O Preço do Pecado
23 O Sacrifício do Lobo
No escritório principal da mansão Laurentis, o clima era de um funeral iminente. Romeu estava sentado no sofá de couro com um copo de uísque intocado nas mãos, enquanto Heitor andava de um lado para o outro como um leão enjaulado, as mãos enfaixadas devido aos socos na parede e o semblante completamente obscurecido pelo ódio.
— Ele prometeu pegar a Natasha, Romeu — Heitor soltou, a voz rouca, ríspida, a ignorância mafiosa vibrando em cada palavra. — Aquele bastardo russo disse que vai usar ela, que vai comer ela na minha frente antes de nos matar. Eu vou quebrar o pescoço daquele filho da puta.
Romeu suspirou pesado, olhando para o irmão mais velho com uma seriedade cortante.
— Heitor, escuta o que eu vou te dizer. O Viktor mudou as regras do jogo. A Vanessa quase morreu ontem por causa desse infiltrado, e ela está grávida. A mansão não é mais segura. Se a Natasha continuar aqui, perto de nós, enquanto essa guerra com os russos explode nas ruas, ela vai acabar morta ou pior. O Viktor tem espiões em cada esquina. Enquanto ela estiver no seu campo de visão, você vai estar vulnerável. Você não vai conseguir se concentrar em caçar o desgraçado se tiver que olhar para trás a cada segundo temendo pela vida dela.
Heitor estancou no meio da sala, a mandíbula travando com tanta força que os músculos do seu pescoço saltaram. Ele sabia que o irmão tinha razão, e essa percepção caiu sobre o seu peito como uma tonelada de chumbo.
— O que você quer que eu faça, porra?! Que eu tranque ela num cofre? — Heitor esbravejou, a frustração transbordando.
Romeu levantou-se, caminhando até a mesa e pegando um arquivo confidencial. — Eu já resolvi isso com o nosso contato no consulado. Nós vamos mudar a identidade dela. Definitiva e permanentemente. Natasha Laurentis deixa de existir hoje. O novo nome dela será Maite Puerto. Nós vamos mandá-la embora para bem longe de Chicago. Para o Brasil. Lá, os russos não têm alcance, e ela vai estar sob a proteção de uma família aliada nossa em sigilo absoluto.
Heitor sentiu o coração ser arrancado do peito. Mandá-la embora? Deixá-la ir para o outro lado do mundo? A simples ideia de não ter os olhos verdes dela o encarando todas as manhãs o destruía por dentro. Mas o amor que ele sentia por ela era tão grande que ele preferia o próprio inferno da solidão a ver um único fio de cabelo dela ser tocado por Viktor.
— Prepare os documentos — Heitor decretou, a voz caindo para um tom gélido, desprovido de qualquer vida. — O jato decola de madrugada.
A Última Noite de Fogo
Mais tarde, Heitor entrou no quarto principal. Natasha estava sentada na cama, ainda tensa pelos acontecimentos, mas assim que o viu entrar, seu rosto se iluminou. Ela se levantou e correu para os braços dele, envolvendo o pescoço de Heitor com força.
— Meu Deus, Heitor... você está bem? As suas mãos... — ela murmurou, beijando os nós dos dedos enfaixados dele com uma ternura de arrancar o fôlego. — Nós vamos passar por isso juntos, eu estou aqui com você. Eu te amo tanto.
Heitor não respondeu com palavras. Ele a pegou pela cintura com uma urgência selvagem, calando a boca dela com um beijo devastador, profundo e necessitado. Ele precisava daquela última memória, precisava gravar o gosto dela na sua alma antes do fim.
Eles fizeram amor de verdade na escuridão do quarto, uma despedida silenciosa que Natasha não sabia que estava acontecendo. Heitor a tomou com uma intensidade avassaladora, os corpos suados colando-se na penumbra, os gemidos agudos dela ecoando entre os lençóis de seda enquanto ela cavalgava sobre ele com total entrega e paixão. As carícias dele eram firmes, possessivas, marcando a pele dela como se quisesse deixar seu sobrenome impresso na carne de Natasha para sempre. Quando o ápice ruidoso e sôfrego finalmente passou, os dois ficaram deitados, arfando na escuridão.
Natasha descansou a cabeça no peito dele, sorrindo, achando que a tempestade havia passado. Foi então que Heitor moveu-se, afastando-se dela com uma frieza que fez o quarto parecer congelar instantaneamente. Ele levantou-se da cama, pegou um envelope pardo grosso em cima da cômoda e o jogou sobre o colchão, bem na frente dela.
— O que é isso, Heitor? — ela perguntou, franzindo o cenho, o coração começando a acelerar com um mau pressentimento.
— Seus novos documentos. Sua nova vida — Heitor disse, a voz saindo perfeitamente calculada, dura e gélida, sem qualquer traço do homem que a havia beijado com tanto carinho minutos atrás. Ele vestiu a calça de moletom, dando-lhe as costas. — A partir de hoje, você não é mais Natasha. Seu nome é Maite Puerto. Você vai para o Brasil de madrugada. Nós estamos separados.
Natasha estancou, os olhos verdes arregalando-se em puro desespero. Ela se levantou da cama, nua, segurando o braço dele. — Do que você está falando?! Ficou maluco? Você disse que me amava lá no hospital! Disse que eu era a sua vida! Você não pode fazer isso comigo!
Heitor virou-se para ela, forçando cada músculo do seu rosto a manter uma máscara de desprezo e soberba, usando de toda a sua ignorância mafiosa para feri-la, sabendo que o ódio a manteria viva e longe dele.
— Eu menti, Natasha — ele mentiu, a voz firme como o aço. — Eu disse o que você queria ouvir no hospital para você calar a boca e cooperar. Você achou mesmo que o Don de Chicago se apaixonaria pela filha de um rato como o seu pai? Você foi um brinquedo divertido. Uma transa gostosa para passar o tempo e aliviar o estresse das minhas guerras. Mas agora a brincadeira com os russos ficou perigosa demais, e eu não tenho tempo para ficar bancando o babá de uma garotinha mimada. Chega de teatro. Acabou.
Cada palavra dele entrou no peito de Natasha como uma facada real. O chão pareceu sumir sob seus pés. As lágrimas de humilhação e dor começaram a descer pelo seu rosto, mas o orgulho ferido logo transformou aquela dor em uma queimação de puro ódio.
— Você é um monstro... um canalha sem alma! — ela gritou, a voz embargada, desferindo um tapa violento no rosto dele. Heitor nem sequer moveu a cabeça, recebendo o golpe em silêncio. — Eu te odeio, Heitor Laurentis! Eu odeio o dia em que te conheci!
— Ótimo. Guarde o seu ódio para a sua nova vida no Brasil — ele respondeu, a frieza na voz cortando o resto de alma que ela possuía. — O jato sai às quatro da manhã. O Enzo vai te levar. Não me faça ter o trabalho de mandar os meus homens te jogarem para fora da minha casa à força.
Heitor deu as costas, abriu a porta do quarto e saiu, batendo-a com força, deixando-a sozinha na imensa suíte, desabada sobre o colchão em prantos.
O Acordo no Escritório
Ao descer para o escritório, Heitor sentia que ia desabar. Suas mãos tremiam e ele quebrou um copo de cristal contra o chão antes de se sentar atrás de sua mesa. Ele pegou o telefone fixo e discou para uma das madames que controlavam os bordéis de luxo da zona portuária de Chicago.
— Madame Katherine? É o Don Laurentis — ele disse, a voz grossa e gélida. — Preciso de duas das suas melhores mulheres de programa na minha mansão amanhã de manhã. Quero que elas entrem pela porta da frente, à luz do dia, onde todos os meus homens e os espiões da rua possam ver.
— Claro, Don Laurentis. Alguma especificação? — a mulher perguntou do outro lado.
— Não me importa o que elas façam. Eu vou pagar o triplo do valor. Elas só precisam circular pela casa e fazer parecer que a minha noite foi longa. Quero que a cidade inteira saiba que a vaga da minha cama já foi preenchida.
Ele desligou o aparelho. Heitor sabia que Viktor Petrov tinha espiões observando a mansão. Ver Maite ser mandada embora e Heitor trazendo vadias para a casa no dia seguinte convenceria o russo de que Natasha fora apenas um capricho descartável, tirando o alvo das costas dela de uma vez por todas.
A Despedida Distante
Às três e meia da madrugada, a Land Rover de Enzo estava parada no pátio interno da mansão, com o motor ligado. Natasha — agora Maite Puerto — desceu as escadas vestindo uma roupa preta simples, carregando apenas uma mala. Seu rosto estava pálido, os olhos inchados de tanto chorar, mas o queixo continuava erguido pelo ódio que agora nutria pelo marido.
Ela não olhou para trás. Entrou no banco de trás do carro blindado, e Enzo acelerou, cruzando os portões de ferro em direção ao aeroporto particular.
No topo da varanda do segundo andar, escondido nas sombras da escuridão, Heitor observava o carro sumir pela estrada de concreto. Ele não desceu para se despedir. Não deu um último beijo. Apenas olhou de longe, com o peito rasgado pela dor, enquanto o amor da sua vida era levado para longe dele.
Minutos depois, já acomodada na poltrona luxuosa do jato executivo da família, Maite Puerto encostou a cabeça contra a janela de vidro redonda. O avião começou a taxar na pista escura. Olhando para as luzes distantes de Chicago diminuírem conforme a aeronave ganhava altitude, ela se sentia completamente jogada fora, um lixo descartável na vida de um mafioso. O choro silencioso e sôfrego dominou seu peito enquanto o jato rasgava as nuvens em direção ao Brasil.
De volta ao escritório da mansão, Heitor Laurentis caminhou até a parede onde o mapa das propriedades russas em Chicago estava estendido. Ele puxou a faca tática de sua cintura e a cravou com força brutal bem no centro do nome de Viktor Petrov.
O olhar castanho do Don estava completamente morto, sem qualquer vestígio de humanidade ou piedade. Agora que a sua boneca estava segura do outro lado do oceano, a salvo de suas sombras, o lobo de Chicago não tinha mais nada a perder. Ele podia finalmente se concentrar em derramar cada gota de sangue russo que existia naquela cidade. A guerra total havia começado.
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