O Preço do Poder
18 O futuro.
Notas iniciais
A intensidade do sol ia diminuindo a cada dia que o inverno se aproximava, da janela ainda se conseguia ver brilhando no céu, porém mesmo batendo há horas na parede de pedra oposta a ela não aumentava a temperatura de forma alguma. Merida estava no corredor, em frente à sala fechada. Duas vezes levantara a voz para defender o líder dos vikings do jovem Macintosh, duas vezes fora repreendida por Elinor e na terceira foi “convidada” a se retirar da reunião que decidiria seu futuro. Merida não tinha parado para pensar de como voltaria a ser a sua vida depois do término da guerra. E ironicamente, a mesma mulher que salvara a vida dos poucos escoceses que sobreviveram à guerra era aquela que tinha sua honra questionada pela maioria das pessoas, mas aos poucos as histórias que os sobreviventes traziam da princesa como protagonista era levada com o vento para ser esquecida. E Merida sabia que era melhor daquela forma.
Soluço não ficou mais de dois dias em Dunbroch após ser atacado por Macintosh, o golpe não tinha sido profundo e as ombreiras de sua vestimenta não estavam lá de enfeites. Tinha sido lhe oferecido a melhor hospitalidade pela rainha, porém o viking preferiu voltar para Berk onde tinha a curandeira dos vikings. E depois de toda a devastação que assolou as terras longínquas da Escócia o líder deixou uma equipe de vikings para ajudar não só na reconstrução das casas queimadas, mas também para melhorar a imagem dos nórdicos naquela região.
Astrid era o braço direito de Soluço e ela cuidava das questões diplomáticas que foram necessárias para a estadia dos vikings em DunBroch. E nos três primeiros meses que a loira ficara naquelas terras ela demonstrou sua inteligência nas questões comerciais e maestria em manusear o machado que era o que verdadeiramente interessou Merida. Naquele tempo se tornaram amigas. Por experiência própria Merida sabia que a segunda chance era algo que não devia ser negado a ninguém, além de que a jovem era a primeira mulher, além dela própria, que conhecera que lutava.
Os vikings também tiveram como missão a busca pelos dragões na Escócia, e tentar integrar alguns que trouxeram a vida cotidiana dos habitantes em Dunbroch, não era algo que aconteceria da noite para o dia, mas ninguém demonstrava ter tanta pressa. Nas buscas encontraram um dragão amigável, que até interagia com os dos nórdicos e os vikings comemoraram como vitória. Nessa mesma busca, Astrid achara um ovo e decidira retornar a Berk para encubá-lo.
Um mês desde então Soluço retornou, apto e animado para encontrar dragões, mas percebeu que muitos dos que não eram amigáveis era porque só conseguiam entender o idioma antigo da região, por isso, como o combinado, Merida ajudava nas lições uma vez a cada três semanas, rotineiro, já que Soluço tinha responsabilidades como líder em Berk.
E aquela era mais um dos motivos para os lordes estarem em uma reunião com a rainha, parecia que Merida finalmente tinha espantado todos os noivos da região após se vestir de homem na guerra, mas Merida conhecia o preço que suas responsabilidades tinham. Os dragões integrados ao exercito ajudaram os escoceses a conhecer terras vizinhas, reino de Dublin na conhecida ilha Esmeralda, era narrada pelos negociantes de Dunbroch como divina. Inspiração para os poetas e sonho para muitos da plebe. Parecia apenas negócios comerciais, assim como em Berk, porém na ultima semana a carta de casamento chegou nas mãos da rainha, e como o casamento com Macintosh era de desagrado de ambos os jovens, estava sendo considerado.
A porta foi aberta bruscamente e Merida despertou de suas lembranças dos últimos sete meses desde então. Ela lançou o olhar curioso ao Lorde Dingwall que apenas caminhou em passos rápidos sem nem olhar para a moça que tentou disfarçar a postura relaxada na parede, após ele, McGuffin passou igualmente em passos rápidos, seu filho o acompanhava atrás e lançou o olhar para Merida despedindo de com a mão de forma tímida antes de desviar o olhar. E por ultimo Lorde Macintosh lançou os olhos para a princesa, que não evitou contrair se com o olhar severo e, no mínimo ameaçador e depois voltou a andar e por ultimo o jovem que estava com os braços cruzados não se deu ao luxo de ser discreto ao medir Merida com o olhar antes de voltar a acompanhar seu pai.
Elinor apareceu na porta e deu um sorriso pequeno para a filha, que pelo menos se sentiu pouco aliviada pela atitude, sua mãe fez menção para que ela entrasse na sala. E nos poucos passos Merida pensou de como realmente estava com medo de ouvir a respeito de seu futuro e de como certamente sairia com Angus para relaxar depois daquilo, e considerando suas contas de fases da lua, aquele era o dia que Soluço chegaria a Dunbroch.
–Filha, você sabe o que está por vim, não sabe?
Elinor perguntou calma, movendo-se graciosamente até a janela. Sua voz era firme, porém conseguia ser mansa. Sua postura era rígida, embora estivesse relaxada. Merida engoliu seco, estava nervosa, sabia o que tinha que ser feito e estava pronta. Mas o medo invadia seu corpo a cada vez que respirava.
–Sei... – Ela respondeu fraco, o que não passou despercebido por Elinor que apenas respirou fundo virando-se em direção a filha. Não eram tempos fáceis, se pelo menos Fergus estivesse ali.
–Você não precisa fazer se assim não quiser.
Merida estava visivelmente surpresa pela proposta, era claro que não queria. Eu sua visão de vida parecia que nunca mais precisaria passar pela experiência de ter sua mão em jogo. Seus pensamentos migraram a cada etapa de sua vida. Bons momentos na infância até sua obscuridade na adolescência e da sensação que sentiu ao ver a consequência de seu egoísmo ao transformar Elinor em urso. Ao encontrar um desconhecido na floresta e tê-lo confundido com um deus, e até mesmo, quando decidira pegar um kilt qualquer e salvar sua mãe e seu reino.
–Dublin é o nome do reino do meu pretendente? Macintosh e Lorde McGuffin partiram para sempre? – Sua voz saiu tremida, de uma forma o qual não tinha planejado, ela se amaldiçoou ao ver a atitude da mãe que por segundos mirou com tristeza para a filha, mas voltou a seu estado normal e nesse tempo Elinor também se sentiu surpresa pela resposta de Merida.
–A proposta de Macintosh ainda está de pé. Os McGuffin não estão interessados mais.
Aquilo chocou Merida. Depois de tudo que tinha dito ainda assim aquele clã passaria por cima do orgulho apenas por poder. Aquele era o preço mais alto que aprendera até agora.
–Então terão os jogos e eu vou me casar. Posso me retirar? – Merida perguntou mais entediada e fazendo pouco caso da conversa do que propriamente por educação, mas Elinor sabia que ela não queria passar uma imagem responsável, não mais do que ela já tinha demonstrado naquela conversa. Ela não questionaria sobre Soluço, preferia dar o tempo necessário para a filha dizer por si própria. Ela balançou a cabeça consentindo sua ida.
Merida andou em passos largos até seu quarto, odiava aquela diplomacia toda e odiava estar tão fixada naquela questão. Pegou seu arco e parou em uma sala apenas para ver os irmão em uma aula com os criados, logicamente nenhum deles prestava atenção, e só pode constatar de como aquele tipo de atitude lembrava seu pai. Com certeza seriam bons reis. Como dizia a lenda, eram os pilares da terra e sem eles não teria sustentação.
Depois ela se apressou a sair do castelo onde viu Angus no estabulo, sorridente, e tentando esquecer todo tipo de casamento ela se tornou ela própria. Apenas Merida, como deveria ser.
Foi cavalgando em passos compassados não lentos, mas também não tão rápidos. Pode ver vikings comercializando nos mercados escoceses e atrás deles, dragões. Não era uma visão tão comum e Merida tinha esperança de que se tornasse, estando ela ali ou não.
Assim que saiu ela apressou Angus e se concentrou em sentir o vento batendo em seus cabelos e logo começou atirar flechas nos alvos espalhados por ela própria na floresta, como fazia de costume, até o por do sol.
Merida encarava o horizonte azul do mar, enquanto afiava algumas flechas. Aquele era o dia em que Soluço deveria chegar, ela nunca esperava muito entusiasmada, pois sabia que qualquer coisa poderia acontecer impedindo que o líder saísse de Berk, mas ela não pode evitar se sentir triste, como se quisesse contar tudo o que aconteceu em Dunbroch para ele, sobre seu casamento e de como queria impedir e não tinha forças. Mas ela tentou fingir um sorriso ao ouvir Angus trotando ao seu lado antes de se jogar no chão para se coçar.
–Bha a' ghrian 'sa chuan gu sìoladh 'S reult cha d' èirich anns an iarmailt Nuair a sheinn an òigh gu cianail "Tha mo ghaol air àird a' chuain". — Ela tentou dizer a frase da canção que conseguia com o ritmo da musica, mas simplesmente não conseguia. Estava aflita e sentiu o frio na barriga só de pensar que Soluço não viria. — O sol está se pondo no mar e as estrelas ainda não enfeitam o céu, quando a jovem moça canta tristemente "meu amor está em alto-mar". — Repetiu a canção no idioma usual, faz sentido naquele momento. Mas só fez se entristecer-se ainda mais.
Ela se lembrou de Uasal, o dragão que Merida levou sozinha até sua caverna, e devolveu o ser mítico para a natureza, como ela julgou ser certo. Ele não era um simples dragão, assim como Banguela era para Soluço, Uasal não era domesticado. E permaneceria dormindo durante os séculos, até que outra pessoa, assim como ela, precisasse de seu auxílio.
Merida se levantou sentindo seu estomago reclamar de fome, disposta a ir para casa. Olhando fixamente na direção onde as referencias apontavam para a direção de Berk. Respirou fundo, esperançosa. Até que viu o ponto negro no céu, distante o suficiente para dar tempo dela sentar-se novamente continuando seu trabalho com as flechas.
Soluço pousou rapidamente desceu do Fúria da Noite. Observou Banguela cumprimentar Merida e em seguida procurar diversão no clydesdale ao lado que corria em círculos tentando fugir do dragão. E enfim observou Merida com o sorriso fraco e os cabelos emaranhados balançando como fogo diante do vento.
–Hòigh, maighdean.* — Ele cumprimentou, vendo sua professora assentir satisfeita pelo seu progresso. Aquele dia tinha sido complicado, dois acidentes e um casamento em Berk o fizeram ocupado o dia inteiro e desejar ter férias, mas o desejo era impossível de se conseguir, Soluço se esforçava para não demonstrar cansaço da viagem ou do dia corrido, pensou em cogitar se Merida estivera muito tempo ali lhe esperando, mas parecia tão obvio que sim que apenas não perguntou.
–Vejo que praticou. Como vão as coisas em Berk? – Ela adorava ouvir sobre lá, e já tinha sonhado algumas vezes em visitar o local, já que a única vez que foi até lá não ficou mais de cinco minutos na ilha, além de não ter sido um passeio turístico.
–Alguns casamentos e acidentes... Nada fora do normal. – Ele disse irônico e divertido, fazendo Merida se animar verdadeiramente daquela vez. Mas logo ela abaixou o rosto e se virou em direção ao mar, seu olhar se perdeu por alguns segundos e sua atenção ao som das ondas batendo nas rochas. Soluço pareceu preocupado e se aproximou dela, tentando retomar o contato visual.
–Sobre casamentos... Parece que vai ter um, o meu. Você está convidado a vim se...
–O que? – Ele não conseguiu acreditar em seus ouvidos e esperou até que os olhos tristes de Merida intensificaram o que acabou de ser dito por ela própria. Merida encarou por alguns segundo e se direcionou a ele, Soluço era aquele que ela podia dizer que realmente amava, não por causa de uma aventura, mas por todo o resto. Por ele não tirar sua liberdade e por ele não julga-la como todos os outros, por ele não gostar dela por seu status e sim pelo que ela era. Merida se direcionou ao viking e o abraçou, fortemente, ele era o seu escape da realidade e queria que aquele momento fosse eterno, mas se separou com um sorriso estampado no rosto.
–Não vamos ficar tristes, tenho certeza que isso não combinaria com a única vez que te vejo em semanas.
Ele concordou lançando um sorriso fraco para ela. Merida pegou seu arco e começou a andar em direção ao rio que se desaguava no mar pouco ao lado, Soluço a acompanhou, sem saber ao certo o que dizer ou de como aceitar que aquela pessoa que ele queria que fosse sua, estava prestes a pertencer à outro. Ele pigarreou.
–Então... Quem é seu novo pretendente? – Soluço perguntou tentando puxar assunto, enquanto via Merida encarar os peixes nadarem contra a correnteza no rio de águas cristalinas de uma forma que pareciam brilhar como joias preciosas na luz fraca do poente.
–Alguém de Dublin. Eu não sei muito a respeito. – Merida respondeu pouco mais humorada que da primeira vez que o assunto casamento veio a tona, mas sua concentração ia em escolher um alvo na água para atirar.
–Merida eu não sei muito a respeito desses jogos, mas, digamos... Eu poderia participar? – Questionou Soluço tentando disfarçar sua curiosidade. Merida parou bruscamente o que estava prestes a fazer e lançou os olhos curiosos em direção ao viking atrás de si, procurou um vestígio de ironia, mas até mesmo Soluço sabia a hora para ser sério. Ela sorriu e respondeu com uma pergunta:
–Isso é uma proposta?
Soluço pareceu constrangido com a resposta, mas animado o suficiente para se aproximar dela intensamente, segurando a pela cintura fazendo com que ela derrubasse o arco e a flecha no chão.
–Se fosse o que você diria? – Sua voz rouca saiu como um sussurro para ela, e direcionou de olhos fechados a se afogar nos cabelos flamejantes dela, tentando guardar cada odor, cada sensação que sentia, por ultimo ele foi em direção da boca dela, porém foi surpreendido pelo desvio da mesma. Ele coçou a cabeça impaciente quando a viu pegando o arco e a flecha no chão e rindo da atitude dele.
–Você se considera digno da mão da princesa? – Merida questionou mais uma vez, provocando Soluço que arfou, os olhos estavam semicerrados e os braços cruzados. Merida mais uma vez mirou seu peixe, respirou fundo antes de atirar, porém Soluço a interrompeu novamente, pegando-lhe o arco da mão e mirando no lugar dela para os peixes, atirando rapidamente e acertando em cheio um. Viu Merida rolar os olhos na demonstração e depois rir descontraída.
–Mais que o lorde e o desconhecido de Dublin. – Respondeu por fim. Merida pegou o arco e a flecha das mãos dele e os jogou no chão. Ela se inclinou na direção de Soluço e com os braços rodeou cabeça dele o beijando intensamente, enquanto as mãos dele envolveram sua cintura. Mas se separaram antes que seus corpos desejassem mais que podiam oferecer um para o outro.
–Eu confio em você. – Ela disse em meio a mais um abraço, sentindo a respiração quente dele em sua cabeça enquanto sua respiração era compassada. Soluço passou a mão abaixando o cabelo volumoso dela.
–Eu nunca vou te decepcionar.
As palavras dele acalmou o coração agitado de Merida e ela soube que era verdade, não temia mais seu futuro, pois o seu amor, que veio além do mar estava ali.
Fim...
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