O Preço do Poder
14 Nathair-sgiathach
Notas iniciais
Era a quinta vez que o jovem Macintosh passava pelo quarto da princesa, e nenhum sinal. O sucessor do clã Macintosh levou os olhos dentro do quarto vazio e escuro, nenhum sinal de Merida ou de desarrumação, ela não tinha passado ali, disso ele tinha certeza pelo fato das tochas na parede estarem frias, ele desconfiara desde que a herdeira quisera se despedir do castelo, mas iam se casar, ele precisava confiar na ruiva. Ele respirou fundo com os olhos semi cerrados e fechou a porta com força e o barulho ecoou no corredor vazio, o jovem estava furioso e caminhou em passos largos em direção da sala do trono, não fez questão de parar quando o jovem McGuffin o chamou. Ele simplesmente caminhou até a mulher mais velha da sala que tinha os olhos amedrontados em todas as direções que olhava. Seu olhar migrou para toda sala a procura dos príncipes. Macintosh se acalmou antes de abordá-la.
–Onde estão os príncipes? – Ele fora objetivo. E não admitiria que cogitava a possibilidade de fugir sem a sua noiva, considerando que ele não tinha interesse em Merida, e presava pela sua própria vida de uma maneira que a princesa fazia exatamente o contrario, se ela quisesse morrer, que morresse então, mas ele não ficaria ali.
Maudie sobressaltou pela pergunta e fez menção a apontar a alguma direção aleatória, ela já tinha enrolado o jovem desde que ele chegara mesmo, mas estava nervosa. A morte do rei, o sequestro da rainha, a fuga da princesa e os príncipes desaparecidos.
Dunbroch estava acabado, era só olhar ao redor e ver o desespero estampado na face de muitos guerreiros que não estavam dispostos a enfrentar os dragões dos vikings, as criadas preparadas para fugir, as mães se despedindo de seus filhos homens, choro, medo. Maudie não estava bem, e agradeceu pelo jovem ter percebido isso e apenas assentir indo até a mesa onde pode sentar-se e procurar uma solução para seu problema.
Tinha solução? Sem a família real fazia algum sentido sair dali? Ele mancharia o orgulho de seu clã apenas porque não queria morrer? Malditos vikings...
[...]
Astrid voava em silencio e nem por um minuto se quer levou o olhar a mulher, mas sabia que ela estava assustada. Era o primeiro voo dela, e estava escuro, além das gotas gélidas da chuva caírem com força sobre ela. Mas já era possível ver Berk naquela distancia, as chamas estavam acesas, e para aquele horário ela achou o movimento mais intenso do que o normal. Tempestade se preparou para pousar e assim que abaixou a altitude Astrid ouviu a rainha abafar o grito.
Após isso, Astrid viu a nítida movimentação que se aglomerava em volta de Tempestade. A viking decidiu ajudar Elinor a descer do dragão enquanto pensava em formas de explicar o porque a escocesa estava com ela.
–Quem é ela?
Enfim a pergunta foi feita, e em segundos as pessoas começavam a dar especulações exaltadas a respeito daquela situação. Astrid migrou seu pensamento por frações de segundos na guerra que ela queria estar presente, e de que por ela estar ali provavelmente ela não faria parte do que ela queria. Minaz estava mantendo o plano inicial? Lançou os olhos a Elinor, que tentava se aproximar mais de Tempestade, que já tinha se acostumado com a presença da estrangeira. Astrid estava com raiva.
–Minaz, me mandou aqui. Mas eu vou voltar, está mulher é prisioneira. – Astrid disse alto tentando cobrir a onda de comentários desnecessários que se formaram aos poucos minutos que ela levou para descer de seu dragão e ajudar Elinor a fazer o mesmo.
–Ah, estava mesmo precisando de companhia. – Disse um dos vikings.
Astrid levou os olhos a ele com repugnância e pode perceber o sorriso malicioso que ele levou a rainha no momento em que ele começou a se aproximar lentamente. Por segundos ela só observou os passos dele até Elinor o qual se encolheu e nem se deixou abalar pelo movimento de Tempestade arisca atrás de si. Ele levantou a mão na intenção de toca-la, mas antes de realizar o ato, ele sentiu o machado de Astrid cortar a sua mão, ele rapidamente recolheu para si tentando estocar o sangue. Ele olhou indignado para a jovem, todos ficaram em silencio e Astrid tornou sua postura aterrorizadora.
–Você podia ter me decepado! – Ele disse raivoso.
–E eu o teria feito se quisesse. – Ela ameaçou de volta com o machado em posição de ataque. Depois caminhou em passos largos para frente da sua prisioneira.
–Ninguém vai tocá-la. Todos entenderam?!
A pergunta retórica de Astrid surtiu efeito nos vikings que a pouco foram tomando o rumo de seus afazeres. O homem o qual segurava o próprio ferimento continuou encarando Astrid, mas ela não se deixou abalar e fez o mesmo até que aos poucos o contato visual se desfez e ele caminhou perplexo para longe delas. Astrid respirou fundo e abaixou a arma, e virou devagar em direção a rainha.
–Obrigada. – Disse Elinor verdadeiramente grata. Astrid percebeu que estava presa. Se ela ousasse a se mover de Berk, provavelmente iriam desonrar a rainha e ela não estava disposta a ter aquele peso na consciência. Aquela mulher viva significava que Minaz não podia matar ninguém em DunBroch, pois com o líder entre os vikings eles se renderiam. Astrid queria guerra portanto que fosse uma guerra justa.
–Não... – Ela começou a falar, mas decidiu parar antes que falasse de mais. Continuou.
–Sei onde você ficará segura. Vem.
E as duas caminharam lado a lado. Astrid ignorava os olhares raivosos em sua direção, como que impedir o abuso aquela mulher fosse um crime cometido por ela. Mas não ligava, afinal, em Berk ninguém a atacaria, ela podia não ser a melhor como queria, mas tinha o respeito de todos a sua reputação, tanto como corredora, como treinadora e principalmente como guerreira. Astrid parou em frente a forja esperou poucos segundos a ver que o homem trabalhando lá dentro deu nota de sua presença e correu para fora.
–Astrid, você voltou. – Ele cumprimentou, antes da sua expressão ficar confusa para a companhia da moça que tinha um meio sorriso estampado no rosto.
–Olá Bocão! Precisamos de um lugar seguro para ficar. – Ela disfarçou olhando para seu lado esquerdo onde a poucos metros tinham alguns vikings encarando descaradamente revoltos em direção da estrangeira e de Astrid que feriu um deles.
–Soluço tem alguma coisa a vê com isso? – Ele perguntou simplesmente olhando para o lado em que Astrid sugeriu vendo os vikings e em seguida movimentando a mão as convidando para entrar.
–Não exatamente... Mas já irei explicar. – Disse por ultimo recebendo a atenção do dentista e ferreiro de Berk.
Elinor levou seu olhar ao ambiente. A casa era feita de madeira, tinha peças de ferraria espalhadas sobre a mesa e ela pode observar um dragão adormecido no final da casa. Tinham baldes de água suspensos em toda a região do teto. E ela viu que sem cerimonia a loira se sentou em uma das cadeiras espalhadas na casa. O homem forte, porém de baixa estatura tinha a falta de uma das pernas e um dos braços foi até a cozinha que não era separada por cômodos enquanto Astrid conversava descontraída sobre Dunbroch. Ele levou o olhar para a rainha que estatizou no mesmo momento. Mas ele caminhou até ela lhe oferecendo um copo. Elinor pareceu confusa e desconfiada, mas pegou. Olhou dentro do copo e percebeu que os dois a sua frente encaravam incentivando ela a experimentar a bebida. Ela respirou fundo antes de dar um longo gole. Ela preferiu não esboçar expressão nenhuma e apenas abrir um mínimo sorriso. O viking a sua frente riu e bateu em seu ombro fortemente como se já a conhecesse e a convidou a sentar. Ela obedeceu enquanto passava a mão no próprio ombro.
–Eu sempre desconfiei de Minaz. Por isso não fui para essa viagem maluca. Você não deveria tê-la trazido para Berk. – O tom que Bocão usava não era agressivo ou rígido, apesar da diferença de idade ele a tratava como igual.
–Ah e antes que eu me esqueça, meu nome é Bocão. – Ele disse para Elinor confusa. Não era bem a prisão que ela esperava.
–Rainha Elinor de Dunbroch. – Ela disse. Mas em seguida Bocão direcionou a atenção novamente para Astrid que suspirou derrotada com os braços relaxados.
–Não fala assim, todos queriam expandir o território de Berk há muito tempo. – Ela tentou contra argumentar enquanto pegava a bebida que lhe era oferecida.
–Soluço estava de acordo a trazer a rainha para Berk?
–Não exatamente...
–Berk já duvidou dele, centenas vezes. Eu o subestimei, varias vezes também. E no fim eu descobri que é ele que sabe o melhor para gente. Como Stoico foi um dia, Soluço é o líder que precisávamos.
Astrid ficou pensativa por alguns segundos, lembrou-se de Minaz e nas propostas dele. Ela levara Elinor para Berk, apenas para proteger o líder e agora estava presa a ela, se odiou por isso, mas Soluço tinha dado essa ideia, mesmo sabendo que ele estava fazendo de tudo para evitar a guerra que ela achava certa, Astrid se lembrou de que, realmente, se tiveram a oportunidade de expandir suas terras continuava sendo mérito dele, quer ele queira ou não, sem os dragões aquela viagem era impossivel.
–Eu não vou mudar de opinião. – Concluiu por fim. Dando um gole em seu hidromel. Pode ouvir Bocão suspirando e concordando contra a vontade com a resposta dela.
[...]
Merida caminhou poucos metros na floresta. Tentou mentalizar sua mãe sendo salva por Soluço e aquilo acalmou seu coração agitado. Ela ainda estava próxima a castelo e podia ouvir a movimentação de seu povo. Lembrou das tardes que passava treinando guerrear com a espada com seu pai, e sentiu as lágrimas quentes novamente em sua face, ela parou encostou em uma das árvores, e se sentou na grama tentando se recompor, mas passos chamaram sua atenção. Merida se encolheu e tentou ritmar sua respiração lentamente.
–Confesse Cabeça-quente, estamos perdidos, não trazer dragões foi um erro. – Comentou Perna-de-peixe caminhando logo atrás. A mulher arfou revoltada e alterou o tom de voz para o gordinho que choramingou em direção dela.
–Cala a boca! É por que está escuro, perdemos o castelo de vista, mas eu escuto gritos. – Ela disse maliciosamente dando uma risada eufórica.
Merida se preparou para caminhar para longe deles, mas acidentalmente pisou em uma folha seca chamando a atenção dos dois.
–Ouviu isso? – Disse a garota olhando em direção da arvore onde Merida estava escondida. Perna-de-peixe só pareceu mais assustado enquanto a loira tentava se aproximar lentamente, ignorando os protestos do companheiro.
Merida permaneceu imóvel aos passos firmes atrás da arvore que ela estava, mirou o olhar próximo a seus pés e viu uma pedra como salvação, lentamente ela se abaixou para pega-la. Ela mirou na árvore e jogou. Pode ver dois ou três corvos saindo de seus esconderijos, Perna-de-peixe correu assustado enquanto era seguido por Cabeça-quente que tentava acalma-lo.
Merida suspirou fundo e se sentou novamente, é claro que aquelas florestas não eram mais seguras. Foi quando sua mente migrou para lições antigas de sua mãe, e um pensamento fez de luz, ela abriu os olhos brilhantes e se levantou, limpou suas roupes e correu. O mais rápido que pode em uma direção dos arredores de Dunbroch que ela não tinha total conhecimento.
Lugares habitados por magia antiga, qual ela e sua família não ousavam a interferir. Provavelmente aquele lugar era habitado por pessoas que seguiram aquele caminho. Pessoas sábias, bruxos, magos, feiticeiros. Merida temia a vinda de duendes e fadas das histórias, mas não podia parar era a sua única chance de conseguir salvar Elinor, Merida olhou a seu redor sombrio, ouviu alguns insetos balbuciando na grama, por instantes ela tinha certeza que estava sendo observada, mas ela não conseguia constatar de que direção, e apenas torceu para que fosse coisa de sua cabeça, e por fim levou os olhos para a grande caverna à sua frente. Suspirou e caminhou para frente dela em passos rápidos, de repente a floresta se tornou totalmente silenciosa, Merida mal pode ouvir os barulhos dos insetos no chão. Ela pegou seu arco e mirou uma flecha em direção da caverna, pode ouvir sua respiração alterada e a dificuldade em ser precisa em sua mira com suas mãos soadas. Mas assim fez, a flecha foi direto para dentro da mais profunda escuridão.
Ela esperou alguns minutos e nada. Nenhuma movimentação. Já estava desistindo de sua ideia insana, porém ela pode ver algumas pedras rolarem sozinhas para fora antes de dar as costas. E o tremor foi maior quando ela ouviu a respiração alta e a fumaça saindo da caverna. Antes de correr duas grandes patas escamosas cintilantes com unhas pretas se fizeram presente antes do majestoso réptil com o pescoço longo e o rosto comprido e chifres negros em sua cabeça aparecer, parecia furioso para ver quem tinha interrompido seu sono profundo. Os olhos amarelados fitaram Merida assustada movendo se para trás, o dragão se adiantou em direção dela até que uma pedra impediu um movimento maior. Merida estava encurralada.
Ela sentiu o bafo quente em seu rosto e os olhos amarelos ainda a encarava, mas o ser místico estava determinado a extermina-la.
–E-Eu sou Merida... – Ela tentou se apresentar e viu que foi interrompida pelo ranger de dentes e depois de por a língua cortada como a de uma cobra para fora da boca. O dragão só parecia mais irritado. Merida alterou sua respiração mais ainda e a lembrança de sua mãe invadiu sua mente.
–’S mise Merida.* – Merida fechou os olhos, mas percebeu que o dragão se tornou menos ameaçador, depois da sua apresentação em gaélico. Ela se permitiu abri-los e depois enrijeceu sua postura e fixou o olhar ao ser que agora tinha o olhar curioso.
–Bhi cuideachadh?* — Ela disse mais uma vez e viu que o dragão fechou os olhos e fez um movimento em afirmação. Merida se perguntou se os povos antigos já tinham se comunicado com aquela fera, pois ela estava habituada ao idioma antigo. Ela se lembrou de Soluço e de que o primeiro contato com o dragão era o mais importante. Ela esticou a mão em direção ao dragão, mesmo ele desconfiado em relação a aproximação da mão de Merida ao seu focinho, ele deixou que ela o tocasse. A ruiva encarou a fera e pegou o mapa que tinha sido dado por Soluço. Deu um meio sorriso. Tinha um dragão agora.
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