algum primo distante?
— É o Lucca. Ele oficializou o noivado com a Condessa de Valença. Ele disse ao seu pai que você é passado e que ele quer uma esposa que o respeite. Eles partem para as terras do Norte em uma semana.
A taça de Diana parou no ar. Por um segundo, o mundo pareceu perder o som. O vinho pareceu amargo, e um frio repentino subiu por sua espinha, um frio que nenhum álcool poderia aquecer.
— Ele não ousaria — ela sussurrou, a voz subitamente aguda.
A Rejeição Final
Diana não pensou. Ela correu pelos corredores, o coração batendo com uma urgência que ela não sentia há dez anos. Ela entrou no quarto de Lucca sem bater, encontrando-o fechando uma mala de viagem.
— Que farsa é essa? — ela gritou, avançando para ele. — Você vai se casar com aquela... aquela viúva sem sal? Só para me irritar?
Lucca nem sequer parou o que estava fazendo. — Não é para te irritar, Diana. É para me salvar. Você teve todas as chances. Agora, saia. Tenho muito o que organizar.
Diana, em um ato de desespero que cheirava a derrota, começou a desabotoar o próprio vestido, deixando-o cair nos ombros. Ela caminhou até ele, tentando envolver o pescoço dele com os braços, buscando o calor que sempre fora seu refúgio secreto.
— Você sabe que ela não vai te fazer tremer como eu — ela sussurrou, tentando beijar o pescoço dele. — Deixe esse noivado para lá. Fique aqui... comigo.
Lucca segurou os pulsos dela com uma força firme, mas gélida. Ele a afastou com uma lentidão que foi mais dolorosa do que um tapa. Ele a olhou nos olhos, e não havia mais desejo ali, apenas uma barreira intransponível.
— Cubra-se, Diana — ele disse, a voz desprovida de qualquer emoção. — Eu estou noivo. Eu fiz um juramento de honra à Condessa e, desta vez, eu não vou quebrar minha palavra por ninguém. Eu só me deitarei novamente com a mulher que carregar o meu nome e o meu respeito. E essa mulher não é você.
Diana recuou, chocada. O rosto dela ficou pálido, e ela sentiu como se tivesse sido atingida por um raio.
— Você está me rejeitando? Por ela?
— Eu estou escolhendo a mim mesmo — Lucca respondeu, voltando-se para a mala. — Agora vá embora. Você já tomou tempo demais da minha vida.
Diana saiu do quarto tropeçando nos próprios passos, a humilhação queimando em seu rosto. Ela atravessou o corredor revoltada, gritando com os criados que cruzavam seu caminho, mas no fundo, o grito era de puro pavor. Pela primeira vez em dez anos, Lucca Lâfrer não estava mais esperando por ela. E o silêncio que ficou no lugar dele era o som do fim definitivo de Aethelgard para ela.
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