O Prelúdio do Despertar
1 Capítulo Único
A chuva lentamente se choca contra as janelas do apartamento de uma jovem, que tenta ao máximo concentrar-se em seus estudos. Em sua mente, turbilhões de pensamentos, como a incessante sensação de que cursar a faculdade está sendo mais um empecilho do que um investimento. Dentre essa tempestade de memórias, uma acaba lhe tirando a atenção que tentava tão diligentemente manter:
“Você ouviu falar dos rumores?”
“Que aquele congressista supostamente coordena um esquema de tráfico de mulheres?”
“Sinistro.”
“Qual era mesmo o nome dele?”
“Frank Martinez eu acho, aquele que sempre frequenta o Cassino Imperiale”
Sem conseguir se concentrar, a jovem fecha seu caderno e liga sua televisão. O canal de notícias está mostrando um incêndio ocorrido em um prédio do governo enquanto a repórter entrevista uma pessoa que estava nas redondezas no momento em que o fogo se espalhou.
“Eu vi uma pessoa sair correndo e logo após o fogo se espalhou, com certeza ele iniciou esse incêndio!” — disse o entrevistado.
“Humanos sendo humanos, típico.” — a garota se levanta da cama e caminha em direção ao seu computador. “Bora jogar porque eu ganho mais.”
Com o computador já ligado, ela redireciona o cursor para seu jogo favorito, First Fantasy, mas nota antes de iniciar o jogo um ícone estranho, que assume ser algum arquivo malicioso. Sem muito se importar, ela apenas o deleta e então inicia sua jogatina.
Cerca de quarenta minutos se passam e ela decide descansar um pouco. Ao fechar o jogo, ela nota que o arquivo que jurava ter apagado continua ali no mesmo lugar. Ela tenta novamente deletá-lo, mas ele não sai do lugar. Após repetidas tentativas, o arquivo se abre sozinho e exibe uma mensagem um tanto quanto sem nexo:
“Iniciando protocolo de Despertar”
Imediatamente, o mundo a sua volta começou a perder a cor e os objetos começaram a mudar de posição ou de aparência. Ela escuta uma voz macabra atrás dela:
“Não tema, você está segura neste lugar.” — ela rapidamente se vira em direção à voz e vê um homem de terno, cabelos curtos e usando óculos sentado atrás de uma mesa decorada com diversos itens peculiares, como uma máquina de escrever e um Pêndulo de Newton.
“Quem é você e o que faz no meu quar…” — antes de completar sua frase, ela nota que não está mais em seu quarto, embora não se lembrasse de ter saído de lá. Instintivamente ela tenta dar dois passos para trás, mas se esbarra onde seu computador está.
“Surpresa em ver o seu quarto dessa forma? Humanos veem apenas aquilo que lhes é conveniente. Há uma realidade muito além da sua que você até então era ignorante sobre e eu estou aqui para guiá-la.” — o homem estende sua mão em direção à uma cadeira, convidando a garota a se sentar.
“Mas eu só me lembro de tentar apagar um ícone em meu computador, como vim parar aqui?” — relutantemente se senta na cadeira, sentindo um aperto no peito.
“Vocês humanos possuem uma habilidade que somente aqueles que chamamos de Despertos conseguem controlar. Tal habilidade permite que vocês transcendam seus limites mortais e que caminhem lado à lado com entidades a qual vocês chamam de deuses.” — o homem coloca a máquina de escrever um pouco mais ao canto de sua mesa e retira de uma de suas gavetas algumas folhas em branco.
“Você continua falando e eu continuo sem entender.” — lentamente a jovem começa a se acalmar ao ver que o homem não lhe deseja nenhum mal.
“Simplificando você poderia dizer que está dentro da internet, já que foi graças a ela que este lugar passou a existir e você está prestes a Despertar.”
Por um breve momento ela olha para o misterioso homem tentando entender toda a situação, mas por mais que se esforce, não consegue compreender.
“Seu silêncio me diz que ainda está confusa, deixe-me explicar melhor: todos os seres vivos em seu mundo possuem um potencial latente, contudo vocês humanos o possuem em maior quantidade. Alguns humanos conseguem controlar essa habilidade e a eles damos o título de Despertos. Você é uma humana que possui a capacidade de controlar essas habilidades e eu estou aqui para conduzir o seu Despertar.” — o homem coloca dois papéis em branco em cima da mesa e estes começam a obter cor e formas começam a ser desenhadas em sua superfície. “O papel à sua esquerda mostra seu maior desejo e o que está à sua direita mostra como iniciar a jornada para alcançar este objetivo.”
Ao observar as pinturas já prontas, ela verifica que a imagem à sua esquerda mostra ela no chão, sendo reconhecida por uma multidão que se estende até os céus; a imagem à sua direita mostra o congressista Frank Martinez caído no chão com a mão no peito e expressando dor em seu rosto.
“Então para ser reconhecida eu tenho que fazer esse homem sofrer?” — a jovem pergunta para o misterioso homem.
“Este é o caminho que lhe foi dado. Faça isso e você Despertará.”
“Me diz uma coisa: você disse mais cedo que estou na internet, não é? O que exatamente você quis dizer com isso?”
“Humanos escondem seus verdadeiros sentimentos, hora por vergonha ou hora por medo. O anonimato que a internet providencia faz com que vocês cada vez mais depositem pedaços de seu verdadeiro eu, sua alma, nela.”
“Então se pedaços da alma de todos estão aqui, um pedaço da alma do congressista também está?”
“Precisamente.”
“E se eu fizer algo com esse fragmento de alma, ele será afetado em meu mundo?”
“Precisamente.”
A garota pensa por um momento. Frank está sendo acusado de comandar um esquema diabólico de tráfico de mulheres, é de fato uma escória humana, logo qualquer ato de maldade contra ele seria justificado. Não quer, contudo, correr nenhum tipo de risco.
“Almas podem se defender?”
“Preocupada com perder a vida? Você é mais simples do que imaginei.” — o homem dá uma leve risada. “Mal posso esperar para ver até onde iremos caminhar juntos. Respondendo sua pergunta, sim, almas podem se defender. Contudo vejo em seus olhos a determinação de alcançar o que viu na imagem, no fundo você deve estar disposta a correr esse risco, não?”
Dando um leve sorriso para o homem, ela se levanta da cadeira e caminha em direção a porta de seu quarto. Ao abrir ela percebe que todo o prédio possui uma estrutura diferente do qual estava acostumada. Demorou um tempo até que ela conseguisse descer todos os andares. Ao chegar no térreo, ela nota que existem pessoas ali também. Por curiosidade, ela tenta conversar com um deles e, para sua surpresa, eles estão conscientes da presença dela ali.
“É melhor eu tomar cuidado.” — pensou. “Onde é que vou encontrar o meu alvo… Lembro de uns rumores de ele frequentar o Cassino Imperiale, vamos torcer para ser verdade.”
Ela entra em seu carro e dirige em direção ao Cassino. Quanto mais próximo ela chegava do Cassino, mais forte sua cabeça começava a doer.
“Aparentemente enxaquecas existem nesse mundo…”
Ela chega ao local e estaciona o mais perto possível para que sua fuga seja mais tranquila. Sua dor de cabeça fica mais forte a cada passo que ela dá, mas tenta manter sua aparência. Seu alvo é avistado saindo do cassino, oportunidade perfeita para realizar o feito. Ela se aproxima lentamente, sua dor de cabeça aumentando até que ela cessa. Nesse instante, ela percebe que seu corpo começa a retomar cor, embora o mundo a sua volta continua preto e branco. Uma adaga se materializa em sua mão e suas roupas se alteram.
“Esse deve ser o Despertar.” — pensa consigo enquanto continua caminhando em direção ao seu alvo.
“Senhorita, você não pode chegar perto do Senhor Martinez.” — um dos seguranças tenta segurá-la, mas sua determinação é mais forte. Mantendo um sorriso no rosto, olhos fixos em seu alvo, lembrando da primeira pintura que mostra seu destino ao realizar o feito, ela empurra o segurança enquanto dois à frente dela sacam suas armas e dão tiros de aviso. Ao verem que ela continua seu avanço, eles abrem fogo, atingindo-a nos ombros. Ela continua caminhando na direção do congressista como se nada tivesse acontecido, abre seus dois braços empurrando os seguranças que caem no chão, puxa a adaga e desfere o golpe no coração do congressista.
“Você possui uma nova mensagem de voz.” — o som do telefone anuncia.
“Boa noite, querida, só gostaria de saber se você está com os estoques de mantimento em dia. Sabe como é, a gente que é do interior se preocupa quando nossos filhos se mudam para a cidade grande para estudar. Ligue para mim quando ouvir a mensagem.”
Com o rosto deitado no teclado, a garota lentamente se levanta e olha para a tela de seu computador, seu jogo ainda aberto e seus companheiros de guilda tentando falar com ela.
“Peguei no sono, que saco.” — pensa enquanto lentamente recobra a consciência e se lembra de tudo o que aconteceu. “E aquele ícone macabro, será que foi só um sonho?” — Ela minimiza o jogo e verifica que o ícone não existe em sua área de trabalho e nem em sua lixeira. “É, foi só um sonho. Entrar na internet haha.” — ela despenca na risada enquanto, em sua televisão, o noticiário emite uma nota urgente sobre a morte de um congressista.
Em diversos outros lugares…
“O que raios é esse ícone?”
“O que raios é esse ícone?”
“O que raios é esse ícone?”
“O que raios é esse ícone?”
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